31.7.07

O Milagre Segundo Salomé

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Hoje às 22 horas, a Cinemateca vai passar O Milagre Segundo Salomé, filme de Mário Barroso, de 2004.
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O filme é baseado no romance de Miguéis, embora num ponto fundamental se afaste totalmente do livro, que é na questão da interpretação dos "milagres" de Fátima. Apesar do confesso ateísmo de Barroso, este adocicou o anticlericalismo de Miguéis, optando por uma ambiguidade que estava ausente no romance.
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Apesar da absoluta falta de dinheiro, o filme resultou muito bem.

O Milagre Segundo Salomé teve também edição em DVD.

As Praias de Portugal

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As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante é um livro maravilhoso, de Ramalho Ortigão, cuja primeira edição data de 1876.
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Trata-se de um roteiro das principais praias portuguesas da época, que Ramalho retrata com o seu estilo característico. Passamos assim por praias como a Foz, Granja, Vila do Conde, Espinho, Ericeira, Nazaré ou Figueira da Foz.
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Veja-se como exemplo estas deliciosas observações de Ramalho sobre a Figueira:
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“O viajante sente ao entrar na Figueira, no tempo dos banhos, uma impressão semelhante à que se experimenta penetrando nos gerais da universidade em dia lectivo. É a impressão do lente, do pedagogo, da aula. Tem-se uma espécie de terror mesclado de tédio. Há uma atmosfera especial de pedanteria, de rigor e de troça. Aspira-se vagamente o cheiro dos sapatos e das velhas batinas gordurosas na aula quente e fechada. As fisionomias dos doutores, de uma grave expressão enfática, guindada e oca, as cabeleiras dos estudantes aparatosamente penteadas, os ares dogmáticos de uns, misturados com os ares patuscos de outros, um tom geral de prelecção ou de desfrute, uma tonalidade especialmente afectada na pronunciação, um desgarre peculiar de gestos e de maneiras: tais são as principais notas que caracterizam a população de Coimbra.”
[…]
“A Figueira participa do carácter que tem Coimbra, um pouco para pior, porque os estudantes que frequentam a Figueira são ordinariamente os piores, os mais broncos, os que não saem de Coimbra, aqueles em quem os efeitos do vício universitário se desenham mais profundamente. Estes senhores com o seu afectado desdém, com o seu mau ar de críticos, com o seu espírito de troça, e os srs. professores com a sua sobranceria catedrática, constituem o grande senão da sociedade da Figueira, sobre a qual destingem a sua cor especial.
E, não obstante, nenhuma outra praia em Portugal possui as condições desta para tornar agradável a estação dos banhos.
Batida do grande mar, tendo à direita a bonançosa baía de Buarcos e à esquerda os rochedos em que assenta o castelo de Santa Catarina, que defende a foz do Mondego, a vila da Figueira oferece aos banhistas incomparáveis condições.”


Escusado será dizer que o mapa das praias mais importantes à época pouco coincide com o actual. A sul de Setúbal não temos qualquer praia e sobre isso Ramalho nem sequer faz qualquer referência. Por outro lado, algumas praias são hoje impraticáveis ou inexistentes, como a Torre (em Belém), Pedrouços, Algés ou Porto Brandão. Esta última está incluída num capítulo intitulado Praias Obscuras, onde Ramalho inclui também praias como Costa Nova, São Pedro de Moel ou São Martinho do Porto.
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O livro é ainda acrescido de uns curiosos capítulos com indicações e conselhos: O Tratamento Marítimo, Precauções Higiénicas, Socorro aos Afogados e Reconstituição dos Temperamentos e dos Carácteres pelo Banho Frio (Conselhos às Mães).

Praias de Portugal foi reeditado em 2002 pela Frenesi, uma edição bonita e cuidada.

30.7.07

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“Raios partam os arquitectos e os engenheiros que construíram as casas e os escritórios em que temos de trabalhar. Porque é que só as casas com mais de 60 anos são frescas? Até os trogloditas sabiam escolher sítios frescos para viver. O que um lisboeta médio não dava por uma boa caverna!”
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[Miguel Esteves Cardoso, in As Minhas Aventuras na República Portuguesa, Assírio & Alvim, 1990]

A Cidade e as Serras (2)

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“Ah! Jantámos deliciosamente, sob os auspícios do Melchior – que ainda depois, provido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante nós se alongava uma noite de monte, voltámos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. Filosofámos então com pachorra e facúndia.
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Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os astros – por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de electricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da Vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o pó rasteiro – um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente, com os olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os segredos, ou de tão longe compreender os nossos…
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– Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
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– Não sei… E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
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– Não sei.
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Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe Espiritual. Ele, porque na sua Biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé?”
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[Eça de Queiroz, de A Cidade e as Serras]

27.7.07

A Cidade e as Serras

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A Cidade e as Serras é uma magnífica novela de Eça de Queiroz, publicada em 1901, no ano seguinte ao da morte do escritor.
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Trata-se de uma obra pertencente à última fase de Eça, em que este abandona o seu lado mais combativo e a crítica severa dirigida à sociedade portuguesa. Este livro mostra-nos um Eça reconciliado com o seu país, mostrando uma enorme ternura pelo campo pobre, mas saudável, por oposição à cidade civilizada, mas cheia de vícios.
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A personagem principal é Jacinto, um jovem de nobres e ricas origens portuguesas, que vive em Paris, num palacete no número 202 dos Campos Elíseos e cujos rendimentos provêm das extensas terras que possui em Portugal. Jacinto é um amante do progresso e da civilização e o seu palacete representa o expoente máximo da mesma: elevador, rede de água quente ou os mais variados aparelhos mecânicos causam espanto e admiração nos seus convidados, aos quais eram servidas sofisticadas iguarias. Possuía uma biblioteca com milhares de títulos, acumulando todo o saber do mundo. Mas Jacinto não era feliz. Sofria de tédio e exasperava-se com a futilidade dos que o rodeavam.
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Quando Jacinto tem de viajar para a sua propriedade de Tormes, no Douro, devido à transladação dos seus avós para uma nova capela, a sua vida muda radicalmente. Embora inicialmente o fizesse contrariado, a verdade é que é no campo que este vai encontrar a tranquilidade e a felicidade.
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O narrador da novela é o seu fiel amigo de infância Zé Fernandes.
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A Cidade e as Serras está disponível em várias edições. A da Livros do Brasil tem o preço de 8 euros (no site da editora).

26.7.07

O Mundo de Ontem (2)

“O meu pai, o meu avô, que viram eles? Cada um viveu uma vida uniforme. Uma única vida, do princípio ao fim, sem subidas, sem quedas, sem convulsões e perigos, uma vida com pequenas tensões, com transições imperceptíveis; no mesmo ritmo compassado e calmo, a onda do tempo levou-os do berço à cova. Viveram no mesmo país, na mesma cidade e quase sempre na mesma casa. O que se passava lá fora, no mundo, só acontecia verdadeiramente no jornal e não lhes batia à porta do quarto. Havia uma guerra algures naqueles dias, mas era só uma pequena guerra comparada com as dimensões das de hoje e decorria lá longe, junto à fronteira, não se ouviam os canhões e, meio ano mais tarde, estava apagada, esquecida, uma folha seca da história, e de novo se iniciava a mesma vida de outrora. Mas nós vivemos tudo sem retorno, nada do que existiu ficou, nada voltou; a nós estava destinado participar ao máximo naquilo que a história geralmente, e num dado momento, distribui com parcimónia por um país de cada vez, por cada século. Uma geração vivia, quando muito, uma revolução, outra um golpe de Estado, a terceira uma guerra, a quarta um flagelo de fome, a quinta uma bancarrota do Estado – e muitos países abençoados, muitas gerações abençoadas, não viveram sequer nenhuma destas coisas. Mas nós, nós que temos hoje sessenta anos e que legitimamente ainda devíamos ter algum tempo à nossa frente, o que não vimos nós, o que não sofremos nós, o que não vivemos nós? Lavrámos o catálogo de todas as catástrofes inimagináveis de uma ponta à outra (e mesmo assim ainda não chegámos à derradeira folha). No que me toca fui contemporâneo das duas maiores guerras da humanidade e vivi mesmo cada uma delas em duas frentes distintas, uma na frente alemã, a outra na anti-alemã. No período anterior à guerra conheci a forma e o grau mais elevados de liberdade individual e, depois, o seu mais baixo nível desde há centenas de anos. Fui festejado e proscrito, livre e subjugado, rico e pobre. Todos os lívidos corcéis do apocalipse tomaram de assalto a minha vida, revolução e fome, desvalorização da moeda e terror, epidemias e emigração; vi crescer e alastrar sob os meus olhos as grandes ideologias de massa, o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e, sobretudo, a maior de todas as pragas, o nacionalismo que envenenou a flor da nossa cultura europeia. Fui à força testemunha indefesa, impotente, no inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida, com o seu dogma consciente e programático de anti-humanismo. Estava-nos destinado, tantos séculos passados, a ver de novo guerras sem declaração de guerra, campos de concentração, torturas, pilhagens em massa e bombardeamentos sobre cidades indefesas, tudo bestialidades que as últimas cinquenta gerações nunca chegaram a conhecer e que as vindouras, assim o espero, não voltarão a tolerar.”
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[Ztefan Zweig, de O Mundo de Ontem – Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005]

O Mundo de Ontem

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Stefan Zweig foi um escritor muitíssimo popular e respeitado na primeira metade do século XX, caindo depois no quase completo esquecimento.
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Era judeu, de uma família da alta burguesia austríaca. Nasceu em Viena, em 1881 e suicidou-se em 1942, quando se encontrava exilado no Brasil.
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Zweig era uma figura reservada, amante da cultura, cosmopolita e pacifista convicto. Conviveu com inúmeras personalidades da vida cultural europeia da época, de diversas nacionalidades. Sendo um produto da Viena e do Império Austro-Húngaro anterior a 1914, assistiu à Primeira Guerra Mundial, à queda do Império e consequente decadência austríaca, à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial. Assistiu, em suma, à destruição de toda a Europa que tinha conhecido.
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O Mundo de Ontem – Recordações de um Europeu é um livro de memórias que Zweig escreveu no Brasil, onde se refugiou. No livro, é demonstrada a oposição entre dois mundos totalmente distintos: o de ontem (anterior a 1914), pacífico, tolerante, culto, sensato; e o de hoje (depois de 1914), o triunfo da bestialidade absoluta. Acaba por ser um impressionante retrato da Europa Central entre o início do século XX e a década de 40.
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Logo no prefácio diz-nos Zweig:
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“Cresci em Viena, a metrópole supranacional dez vezes milenar e tive de a abandonar como um criminoso antes de ela ser rebaixada à condição de uma cidade alemã de província. A minha obra literária foi reduzida a cinzas na língua em que a escrevi, no mesmo país em que os meus livros tinham feito milhões de amigos entre os leitores.”
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E mais à frente:
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“… fui testemunha da mais terrível derrota do bom senso e do mais selvagem triunfo da brutalidade alguma vez ocorridos na crónica dos tempos; nunca – e de forma alguma o registo com orgulho, antes com vergonha – uma geração caiu, como a nossa, de uma tal elevação espiritual para uma tal baixeza moral.”
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O Mundo de Ontem está disponível na Assírio & Alvim.

25.7.07

O Milagre Segundo Salomé

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José Rodrigues Miguéis é um dos grandes nomes da literatura portuguesa do Século XX, mas infelizmente bastante esquecido. Aliás, mesmo em vida, nunca teve o reconhecimento do público e da crítica que mereceram muitos dos seus contemporâneos (alguns, escritores absolutamente menores). Possivelmente, o facto de Miguéis ter vivido grande parte da sua vida fora de Portugal (em Nova Iorque, sobretudo, onde esteve cerca de 40 anos) muito contribuiu para isso.
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O Milagre Segundo Salomé, romance muito extenso (publicado em dois volumes), era considerado por Miguéis o seu melhor livro, mas desgraçadamente foi recebido com absoluta indiferença. Estávamos em 1975, em pleno PREC, e ninguém em Portugal tinha tempo nem paciência para livros desta dimensão. Se tivesse saído um anos antes poderia ter sido um grande sucesso, mas naquela altura isso não aconteceu, para grande desgosto do autor.
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Trata-se de um romance que retrata muito bem a sociedade lisboeta das primeiras décadas do Século XX, sobretudo a decadência dos valores republicanos. Miguéis dá-nos uma visão alternativa e anticlerical para os acontecimentos de Fátima (Meca, no romance), relacionando-os com a ascensão das mentalidades e ideologias (o fascismo e os mitos sebastianistas dos militares) que acabariam por gerar o colapso da Primeira República a 28 de Maio de 1926.
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A personagem central é uma espantosa Salomé, chegada da província muito nova, e com um percurso que passa por um bordel, pela ascensão à alta sociedade lisboeta pela via do seu casamento com Zambujeira, um riquíssimo self made man da finança republicana, e culmina com uma participação nos “milagres”.
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O Milagre Segundo Salomé está publicado na Estampa, em dois volumes.

24.7.07

Figueira da Foz, 1937

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Sinais de Fogo

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Sinais de Fogo é um romance longo e inacabado de Jorge de Sena, publicado em 1979, pouco depois da sua morte. É um dos melhores romances portugueses do Século XX.
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Trata-se de um romance de iniciação, com profundos traços autobiográficos. Jorge, o narrador-personagem principal, é um jovem de classe média/alta lisboeta que, após o seu primeiro ano de faculdade, vai, como de costume, passar as suas férias de Verão à Figueira da Foz, para casa dos seus tios. Estamos em 1936.
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Mas este não vai ser um Verão como os outros. Logo na sua chegada à estação, depara-se com um grande reboliço: tinha começado a Guerra Civil em Espanha, que acompanha todo o romance (a Figueira é tradicionalmente um destino de férias de muitos espanhóis).
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Durante essas férias, Jorge vai realizar uma tripla aprendizagem que o transforma radicalmente: uma tomada de consciência política; a descoberta do amor e das mulheres; e o despertar da poesia. Quando regressa a Lisboa já não é a mesma pessoa.
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Quase todo o romance se passa na Figueira (com excepção do início e do fim do livro), que é brilhantemente descrita, no seu típico ambiente de veraneio: a praia, o casino, os hábitos e costumes da época.
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Resta dizer que o facto de não haver um final não é muito importante. Depois do regresso de Jorge a Lisboa, aparentemente o romance poderia ser dado por terminado. O prolongamento por mais umas quantas páginas por parte de Jorge de Sena é no entanto explicado no prefácio de Mécia de Sena, que nos revela a intenção do autor para o final do livro.
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Sinais de Fogo está publicado na ASA e é relativamente barato (10 euros no site da editora).

20.7.07

& etc n.º 2

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«Pena é que muitas vezes não passe do primeiro número» – disse à nossa reportagem um leitor do & etc nº1. Sabemos de outros que sem pena alguma apostaram na não-saída deste nº2. Azar: perderam. Outra nossa leitora, proprietária de um estabelecimento de modas, declarou que «a revista é muito cara porque, pelo mesmo preço, o «Século Ilustrado» é muito mais divertido e muito mais bonito», opinião que não nos atrevemos a contestar. Resumindo: a sermos masoquistas, já teríamos matéria para bem amargos prazeres! Críticos de entre Monte-Carlos e Brasileiras da comarca não chegaram contudo à unanimidade: se uns detestaram o papel, outros o acharam «excelente, à inglesa»; se houve quem designasse a capa do Manuel Baptista como «bordado», «pouco espectacular», «paupérrima», também houve quem a considerasse «extremamente elegante», «de um grafismo lírico e subtil», etc.; a arrumação gráfica, essa provocou igualmente aplausos e assobios – uns & outros tremendamente justificados; o «conteúdo», bem, sobre o «conteúdo» aspas aspas e reticências. Não temos de que nos queixar: bem sabemos o terreno que pisamos & de como é difícil ser pároco nesta freguesia. Na consciência bastante das limitações e erros próprios – que não passa por gargantas belicosas e opiniões em absoluto desfasadas do conhecimento do real em que assentamos – teimamos num trabalho de facto experimental, número a número sujeito a vicissitudes de variada natureza – e às correcções técnica e humanamente possíveis, já que não podemos perseguir a «perfeição» nem sabemos, em português ou esperanto, o que isso seja. Digamos: tentamos apenas aproximarmo-nos do projecto inicial. No interim (e daqui prometemos o & etc nº3 – que ele há umas centenas de assinantes a pagar ao ano), damos conta de algumas opiniões que pudemos recolher na rua sobre o lançamento do famigerado & etc nº1.
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«NEM UM NIQUINHO A VERMELHO»
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– Comprei o & etc por me interessar por assuntos culturais. Não, não conhecia ninguém nem ninguém me tinha ainda falado no jornal (José Carlos Vicente, 27 anos, empregado de escritório). Não lhe posso dar uma opinião, pois comprei-o agora. Parece-me com piada. Para já, posso dizer-lhe que gosto da apresentação. Parece não sei quê, mas tem piada.
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– Comprei-o na quarta-feira, quando saiu (Maria Gabriela Ferreira, 32 anos, professora). Já li alguns artigos, mas ainda não tenho uma impressão definida. A ideia parece gira. Há é umas coisas que não percebi bem, certas críticas. Podia (e devia) ser mais claro, mais directo, percebe…
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– Ponha lá no jornal que gosto imenso destas coisas culturais. Pena é que muitas vezes não passe do primeiro número (Ricardo Guerreiro, 65 anos, funcionário público reformado). O sr. diz que este vai ser diferente… Oxalá, oxalá… Nos meus quinze anos, também fiz coisas dessas. No liceu. Pelo menos o primeiro número deste género de revistas ou jornais compro sempre.
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– Comprei-o agora mesmo, ali na tabacaria do café (anónimo, aparentando 25 anos, barba crescida, óculos graduados) e para ser franco… acho tudo muito chato. Nem um niquinho a vermelho na capa.
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– Em pobre, gosto do aspecto. Não é piroso. Paginação acima da média dos jornais portugueses, muito acima mesmo. Principal defeito, quanto a mim: ausência de uma informação quantitativa completa, digamos, relativamente completa (João José Ramos, Faculdade de Letras), onde coubessem estatísticas, etc. Ainda não li as críticas com a necessária atenção. «Pata na poça», um achado.
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«DEVIA HAVER ZILHÕES»
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– Que poderia dizer? (Wilton Fonseca, 24 anos, brasileiro, jornalista e estudante de Filologia Românica). É sempre salutar este tipo de magazine, como o próprio magazine se define; devia haver zilhões de publicações do género, que são sempre uma espécie de janela aberta por onde entra um pouco de ar fresco no meio de toda uma imprensa nacional tradicionalista e tradicionalizante. Acho que ele não se distingue propriamente, nem pela clareza dos artigos, nem pelo aspecto gráfico, mas por ser alguma coisa diferente do que aparece por aí. Há um cepticismo geral em relação a este tipo de publicações, cepticismo este que tem origem nas possibilidades económicas de sobrevivência. Quanto a mim, isso não é importante. Digo-lhe que pretendo fazer uma assinatura e ler enquanto houver…
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– Lamento o desaparecimento do «& Etc.» do Jornal do Fundão. O novo, como vê, comprei-o agora. Devo esclarecer que sempre fui e continuarei a ser irreverente, contestatária (se quiser), em relação a qualquer estado de alma fanático, e, sendo agressiva, posso não estar de acordo com o outro tipo de agressividade ou com a agressividade dos outros. E qualquer forma, e com base na independência que tenho procurado manter, divirto-me, distraio-me, aprendo, tiro as minhas conclusões, dou o meu acordo, discordo, insulto mentalmente o jornalista, mas isto é saudável, e, por isso mesmo, vou passar (ou continuar) a comprar o «& etc» (Fernanda Botelho, escritora).
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«DO PAÍS EM QUE SITUA»
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– A uma revista que pretende ser sobretudo actuante pode exigir-se, além de um bom lote de colaboradores de ideologia aproximada, a preocupação de entrar em todos os campos da actividade humana, de forma a poder criar um sentido de desalienação e comunicação possíveis, num ritmo de trabalho paralelo. Parece-me que o primeiro número de & etc se debruça de mais sobre fenómenos culturais – livros, textos acerca de cinema… –, que, embora de grande importância, não esgotam as possibilidades da revista (António Viana, estudante).
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– O que me parece é que há uma preocupação determinante dos intelectuais portugueses de escrever dentro de um estilo peculiar das escolas literárias da Outra Europa, que não esta (Cartaxo e Trindade, professor assistente de Filologia Românica). Creio, a priori, que uma revista deste género deverá ter em conta a situação sócio-económica do País em que se situa, e, infelizmente, encontro em muitas revistas congéneres uma verborreia que não se adapta em nenhuma circunstância ao contexto cultural português. Cairá o & etc nisto? Forçosamente, tal dependerá de quem fizer o magazine.
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– Tenho vendido algumas… sete, sim, sete (D. Maria João, com tabacaria em Benfica). Pedi mais ao distribuidor. Mas sabe, isto acontece com tudo o que sai pela primeira vez. Ali o senhor do 3º esquerdo não deixa escapar nada. Só quer primeiros números… Se ele não compra outros jornais? Bem… Pois. Compra «A Bola» e, às vezes, o «Popular».
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ENTRE MORTOS E FERIDOS
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– Achei muito bem. No entanto, considero a paginação um bocado maçuda (Pedro Tamen, poeta). Não quer dizer que tenha ilustrações a menos. Mas tem de certeza texto a mais. É pouco agradável de ler, do ponto de vista gráfico. A secção a pata na poça devia estar mais desenvolvida.
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– Este exemplar não é meu, foi uma amiga quem mo emprestou ontem (Maria Carla Formosinho, estudante de Letras, na Grã-Fina). Ainda não li tudo, mas posso dizer-lhe que não estou a gostar muito. Preferia a revista «Crítica», que, infelizmente, acabou. Tinha artigos muito mais sérios, com uma visão baseada nas modernas tendências da crítica. Vocês pretendem «gozar». Magazine? Está bem, está bem, mas parece-me haver uma falta de preparação ao tratar certos temas (o cinema, a crítica de livros). Nós precisamos é de coisas sérias, bem estruturadas.
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– Não respondo (anónimo, cerca de 20 anos): só lhe digo que comprei isto por acaso e não o deito para o lixo porque me custou sete mil e quinhentos.
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– Leio, compro, porque o que é preciso é barulho; entre mortos e feridos alguém há-de escapar (João Balbino, pacifista). Acho piada a estes bonecos, e só é pena que a revista tenha tão poucos. Também costumo comprar aquela revista espanhola, «Triunfo», e V. está a ver, eles trazem sempre umas coisas porreiras que fazem a gente rir e pensar ao mesmo tempo. O poppe a galoppe, não sei bem de quem se trata, quer dizer, não costumo ler, mas está muito bem apanhado. Façam mais, mas com bonecos.
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[in & etc nº2, 31/01/1973]

