29.1.08

Exercícios de Estilo: a crítica de Pedro Mexia

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Quando saiu a 3ª edição de Exercícios de Estilo, na Estampa (edição que ainda se consegue encontrar nalgumas livrarias), Pedro Mexia escreveu este texto no DNA (suplemento do Diário de Notícias) em 12 de Dezembro de 1998:
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TOMAI LÁ DO PACHECO
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Luiz Pacheco, prosador, panfletário, maldito e tudo, não é apenas uma mascote da má-língua nacional. Na Contraponto editou, com pouco dinheiro, literatura da sua, incluindo a sua. Agora a Estampa republica «Exercícios de Estilo», acrescentado-lhe uma selecção de outros textos. É uma antologia indispensável de um grande escritor português
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Ora bem: o Pacheco. Não sei se já repararam (já repararam) que para falar do Pacheco o escriba de serviço arranca um português assim estiloso, malandro, rápido e ao mesmo tempo trabalhado. É que não há dúvida: o Pacheco é um ás da prosa, um tipo vivido, sabido, com mais leitura do que a pose revela, com um faro para os escritores que valem a pena e um desdém para com os barretes literários do nosso tempo. Essa é a primeira precaução a ter: a criatura é muito mais que a mascote mal comportada da nossa literatura, o elefante na loja de porcelana que os jornalistas querem ouvir quando necessitam de vozes discordantes, ácidas ou escandalosas. Porque se o Pacheco é o mestre da má-língua ele é também um conhecedor a sério do que se chama a «vida literária». Ele cruzou-se com os escritores famosos, os escritores esquecidos e os pretendentes a escritores, com os jornalistas e os directores de jornais, com os editores e os políticos e com gente ainda menos recomendável. Nesse sentido, e paradoxalmente, o Pacheco é uma instituição da nossa literatura, pelo menos da literatura boémia e lísbia.
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Mas atenção, porque o Pacheco não é só uma testemunha do meio-século literário. Nem por sombras: o Pacheco é ouro de lei, um escritor como mandam as regras, um valente prosador. Hoje há muitos romancistas, mas quase não há prosadores. O Pacheco, esse, nunca cometeu um romance, nem é preciso. O seu género é a crítica panfletária e o conto autobiográfico ou, como ele diz, as «artigalhadas» e os «textículos». Na crítica ele pratica o memorialismo clínico e mordaz, a autobiografia irónica, o ataque gratuito ou documentado, a admiração que nunca é sem reservas, e sobretudo a polémica. Ora a tradição polémica portuguesa é caceteira, mas com caceteiros do melhorio: José Agostinho de Macedo e Camilo. Tal como eles, Luiz Pacheco nem sempre tem razão, mas também não é preciso. A polémica empresta graça e vivacidade à literatura, mesmo porque em muitos casos é ela mesma literatura: quantos são os panfletos que ainda lemos com gosto mesmo quando as questões estão ultrapassadas e esquecidas? As artigalhadas do Pacheco são por isso mesmo um retrato impressionista, uma intervenção frontal e desbocada e uma forma (nobre) de «literatura comestível».
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É importante pensar que o Pacheco andou sempre metido com dói bandos de peso: os surrealistas e a malta dos jornais. O surrealismo português chegou com vinte cinco anos de atraso, mas valeu a espera: não produziu nenhum «ortodoxo» de primeira água para além de Cesariny (o Lisboa é ilegível, valha-me Deus), mas, como sempre, influenciou decisivamente alguns dos melhores escritores e poetas. Ser surrealista-surrealista não é muito interessante, mas ter uma costela surrealista dá sempre jeito. E então chega a outra família, a dos jornalistas da boémia lisboeta e gente afim, dada aos copos mas também ao trabalho maníaco da prosa: o outro Pacheco (o Assis), Dinis Machado, Cardoso Pires, Nuno Bragança, B. B. (às vezes), chegando a José Amaro Dionísio ou mesmo a Pulido Valente. Gente variada, pois, mas gente muito letrada e nada literata, homens de prosa e barba rija, a pedir uma antologia bem feita. São alguns dos melhores prosadores portugueses.
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Mas o Pacheco não é só um surrealista dissidente e um jornalista dos copos e do estilo. Os seus textículos, contos autobiográficos geralmente curtos e muitas vezes líricos, são do melhor que se tem escrito por cá. Não podemos ignorar prosas como «O Teodolito», «Os Namorados» e sobretudo os fabulosos «Comunidade» e «O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor», textos cheios de ternura e desespero, de memórias e sarcasmos. «Comunidade» mostra como o abjeccionismo de Pacheco pode não ser uma coisa apenas abjecta mas também poética, assim um mundo à João César Monteiro. Nesse relato, uma família dorme numa só cama em condições miseráveis, numa cama-jangada onde se revelam as misérias e esplendores da condição humana. A família, nem é preciso dizer, é a do Pacheco, dado a lolitas e à procriação. «O Libertino…» é uma tragicomédia sexual na cidade dos Arcebispos, em que um libertino frustrado (o Pacheco, está-se mesmo a ver) persegue em vão uma adolescente, não tem dinheiro para ir a um bordel, tem um encontro interrompido com um magala e acaba numa pensão rasca condenado ao sexo solitário; neste texto fica bem demonstrado como a libertinagem do Pacheco não é a libertinagem sofisticada dos aristocratas racionalistas e decadentes – embora o Pacheco não seja um filho das ervas – mas uma cedência sem culpa nem alegria às pulsões e às oportunidades da vida (v. Cardoso Pires na «Cartilha do Marialva»). Em relação a estes textos o Pacheco sente-se um pouco como os cantores que vêem o público pedir sempre os mesmos velhos sucessos: já está farto deles. Mas, o que é que se há-de fazer, são mesmo do melhor que escreveu?
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Existe em Portugal uma certa corrente surrealista-abjeccionista que tem no Pacheco o seu patriarca, mas o certo é que a descendência não vale nada ao pé dele. Porque o Pacheco, apesar dos processos, das prisões, das adolescentes e dos rapazes, das pensões, dos sanatórios, do alcoolismo, da mendicidade, do «viver de amigos», vê esse ofício de «escritor maldito» como uma condição apesar de tudo útil mas não como um destino voluntário. Muita gente gosta de Pacheco por má razões, mas isso é o que acontece com todos os «malditos». Porque o Pacheco, ó dadaístas, faz literatura, escreve prosa da melhor, faz estilo sem exercícios, é um panfletário sem ser um energúmeno, é terrivelmente sincero mesmo quando finge. Não é um velho dos Marretas ou o «marginal» de serviço, mesmo que queiram vê-lo assim. Na Contraponto deu-nos Cesariny e Herberto, e também Kleist, Dostoievsky, Pirandello, Tchekov e Apollinaire. O Pacheco, enfim (mas é preciso dizê-lo baixo) é um escritor. Depois de sucessivas mas obscuras edições e reedições, já se tornava necessária a reunião de vários textos num só volume. A edição da Estampa não é brilhante, mas é mesmo assim preciosa e tem uma bibliografia patusca. A seguir o que falta mesmo é a obra completa