19.7.07

& etc n.º 1

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Meia dúzia de pessoas
e depois uma dúzia
e depois duas dúzias
resolveram
(bem pesados prós e contras)
pôr de pé
o quinzenário cultural
que hoje começa a publicar-se:
& etc de sua graça.
O título já vem de longe,
de um suplemento do «Jornal do Fundão»
que durou 26 números
e deu que falar.
Hoje, autónomo,
& etc não esquece o ilustre antepassado,
em certa medida seu progenitor,
nem omite o devido agradecimento
aos homens que lhe permitiram
o uso do nome.
Este nome é já de si
um programa:
a um conceito restrito de cultura
opõe & etc uma visão aberta
dos casos, factos, coisas
que justificam uma abordagem crítica
(e criativa)
fora do âmbito circunscritamente literário
e artístico,
se bem que sobre este incida
a sua maior atenção.
Quer dizer:
não se espante o leitor
se encontrar
ao lado de uma análise literária
um texto sobre moda masculina
(ou feminina),
outro sobre culinária,
outro ainda sobre uma equipa de futebol.
Os redactores do & etc
consideram que todos os assuntos e mais um
são passíveis de reflexão crítica
e tratamento cultural:
nem só de artes e letras vive o homem
que se quer civilizado
que é como quem diz, culto.
Já por aqui se poderá inferir
do carácter magazinesco
(não receemos a palavra)
deste quinzenário:
ao fim e ao cabo,
magazine,
quer só dizer
«publicação periódica e ilustrada
tratando vários assuntos».
A questão reside
na maneira como os «vários assuntos»
serão tratados,
maneira que engloba opções ideológicas
mais ou menos situadas
e as suas íntimas relações
com a prática de linguagens.
Neste plano
(diga-se desde já)
& etc não se poderá caracterizar
por uma férrea unidade:
os seus redactores e colaboradores
não constituem, em rigor, um grupo coeso
nos seus pressupostos ideológicos,
estéticos, linguísticos,
muito embora saibam reconhecer entre si
os suficientes denominadores comuns
para um trabalho conjunto
de que todos sentem necessidade.
Na fase de arranque
mais não se poderá esperar:
a unidade a haver
dependerá da própria prática,
dependendo esta, em boa parte,
daqueles leitores
mais activamente intervenientes
no processo aqui posto em marcha.
& etc não se pretende
susceptível apenas de interessar
a uns poucos iniciados:
tanto quanto possível,
a linguagem
como a organização dos assuntos
e o aspecto gráfico da revista
procurarão estabelecer
uma comunicação mais ampla
com um número mais amplo
dos seus leitores.
Assim & etc entende
a intervenção cultural:
empenhada, responsabilizada – mas aberta.
Meia dúzia de amigos
podem fazer uma revista programática,
espelho fiel das suas opções:
mais dificilmente farão duas,
muito mais dificilmente farão cinco
passado que for o entusiasmo inicial
e quando começarem a pesar
contrariedades de toda a ordem,
ausência de capital,
desorganização administrativa,
deficiência de distribuição,
falhas de colaboração, textos anulados,
o desgaste de um meio ambiente
pouco receptivo quando não hostil
– e também a pouca prática
de um trabalho constante e colectivo.
Furtando-se à ambição (legítima)
de revista programática
& etc quer permanecer:
sabe dos riscos, dos limites,
das dificuldades
– mas conta que o trabalho de muitos
possa alcançar o que poucos não conseguem.
A própria empresa proprietária da revista
é exemplo disso: é ela constituída
por quase três dezenas de sócios
(na grande maioria também redactores
que asseguram a direcção cultural),
todos em igualdade de capital
e todos por igual empenhados
no projecto comum.
Bem sabem todos eles
que a publicação de uma revista cultural
não é negócio:
pretendem contudo
estruturá-la de modo a poder resistir
à desconfiança e ao desânimo de muitos
– e a resistir,
número a número,
por muitos números.
Para tanto
e para já
existe um mínimo de capital,
um mínimo de organização,
um mínimo de eficiência na distribuição
(& etc não estará à venda
somente em Lisboa),
um mínimo de capacidade
de trabalho redactorial
(embora sem profissionalização),
um mínimo de confiança
na adesão dos leitores.
A soma destes mínimos é suficiente
para que & etc seja uma realidade
– realidade que não se pode aferir
por este primeiro número:
continua no próximo
e assim por diante.

[in & etc nº 1, 17/01/1973]

& etc (o magazine)

Ontem falei aqui da editora & etc, mas & etc começou por ser uma revista, ou um magazine como se autodenominava. Tudo começou em 1967 quando, sob direcção de Vítor Silva Tavares e José Cardoso Pires, surge no Jornal do Fundão um magazine de letras, artes e espectáculo com este nome, que durou 26 números.

Em 1973, mais precisamente a 17 de Janeiro, sai o primeiro número do & etc como revista autónoma, que durou 25 números. Primeiro teve uma publicação quinzenal, passando depois a mensal, tendo o último número saído em Outubro de 74. Os primeiros números tinham o preço de 7$50.

Tratava-se de uma original publicação cultural com colaboradores de grande qualidade. Entre o corpo de redacção fixo e colaborações avulsas passaram por lá nomes como Herberto Hélder, Ernesto Sampaio, Pedro Oom, António Ramos Rosa, Fiama Hasse Pais Brandão, João César Monteiro e Armando Silva Carvalho, entre muitos outros.

Vou tentar deixar aqui uma espécie de apresentação que foi feita no primeiro número.

18.7.07

& etc


A & etc é uma pequena editora de culto no meio editorial português. Começou a editar livros em 1974 e é, desde então, dirigida de uma forma praticamente artesanal por Vítor Silva Tavares.


É uma editora com uma linha muito própria. Tem no seu catálogo autores portugueses como Alberto Pimenta, João César Monteiro, Álvaro Lapa, Herberto Hélder, António José Forte, Manuel de Freitas e muitos outros. Estrangeiros, tem nomes como Paul Lafargue, Antonin Artaud, Henri Michaux ou D.H. Lawrence. Tem editado sobretudo muitos textos de cariz alternativo, com edições muito pequenas, de poucas centenas de exemplares. Tem a particularidade de não fazer reedições, o que significa que uma grande parte do seu catálogo se encontra esgotada.


Também graficamente é uma editora muito particular, com um formato original, quase quadrado (mas não é) e capas magníficas. A produção é muitíssimo cuidada, com uma grande atenção a todos os pormenores.


Não é muito fácil encontrar os livros da & etc nas livrarias. Como disse, muitos livros estão esgotados e a maioria das livrarias não tem absolutamente nada desta editora. Recomendo por isso livrarias mais alternativas, como a Letra Livre (na Calçada do Combro), que tem inclusivamente uma zona só com livros da & etc.


O catálogo completo da & etc pode ser consultado aqui.

17.7.07

Vítor Silva Tavares

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Vítor Silva Tavares tornou-se quase uma lenda do mundo da edição de livros em Portugal, primeiro na Ulisseia e depois, desde há quase 35 anos, na &etc.
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Faz hoje 70 anos de idade e deu ontem uma entrevista ao Público, que colocou no seu site uma versão alargada da mesma. Aqui fica:
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RESISTÊNCIA É A PALAVRA

Entre o prego e 2007, as aventuras dão para uma conversa que não acaba, a que ele vai tendo com os próximos, sem pensar em escrever memórias. A sua escola de jornalismo, muito antes do “Diário de Lisboa”, é a do “Intransigente”, de Benguela, onde também foi inspector de cartas de condução sem saber conduzir e mudou os nomes todas da cidade numa noite de subversão, que lhe valeu ter um agente da PIDE à perna, de seu nome Delgado.

Partiu de Angola em risco de ser preso, deixando um 45 rotações de Mahalia Jackson a um contratado do interior que o levou para onde nunca mais terá sido ouvido.

De volta a Lisboa, distribuiu colaborações pelos jornais enquanto, ateu dos quatro costados, pintava Cristos que um “manager” vendia a conventos. Não sabe por onde andará essa extensa obra pictórica.

Depois convidaram-no a dirigir a editora Ulisseia, onde começou a publicar surrealistas portugueses, “nouveau roman” francês e obra de muita indignação para a censura. Os livros eram apreendidos, mas aparentemente a Ulisseia era mesmo para dar prejuízo ao dono, a Abel Pereira da Fonseca.

Gosta de coisas tão antigas como letras de tipografia e histórias a circular pela boca. De fazer coisas porque apetece, e porque tem de ser, e porque é assim. A porta aberta é para entrar e para sair, o importante é que esteja aberta.

Na & etc não há lucros e há livros quando houver. Tem havido regularmente, e cá estão eles a toda a volta deste subterrâneo com pátio de azulejo antigo e escadinha de ferro, ali onde o Bairro Alto cola com a Bica, muito lisboeta.

Tudo já aconteceu aqui, até quase um parto. Não há computadores e a secretária é a mesma que o senhorio ofereceu no dia em que o subterrâneo foi alugado. Vinha a calhar para este título, que começou por estar no primeiro livro de Vítor Silva Tavares publicado em Angola, “Hot & etc”, depois passou a ser um magazine do “Jornal do Fundão”, uma revista e enfim uma editora. Por ter começado como magazine é que Vítor Silva Tavares lhe chama sempre “o etc”, no masculino.

Hoje, centenas de livros diferentes, que parecem quadrados, e todos juntos são uma bela, longa, aventura.

Horas de conversa, em que ainda antes da primeira pergunta a jornalista abandonou o guião. A gravação começa com Vítor Silva Tavares a contar como começou a & etc.
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Partimos da mais rigorosa e total independência, só tendo em cima de nós a vigilância censória, o que a censura cortava. Mas nós não cortávamos. Não havia censura interna, nenhuma. E não era, como agora se diz, “vamos ter um projecto”, não senhora. Entrámos a fazer o etc exactamente como uma aventura poética, interligando desde logo a intervenção artística, cultural, com as nossas próprias vidas. Viver poeticamente através de uma folheca, ou de livrinhos, mas viver a nossa própria vidinha.
Talvez isso nos ajudasse a dar algum sentido, alguma alegria a um país em absoluto pardacento que não apetecia. Hoje não sei se apetece muito, na altura não apetecia nada.
E, portanto, dúzia e meia de malucos atirámo-nos para isto.
E já colaboraram no etc, desde que ele nasceu, largas centenas de escritores, tradutores, pintores, ilustradores, que jamais tiraram daqui um cêntimo. A editora é totalmente independente. Nunca pediu nem à Secretaria de Estado da Cultura, nem às fundações, nada. Vive exclusivamente ou dos livrinhos que fazemos e pomos nas livrarias, e as tiragens são muito pequenas...

Entre 400 e 500?

Não!!! Menos! Ui! Isso era um “best seller”. A gente faz 300 e em casos excepcionais 350, nunca mais.

Não houve uma altura em que fazia entre 400 e 500?

Houve. Na parte dos senhores leitores houve também mutações. É preciso ver que, quando o etc arranca, o Maio de 68 está perto.

Está a referir-se ao & etc no “Jornal do Fundão”, para si esse é o princípio.

Sim, o etc arranca como um magazine do “Jornal do Fundão” [que tivera o seu suplemento de cultura censurado].
A ideia era esta: se o jornal reaparecer com uma folha que diz “Artes e Letras, Suplemento Cultural”, o que quer que seja, é um convite que estamos a fazer à censura para cortar “ab ovo” a intervenção cultural dentro do “Jornal do Fundão. Logo, vamos lateralizar a questão. Vamos chamar-lhe magazine, recuperando a velha ideia dos magazines, um bocadinho de cada coisa, o que já tem a ver com o nome. E aí há um cruzamento de coisas curiosas. Não íamos fazer um suplemento cultural académico, tal qual se faziam antes, um pouco de música, um pouco de cinema, um pouco de artes plásticas, o crítico tal debruça-se sobre não sei quê. Não era por aí que íamos, nem fomos.

Quando fala no plural está a falar de quem?

O “nós”, aqui, era sobretudo eu e o José Cardoso Pires. De início, “ab ovo”. A coisa nasceu assim. O António Paulouro [director do “Jornal do Fundão], o José Cardoso Pires e eu, que era uma espécie de homem de mão, colaborador assíduo do Zé. Escrevíamos coisas a quatro mãos, e etc.

Como conheceu o José Cardoso Pires?

Eu tinha vindo lá das Áfricas, em parte do jornalismo, no tal jornal “O Intransigente”, de Benguela, posto que tivesse outras profissões, fui para lá um aventureiro. E chego a Lisboa com a determinação, desse lá por onde desse, de nunca mais servir qualquer patrão ou fazer aquilo que não queria, de que não gostasse. Nunca mais. Disse o corvo e disse o Vítor. Pronto.
E regressei portanto para a minha função de pardal, que sou lisboeta tipo pardal. E para subsistir escrevia indistintamente ou contarelos para o “Diário Popular” ou pequenos textos para a “Crónica Feminina” ou crítica de cinema para a “Flama”, ou crítica de cinema para o então “Jornal de Letras e Artes”. E comecei a dizer “não” a uma quantidade de coisas. Empregos, por exemplo, publicidade: “jamais de la vie”. Não era comigo. E andava assim em pardal, saltitando daqui para acolá, palmilhando Lisboa como hoje – sou pedestre –, quando aparece uma proposta que era nem mais nem menos que ir dirigir a editora Ulisseia.
A Ulisseia!, que era a editora que eu, enquanto leitor, na altura ainda com algum dinheirito para comprar livros, mais apreciava, com direcção do Figueiredo Magalhães, que ainda é vivo. Grande editor. Não me deve chupar nem à lei da bala, porque eu é que fui suceder-lhe, digamos. Mal sabe ele a admiração que tinha por ele, e mal sabe ele que ao suceder-lhe não tive outro propósito senão garantir àquela editora o mesmo nível cultural, artístico que o velho Figueiredo Magalhães tinha dado.
Ora o José Cardoso Pires estava ligado à Ulisseia, que era a produtora dessa publicação “sui generis”, espantosa que foi o “Almanaque”, com o José Cardoso Pires.
Quando chego à Ulisseia, meti condições que não dá para acreditar, porque eu não acreditava nada que de repente trocava os cem paus, ou os noventa paus, que me pagava o “Diário Popular” por uma colaboração, e de repente estava à frente, como director editorial, de uma editora como a Ulisseia. Era demais. Então disse: “Só entro se...”

Como é que essa hipótese apareceu?

O Figueiredo Magalhães tinha saído, a Ulisseia tinha ficado sem cabeça, e tinha-se arrastado um determinado período, dependendendo de uma casa gráfica, a Casa Portuguesa, que executava os livros e atirava todo o passivo para a Ulisseia. Quem era o dono disso tudo? A Abel Pereira da Fonseca! Batatas, azeitinho, vinho a martelo! E alguém ligado à administração da Abel Pereira da Fonseca, conhecendo a irmã da Edite Soeiro [jornalista com quem VST trabalhara em Angola], perguntou: “Não haverá por aí alguém?”, e tal. E foi essa irmã, ou a própria Edite que disse: “Há um tipo que gosta muito de ler.” Disseram que eu tinha uma grande cultura literária, que também me interessava muito pelas artes plásticas. Naquela altura eu era um rapaz culto, e como tal capaz de estar à altura de – lá devem ter dito.

Foi em 1959 para Angola. Quantos anos ficou?

Três, que contaram para 30. Fui para lá ainda todo mocidade portuguesa. não haver racismo...

Portanto voltou a Portugal em 1962.

Sim, e [antes de aparecer o convite para a Ulisseia] ando por aí a distribuir colaborações, assim e assado. Tendo algum jeito para as pinturices tive um “manager” que estava ligado a uns conventos.

A uns conventos?

À padralhada. De modo que acabei por pintar a lápis de óleo e em tela ou cartão ou madeira uma quantidade de Cristos que o “manager” se encarregava de vender, e dar-me depois uns cobres, como o artista. De modo que eu distribuía-me entre literato, escrevendo para os jornais crónicas ou contos, mas também fazendo uma perninha nas artes plásticas, digamos assim. Eu que sou completamente ateu.
Eram umas trombas de um Cristo muito mal disposto, a sofrer muito, e os padres gostavam desse sofrimento.

Onde é que acabavam essas suas obras?

Nem sei onde é que está essa merda! Deve estar lá pelos conventos. Ainda fiz umas dúzias.

Conventos de alguma ordem específica?

Sim, sim, das ordens. Uma não sei de quê de Benfica.

Os Dominicanos?

Talvez, quem tratava disso não era eu, era o “manager”.
De modo que não acreditei [no convite para a direcção da Ulisseia, e fiz exigências]: separação completa da tal Casa Portuguesa, autonomia completa quer na Direcção Editorial quer na Direcção Administrativa, salário altíssimo... O convite foi em Outubro e já sabia que a editora estava tão mal que os donos não iam sequer pagar subsídio de Natal. Não senhor: “Não vai ninguém para a rua, senão não entro, e subsídio de Natal para toda a gente. E é pegar ou largar.”
A proposta devia ser de tal modo insólita, mesmo nessa altura, que o velho dono daquilo teve curiosidade em saber quem era o energúmeno. Vou ter com o homem, que seria dos mais ricos de Portugal...

O tal da Abel Pereira da Fonseca.

Sim senhora, de seu nome Manuel Correia — não sei se ainda é vivo —, que creio que nunca leu um livro, a não ser talvez o José Vilhena, e de teatro deve ter ido ver a Laura Alves. Homem já velho, de cabelo branco, acaba por ter comigo e com a Edite um tratamento como se fosse nosso pai ou nosso avô. Porque eu disse: “Mas eu lá de finanças, de organização, de coisas administrativas não percebo a ponta de um chavelho.” Para isso, estava a Edite, a sua disciplina, a sua capacidade de trabalho espantosa, e eu podia andar por aí. Também não me via como editor sentado, nem pensar. A Edite toda formiguinha e eu todo cigarra.
E assim foi.
O homem cumpriu totalmente. O único receio que ele tinha é que eu viesse a ser preso pela PIDE, dado que durante os dois, ou três ou quatro anos que lá estive nem faz ideia da quantidade de livros que publiquei e que a PIDE apreendeu.

O que é que publicou?

Ena pá! Fiz o gosto ao dedo. Fundei uma colecção muito bonita, ainda hoje gosto muito dela, Poesia e Ensaio. O Magalhães tinha a colecção dos sucessos literários, com os romances; tinha a colecção dos Documentos Sociológicos e Políticos; era a Ulisseia que publicava os livros da Pelikan. Mas não tinha Poesia e Ensaio. E até nessa colecção houve logo livros apreendidos. Desde “Feira Cabisbaixa” do Alexandre O’Neill a uma antologia da poesia portuguesa do pós-Guerra, até casos mais graves. Fui eu que publiquei os “Condenados da Terra”, do Frantz Fanon, e tínhamos a guerra colonial. Esse livro servia de bíblia aos guerrilheiros ditos terroristas.
Mas o Manuel Correia nunca demontrou qualquer problema pelos livros todos que eram retirados. Não lhe interessava. Se calhar a Ulisseia até seria uma desnatadeira, sei lá.

Uma desnatadeira?

Há certas editoras ligadas a empresas muito fortes noutros campos e onde as literaturas servem para desnatar lucros. Para dar prejuízo. Há editoras a que interessa dar prejuízo. Se houver fusão de empresas, uma grande empresa com lucros hiperbólicos pode sempre desnatar através de uma editora onde à partida já não se põem grandes expectativas. É uma questão de operações contabilísticas. Desnata-se, ou descai-se. E até se pode ganhar alguma coisa em sede de IRC. Não percebo muito de finanças mas é à volta disto.
Seria um tanto enigmático porque é que a Abel Pereira da Fonseca tão interessada em vender grão de bico, vinho, azeite e batatas do Val do Rio era tão indiferente ao sucesso ou insucesso económico da editora. E era. O que me punha completamente à vontade. Começo a publicar cá, por exemplo, os autores do “nouveau roman”, Nathalie Sarraute, Claude Simon, Robert Pinget, com “O Garoto” — se aquilo vendeu 20 exemplares, deve ter sido um “best seller” do caraças. Ou quando começo a chamar os surrealistas portugueses. Quem é que os publicava? Ninguém. Sou eu que vou publicar o primeiro livro do Luiz Pacheco, “Crítica de Circunstância”. E trás, cai lá a PIDE, pumba, o livro é apreendido.

Nas traduções, quem tinha?

Ia desde a Luiza Neto Jorge, só vendo livro a livro.

Já tinha o Manuel João Gomes?

Não. O Manuel João Gomes entra quando a Luiza conhece o Manuel João Gomes, que era muito bonito. Ela, Luiza, teve sempre uma pontaria muito grande para os seus homens, sim senhora. Aquele olhinho azul, aquilo era um olhinho certeiro. Aí, já estou no etc do Fundão. Tanto assim que sou eu que publico o primeiro texto do Manuel João Gomes. Ela apresenta-me ao menino, que parecia o Che Guevara, um misto de Cristo e Che Guevara, estava cá como relapso à tropa.

Cá?

Em Lisboa, porque ele não era de Lisboa. Tinha andado lá pelos seminários e desagua em Lisboa, refractário à tropa em tempo de guerra colonial, passando todo o tempo até ao 25 de Abril em clandestinidade aqui na Rua da Misericórdia, casa da Luiza.
Veio ao Coliseu uma companhia de circo russa, e o Manuel João Gomes escreve para o “Jornal do Fundão” um texto chamado “Alice no País dos Sovietes” – já havia nessa altura um grande interesse dele pelo Lewis Carroll. A censura cortou um bocadinho mas não o suficiente para eu não publicar. E começa aí uma colaboração muito íntima que se prolonga depois para o “Diário de Lisboa”, e para a aventura do etc. Ele foi, sem dúvida, o meu braço esquerdo, o meu braço direito.Nunca encontrei um melhor colaborador que o Manuel João, sob todos os aspectos. Como eu tinha uma grande ligação de amizade e admiração pela Luiza.
Aqui dentro do buraco, e isso hoje ainda se mantém, temos um tal tipo de ligações de ordem humana, de admiração, poéticas, que isso em parte explica que uma casa que não tem estruturas nenhumas, mas tem esta, e de tão longa duração, para o ano vá fazer 35 anos sem se ter desviado um milímetro que fosse da mesma maneira de estar dentro destas coisas.

Voltando ao que publicava na Ulisseia.

Raymond Queneau. O grupo da Mary McCarthy, na altura o primeiro livro de apologia do feminismo em Portugal, não sei se a PIDE o retirou. O Cesariny, claro, com “A Intervenção Surrealista”, e esse lindo livro que foi “A Cidade Queimada”, feito à mão, folhinha a folhinha, com os desenhos do Cruzeiro Seixas.
Voltando ao José Cardoso Pires, pois bem, entro para a Ulisseia, sendo eu admirador da editora do “Almanaque” e dele enquanto escritor – já tinha lido “O Anjo Ancorado”, “Os Caminheiros e Outros Contos” – e eu queria publicar a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, porque só havia uma muito bonita com edição do Adolfo Casais Monteiro, mas de certo luxo, esgotada há muito tempo. Eu tinha uma enorme admiração pelo Fernão Mendes Pinto, pelo lado aventureiro, e de quem me lembro para uma nova actualização de texto ou a apresentação? Do Pires. E entro em contacto com ele. Levei tampa, o homem tinha mais que fazer. Mas estabeleceu-se uma tal empatia, talvez também pelo meu linguajar. O Cardoso Pires era um lisboeta de adopção, adorador de Lisboa, e eu sou lisboeta da Madragoa. Por vezes a minha linguagem está ainda muito salgada.

Em que rua mora?

Rua das Madres. Toda a minha família estava ligada ao mar e ao rio. O meu bisavô materno, pescador, tinha o seu bote, o pai dele tinha vindo de Olhão, era gente lá dos Algarves. E com os outros homens – que tinham os botes e passavam o pessoal do trabalho de um lado para o outro do rio, isto quando não havia ainda cacilheiros – vai formar a Cooperativa dos Catraeiros, que em conjunto compra o primeiro cacilheiro. O meu tio-avô, filho dele, portanto, foi um dos primeiros mestres dos cacilheiros. Eu era puto.

Isso, no princípio dos anos 40.

Pr’aí. Ele a guiar e eu ao lado, ainda nem sabia quem era o Vasco da Gama, mas se soubesse ia de certeza ao lado do Vasco da Gama.
Depois, a minha pobre mãe também trabalhava como carne para canhão do lado de lá, quer nas fábricas das anchovas, num sítio chamado Olho de Boi, quer nas chamadas fábricas dos gelos, estão ainda lá os armazéns. Muitas vezes eu fazia pressão para ir com ela. Nasci em condições de muita miséria naquela casa. Fui o décimo terceiro. Parece impossível como estavam lá 12 pessoas quando eu nasci, mas estavam. Gostei muito do Pacheco e da “Comunidade”, na “Crítica de Circunstância”, por haver certos paralelismos. Lá estava a filharada do Pacheco a dormir nas gavetas da cómoda, ou em cima do papel, porque o papel é um bom condutor do calor, quando eu também, no meio do chão, no linóleo, estava ali rodeado de mãe, avó e tias.
As condições em que nasci e cresci eram tão dramáticas que isso podia ter, e de que maneira, retorcido completamente a minha psique, a minha pessoa. Isso não se deu porque fui tão protegido, gostado, apalpado, acarinhado, tão com-todos, que a minha mãe deixava-me indistintamente em casa de A. e da mulher do sapateiro.
A minha avô ia comigo à sopa dos pobres, ali aquele edifício em frente ao Parlamento buscar a sopa e o pão escuro que muitas vezes era a base da alimentação. E há um pormenor completamente surrealista. Na casa onde ainda hoje vivo só há um objecto do que era a casa velha. É um relógio de cavalinho. Está lá na parede. É um daqueles relógios que parecem uma pequena catedral que tem um cavalinho por cima. Uma peça muito bonita que faz um cagarim doido ao tocar. Toda a gente olha para ali e diz: “É um relógio.” E eu digo: “Não senhora.” Como tenho esta costela surrealista, digo: “Aquilo que ali está na parede é uma panela de sopa.” “Uma panela de sopa?” “Tal e qual.” Porquê? Como era o único bem que havia naquela casa, o sacana do relógio semana-sim-semana-não estava no prego, que ficava na Rua da Esperança. Lá ia o relógio para o prego e nessa noite havia sopa de hortaliça com chouriço de sangue. Era uma festa. O relógio servia para isso.
A minha mãe ficou muito marcada pela memória dessa extrema miséria, porque não me pôde dar o apoio que as mães gostam de dar aos filhos.
A minha avó Arminda, por quem tenho total devoção, tinha como alcunha na Madragoa a Viúva Alegre. Acontece que a minha avó nunca casou. E era amiga íntima de uma outra chamada Rosa das Sardinhas, avó do Henrique Viana. A minha avó fazia tudo, Cantava o fado com um irmão pelas tabernas, empalhava cadeiras, cosia as velas das fragatas no Largo Vitorino Damásio... havia lá uma casa com um grande passeio em frente, onde o mulherame de gatas cozia com umas agulhas de osso e corda muito forte os remendos das fragatas... e também lavava a roupa para as vizinhas no lavadouro que ainda existe ao cimo da Travessa do Pasteleiro. É Zola. Eu saía de casa, de pé descalço, claro...

Que idade tinha a primeira vez que calçou sapatos?

Quando fui para a escola. Mas foi um problema. Sentir o pé apertado num sapato foi uma coisa terrível. Lá ia eu ter ao lavadouro sabendo que a minha avó lá estava. A minha mãe estava a trabalhar sempre noutros sítios. E então à porta do lavadouro eu gritava: “Ó Vó!” E aquele mulherame todo: “Ó Arminda, o teu neto!” E eu ia pelo ar, entre muitas beijocas, de braços em braços, zuca-zuca-zuca, até desabar no colo amplo, ancho, da minha avó, que me dava logo muitos chochos na cabeça. Muito magrinho, como sou hoje, com medo que também eu morresse, por raquitismo, subnutrição, etc.
O meu pai era trabalhador estudante e já estava a fazer as viagens dos lucros bacalhoeiros, de seis meses, no mínimo. Ia para a Gronelândia e para a Terra Nova. Logo, eu só via o meu pai de seis em seis meses. E quando começou a fazer as carreiras da Europa e da América, de três em três meses. Era sempre um pai muito distante. Eu fui criado pela família da minha mãe.

O que é que o seu pai fazia? Andava na pesca?

Não, era estudante de máquinas, e foi tirando as cadeiras até terminar a sua carreira no mar como primeiro oficial maquinista. Depois ficou em terra e foi para a Sorefame como técnico. Um “gentleman”, olhinho muito azul, bigodinho à Errol Flynn, muito namoradeiro, casado com uma Anna Magnani, que era a minha mãe, de uma frontalidade a toda a prova, um ser inteiro, sem diplomacia e de uma rectidão total, a chamada mulher de armas. Violenta e com uma relação terrível com o meu pai, terrível do género facalhão ou mesmo um machado para lhe dar cabo da cabeça.

Por causa desse lado namoradeiro?

E porque o meu pai era muito fantasioso, para não dizer aldrabão, embora encantador. Muito bonito. E a minha mãe também. E era ela que aguentava com todo este peso, este martírio.
Eu não quis entrar para a escola, para mim era uma prisão. Tudo aquilo me metia terror. Rapaz da rua, de repente sou enfiado dentro de uma escola. Para mais, muito chique, pelo seguinte: como os meus pais eram muito novos, não eram casados quando nasci. Logo fui filho ilegítimo e como tal, quando chegou à altura de entrar para a escola, não fui aceite nas oficiais porque era ilegítimo. Então a minha mãe teve que arranjar uma escola que havia na Rua da Lapa de duas velhotas republicanas que faziam uma grande selecção, mas apiedaram-se do meu caso e aceitaram-me.

De modo que os seus colegas eram os meninos da Lapa.

Os meninos bem. E eu tenho uma quarta classe em absoluto excepcional. O meu gosto pelas literaturas vem daí. Pela simples razão que as velhotas já nos liam na aula Gomes Leal, Guerra Junqueiro...

Isso hoje é impensável.

Ainda sei de memória. Liam certos poemas de Gomes Leal, ou do Augusto Cid, e eu gostava muito. Ou do Guerra Junqueiro. “A Lágrima”, ai “A Lágrima”. E “O Melro”. “O melro, eu conheci-o”...

Mas o seu pai tinha livros, não?

Sim, o meu pai era mais culto. Quando aprendi a ler e finalmente foi possível alugar-se uma pequena casa na esquina do Rua do Meio com a Rua da Lapa, num prédio que já foi abaixo – a casa era tão pequenina que o meu pai, que tinha muito jeito de mãos, teve de fazer um beliche como nos barcos [para Vítor e o irmão que entretanto nasceu] –, passei a ser um devorador compulsivo de tudo o que era letra, desde cartazes de rua à necrologia dos jornais, e portanto devorei aquela livralhada toda [do pai], e que oscilava desde os livros do Hall Caine ao Blasco Ibañez, Stefan Zweig e os portugueses do Primeiro Realismo, Aquilino, mas também Assis Esperança, Leão Penedo, literatura de carácter mais social.

Zola também?

O “Germinal”. Quando mais tarde tive a minha primeira namorada, ela foi trabalhar para a livraria Barateira. E apetece-me dizer que li a Barateira toda por interposta namorada, isto provocando uma baralhada doida na cabeça. Um acumulador de literatura, lendo tão selvaticamente e coisas tão separadas.
Sim senhora, tirei uma quarta classe excepcional, e entro para o Pedro Nunes, que era o liceu da nata, com 18 vírgula qualquer coisa, o que deu lugar a ser chefe de turma e ir para o quadro de honra. Posto que os meus pais não tivessem dinheiro para eu estar no liceu, erro fatal. No liceu fartei-me de roubar tudo. Roubei a prancheta, os livros, tudo. Vim a ser expulso por indisciplina grave que envolveu agressão a um professor. Aquilo era um liceu fascista, embora lá estivesse também gente como o Jorge Sampaio, e alguns professores de grande qualidade, como Rómulo Carvalho, que não foi meu professor. Não tenho tendência natural de violência, de agressão, não trato mal ninguém. Mas por outro lado venho de onde venho, a minha era uma cultura de rua com a violência própria dos miúdos. De qualquer modo, eu estava ali transplantado para um universo que não era o meu. E não esquecer que já ia embalado com um tipo de leituras que cada vez mais acentuavam em mim a consciência da injustiça social. Eu lia escritores como o Ferreira de Castro e chorava de uma maneira doida, crescia dentro de mim uma revolta enorme, que nunca me passou. Só está atenuada, plasmada dentro do meu ser. É marcante para a vida.
Primeiro dia em que entro para o liceu. Dia solene. A minha mãe lá faz um esforço e compra-me uma malazita de cartão para meter lá o livro. Roupinha nova, penteou-me, risquinho ao lado e lá vou eu, em estado de terror, para o pátio. Talvez pela maneira como estava vestido, um puto qualquer começou a embirrar comigo. Dá-me uma palmada na pasta, que cai ao chão e como era de cartão, ficou amolgada. Eu disse: “Epá, tá quieto.” E o sacana, pás, outro murro na mala, que cai outra vez para o chão. E eu disse: “À terceira, levas.” Ele não acreditou. Foi o mal dele. Porque de onde eu vinha não se faziam ameças. Eu fiz um aviso. Deita-me outra vez a mala para o chão, e aí em um quarto de segundo já eu tinha o meu punho muito magrinho de cima para baixo na cana do nariz, tipo coice, que é infalível – o sangue espicha imediatamente e um gajo cai redondo, logo, que foi o que aconteceu. Um certo alarido e toca a sineta, para eu ir para a primeira aula. Não é que o gajo era da minha turma? Entra naquele lindo estado cheio de lenços, cheio de sangue. O professor pergunta-lhe o que foi e o cabrão diz: “Foi aquele menino.” E o professor para mim: “Entras bem.” Mais tarde, esse tipo foi para o jornalismo e para a extrema direita. Foi para o “Diário da Manhã.”
Portanto, houve ali um erro. Dado que tive uma muito boa quarta classe, a minha mãe teve a ambição natural de que eu saísse doutor e viesse a ter um bom emprego. Só que ela não tinha meios para isso.
E depois aconteceu aquilo da agressão, que foi mais por indignação pelo que o sacana do professor tinha feito a outro aluno que por minha causa. Eu era um bocado impulsivo, tinha a quem sair. E tanto assim, por ter a quem sair, o episódio da expulsão foi engraçado. A certa altura o reitor, fascista, manda lá chamar a minha mãe. E disse-lhe que ou ela me metia num reformatório, porque eu já não ia lá de outra maneira, ou então talvez uma carga de pau pudesse solucionar a questão. Recebeu como resposta o seguinte: “Se eu tivesse aqui um pau a si é que eu lho enfiava na cabeça.” Ela que sendo tão violenta nunca me bateu.

Portanto deixa o liceu.

E vou trabalhar para uma casa no Areeiro, onde estão agora As Chaves do Areeiro, que fazia uns acessórios para automóveis. Cono tinha muito jeito de mãos puseram-me a fazer em gesso uns moldes aerodinâmicos, cinematográficos. Ah, porque a minha cultura começa a ser cinematográfica. Tive tantos dias de expulsão e castigo no liceu que passava o tempo a ir para o Paris ou para o Jardim Cinema ver filmes. Até entrei para o Cineclube Imagem, que era vermelho, e tinha lá dentro o Vasco Granja, o Henrique Espírito-Santo, o José Fonseca e Costa. E houve uma altura, até, em que a PIDE prendeu a direcção toda do Cineclube Imagem.
Foi para mim uma autêntica escola, não só de cinema, mas também daquilo em que o cinema, como qualquer outra das artes, deve ter a sua função política. Isto em tempos já muito politizados. Por leituras, e depois pelo cinema, e por estes contactos, comecei a ser aquilo a que hoje se chama uma pessoa de esquerda.
Sem nunca ter pertencido ao PCP, não deixei de ser aliciado pelo PCP, e de qualquer modo era um ponto de referência, sempre. E nessas relações no decorrer da vida, nas Áfricas, quando regresso, a dirigir a Ulisseia, depois no etc do Fundão, no “Diário de Lisboa”, é natural que tivesse sofrido, nomeadamente no “Diário de Lisboa”, pressões que não vinham apenas da censura.
Muitas vezes voto no PCP e não é por causa do PCP, é por causa de mim. O que tenho a ver com o PCP? Nada. Gosto de ir votar porque a junta de freguesia é ali na Rua da Esperança, e vota-se ao domingo, e ao domingo aquilo é uma aldeia. Até os cavalheiros podem aparecer de chapéu, porque é quase tudo emigrantes, de Ovar, daqui e dacolá. Põem os seus melhores fatinhos, as esposas ou viúvas também, e é-me ternurento ver como aquela gente vai tão respeitosamente votar. Então, eu gosto de ver aquilo e também vou.

Isso explica por que vai votar....

Como vê, não é por causa da democracia.

Mas porque é que vota no PCP?

Sou totalmente fiel à minha condição. Não tenho qualquer ilusão sobre de onde venho, como fui sendo e agindo. E sou de tal modo fiel a isso e a convicções iniciais nunca perdidas, que posso não me interessar em particular pelo partido comunista, mas por certas ideias comunistas, mesmo aquelas que passaram primeiro pelos Bakunines, ou pelos comunistas utópicos, como o Charles Fourier, com o falanstério. Eu venho dessa família de socialistas idealistas, onde meto um certo comunismo inicial que nada tem a ver com o Estaline, se calhar nem com a revolução de Outubro, sabendo-se que a revolução de Outubro começou por assassinar os de facto socialistas, revolucionários.
Está mais próximo da minha condição e formação enquanto pessoa.
Isto tem que ver com as ideias e a minha integração num sítio.
A minha Lisboa é muito pequena. Falo dela como o meu Triângulo das Bermudas. A casa da Rua das Madres onde vejo, enquanto os arquitectos deixarem, a mesma nesga de rio que via quando era miúdo. Parece que o Norman Foster vai dar cabo disto. O tal muro de betão que uma certa Lisboa pôde fazer parar há meia dúzia de anos vai ser transferido simplesmente para o outro lado da 24 de Julho.
Aquilo é uma pequena aldeia, eu de manhã vou tomar o meu cafezinho ao mais pequeno estabelecimento do mundo, que é a Geninha, tenho lá a voz do bairro, o mulherame todo, sei logo tudo. Aquele português que lá se fala é do melhor Gil Vicente, nomeadamente as mulheres, e eu delicio-me. Reencontro aí uma língua portuguesa que é escusado estar a ler a Agustina.
Depois faço a Calçada do Combro a pé e estou na Lisboa do Chiado romântico, onde sempre trabalhei.

Isto [o subterrâneo da Rua da Emenda onde fica a & etc] ainda é Bairro Alto?

Ainda. Está confinando com a Bica, mas ainda é Bairro Alto. Andei sempre no Bairro Alto, o “Diário de Lisboa” era no Bairro Alto, a Ulisseia era no Bairro Alto. Portanto, andei sempre por aqui. E depois trabalho na Rua da Alegria, e ao pé da Mãe d’Água – olhe que nome lindo – onde começou o etc. Na velha tipografia Minerva que faz o Borda d’Água. Ora essa tipografia tem gatos, tem nespereira, porque está encostadinha ao Jardim Botânico, tem as mulherzinhas que fazem para mim as encadernações à mão, com faquinha de marfim, e eu aí estou em família, em casa. O meu circuito básico é este. Quando vou ali ao Saldanha costumo dizer que vou ao estrangeiro.
Infelizmente a Madragoa agora está sendo atacada pelos novos bárbaros. Nunca ali houve problemas de racismo, não por acaso estamos à beira da Poço dos Negros, sempre foi ali naquela zona, desde a gesta dos Descobrimentos, que tivemos íntima convivência com os pretos, ainda hoje negros de Cabo Verde, Angola, Moçambique moram ali, estão perfeitamente integrados. E os novos bárbaros vêm de não se sabe onde com os seus carros, tudo motorizado, claro, e vão para aqueles bares da D. Carlos I, da Marquês de Abrantes, das Janelas Verdes.
De qualquer modo, moro no miolo, e não se ouve nada. E podemos usufruir de um bem inestimável, que não podíamos ter em Espanha, na Inglaterra, nos States. É que nós, com todos os problemos que temos, vivemos em paz social. E se formos capazes de reflectir nisto, sem o pesadelo dos fascismos, sem essas nódoas, podemos na nossa cidade ter momentos de prazer de vida.
Porque usufruimos desse bem inestimável que é a paz social. Se quisermos, a maior conquista de Abril são as dosagens de liberdade que cada um pode conquistar e fruir com outréns.

A editora tem a idade da revolução. Como é que deste subterrâneo olha para o país que temos agora?

Nos primeiros tempos após o 25 de Abril, vivemos com muita emoção, paixão, subjectivismo, mas foi como que um alívio colectivo, como se o ar de repente fosse inoculado de oxigénio. De repente houve oxigénio. Outra maneira de estarmos nas ruas, de falarmos uns com os outros. Houve uma euforia. A liberdade foi afrodisíaca, embebedou, fez nascer muita criançada, por já se poder nascer em liberdade. Esteve para nascer aqui um filhinho do Jorge Fallorca. Não chegou a nascer por 24 horas. Eu tinha ali um divãzinho [aponta para trás das estantes de metal].

É verdade. Já não tem?

Não. O espaço foi necessário. Mas esse divã foi porreiro. Depois do 25 de Abril, como isto foi sempre uma porta aberta – aberta para quem entra e para quem sai –, havia muitas chaves espalhadas. Uma certa manhã entro aqui e vejo um escandinavo pr’aí com dois metros de altura, todo nu, muito sorridente, a dizer-me: “Bom dia.” Atravessou e foi para o pátio – há ali uma mangueira – tomar banho.

Desde quando está aqui?

Praticamente desde o 25 de Abril. Na Mãe d’Água eu subalugava meia salinha com um senhor inventor de uma chave magnética através da qual ia ganhar fortunas, porque só lá na China ia vender biliões. Como nunca vendeu nem uma é claro que o homem faliu e a certa altura já nem tinha dinheiro para pagar a metade dele.
Começo anúncios ver nos jornais. E um dia, até foi o Paulo da Costa Domingos que viu um anúncio que dizia: um determinado espaço para escritório ou armazém ao Camões, dois contos e quinhentos. Era o que eu já estava pagar. E telefonei. Os donos disto eram os Carvalhos da Silva, da Associação dos Proprietários Lisbonenses. E o senhor diz que é um espaço que ficou vago porque umas senhoras que se serviam dele para depósito e até exposição de móveis antigos, proprietárias daquele antiquário muito fino em frente à estátua do Eça, quando veio o 25 de Abril, vá lá saber-se porquê, resolveram ir tomar banho para Copacabana...
Cheguei aqui,vi umas coisas ao rés-da-rua e disse: bom, se calhar é ali em baixo, deve ser uma coisa medonha. Como o encontro era no terceiro andar, na sede, subi, e lá estava o Carvalho da Silva, proprietário dos proprietários. Fui com o Paulo e a namorada do Paulo. Nessa altura o Paulo tinha uma cabeleira deste tamanho [abre os braços], se não me engano encarnada, e a namorada uma cabeleira deste tamanho [estica os braços] e azul, vamos supor. Parecia o circo Chen a entrar por ali dentro, para o homem que estava, claro, numa secretária de torcidos e tremidos. Eu disse: “Sabe, nós somos artistas, intelectuais, umas revistas de cultura.” “Ah, sim senhor, cultura.” “E da boa.” Desato a falar com o homem. “Mas não quer ir ali abaixo ver?” E vejo um pequeno teatrinho, o patiozinho, a portinha. Isto encantou-me. Disse: “Vamos já fazer o contrato.” E ele: “Já têm armários, mesas, cadeiras?” Então, esta secretária foi dada logo no primeiro dia pelo senhorio, que não só deu a secretária como andou comigo com ela às costas do terceiro andar cá para baixo. Portanto, óptimas relações com o senhorio, que depois do 25 de Abril até era do CDS. Ele no CDS a fazer propaganda ali no Chiado, eu passo. “A si não lhe dou”, diz ele. “Não dá? Faça favor, ponha já aqui o autocolante.” Pás, autocolante do CDS na lapela do meu casaco. Viro a outra lapela: MRPP, PCP, e tal. “Está a ver, entre nós os dois o verdadeiro democrata sou eu.”

E agora quem são os senhorios?

É o irmão, com quem me dou muito bem também.

Quanto paga de renda?

O etc aguenta-se desta maneira porque os gastos são poucos. Uma renda que anda por volta dos 40 e tal contos. Não tenho, como vê, computadores, nada disso, porque não preciso. Com as pessoas com quem trabalho as relações são sempre muito pessoais. O Olímpio [Ferreira] é quem trabalha com os computadores, compõe os livros, trabalha comigo nas capas. Pagamos a luz, que não é muita, o telefone fixo e impostos.

Não há salário nenhum?

Ninguém tem salário. Tudo quanto tenho, porque comecei a trabalhar muito cedo – antes de ir para África, trabalhava numa grande casa de material cirúrgico, e como era o mais puto enfiaram-me como estabalecimentos a Cadeia Penitenciária de Lisboa, os Hospitais Psiquiátricos, Júlio de Matos e Miguel Bombarda e a Ortopedia de São José... –, mercê dos pagamentos à segurança social hoje usufruo de uma pensão de 250 euros. A casa onde vivo é minha, sou apoiado, como sempre fui desde miúdo. E é por causa destas circunstâncias materiais que o etc se pode dar ao luxo de ser um luxo. De poder continuar a funcionar completamente à margem da engrenagem das indústrias e comércios editoriais. O etc não percisa de “marketing”, porque quem faz 300 livros não precisa de “marketing”.
Ao profissionais propriamente ditos, pago sim senhor, pago religiosamente a tipografia, não tenho uma dívida à praça,. Não devo um tostão ao banco. O meu banco é a tipografia Minerva. Porque se eu disser: “Ó senhor Gomes, faça-me mil livros”, ele faz. Ou: “São cinco livros”, e ele faz. Porque sabe de ciência certa e cega que o senhor Vítor jamais deixaria de pagar um cêntimo àquela casa. Portanto esse trabalho é pago, claro.
Ao fim e ao cabo os autores que para aqui mandam os seus originais, também os mandam porque sabem que seria um horror se graças ao trabalho artístico ou intelectual estivesse eu com o meu popó graças ao trabalho deles. Eles sabem de ciência certa que não é isso. O projecto do etc não passou desde o início por irmos fazer lucro. E sempre foi dito que no caso de termos algum lucrozito era para meter num novo livrito, e assim sempre.

E a lógica é com o que um livro vende fazer outro.

Sem dúvida que vai auxiliar ao “desastre” que vai ser o outro. Porque se publico pela primeira vez um autor que não é puto conhecido já sei que dificilmente a gente vai vender 200 livros. E se vendermos 200 é porque já aqui estamos há tantos anos que de qualquer modo já houve um pequeno público habituado, ou porque gosta do livrinho, ou de os ter todos, ou porque as capas são muito bonitas, ou porque acham que a casa tem algum rigor. Mas algumas vezes, muitas vezes, esses livritos não chegavam para pagar à tipografia. Os autores em geral não gostam de saber destas coisas, nem eu vou dizer a um autor: “Oiça lá, foi um buraco de todo o tamanho.” Deu prejuízo? Já sei que vai dar. Mesmo assim faço. Por coerência. Estou dentro de uma engrenagem que tudo faz para abafar, para fazer desaparecer de vez aventuras desta natureza. Enquanto puder hei-de resistir. Como? Desta maneira. Do ponto de vista pessoal sou um indivíduo baratíssimo desde miúdo. Sei comprar a minha comida, sei fazê-la.

Os seus carapaus.

É uma metáfora. Sendo os meus pais muito miúdos, quando o meu pai já está a fazer as carreiras da Europa, o navio aportava a Alcântara ou a Santos e ficava uma semana em carga e descarga, ia depois para Leixões e podia lá ficar uma semana. Por vezes a minha mãe para poder estar mais tempos com o meu pai acompanhava-o a Leixões, e já tínhamos a guerra, as tais senhas de racionamento, e industriou-me não só a ir à mercaria, à peixaria, ao talho, à padaria, com as tais senhas, como a fazer a minha comida, melhor, quando nasceu o meu irmão, fazer para mim e para ele. E a minha mãe podia ir sossegada. Logo, faço cozinha desde os cinco, seis, sete anos. Não tendo eu vícios excessivos, a não ser o tabaco...

Quantos cigarros fuma por dia?

Um maço e meio. Indo ao cinema de 15 em 15 dias, ou uma vez por semana , porque gosto muito de cinema, tenho com a minha companheira, que trabalha no aeroporto, um tipo de vida muito estreito do ponto de vista económico, mas com muito conforto. Comemos muito bem lá em casa, as coisas são bem escolhidas, cozinho bem, logo ninguém pode ouvir da minha boca qualquer queixume, coitadinho de mim que sou tão pobrezinho. Não me importo nada de ser pobre. Não trocava a minha posição de modo algum com o Belmiro ou o Berardo. Tenho pena deles. Se o Berardo ou o Belmiro perderem 25 tostões, ou dois euros e meio nessa noite eles não dormem. Ai eu durmo regaladamente.
Do que tenho um bocadinho de pena, e por isso, evito, é ir a certas livrarias. Poderia ter a tentação deste ou daquele livrito, Evito e custa-me evitar. Eu que faço livros não tenho dinheiro para comprar livros. Mas tirando isso, não me custa nada viver como vivo.

Não lhe custa não viajar?

Agora não. Viajei, sim senhora, até ao 25 de Abril. Veio o 25 de Abril, fartei-me de viajar por Portugal.

Foi para Angola aos 22 anos. Tinha a ideia de fazer documentários. Isso do cinema documental vinha de onde?

Foi uma soma de coisas. A tal minha primeira namorada vai para o Conservatório, e eu venho a conhecer o doutor Fernando Amado.

Diz sempre doutor Fernando Amado.

Digo. Tive sempre por aquele homem uma devoção extraordinária. Eu não tive universidade e sem dúvida que este homem foi um dos meus mestres. E mestre não quer dizer professor. Ele foi meu mestre porque me pôs a mim a saber. Não foi ele que me ensinou. Pôs-me em estado de saber. Por isso, mestre. Fui eu que o adoptei como tal. Um sábio gentil.
Começo com os meus encantamentos de teatro, comprei a prestações o primeiro livro que cá chegou, tradução da “Formação do Actor” de Constantino Stanislavski. E como já era muito lido, um intelectual, perorava ali na Orion, e tinha então conversas muito mais aprofundadas com o doutor Amado. Tive uma paixão por aquele teatro de amador, que eu sou um amador. Já trabalho há tantos anos, sei fazer o trabalho, do ponto de vista profissional, mas na essência sou um diletante, um amador. É por isso que nem gosto que me chamem editor. Posso fazer tanta coisa, não sou corporativo, nunca fui, calhou dedicar-me mais para aqui, podia ter ido para outro lado. Toquei muitos instrumentos, um deles foi o teatro, mais o cinema.
Ora eu tinha um grande amigo que se suicidou lá em Angola, era filho de gente rica de Benguela. E eu, mais alguns rapazes e raparigas do Conservatório, metemos na cabeça que íamos. Primeiro ia eu, tipo pisteiro, lá ter com ele, para podermos fazer um grupo de teatro itinerante pelos vastos espaços angolanos. A somar ao seguinte: comprando-se uma câmara Paillard de 16 milímetros eu podia fazer um levantamento etnográfico, etnológico e tudo o mais.

Quando é que conheceu o Ruy Duarte de Carvalho?

Mercê dessa estadia, que foi muito intensa. Acabo por o conhecer aqui mas por intermédio do Aníbal Fernandes que conheci lá. O Aníbal estava primeiro no Lobito e depois em Luanda, e eu fui sempre o homem do sul. Já tinha barba e era vermelho, e portanto tinha a alcunha de Fidel porque quando vou em 1959 temos a Sierra Maestra, temos os barbudos. E eu apareci como barbudo em Benguela, nem faz ideia.
Aquilo tudo faliu, não houve dinheiro para a Paillard, embora acabasse por fazer lá um filme em oito milímetros num sítio lindo chamado Caota, “Uma História do Mar”.

Onde está esse filme?

Não faço a mínima ideia. Apostava que tivesse ido parar ao governo angolano.
Em Angola ganhei algum nome no activismo jornalístico-político. Entrei todo Mocidade Portuguesa e saí todo Amílcar Cabral.

Porque é que diz que entrou todo Mocidade Portuguesa?

Eu fui da Mocidade Portuguesa. Era obrigatório. Mas eu fui mais. A Casa da Mocidade era na Rua do Quelhas [que sobe da Madragoa para a Lapa]. Quando se aproximava o Verão, os dirigentes da Mocidade andavam ali pelo bairro a recrutar rapaziada dizendo assim às mães: venham ver as instalações. Eram magníficas, tinham piscina e tudo. E a cozinha, a alimentação, frangos, bifes. As mães ficavam assim: “Quanto custa?” “Nada.” “Nada?!” E para o que era sempre um problema das mães naqueles meses de Verão – onde pôr a rapaziada, que só podia estar fatalmente ali na rua –era um sítio porreiro. Toca a levar a criançada. A minha mãe vai ver aquilo e sai de lá maravilhada. Às duas por três vejo-me encostado a um muro com um tipo a tirar fotografias, e fico lá dentro esses meses que serviam para a formação dos graduados. Saio de lá graduado, comandante de castelo. Aquilo tinha uma parte de instrução quase pré-militar, num quartel da guarda nacional republicana, que no meu caso foi o das Caldas, e lá íamos nós, miúdos de 12, 13 anos, para a instrução militar. Não era de tipo ideológico directo. Era de carácter histórico. A grandeza da nossa pátria, os nossos grandes heróis, D. Nuno Álvares Pereira, a gesta dos descobrimentos, uma educação ultranacionalista, mas só isso, nitidamente. Eu, patriota, acho que já era antes de ir para a Mocidade Portuguesa. Não me pergunte porquê mas eu gostava de ser português. Era a minha terra. E saio da Mocidade Portuguesa com aquilo na cabeça. Epá, tínhamos sido dos primeiros povos a anular a escravatura, tínhamos um tipo de convívio com o Ultramar, com o preto, que os outros povos não tinham. É assim que parto daqui. Só que logo no dia em que o barco atraca ao porto do Lobito, e estou eu ainda na amurada, vejo um capataz, necessariamente branco, com uma fileira de pretos, aí uns 30 ou 40, presos com cordas muito grossas nos pulsos e nos tornozelos para a estiva. Pergunto a um engenheiro belga que já tinha experiência de África o que era aquilo e ele diz-me que eram os contratados. “Mas eles estão acorrentados.” “Estão, porque é assim.” Meses depois já eu sabia timtim por timtim o que era essa história dos contratados e como é que a escravatura continuava em Angola, e até o “apartheid” e tudo. Entretanto, as independências estavam a vir de Norte para Sul, andavam no ar.
Às duas por três vejo-me obrigado a estar numa repartição da Direcção Geral de Estradas.

A inspeccionar cartas de condução sem saber guiar.

É uma das minhas obras-primas. Como fui examinador de cartas de condução quando nunca guiei um carro. Isto para dizer que aquilo era um faroeste, até um tipo sem carta pôde estar a examinar. Fez passar pessoas? Ah, com certeza, aqueles camionistas que quando nasceram já sabiam guiar, esse gajos passaram logo.
Fui animar o Cineclube de Benguela, que estava parado, momento muito bonito porque descobri que havia lá um projector que ainda funcionava e uma quantidade de bobines de filmes do Charlot, daqueles de três minutos, um minuto e meio. Ideia: arranjar um gerador, um lençol e andei por tudo o que era “museke” a projectar as fitas do Charlot, toda a noite, porque aquela gente ria-se tanto, a festa era de tal modo que queriam sempre repetir outra vez, e eu ria-me outra vez, gargalhada geral, e aí descobri que o Charlot, sim senhor, era universal.
Entretanto, saí daquela repartição da maneira a que saio das coisas, digo até logo e nunca mais ninguém me vê.
Bom, vou morrer aqui cheio de caranguejos? Quando – como já animava o Cineclube e escrevia à borla para o “Intransigente” e para o “Jornal de Luanda” – sou convidado para o “Jornal do Lobito”. Eu detestava o Lobito. Muito inglês, com as sedes das companhias marítimas. Ao passo que Benguela era uma pequena cidade colonial, pacata, com as suas casuarinas, o cheiro intenso a peixe. Os gajos no Lobito davam-me 15 contos, ou lá o que era. Conto à Edite do Lobito e ela vai dizer ao velho dono do “Intransigente”. “Ó senhor Gastão Vinagre, está aqui o Vítor a dizer que vai para o Lobito.” E o velhote, que tinha muita asma, chamou-me. “Ó senhor Vinagre, que remédio é que eu tenho?” “Ó meu filho gostava tanto de ter aqui.” “Quanto é que o senhor me podia pagar?” “Ó meu filho, só te posso dar cinco contos.” “Senhor Vinagre, qual é a minha secretária?” E fui para o lado da Edite, todo contente.

O livro que escreveu em Angola, “Hot e etc”, é o quê?

Até foi, aqui para nós, um truque. Teve de haver uma “quête” e tudo para me arranjarem um bilhete para me porem a andar, senão era imediatamente preso. E chego aqui praticamente indocumentado.

Teve de sair de Angola por motivos políticos?

Sim. Eu tenho sido expulso de muitos sítios. Não tinha portanto bilhete de identidade. E aí já com a Célia – minha grande companheira, e que é um dos pilares do etc, companheirismo total e fidelidade total a mim e ao etc – vamos forjar um bilhete de identidade, e era obrigatório lá estar a profissão. Eu não podia pôr jornalista. Não havia sequer Sindicato dos Jornalistas lá em Angola. Eu queria pôr escritor. E por causa disso, a ver se pegava, como conhecia no Huambo o Garibaldino de Andrade e o Leonel Cosme, que editavam lá uma tal colecção “Imbondeiro”, de livrinhos pequeninos, propus umas historietas que tinha escrito, que se chamavam “Hot & etc. Aí está o etc. Que eram os três andamentos do jazz – eu também era maluco por jazz, o que era natural lá em África –, o hot, o cool, e o bop. Como o cool eram textos a atirar ao Joyce, tinham muitas vanguardices, os gajos lá me disseram que a malta podia não perceber nada. Eu disse que também não havia azar, o que eu queria era o livrinho. Então meti uma história pequenina chamada “Uma História sem Importância” muito à Vivaldi, uma Lisboa inventada por mim, toda Veneza, toda Alto de Santa Catarina, toda violeta, enfim, muito lírica, com uns diálogos entre um jovem par de namorados. Para juntar e fazer o livro que foi feito. Mas não tive sorte nenhuma porque isso não pegou. E, sim senhora, teve de se forjar uma assinatura falsa e umas coisas assim para eu ter o BI.
Quando regresso, e atendendo a que tive ligações políticas lá – fui amigo do Luandino Vieira, essas coisas –, a PIDE foi de tal modo que me tiraram a documentação. E depois: “Vamos ver como te portas.” Fiquei com um grande complexo persecutório, via que em todo o lado me estavam a seguir.
Volto a dizer, nunca fui do partido comunista, nunca estive em nenhuma organização clandestina, no entanto, do ponto de vista da acção, agi, fiz determinadas coisa. Eu, um estudante universitário e um carpinteiro, que até veio nos jornais e tudo: um dia a cidade de Benguela acorda e descobre que a toponímia estava completamente alterada. Onde dizia Praça Primeiro de Maio estava Praça Humberto Delgado e por aí fora.

Andaram a mudar os nomes todos.

Numa só noite. E num cinema com um enorme ecrã que andavam a fazer, escrito em alcatrão, que custa muito a tirar, e com letras deste tamanho [abre os braços]: “Viva a liberdade.”
A PIDE desconfiou que era eu e então deslocou um funcionário, de seu nome Delgado, para tomar conta de mim, que era jornalista no “Intransigente” e sediava num pequeno hotel... isto dizer hotel, enfim, hotel. E o tipo instala-se também no hotel. Mais, à minha mesa. Tu cá, tu lá. Havia momentos em que já tirava a carteira e mostrava o retrato da esposa de 120 quilos que tinha deixado na Beira, e dos filhos, e lacrimejava de saudades. “Senhor Delgado deixe lá isso, não chore”, dizia eu para o PIDE. “Diga-me uma coisa, quando faz anos?” “Dia tal.” “Então nesse dia vou mandar fazer um pano aqui a toda a largura do hotel com ‘Viva Delgado!’” O homem primeiro ria-se e depois “Veja lá, veja lá.” E lá mandava os relatórios dele.
Quando as coisas começam a apertar muito, eles apanham o tal estudante que se porta muito bem e não fala, e o carpinteiro idem – esse sim era do partido comunista. Portanto a malha começou a apertar e a malta: “O primeiro barco que houver pões-te a andar.” Mesmo assim ainda fui chamado, fui interrogado uma data de vezes, até por causa do ‘Intransigente’ e do Rádio Clube de Benguela, porque a parte informativa estava na minha mão, e alguém foi denunciar que eu nos noticiários deitava para o lixo os telegramas da ANI [Agência Nacional de Informação]. Isso serviu também para um interrogatório, se era verdade que eu fazia aquilo, ao que eu disse que era. Porque uma das acusações era não deixar transmitir notícias que dissessem respeito à actividade do Presidente do Conselho Doutor Oliveira Salazar, o que era uma coisa muito grave. Ao que eu disse que era verdade. E safei-me desta maneira – está escrito –: “Parto do princípio que o Doutor Salazar trabalha todos os dias. Ora esses telegramas da ANI dizem que de dois em dois meses Sua Excelência recebeu o senhor subsecretário de Estado disto ou daquilo, dando assim, ou podendo dar, a impressão de que o senhor só trabalha quando os telegramas da ANI dizem. Pelo sim pelo não, não ponho.” É claro, fui para o olho da rua com um processo admnistrativo. Também não ganhava nenhum, eram coisas à borla.
A certa altura estou no “Intransigente” e começa a guerra. A censura fica sem saber o que fazer, sem instruções de Lisboa. Então, eu em Benguela e o Adelino Tavares da Silva no “Jornal do Congo”, foi um fartar vilanagem, dizíamos o que muito bem queríamos, aproveitando esse momento em que não havia directivas. Ainda o Salazar não tinha feito o tal discurso “tudo para Angola”.
Portanto, eu somava estar a dirigir o Cineclube com estar à frente da informação do Rádio Clube, e parte dos meus artigos eram lidos fora de Angola, em Dacar, e aqui e acolá. Logo estava sob vigilância e era um animal a abater, contando-se que tinha ligações já com terroristas do MPLA, o que era verdade, e também recebia no meu quartinho dissidentes e terroristas caboverdianos e coisas assim, o que também era verdade. Tudo isso conflui na impossibilidade de continuar em Angola.
E posto que tivesse tido uma grande fusão com aquela terra, com aquelas gentes, amigos enormes, uma história comovente:
Eu estava no jornal. E de vez em quando precisava de ir ao meu quartinho buscar um livro ou qualquer coisa para trabalho. Quando lá chegava, deixando sempre as portas e janelas tudo aberto, tinha o quarto inundado daquela pretalhada toda, nomeadamente o Vítor Maria José, que limpava o meu quarto e era muito engraçado. Eu tinha um pequeno “pick up” de plástico Philips em que os tipos aprenderam a mexer, e como tinha aqueles discozinhos de 45 rotações da Bessie Smith, da Mahalia Jackson, chegava lá e estava tudo numa grande alegria a ouvir. Eu entrava, tirava as minhas coisas e ia-me embora.
Quem eram eles? Contratados. Como me viam lá às vezes a pintar coisas, um dia vieram com uma grande conversa. O que é que era? Quando acabava o contrato aqueles que não eram mortos – embora os contratos fossem muito continuados, mas a certa altura era demais, e eram obrigados a devolvê-los às terras de onde os tinham tirado – o Estado tinha de arranjar uma camioneta. Juntava aquela gente toda e eles tinham uns paus com umas bandeiras, era um momento de grande alegria porque iam regressar. E então vinham-me pedir a mim para fazer as bandeiras. Andei a pedir pano de lençol por todo o lado e fiz um sol, estrelas, coisas assim muito berrantes, lindíssimas, fui mais considerado por essa gente do que qualquer Picasso ou Miró – espero que isso não apareça no jornal senão o Joe Berardo vai saber onde é que estão essas bandeiras e ainda apareço no Centro Comercial de Belém. De modo que fui encarregadio das bandeiras da liberdade.
Um dia chego, e só lá está o tal criado do meu quartinho, muito triste, sentado na cama. “Epá, o que é que se passa? Então agora que vais embora é que estás triste?” Ele começa com uma grande conversa. O que é que ele queria? Levar com ele o disco de 45 rotações da Mahalia Jackson com o retrato dela na capa. Dei-lho.
Mas haveria alguma hipótese deste homem voltar a ouvir o disco? Algures no interior daquele “interland” deve estar um disco de Mahalia Jackson jamais ouvido naquele lugar. Mas tinha-o ele dentro do coração, do sangue, da cabeça. Levou aquilo como quem leva um pedacinho de Deus.

Quando começou a editora “& etc” pensou logo neste invulgar formato?

Antes de começar a produzir os livros, tínhamos a revista, que já lá tem um quadrado exacto. Fizeram-se ligeiros ajustamentos a partir daí, a escala reduziu. E partiu-se do quadrado.
Para simplificar podemos dizer assim: o quadrado é lixado. Forma geométrica tão simples, com o historial que tem, com a carga mítica que tem, o velho enigma da quadratura do círculo, a célebre relação 9/10 que o Almada [Negreiros] relacionava a partir do quadrado. É muito exigente. Parti do quadrado como de um canône. Normalmente, o canône obriga a. Não se pode fugir dele. É uma forma aparentemente rigída. Em princípio, até limitadora de liberdades. Ora bem, quem vai olhar para as centenas de capas dos livros da “& etc”, todas com um quadrado, há-de ver que esse quadrado em vez de ser limitador, pelo contrário, é um desafio aos criadores e permite uma liberdade de expressão que está patente em cada livrinho. À primeira vista parecem todos iguais, e são todos diferentes, obedecendo todos ao canône.
Parti, portanto, do quadrado. Mas os livros são rectângulos. A questão estava em como inserir o quadrado harmonicamente no rectângulo. Com um lápis e um papel desatei a fazer esboços, lembrando-me de uma conversa que tinha tido muitos anos antes com o mestre Almada, com quem tive íntima relação, quando uma vez, em relação aos painéis [da Gare Marítima de Alcântara], ele me perguntou se eu sabia como ele tinha chegado a determinadas conclusões que depois publicou. Eu disse que não. Ele disse: “Cheguei aqui sem cálculo.” Achei bizarro. Podia ser mais uma “boutade”, muito à maneira dos futuristas do início do século XX. Como era possível com um intrincado geométrico tão complexo? Estava eu, portanto, aqui também com um lápis e um papel e juro que não estava a fazer nenhumas contas de cabeça. Pouco a pouco, ao ir achatando o rectângulo, comecei a verificar que o quadrado com aquela dimensão estava a casar-se, a harmonizar-se com aquele rectângulo achatado. E aí sempre sem régua, firmei mais o traço, delimitei melhor o rectângulo. Só depois fui buscar uma régua, e desenhar com o esquadro. Continuei a achar que aquele casamento não ia dar divórcio. Era para a vida, ou para a morte. Encostei, claro, o quadrado à parte de baixo do rectângulo, porque tinha de jogar com o logotipo, o mesmo logotipo, o qual está inserido também num rectângulo, que tem também ele uma determinada dimensão. Pus então o logotipo no sítio que me parecia o certo.
Depois fui medir, para ver se os números também se casavam bem. Ai, casavam-se. Dentro da minha cabeça, casavam-se. Tudo isto tem uma enorme dose de subjectividade. Também eu estive a funcionar sem cálculo. Ou ressaltava dali uma sensação de harmonia, ou não. E no meu espírito tudo se harmonizava, o quadrado com o rectângulo e os numerozinhos.

Que eram?

Parti de um quadrado de 11/11. E não, fugindo ao que seria clássico nas mitologias numerólógicas, de 10/10. Não me pergunte porquê. Há uma parte instintiva. Mas tenho verificado, por causa de muita gente que pega nos livrinhos, que primeiro dizem que são quadrados. Efectivamente, claro que não são, mas parecem, e toda a gente se mostra encantada com aquilo. Excepto os livreiros – reagiram muito mal, continuam a não reagir muito bem. Ou porque os livrinhos não estão formatados para estante ou porque fogem deliberademente à tal imposição industrial.

A medida?

15,5 por 17,5. Quem quiser fazer depois brincadeiras com os números pode fazer.
E os livros do “etc” são encapados à mão sem vinco, para não destruir a colocação exacta do quadrado, a harmonia que pretendo que os livrinhos tenham. O outro objectivo é continuar a dar trabalho às encadernadoras. O trabalho de encadernação desde sempre é feminino – nas antigas oficinas até havia uma clara demarcação de espaço. E, muitas vezes, as folhas lá dentro também são dobradas à mão, com a faquinha de marfim. E os livros são cosidos e não colados. Portanto, há aí uma aproximação à artesania, ao artesanato, procurando assim equilibrar a exigência da tecnologia. A impressão hoje é toda “off set”. Eu fui o último editor a fazer livrinhos na antiga Tipografia Ideal, na Calçada de São Francisco, totalmente compostos à mão.

Em que ano?

Há mais de 20 anos. A oficina fechou e o material dispersou-se. Só um país de milionários broncos como Portugal é que se pode dar ao luxo de desperdiçar estas artesanias. A saloiada mental de seguir sempre o mais avançado leva-nos a menosprezar estas coisas. Porque se eu for ali à Suíça ou aos Estados Unidos da América tenho oficinas manuais e ainda a quente, a chumbo. Desde o tempo do senhor Gutenberg, os tais canônes, mesmo no que diz respeito à paginação, à colocação das linhas, à maneira de paginar poesia vêm de tempos imemoriais.
Aprendi, por exemplo, a paginar poesia com José Apolinário Ramos, grande artista tipógrafo da Tipografia Ideal, ele próprio poeta. Tipografia essa que chegou a fazer livrinhos do Gomes Leal e onde eu fiz “A Fonte de Camões”, de Gomes Leal, com os mesmos tipos [de letra]. Na poesia, sobretudo, atendendo a que os versos ora são muito curtos, ora são muito extensos, aquela coisa de, para facilitar, encostar sempre à esquerda da mancha, faz com que, em grande parte dos livros em que temos versos curtos, o resto da mancha seja um vazio enorme. Ele estabeleceu um eixo central na página, e a colocação do verso é pela medida do verso mais largo, que dentro desse eixo vai determinar o resto, dando assim uma harmonia no interior da mancha. Aqui está consignado. E muitos outros, o Manuel de Freitas [na editora Averno] e etc, começou tudo a paginar a poesia como ela deve ser. Isto vem do velho José Apolinário Ramos, que era tipógrafo durante o dia e ao fim da tarde tirava a sua batazinha azul, vestia o seu casaquinho, descia a Calçada de São Francisco e ia a pé até à Rua da Voz do Operário para a menina dos seus olhos. Porque era ele que cuidava da Biblioteca da Voz do Operário.
O “etc” liga-se à Tipografia Ideal por um episódio engraçado. Um dia passei por ali, olhei lá para dentro e era a escuridão total. Entrei e quis ver as caixas dos tipos. Sempre gostei muito de material tipográfico, da composição. O homenzinho começa a abrir as caixas, e eu caio para o lado de espanto. Ele eram maiúsculas de aço, lindas, de desenho, vinhetas, adornos, bom aço alemão do século não sei quantos. Uma maravilha que estava para ali perdida. Aquela casa já tinha tido o seu período heróico, entretanto tinha caído numa tal decadência que já só fazia cartões de visita, papel de carta, envelopes. E eu vou desafiá-los para voltarem a fazer aquilo a que se chama composição a cheio, obra livro. “Ah, não...” Estava tudo a cair da tripeça.
Fartei-me de falar da literatura de cordel, ia fazer a literatura contra-margem com papel manteigueiro, à memória desses opúsculos que se vendiam efectivamente pendurados num cordelinho, e com aquele papel tosco. Vamos lá dignificar os próprios materiais baratos em livro. Foi um entusiasmo e desatei a fazer lá os livrinhos, e a aprender muitíssimo com o José Apolinário Ramos. Dávamo-nos muito bem. Gostávamos da mesma coisa. Era um homem de rigor.
A zincogravura permite uma impressão muito melhor do que o “off set”, porque a impressão é como se fosse gravada, sobre pressão. Actualmente, o “off set” escorrega sobre o papel, toca-o. A pressão dá a coisa impressa personalidade táctil.
Agora já não é possível fazer livros assim. Mas uso truques. Imprimo a cartolina da capa ao contrário. Em vez de imprimir na parte brilhante, imprimo na parte baça. Se lhe puser a mãozinha sente ainda aquela penugem. Isto dá mais trabalho ao impressor, porque pode dar um certo efeito de mata-borrão. Então é preciso lutar-se contra o material. Mas essa luta é boa. E permite ao livrinho parecer totalmente artesanal.

Eduarda Dionísio [com quem trabalhou na associação Abril em Maio e recentemente no jornal “PREC”] diz que não há coisa de que o Vítor Silva Tavares goste mais do que a tipografia, e o Alberto Pimenta [um dos autores mais da casa, na “& etc”] crê que a fusão inseparável da estética e da ética é o que melhor o define. Tudo o que disse sobre a artesania do livro se relaciona bem com essa fusão. Agora preside à Abril em Maio, que está num limbo. O que o fez querer pertencer a este colectivo? Como resistência – não sei se a palavra é a boa?

É essa. É a única.
Um dia a Abril em Maio pediu para aqui uns livritos, disse onde era, à Graça, fui lá a um debate, um rés-do-, chão de uma casa antiga, fiquei encantadíssimo por ver aquele espaço e reencontrar finalmente a Eduarda Dionísio, que conhecia de nome. Sabia-a filha de quem era, mas nunca tinha tido relacionamento próximo.
E ao saber que aquela coisa tão encantadora que ali estava, onde um disco daqueles que não aparecem em lado nenhum – sei lá, o García Lorca a tocar piano – está ao lado de uma garra,, fa de azeite, de um, boneco de barro, de um livro; ao ver o tipo de pessoas, a miudagem; ao ver que também ali não havia nenhum propósito lucrativo, era uma associação cultural propriamente dita, e que também ela não dependia de nenhuma espécie de subsídios, nem disto nem daquilo, ou não estivesse lá a Eduarda Dionísio: havendo afinidades que não se podem circunscrever ao ideológico, que têm a ver com a maneira de estar e de fazer cultura, alheia ao “mainstream”; eu, que jamais tinha pertencido a qualquer clube resolvi ser sócio daquele.
Estava longe de imaginar que iria filiar-me numa associação que tinha a sua morte anunciada. Ser sócio não é só pagar a quota. Não posso abandonar o “etc”, onde faço de tudo, sou eu que varro também o chão, essas coisas, a minha disponibilidade está repartida, sempre. De qualquer modo tive trabalhos, iniciativas, ideias na Abril em Maio, daquela pulga eléctrica que é a Eduarda Dionísio. Tenho uma grande ternura por ela, uma grande admiração por aquela capacidade de mobilizar e de fazer, também pela sua capacidade de organização, eu que sou desorganizado. Muitas afinidades. De tal modo que não me interessa assim tanto a Abril em Maio. Quando gosto de uma pessoa, sou de uma fidelidade total. Só estou lá porque lá está a Eduarda, cultivando com ela o mesmo tipo de fidelidade. É um mau feitio que me quadra muito bem. Quem me dera ter dez por cento daquele mau feitio. É sempre recto.

Sempre falou no trabalho como uma fruição, parte da vida, dos amigos. É raro as pessoas estarem numa coisa porque gostam muito de alguém. Têm objectivos, têm projectos, podem ganhar isto, aquilo.

Eu e a Eduarda gostamos de fazer coisas. Com as mãos, com os pés, com a língua. Não vamos teorizar muito sobre as coisas. Temos afinidades, é escusado estar a gastar saliva. Entendemo-nos muito bem. Podemos passar logo para a acção e mobilizar outros para esse trabalho.

A ideia do “PREC”?

Nasceu aqui. O título foi meu. Quem tiver ideias sobre o nome a dar a esta folha, que é para ler e não para ver, portanto vamos inundar a mancha com letras, uma letra vale mais que mil imagens...

Isso hoje é um verdadeiro PREC.

Exacto. Então, quem tiver ideias ponha no papel. E eu tenho aqui uma que é uma dupla provocação: desta porta para fora, quando sair, e desta porta para dentro, para as cabecinhas de todos nós que aqui estamos. A minha proposta é chamar-lhe PREC.
Ponto dois, toda a gente vai associar PREC ao processo revolucionário em curso. Só que nós vamos utilizar cada número para aquilo que nos der na bolha, e assim subvertemos a própria ideia feita do PREC, porque no interior das letrinhas vamos sempre meter coisas distintas, o que foi praticado com algum humor.
PREC porquê? Porque é PREC, sim senhor, contra-corrente, o próprio formato, outra vez o papel manteigueiro, e, à semelhança dos velhos jornais, encher aquela página literalmente com um corpo tão pequenino que vale pela mancha. É, em sim mesmo, uma afirmaçao estética, tipográfica. Depois, se as pessoas quiserem ler até, com esforço, claro, têm lá coisas para ler.
E de um trabalho tão duro, por vezes até às duas, três da manhã, conseguirmos um momento lúdico de trabalho, sempre a rir, e sem expectativas.
Fazemos as coisas porque temos de as fazer, porque está na nossa condição. Depois já não é connosco, já está para fora de nós. E a mim tanto me faz que haja só uma pessoa que tenha lido, criticado aquilo, como dez mil, uma que fosse. Aí não tenho espírito de missão, nem aqui dentro. Isto não é nenhuma igreja, não há aqui nenhuma crença, faz-se porque se tem de fazer, está na nossa condição fazer, fazer assim, saber porque fazemos assim. Perseguimos, sim, uma ideia de harmonia, de beleza, de intervenção, e sabemos que é uma resistência. Resistência é a palavra, à falta de ar vigente, ao obscurantismo, à criação permanente de falsos mitos passageiros.

Quando olha para o que os jornais hoje são, quando olha para as livrarias e o que as povoa, o que sente? O que é que está a acontecer?

Ainda gosto de jornalismo e de jornalistas. Obviamente já não gosto de jornais. Não gosto da tabloidização dos jornais. Do jornal espectáculo. Fui homem de camisolas. A minha camisola em termos de jornalismo chamou-se “Intransigente”, em Benguela, e depois “Diário de Lisboa”. Não me reconheço de modo nenhum nos jornais que hoje existem. Mas sei fazer o “distinguo” dos jornalistas. Não são todos, claro, mas são alguns e esses sei reconhecê-los e gosto de jornalistas. Pessoas que ainda se queimam, porque é uma profissão para queimar. Gosto de jornalistas que têm a consciência de que estão lá para arder, num mundo que está a arder.

Há muita gente que acha que os jornais em papel não vão sobreviver.

É inevitável, vão sobreviver. Porque fixam coisas. Têm um suporte material. Sei que a onda agora não é essa mas é uma onda.

Vamos precisar sempre de alguma coisa portátil para pôr no bolso?

Alguma coisinha para agarrar com a mão. Precisamos de corpo, e os jornais são ainda corpo matérico.

O que é que pode renascer da Abril em Maio?

Sou um director virtual, nem lá ponho o pé, mas aquilo é também um espaço. E que espaço. Tem enormes virtualidades. Afirma logo muita coisa. O tipo de actividade que tinha suspendeu-se com a gradual saída da Eduarda. Ainda houve as tentativas do PREC poder funcionar lá. Claro que se desfez por desfasamento, apetites diferenciados, desinteresse, abulia, o que é costume nestas coisas.

Partindo do princípio de que não morreu, de que está à espera?

Está a ser reanimada, o espaço vai ser utilizado como uma pequena escola para crianças de introdução à multimédia, já se estão a fazer almoços e jantares. Aquele espaço está a ser revificado. O meu esforço foi no sentido de deixar a porta aberta. Conseguiu-se, até agora. Com a porta aberta, pode ter a certeza, vai continuar a haver quem entra e quem saia. O importante é ter a porta aberta.
Não tenho qualquer teoria que me alimente qualquer optimismo no que respeita a movimentos de massas. Tenho pena de não ter, mas não tenho. Em compensação, o “etc” é um espaço onde tenho provas de que algures, até aqui em Portugal, na remota Vila Real ou na Guarda, aparece gente nova com uma frescura ainda no estar, uma recusa idêntica à desta chafarica de se verem integrados em estruturas, para o caso culturais, entendidas como normais, e encontro muitos sinais disso.
Não vou dizer que é uma nova geração. Mas vai havendo uma soma de um mais um mais uma mais um, que me deixa nesse aspecto optimista. Seria pessimista, género Vasco Pulido Valente, se pudesse dizer: “Isto é uma choldra, tudo. A juventude toda é uma merda, consumista, alienada.” Isso não é verdadeiro. Em massa, com certeza. Mas fora da massa vai aparecendo gente que vem aqui tocar à campainha. Esta casa já fez nascer meia dúzia de aventuras editoriais. Mas também livrarias, espalhadas por aqui e por acolá, e que não estão lá para ganhar montes de massa. Isto não é uma casa de negócios, quando vêm aqui tocar à campainha, vêm para beber um bocadinho desta água. Eu digo sempre, isto é uma função poética, dá para fazer livrinhos e outras coisas.
Costumo dizer que sou tão magrinho que passo entre as cordas da chuva, e no meio desse mar encapelado [da edição portuguesa] a verdade é que esta pequena rolha flutua, vai para baixo, para cima, mas flutua. E aí não estou sozinho. Era impossível sozinho fazer isto. Tinha que ter, e tenho, cúmplices de tal modo fiéis, e fortes e firmes, aqueles capazes de comer pedras, e ainda assim continuarmos, por teimosia, por masoquismo.

Quer falar deles?

A Célia, o Rui Caeiro, o Al Berto. O meu cunhado Jorge. Um pequeno núcleo daqueles que aguentam tudo.

E duas ou três aventuras poéticas que sente que são a sua família?

Desde o meu antigo encantamente pela Ulisseia, mas também pela velha editora Inquérito, do Salgueiro. Foi-me dito pelo Luiz Pacheco que o velho Eduardo Salgueiro conseguiu aguentar a editorial Inquérito 50 anos na falência. Eu ainda só fazer 35. Quem me dera poder chegar a esse número. Há 50 anos que estamos falidos, mas de porta aberta.
Mais próximos de nós, um grande editor, maluco, nem por isso muito culto, mas com um instinto, um faro, e também um gosto de fazer a toda a prova, Fernando Ribeiro de Mello, das Edições Afrodite, o tal que queria fazer a revolução sexual em Portugal. Fez a dele, já não está mal. Meu grande amigo e sócio no arranque do etc.
Tive muita pena de ter ido abaixo o projecto da Hiena. Arrancou muito bem, aí estava um homem amante do livro [Rui Martiniano]. A Hiena começou com...

Uma tradução sua, “O Sorriso aos Pés da Escada”.

O [Henry] Miller, exactamente. E quando me vieram dizer até fiquei zangado. Porquê? Não foi por terem editado, nunca faço reedições, muito menos isso, uma coisa que tinha feito na Ulisseia há não sei quantos anos. Foi por não me ter dito nada. Então alguma vez eu ia levantar qualquer problema em o homem usar o prefácio ou a tradução ou coisa assim. Então de todo em todo não me estava a conhecer. O trabalho aqui quem quiser tira, o “copyright” é dos autores. O etc não tem “copyright”. É sabido que em “n” casos sou um editor pirata. Sim senhor, corro esse risco. Também lhe digo que essas piratarias nunca foram feitas sobre autores vivos, ponto um. Ponto dois, nunca eu retirei delas um tostão de lucros. Ponto três, parte das piratarias aqui feitas são de pequenos textos, laterais à obra dos autores, com tão pequena dimensão, que até os vendedores do “copyright” não vendem por não terem interesse comercial nisso, o que quer dizer que se deixam de publicar uma quantidade de coisas por causa do “copyright”. Então, eu borro-me para o “copyright”, podendo apanhar uma denúncia, sim senhor,

Para passar os livros.

São ainda piratarias poéticas. Então tive pena, pena, de projectos como a Hiena, ou quando o Fenda foi abaixo – felizmente o Vasco tem sabido pô-la em pé. De certo modo a Fenda também nasceu por causa da etc. Ou como a Contexto, que foi abaixo.

[e a Averno, que continua, mas já tinha acabado a terceira cassete.
Foi assim que ficou por gravar a história de quando Herberto Helder e Vítor Silva Tavares foram do Tony dos Bifes para a Polícia Judiciária participar uma contrafacção]

13.7.07

Declaração de Voto

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11.7.07

The horror, the horror!

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Estas fotos referem-se a dois condomínios na zona de Sete Rios, com os sugestivos nomes de Green Park e Quinta das Mil Flores. Deve ser um dos sítios mais feios de Lisboa, mas basta fazer uma breve pesquisa pelas imobiliárias para perceber que há mesmo quem dê muitos milhares de contos para viver aqui!

Aqui está uma coisa que também sempre me intrigou

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"E eu que pensava com ingenuidade que quando se têm cem mil contos para dar por um apartamento em Sete Rios, já se atingiu um nível de sofisticação tal que não se quer viver em Sete Rios."
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[Clara Ferreira Alves, no artigo aqui em baixo]
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A Lisboa de Clara Ferreira Alves

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LISBOA OU O AMOR FALHADO
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A minha história com Lisboa é uma história de amor que acaba mal. Começou bem, acaba mal.
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A minha primeira casa em Lisboa era uma casa em frente ao Jardim Zoológico, para as bandas de Sete Rios. Um pequeno apartamento que herdei de um amigo e onde instalei a minha primeira casa da idade adulta, que é uma casa que, compreensivelmente, nos enche de felicidade. Embora Sete Rios seja já uma zona de princípio do fim, uma zona onde a cidade deserta interliga com a cidade dormitório e onde, ao fim da tarde e à hora de ponta, se sente o cheiro a periferia urbana misturado com o gasóleo queimado e a gasolina dos transportes públicos, se sentem a urgência e a pressa de chegar ao destino da gente cansada e olhar parado. Do meu minúsculo T1 a caminhar para T0, via por cima dos muros altos as florestas exóticas do Jardim, soprava com o vento um cheiro a animais de África, e ouvia com melancolia, pela manhã dentro, o elefante a tocar com a tromba a sua campainha. Ao longe, apurando a vista, quase se viam os leões a navegar e se pressentia o riso nocturno das hienas. Afeiçoei-me ao lugar, que tinha uma vida de bairro, com a mercearia, a farmácia e a tabacaria, isto antes de desembarcarem o stand de automóveis, a casa de pronto-a-vestir e, um pouco mais à frente, os condomínios de luxo com nomes vistosos em inglês, Atlantic Park, Atlantic Mansions, Atlantic Gardens, Atlantic não sei que mais.
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Os das empresas imobiliárias iam deixando brochuras lustrosas e caras nas caixas do correio, com um aroma a papel fino, a assegurar que com uns bons milhares de contos a mais eu podia ter uma vida traduzida em língua inglesa, com porteiros, seguranças, vigilantes, recolhas de lixo automática, garagem, televisão nos quartos todos, telefone nas casas de banho todas. E eu que pensava com ingenuidade que quando se têm cem mil contos para dar por um apartamento em Sete Rios, já se atingiu um nível de sofisticação tal que não se quer viver em Sete Rios. Enfim, eu tinha a nostalgia da Lapa e dos palácios arruinados, dos bairros residenciais antigos com árvores nas ruas e com casas de dez assoalhadas, dos lugares de Lisboa onde se podia viver com cem mil contos e olhar o Tejo das janelas. Sete Rios era um arremedo, um subúrbio urbano, era para os tesos como eu. Enganara-me. Lisboa começava a ficar tão cara que Sete Rios se tornava uma pequena Manhattan à escala. A Lisboa dos condomínios fechados, essa cidade aprisionada dentro da cidade, chegava-me à porta.
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Mudei-me. A primeira casa era pequena e cara, eu tinha muitos livros e pouco dinheiro. Arranjei, ou devia dizer arranjaram-me, uma casa ali para as bandas de São Bento, em pleno ghetto, ao dobrar da esquina da Rua das Gaivotas. Instalara-me na Lisboa do coração, das casas esfoladas, dos gatos vadios, das vielas, das lojas de indianos e negros, dos electrodomésticos a prestações, dos prestamistas, da coscuvilhice das vizinhas. Tendo desde sempre alimentado um amor insensato pela Calçada do Combro, desatei a subir todos os dias a Rua do Poço dos Negros em direcção ao Largo Camões. Escaldada do ruído de carros de Sete Rios, aquela Lisboa popular sabia-me bem, e apreciava-lhe o traçado vesgo das ruas, as pedras de basalto onde se enterravam os saltos, os muros derrubados com a buganvília a florir, os empregados do comércio à hora do almoço, as tascas com cherne nas montras e as leitarias com bolos de véspera. Como diria o Alexandre O’Neill: sigamos o cherne. Eu segui.
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O que eu gostava daquele bairro, cheio de cabo-verdianos, uma gente que toda a gente dizia ameaçadora e que eu achava dócil e prestável. Tinha por essa época uns vizinhos brancos, galegos, medonhos, que batiam na mãe e que eram o exemplo de toda a virtude manchada das raças superiores. Eram uns monstros. Os negros, pelo contrário, enchiam as ruas de música e bebedeira e gingavam como se estivessem nos trópicos. Tal como no Zoológico, eu vivia em Lisboa como numa ilha salpicada de exotismo e estranheza, de viagens e distância.
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Um dia, estando o prédio arruinado, como todos os do bairro, e achando que estava farta das baratas e da vizinhança de uma ratazana a que a galega chamava, rebolando os olhos, um leirão, pisguei-me. Arranjei uma casa mais à frente, na Rua da Boavista, para a qual tinha de galgar o equivalente a seis andares de pedra se queria entrar em casa. Passado o beco e o esforço da subida, as janelas tinham uma vista por cima dos telhados e dos jardins até à outra margem do rio. Era uma casa misteriosa, que ficava ao nível de Santa Catarina, e que parecia um anexo desnorteado de um edifício apalaçado. Tinha dois portões, e tinha um terraço onde eu me imaginava ao entardecer a beber gin tónico e a contemplar os crepúsculos.
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E tinha um rio ao abrir e fechar das mãos, e via, sentada na minha sala, os cacilheiros a atravessar o Tejo como pássaros silenciosos rumo ao sul. A casa era maluca mas, eu amava-a com desespero, e dei por mim a amar Lisboa da mesma maneira. Levantava-me de madrugada e nas horas cor de violeta deslizava até ao Cais do Sodré a perseguir o fantasma de Pessoa pela pedra do Cais das Colunas. Comprava flores no mercado da Ribeira e entabulava conversas com as varinas negras, varinas de Luanda, com a pele suada mesmo no pino do Inverno, e os pés muito largos plantados como árvores neste canto da Europa que acolhera a sua miséria sem reparar. As varinas tinham regressado com as caravelas.
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O Tejo, benefício brutal que a natureza nos concedeu e que mal soubemos aproveitar, tem um esplendor que varia consoante as estações do ano. Liso e manso e azul ou verde de Verão, cinzento e metálico e atiçado no Inverno, quase sempre caprichoso e perigoso. O Tejo tinha suicidas, e pescadores, e velas rasgadas, e um cheiro a maresia. Fiquei a conhecer toda a zona com o escrúpulo de um explorador em busca dos restos do Oriente. A Rua do Arsenal, os secos e molhados, o Largo de São Paulo, o Corpo Santo, os bares mal afamados acotovelados pelas igrejas virtuosas, os restaurantes da tradição, as lojas de trezentos e quinquilharia chinesa, os despachantes da Alfândega. Os bares do José Cardoso Pires, o British e o Americano, onde nos encontrávamos às vezes para pôr a conversa em dia e ele me passar a memória daquela Lisboa de luz e de tempo, com anedotas pícaras e restos de fado. O Zé amava Lisboa, não apenas aquela, toda ela, da Graça à Mouraria, dos Olivais a Benfica, do Areeiro ao Terreiro do Paço.
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Um dia, Lisboa começou a arder. No Chiado, lembro-me de ter tido vontade de chorar, com medo que o fogo devorasse a cidade onde eu me habituara a sonhar um livro que andava a escrever e que metia Pessoa e Camões, projecto que abandonei e ao qual regressarei. No entretanto, eu esperava um filho, e os seis andares da escadaria mais o beco mal iluminado pareciam-me intransitáveis a pé e com um bebé.
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Mudei-me. Como sou conservadora, voltei, pasme-se, para Sete Rios, precisamente para uma dessas torres com tudo incorporado, elevadores, garagens, lavagens, esplendores. Era uma torre das mais modestas, a primeira torre do Taveira em Lisboa, diziam-me, coisa que não me fazia sentir lá muito bem. Era branca, apesar de tudo, e discreta. E prática. Estava rodeada de PP’s e PSD’s conhecidos, que por esse tempo governavam Portugal e possuíam a notoriedade dos políticos “du jour”. Estava rodeada de tipos da Universidade Católica, paredes meias. E das janelas avistava os condomínios fechados e atlânticos, todos voltados para as auto-estradas e de costas voltadas para o rio, e avistava a sombra pesarosa do Hospital de Santa Maria e do Hotel Penta, mamarracho sem história nem nome. Tinha ainda direito a um pedaço de Monsanto e da Ponte 25 de Abril, onde despontava a manhã.
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Então, começaram a surgir as estradas, os ramais, os criles e creles e ipês, e o diabo a sete, e Lisboa chegava a Sete Rios entrelaçada de fitas de asfalto, laços e ramalhetes de vias e carros em bicha, buzinas, confusões com direcção apontada em letreiros. Parecia que estava a viver nos arrabaldes de Los Angeles. Deprimida, fugi da torre a sete pés, tentando escapar para perto do Jardim das Amoreiras; que me parecia o que de mais parecido havia com um jardim inglês, a ordem e a beleza do “square”. Tinha saudades de Londres na terra do sol. Pelas Amoreiras me tenho mantido, assustada de mudanças, embora já vá na segunda casa no dito bairro.
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Como muitos habitantes de Lisboa, não tenho dinheiro para morar na Lapa nem tenho dinheiro para sustentar o preço da especulação imobiliária da cidade, que faz dela uma das mais caras da Europa. O pior não é isto. O pior é que me desinteressei de Lisboa primeiro, e quase passei a odiá-la, depois. Já não passeio a pé em Lisboa, porque os carros são tantos que corro o risco do atropelamento ou da intoxicação com dióxido de carbono. Ou será monóxido? Não interessa, respiramos fumo de escape. Ao fim da tarde, o bairro onde moro tapa os ouvidos por causa da sinfonia cacofónica de buzinas e motores a arrancar na grande marcha em direcção à auto-estrada. Durante o dia, alarmes de carros tocam desvairados, e o trânsito nunca pára o seu resfolegar de animal selvagem e enfurecido. O bairro perde a pouco e pouco a vida de bairro, os arrendamentos comerciais substituem os de habitação, não há onde estacionar, o pavimento tem buracos das chuvas e os preços aumentam por causa da fidalguia dos escritórios. Os escritórios andam povoados por meninos e meninas de fato completo de risca e saia-casacos pregueados, camisas e gravatas que discutem com avidez saldos e percentagens por entre duas trincadelas ao almoço, e cujos patrões, ou os serviçais deles, despejam na rua toneladas de lixo de papel que fica a voar todo o dia e ao fim-de-semana. Os caixotões da reciclagem, a transbordar, nunca são despejados, e parecem vir de um Terceiro Mundo a lembrar ao Primeiro que a Câmara tem mais que fazer. A sujidade da rua onde moro só diminui com a limpeza oficial das bátegas do Inverno, e amontoa-se no Verão, deixando no ar um odor a pó e fruta podre. Resiste o Jardim das Amoreiras, belo, sapiente, que os velhos e as crianças frequentam com medo de atravessar as ruas para lá chegar. Os carros, dentro e fora, acima e abaixo, ignoram-nos e quase os atropelam, e vejo muitas vezes no olho esgazeado do ancião, o terror de não conseguir chegar ao outro lado. As passadeiras têm carros em cima, os passeios têm carros em cima e as pessoas têm carros em cima. Nunca consigo escutar o som do silêncio. E já não vejo o rio, cada vez mais caro. Como dizem os agentes imobiliários: com vista de rio são mais dez mil contos.
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Lisboa pertence, agora, a duas espécies de gente: os turistas e os suburbanos. Para os turistas, raça mais alegre, Lisboa alinda-se, constrói elevadores, ergue hotéis e patamares, pinta a cara de fresco. Para os suburbanos, raça mais tristonha, Lisboa constrói parques de estacionamento e centros comerciais. A cidade, esventrada e desfigurada, destruída e voltada do avesso, abre-se para acolher os carros, sempre mais carros, para as pessoas poderem andar pelo “centro histórico” como quem anda dentro de um centro comercial. O Camões, o Terreiro do Paço, a Praça da Figueira, o Rossio das minhas deambulações de outrora, perdem-se entre tapumes, canos à mostra, pedregulhos e desalinho, obras inacabadas, passos perdidos, e o fantasma de Pessoa desertou o Cais do Sodré, atormentado pelo ruído dos caterpillars e os bares e restaurantes da moda. Lisboa moderniza-se, desenvolve-se, enriquece, abastece. Abastarda-se. Estaciona-se. Parece que querem destruir as árvores do Príncipe Real, e fazer um estacionamento subterrâneo. Não posso acreditar! E até o Patriarcado, li algures, vai prudentemente explorar um parque de estacionamento no Alto do Parque Eduardo VII, ao lado do Corte Inglês. Lisboa fica a ter mais um shopping para passear aos domingos.
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Lisboa envelheceu mal, e fez o lifting errado. Gorda, inchada e rica, toda orgulhosa das suas lojas de luxo ao Chiado, enquanto vai matando os cafés e poluindo as fachadas dos prédios com placas dos bancos e caixas Multibanco. A decadência e a pobreza espreitam nos intervalos e rasgões no pano do novo-riquismo, e muita desta arquitectura ostensiva, mastodôntica e sul-americana no porte e na forma, contribui para dar à cidade o tom de uma Caracas melhorada.
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Nos dias de chuva, quando o sol deixa de iluminar a fisionomia urbana, Lisboa mostra a sua face hedionda, o seu abandono, o seu desordenado plano. Sem habitantes por dentro, cheia de escritórios e assalariados que dela saem ao fim do dia, Lisboa não tem uma cultura de bairro e de comunidade, não tem uma Baixa, não tem um lugar de encontro e de passeio. Sem querer ser como as cidades italianas, Lisboa poderia ter tido, ao menos, a preocupação de não destruir a sua qualidade meridional. Lisboa amontoou-se em equívocos urbanísticos e projectos metropolitanos de dinheiro fácil. E os cidadãos de Lisboa, estirados, poluídos, desarranjados, não a amam nem a estimam. Despejam com gestos bruscos os cinzeiros dos carros nas ruas, enchendo o passeio de beatas, e deixam à porta saquinhos de supermercado com lixo, que nunca, oh nunca, cabem nos contentores camarários. Num dia de feriado, que seja pardo e de aguaceiro, Lisboa é lixo e cicatriz, é solidão e decrepitude, é melancolia e neurastenia. O sol não a liberta do Sentimento de um Ocidental. Lisboa repassada dos versos de Cesário Verde, sem a grandeza poética e sem o destino entrevisto no horizonte. Soturna e cheia do absurdo desejo de sofrer.
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Eu detesto esta Lisboa moderninha e apressada, desumanizada, que vai expulsando o passado e os seus habitantes e construindo casas estrangeiradas, modas importadas, blocos de cimento, grandes superfícies. A cultura do automóvel matou Lisboa, e o condomínio fechado sobrepõe-se à arquitectura do bom-senso. É uma Lisboa pimba, um folheto de publicidade, um jogo da Lego.
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Podia ter sido tudo tão diferente.
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[Clara Ferreira Alves, in Cidadania e Qualidade de Vida Contra a Exclusão, BE, 2001]

10.7.07

A Naifa "Música"


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Música
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Como um raio a rasgar a vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma cidade secreta
a levantar-se do chão, como água, como pão
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Como um instante único na vida, como uma flor
a florir desmedida, como uma pétala dessa flor
a levantar-se do chão, como água, como pão,
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Assim nasceste no meu olhar, assim te vi,
flor a florir desmedida, instante único
a levantar-se do chão, a rasgar a vida,
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Assim nasceste no meu olhar, assim te amei,
vida, água, pão, raio a rasgar uma cidade secreta
a levantar-se do chão, flor a florir desmedida
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[José Luís Peixoto]

6.7.07

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"Surrealismo é ultrapassar, oniricamente, aquilo que o realismo nos dá, enriquecendo esse realismo com o imaginário."
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[José-Augusto França, na entrevista aqui em baixo]
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"Agora também já não há cafés em Lisboa. Em Paris não se vê uma esquina sem cafés. Trabalha-se muito mais mas as pessoas têm tempo para ir ao café, ler os jornais, estão ali meia ou uma hora e vão à sua vida."
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[José-Augusto França, na entrevista aqui em baixo]
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"Olhei dez mil quadros, vi mil, estudei cem e compreendi dez. "
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[José-Augusto França, na entrevista aqui em baixo]

José-Augusto França em entrevista ao Diário de Notícias (2004)

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(imagem tirada daqui)

Os cardiologistas já descobriram as escadas do seu quarto andar para a prova de esforço?
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Acham que faço bem subir duas vezes por dia. Há uma técnica de respiração para subir escadas. E só tenho uns 57 quilos...
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Ao fim de tanto ver e escrever sobre os outros, sobretudo na área das artes plásticas, que o levou a voltar-se agora decididamente para a ficção?
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Quando escrevi Memórias para o Ano 2000 arrumei aí toda a tentação confessional e idealista, vacinei-me dessa tendência, o que me permite fazer romances que nada têm a ver com memórias.
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Em nenhum romance o autor estará como papel branco. Basta lerem-se o seu Buridan e o mais recente Regra de Três...
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Os romances têm sempre a ver com experiências do autor. É preciso, no entanto, distinguir o sujeito do complemento directo. Não conheci nenhuma das personagens tal como se apresentam nesses livros.
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E nos contos (acabou de publicar Cem Cenas Quadros e Contos) há um certo desespero existencial?
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Escrevo-os à mão e surpreendem-me sempre. Nunca sei o que vai acontecer, é como na vida. A literatura está muito perto da vida nesse sentido da surpresa, da imaginação permanente.
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Sendo um homem da investigação, da realidade, depois dos 80 anos a ficção é para se compensar?
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Sou investigador da realidade como historiador. Investigo e procuro aproximar-me da realidade com os dados que a investigação me dá. Ou então posso imaginar essa realidade, aí é o romancista. Ambos estão diante da realidade, um investiga, o outro imagina. O poeta cria, isso é outra coisa.
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Romancista não é um criador?
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Cria porque faz coisas, o historiador também. Mas a criação total é o poeta quem a assume. O mais alto é o poeta, sempre. Estou à vontade porque o não sou.
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Sei que faz poesia. Por que não publica?
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O poeta tem de ser profissional. Profissões tenho estas: professor, historiador e romancista. Considero-me profissional do romance, não é fantasia de um octogenário que desatou a fazer romances; faço-os com toda a consciência profissional.
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Existem correntes defendendo que a arte deve ter um sentido amador...
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Dizia António Pedro: «Amador é aquele que ama».
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Por isso mesmo...
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Mas é preciso saber amar. Não basta fazer olhos bonitos à menina, é preciso fazer alguma coisa mais para que o amor se realize…
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Amor não dispensa a estética...
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Estética, com certeza, sou, todavia, contra o arrebique na forma.
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Não gosta do barroco?
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O barroco serve muito bem os portugueses, é a maneira de encher o espaço para não dizer nada.
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Os grandes mestres do barroco são nada?
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Falo do barroco tal como em Portugal foi assumido, que não é o espanhol nem o italiano. Sou pelo Nuno Gonçalves, pelo Marquês de Pombal, pela Lisboa pombalina, contra a Lisboa joanina.
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Alguma vez analisou os painéis de Nuno Gonçalves?
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Todos aqueles rostos são de gente que está a fazer qualquer coisa para Portugal, a fazer um país novo. Como aquilo foi feito? Ninguém sabe, mas quanto mais teses melhor. É a maior pintura do ocidente europeu do século XV.
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Nunca se enganou nas suas críticas?
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Com certeza, porém não muito. Talvez tivesse deixado passar uma ou outra coisa que mais tarde procurei recuperar. Tenho uma carreira conscienciosamente consciente.
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Enquanto historiador e crítico foi educando o olhar?
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Na arte só há uma maneira de lá chegar: ver, ver, ver. Escrevi uma vez: Olhei dez mil quadros, vi mil, estudei cem e compreendi dez. Uma obra de arte é uma garrafa deitada ao mar, encontra-se ou não se encontra.
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Como podem as culturas, por exemplo, fomentar o terrorismo?
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Não são as culturas que fomentam o terrorismo. Há interesses que se servem das culturas para desencadearem processos circunstanciais. É preciso anular, económica e politicamente, esses interesses.
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É das pessoas que faz o que gosta, nem todos conseguem. Não é esse um dos dramas das novas gerações?
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O que gostam não será, sobretudo, queixarem-se de não poder fazer? Quando não me deixavam fazer uma coisa não me queixava, procurava reagir. Não fui o único. O remédio não é cantar o fado sobre o que nos acontece, o que é uma coisa muito portuguesa. Antigamente ia-se para os cafés e às vezes aquilo também era o fado do desgraçado... Agora também já não há cafés em Lisboa. Em Paris não se vê uma esquina sem cafés. Trabalha-se muito mais mas as pessoas têm tempo para ir ao café, ler os jornais, estão ali meia ou uma hora e vão à sua vida.
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Em transportes acessíveis...
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Também é muito importante. Os jornais da tarde em Portugal desapareceram porquê? Porque acabaram os cafés da Baixa. As pessoas saíam às seis horas, passavam pelo café, compravam o jornal e apanhavam o carro eléctrico para casa. Hoje não é possível, falta igualmente o carro eléctrico.
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Há alguns. O eléctrico ainda poderia ser uma boa solução de transportes públicos?
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Está a pensar-se nele outra vez, no trólei, até em França. O que empata o trânsito não são os eléctricos mas sim os automóveis. Sou apologista dos eléctricos, que estão a regressar a algumas cidades europeias. Concordo, por exemplo, com a aplicação do eco-imposto; em Londres já fez diminuir a circulação de carros na ordem dos 16 por cento. França também está a pensar aplicar essa medida. Fazia grandes passeios de carro eléctrico.
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Em especial no 28 que lhe inspirou um livro. Alguma peripécia de que se lembre nessas viagens?
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Lembro-me de uma corrida atrás de um carro eléctrico com Eduardo Lourenço. Estávamos em Campolide, ele vinha jantar a minha casa e dissemos: Vamos apanhar o eléctrico. Começámos a brincar com a história dos Maias, de Eça de Queirós: «Ainda o apanhamos, ainda o apanhamos». Corremos. Eu, mais rápido, saltei para o eléctrico e vi-o aflito, pálido, fiquei assustadíssimo. Ele a dizer: «A gente já não tem idade p'ra isto». Tínhamos 50 e tal.
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Para a velocidade da vida actual, o eléctrico não anda muito devagar?
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Nós é que andamos depressa demais. Criou-se um vício de velocidade e de comunicação. Toda a gente na rua a falar ao telemóvel... Como é que em tão pouco tempo se criou esta nova necessidade? Não se criou uma necessidade, criou-se uma moda.
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Não se criando novas necessidades ficaríamos na Idade da Pedra...
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Precisamos de saber distinguir entre necessidade e ilusão. Não sou economista, mas está a discutir-se, seriamente, se não seria bom para a humanidade o regresso a situações mais modestas quer de comunicação quer de produção. O progresso não é um progresso estético. Picasso não é melhor que Ticiano, nem Ticiano melhor que Picasso. Cada época tem as suas perguntas e as suas respostas, porém, às vezes tem mais respostas que perguntas.
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Diz Maupassant (personalidade que lhe é grata) que «cada artista se esforça por dar e impor a sua ilusão aos outros». Não necessitamos todos de ilusões?
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Mas não devemos ser ilusionados. Não devemos ser vítimas das ilusões dos outros. Veja-se o êxito dos hipermercados: uma pessoa vai lá para comprar uma coisa e acaba por comprar dez. E à saída descobriu que se esqueceu de comprar aquela de que precisava.
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Tem com Lisboa uma relação de amor-ódio?
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Vivi em muitas casas e muitos bairros. Conheço bem Lisboa, o cheiro de Lisboa. A partir dos «alvalades» é que já não sei nada. No tempo do meu pai, o Campo Pequeno era fora de portas e ainda se ia passar o Verão ao Campo Grande. Hoje, para mim, Sete Rios é um mistério. Fico indignado com certas coisas mas não tenho nenhum ódio a Lisboa. É uma linda cidade, ondulada e não só fisicamente. As pessoas são diferentes de um sítio para o outro.
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A capital portuguesa é o exemplo acabado dos fluxos imigratórios?
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Nos anos 20 ninguém tinha ainda nascido em Lisboa. Era uma imigração que de todo o lado vinha, cresceu durante esses anos, agora parou. De um milhão de habitantes que se contava para Lisboa estamos só com 700 mil. As pessoas vão para a linha ou para a outra banda. Chega a noite, as ruas ficam desertas e começam a ser perigosas.
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Lisboa teve uma vida nocturna intensa que passava nomeadamente pelos cinemas e teatros...
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Em cada bairro havia um ou dois cinemas, eram um núcleo de convívio, os cinemas viviam dos seus bairros. As pessoas não ficavam em casa como hoje. Calcorreei Lisboa (e Paris) de lés a lés para ver filmes. Os cinemas estão agora mais em supermercados e coisas assim. Desapareceram todas as minhas referências topográficas dos cinemas de Lisboa.
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Um público mais jovem responde bem a essa nova localização das salas de cinema...
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Responde?, não sei. As salas são mais pequenas, mais fáceis de encher. Vou muito à Cinemateca mas também está pouca gente.
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Parque Mayer, que lhe parece?
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Tenho uma pergunta: conseguiu-se fazer a chamada «movida» do Bairro Alto, a da 24 de Julho, não será possível uma «movida» no sítio do Parque Mayer?
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Uma «movida» que fizesse a integração de tempos?
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Que recuperasse valores antigos, restaurantes, cabarés, cinemas, teatros. Coisas que pudessem chamar outra vez gente à Avenida da Liberdade. Acho possível e sem a batota, a batota vão pô-la noutro lado mas sou contra a batota em qualquer sítio.
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Teatro de revista ainda faz sentido?
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Desapareceram as grandes parcerias de autores, no entanto poderá aparecer nova gente com novas fórmulas. Há hoje uma liberdade de crítica que a revista pode reflectir como aconteceu nos anos 20 e 30 antes de Salazar. O próprio aspecto erótico do Parque Mayer desapareceu, contudo é possível adaptá-lo a novas situações.
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Em termos geracionais, os gostos vão ganhando outro perfil à medida que se atinge a maturidade?
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A responsabilidade e as chatices da vida modificam as pessoas. Veja-se o fenómeno do futebol. É um fenómeno contínuo, permanente, lúdico. As gerações sucedem-se e os velhinhos, avós, pais, filhos, netos e bisnetos vão gritar pelo seu clube. Julgo ser possível, em relação a outro tipo de divertimento, criar-se psicologicamente um discurso oscilante mas contínuo. Todas as sociedades são movidas ludicamente.
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Lisboa está a reconciliar-se com o rio?
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Com a reconquista da beira-rio, Lisboa está a recuperar-se. É bom porque Lisboa é o rio.
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Mantém a expectativa de ver a Baixa de Lisboa declarada património mundial?
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Ainda não tem condições neste momento mas tem potencialidades. Se houver uma boa gestão do actual e uma boa projecção para o futuro, por que não? Essas coisas passam por dois estádios: primeiro fica-se uns anos no purgatório; depois, quando as condições estiverem reunidas, faz-se a votação. Lisboa entrará com certeza porque é a primeira capital moderna do mundo, não só da Europa.
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Um cantinho de Lisboa que gostasse de dizer-me: não se esqueça de ir ver...
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O Alto do Longo, uma aldeiazinha no Príncipe Real (que foi já passada a polimento...) Andei lá uma noite com Amália. Ela queria fazer uma casa de fados em Lisboa. Marcelo [Caetano] tinha-lhe prometido a Casa dos Bicos. Disse-lhe que a Casa dos Bicos não era para o fado e levei-a ao Alto do Longo, ficou encantada, isto há 30 anos. Mais adiante está o Pátio do Tijolo, com o palacete onde morreu Fontes Pereira de Melo.
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Se fosse presidente do município lisboeta qual a primeira medida que tomaria?
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Faria como Duarte Pacheco quando foi nomeado presidente da câmara. Desceu a Avenida da Liberdade com um colaborador, a ver aqui, acolá. É preciso ver de perto as pequenas coisas, essa é a maneira de salvar a cidade.
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Como caricaturaria Bordalo Pinheiro a actualidade portuguesa?
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Tinha pano para mangas.
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Criava outro Zé Povinho?
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O dele chega perfeitamente. Já reparou que o Zé Povinho nasceu no mesmo ano do Desterrado, de Soares dos Reis? O Desterrado muito triste e o outro a fazer os seus cumprimentos. Portugal está entre as duas coisas. Queres saudades, ora toma!
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O humor está em crise?
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Fazem-me rir mais os comentaristas sérios.
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A sua mordacidade...
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Não é mordacidade. Por que diabo um sujeito há-de ter opinião todos os dias sobre uma coisa?
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Gostava de poder voltar a nascer?
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Qualquer dia tenho um bisneto, chega.
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«ENSINO DE ARTES COM ATELIERS LIVRES»
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A arte passou a estar mais sujeita às modas dos mercados?

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Em Portugal menos, na medida em que não temos realmente um mercado de arte. Um mercado leva três gerações a fazer; estamos numa primeira geração, a anterior abortou. Houve uma explosão mercantil em princípio de 70 com a primavera marcelista; a seguir ao 25 de Abril caiu a pique e, a partir dos anos 80, voltou a subir, todavia não há profissionais no mercado. Há pessoas com uns conhecimentos e umas relações.
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Desapareceu a figura do «marchand»?
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Agora chamam-se galeristas, uma moda de linguagem; mas se vendem têm de chamar-se «marchands» e não galeristas. Alguns são de uma ignorância crassa.
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Acaba sempre por aparecer um público interessado na aquisição de arte?
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Há bancos a investir em arte, bem ou mal orientados não sei, às vezes vejo que estão a ser mal orientados e acabam por criar falsas valorizações. Temos em Portugal artistas desvalorizados porque existem outros cuja promoção é mais indiscreta. Alguns coleccionadores estão a passar ao lado de coisas que não sendo moda são valores sólidos. O comércio de livros de antiguidade, por exemplo, caiu imenso. Todos os alfarrabistas se queixam. Há um leilão e os preços não levantam voo.
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Em termos de qualidade criativa também é céptico?
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Não sou céptico. Não temos actualmente nenhum génio, situamo-nos numa qualidade-média internacional. Não vejo hoje nenhum artista que marque uma posição como, por exemplo, uma Vieira da Silva.
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Essa é a tese «depois de nós o dilúvio». Não está muito fechado num tempo?
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Há sempre pequenos dilúvios. A terra enxuga outra vez. Não é o fim da história.
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O fim da Colóquio/Artes, que dirigiu, uma lacuna não mais preenchida?
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Tenho a impressão que a única pessoa que na Gulbenkian lia a Colóquio/Artes era o dr. Azeredo Perdigão, e lia de fio a pavio. Mas as publicações são mortais e as fundações também.
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Aumentam os divórcios na cultura?
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Qual é a taxa de analfabetismo em Portugal? E não só o analfabetismo, o iletrismo. As pessoas sabem ler e escrever, contudo, não lêem nem escrevem. São alfabetizadas estatisticamente todavia são iletradas de uma maneira muito mais grave. Mesmo os alunos das faculdades não têm capacidade de crítica; chega-se ao fim de um curso de 30 pessoas e só três ou quatro não ficaram pelo caminho. Acabam por ser doutores mas não se cultivaram na sua função discente. Não acontece só em Portugal, os franceses, por exemplo, queixam-se do mesmo.
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O ensino das belas-artes deveria ser reestruturado?
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Deveria passar, a meu ver, pela criação de uma base teórica estruturada e por um sistema de ateliers livres em que o professor seria escolhido ad hoc. Defendi isso ao presidir recentemente à comissão de avaliação desse ensino.
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Não se alterou entretanto o conceito de cultura?
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Foi alterado com a desculpa de que a cultura não deve ser elitista. O problema não é que seja elitista ou não, o problema é que deve exigir-se de cada um de nós capacidade de fazer parte dos melhores, de uma república aristocrática no melhor da palavra, e não por cunhas, por batotas. Tivemos uma geração que deu cartas na vida portuguesa: a da Primeira República; depois o Estado Novo representou uma cilindragem política e social. Temos hoje excelentes cientistas que andam pelo estrangeiro mas Portugal foi um ponto de partida e não de chegada.
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O Estado Novo caiu há muito. Não se inverteu essa situação?
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É isso que me aflige. Tinha três anos quando se instalou a ditadura e saí dela com 50. Sou de uma geração que viveu contra e, quando deixou de haver o contra, ficou-se sem alvo.
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Malraux falou do «tempo do desprezo». Será esse o tempo que vivemos?
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Um pouco. Olho para os meus companheiros de geração com muita estima e admiração por alguns. Poucos se salvaram na passagem para uma nova situação. Tenho alguma vaidade em dizer que fui um dos que se salvou.
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Sonhou com um grande Museu de Arte Moderna em Portugal. Onde está?
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Sonhei um pouco em abstracto. Ainda antes do 25 de Abril, achei que arranjaria dinheiro para isso com um imposto sobre o futebol. Não estou hoje tão convencido da necessidade e da possibilidade. O Museu do Chiado responde na medida do possível. Há pequenos núcleos a fazerem coisas positivas na vida portuguesa. Não podemos ser excessivamente ambiciosos.
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É membro do Comité Internacional do Património. Este núcleo tem logrado os seus intentos?
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A figura de património mundial criada há 30 anos pela UNESCO já salvou muitas coisas de perdição. Deu consciência do valor de património aos respectivos países ou ajudou a mantê-lo em economias mais abandonadas. E criou responsabilidade no detentor de um património específico.
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Como sensibilizar as pessoas para a arte, para o património?
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A arte deve começar pela educação. Quando dos estados-gerais do Partido Socialista, propus estruturar-se o governo português em dois grandes ministérios de Estado: Ministério da Cultura e Ministério da Economia, os outros seriam de serviços. O da Cultura assumiria ainda a educação. Acharam interessante mas deviam ter pensado que não convinha, não quisesse eu ser ministro...
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Chegou a ser convidado ou não?
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João Freitas Branco falou-me... Mas estou muito contente de não ter sido. Acabava por estar lá 15 dias e criava muito má fama, já a tenho. Não sou homem de bastidores, nunca fui candidato a coisa nenhuma. Só quero fazer aquilo de que gosto, neste momento escrever romances. Tenho a ideia de fazer também um romance policial. Encontrei um detective, um historiador de arte...
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Continua a defender que não deveríamos ter ministro da Cultura?
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Para que serve um ministro da Cultura?
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Dramático é ter de perguntar-se para que serve...
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Não serve para muito. Houve um chamado Malraux, que inaugurou um posto, os outros andaram a reboque.
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A memória é um património?
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É a nossa referência. Ainda vivemos as civilizações grega e a judaica. Os gregos inventaram o logos, pensamento. Os judeus inventaram outra coisa: o daath (grafia ocidentalizada). Daath, o conhecimento sensível que poderá ser físico também. É o conhecimento por penetração das coisas, que pode ser até sexual no sentido do conhecimento do outro através de um coito.
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Dois pólos fundamentais, o intelectual e o sensível?
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Dão-nos o conhecimento. Ai do desgraçado que seja um racionalista puro e simples, passa ao lado de uma data de coisas. Ai do que passe também a vida a sentimentalizar todas as situações porque fica à margem do conhecimento.
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A razão não tem de afastar as emoções, Damásio o diz...
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Damásio está a chover no molhado. O que ele diz, os surrealistas sempre o disseram.
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Os surrealistas andam mais pelo sonho, embora o sonho passe pelas emoções...
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O surrealismo é um dos elementos do realismo. Vivemos na realidade e essa realidade pode ser também sonhada mas quando estou a sonhar crio realidade. Não vivemos no irreal. O contrário de realismo não é surrealismo, é irrealismo. Surrealismo é ultrapassar, oniricamente, aquilo que o realismo nos dá, enriquecendo esse realismo com o imaginário.
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Há quem afirme que, na arte, o real mata.
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Copiado, mata. Michaux dizia que o mal não está em pintar a vaca, está em não pintar a alma da vaca.
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Tenciona pintar alguma tela?
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Não. Mas vou atirar-me a um romance sem fim, vou morrer a escrever um grande romance, uma sinfonia inacabada.
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Habituamo-nos a um José-Augusto França que diz não ser nostálgico mas acabo de ver como é capaz de se emocionar...
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Sou um sentimental como todos os portugueses.

Alguns poemas de Senhor Fantasma aqui e aqui.

5.7.07

Já está nas livrarias

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A esperança entre as urtigas
quanto mais crescer mais será
rasgada
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[Pedro Mexia, in Senhor Fantasma, Oceanos, 2007]

2.7.07

Miguel Sousa Tavares e a "pirataria impune" em Lisboa

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LISBOA E TEJO E TUDO
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Pois então, lá vamos outra vez. A distinta Administração do Porto de Lisboa (APL) está lançada em mais uma tentativa de nos roubar parte do Tejo. Agora é o projecto do novo terminal de passageiros de paquetes em Santa Apolónia. Um muro de construções de oito metros de altura por seiscentos de comprido (!), que inclui centros comerciais e hotel. Também na zona do Cais do Sodré está a nascer, a uma velocidade incrível, uma construção maciça, em cima do rio, e que vai quase até ao Terreiro do Paço, eliminando uma zona de jardim, de passeio e de vista. Suponho que seja também obra do porto de Lisboa, uma vez que nenhuma placa no local indica do que se trata e eu já sei que, à beira-rio, do Parque das Nações a Algés, mandam esses senhores e ninguém tem mão neles.
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Este porto de Lisboa é verdadeiramente um «case study» de pirataria impune. Têm ao seu dispor a melhor de todas as zonas da cidade de Lisboa: 13 quilómetros de frente de rio — um luxo em qualquer cidade do mundo. São terrenos do domínio público marítimo, isto é, terrenos públicos, cuja atribuição à APL tem como único fim e fundamento a sua alocação à actividade portuária. Mas como, devido ao triunfo do transporte por terra e por via aérea, grande parte desses terrenos se tornaram desnecessários para o porto de Lisboa, a APL, em lugar de os entregar à Câmara e à cidade, visto que deles já não precisa, insiste em entregá-los antes à especulação imobiliária, transformando-se a própria APL em promotor imobiliário. Sem ter de se sujeitar ao PDM da cidade, sem nada dizer à Câmara e sem se preocupar minimamente em saber se por acaso os lisboetas se importam de ver o rio entaipado. Já escrevi sobre isto inúmeras vezes e de cada vez parece que é necessário repetir a evidência: estas cíclicas tentativas da Administração do Porto de Lisboa de se comportar como dona do Tejo, sem dar satisfações a ninguém, são ilegais, escandalosamente abusivas e, de tão insistentes, já se começam a tornar suspeitas. Será que não há ninguém que consiga explicar aos senhores da APL que a sua única função é gerir o porto de Lisboa o melhor que souberem e puderem e nada mais?
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Claro que tudo isto se desmanchava em dois tempos com um presidente da Câmara à altura das responsabilidades. Mas quem viu Carmona Rodrigues, na inauguração do Túnel do Marquês, a fugir literalmente dos jornalistas, para não ter de responder a perguntas comprometedoras, percebeu definitivamente, se dúvidas ainda alimentasse, que Lisboa está sem presidente da Câmara. Carmona Rodrigues, não tenho uma dúvida, é um homem sério e bem intencionado: ele quer o melhor para Lisboa, só não sabe é o quê. Não tem dinheiro, não tem projectos, não tem ideias, não tem peso político próprio e nada mais deseja já do que escapar às perguntas, às questões, aos problemas.
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Não é o único culpado. Os primeiros culpados são aqueles lisboetas que confundem política com telenovelas e que resolveram, displicentemente, trocar o melhor presidente da Câmara que Lisboa teve nos últimos trinta anos — João Soares — por um vendedor de banha da cobra que, na primeira oportunidade, se pirou para melhor poiso e, assim que foi despedido por gritante incompetência, voltou à Câmara, para giboiar durante uns meses — como se aquilo fosse uma sinecura pessoal e não um lugar de trabalho. Santana Lopes deixou-nos a Câmara arruinada, os amigos por todo o lado, um casino para o sr. Stanley Ho, um imbróglio policial e urbanístico no Parque Mayer, uns negócios de favor com o Benfica e o Sporting e um túnel no Marquês que, ao fim de quatro anos de atraso, estreou-se incompleto, não se sabendo se é seguro e quanto terá custado ao certo. E foi tudo. Bem feito para os que votaram nele. O pior são os outros, que não têm nada a ver com isso.
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O segundo culpado é Carmona Rodrigues. Primeiro, viveu dois anos a fazer de número 2 de alguém que só existe como número único e a caucionar-lhe todos os disparates; depois, herdou-lhe subitamente a Câmara, com a promessa de que jamais voltaria, mas assim que ele voltou encaixou um “chega para lá!” humilhante sem um protesto; enfim, quando pôde concorrer como número 1 e sem a sombra abafante de Santana Lopes, Carmona não soube escolher a sua gente, não foi capaz de ter um plano de acção nem meia dúzia de projectos mobilizadores e nunca se mostrou à altura de uma vitória caída do céu e só tornada possível pela vaidade suicida do ‘embaixador’ Manuel Maria Carrilho.
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O terceiro culpado é o Partido Socialista, incapaz de perceber que a batalha pela Câmara de Lisboa e por uma gestão exemplar para a cidade podia ser uma luta política de referência e que se limitou antes a imaginar que só interessava ganhar a eleição — e que isso se conseguia com a beleza da Bárbara Guimarães e a esperteza saloia da inacreditável equipa autárquica que por lá tem, supostamente na oposição. Foi, sim, uma derrota política exemplar — das mais merecidas e pedagógicas de que me lembro.
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E passo por cima do desempenho do PCP e do PP na Câmara de Lisboa, apenas dizendo que nunca descortinei motivo para tão generosos elogios da nossa imprensa: nunca dei por que eles fizessem qualquer diferença. Em minha opinião, a CML e a cidade de Lisboa só têm um único rosto de alguém que ali está ao serviço dos munícipes, e é altura de lhe prestar homenagem: é, obviamente, José Sá Fernandes, do Bloco de Esquerda. Por favor, não me venham com aquele discurso «blasée» dos ‘pregadores’ do Bloco de ‘Esquerda’ e “já não há pachorra para os ouvir”: a política mede-se pelos resultados concretos para pessoas concretas, e nada melhor do que a política das cidades para medir esses resultados. A única pessoa na Câmara de Lisboa que eu tenho visto conhecer os assuntos, bater-se pelo bem comum, não ter medo de enfrentar os interesses instalados e os influentes que mandam na cidade e não cobiçar cargos e mordomias nas empresas municipais ou outros ‘tachos’ sempre ao dispor é José Sá Fernandes. A mim tanto me faz que seja do Bloco de Esquerda, do PP ou do Partido da Estratosfera. E não é por acaso que, mais uma vez, ele é o único a denunciar os novos planos de saque e rapina do porto de Lisboa. Que pena que não seja ele o presidente da Câmara neste momento e que a maior preocupação do actual presidente e da actual vereação seja a de saber quantos e quais vão ser constituídos arguidos naquele inenarrável desastre inventado para o Parque Mayer!
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[Miguel Sousa Tavares, artigo publicado há poucas semanas no Expresso (antes da queda do executivo camarário)]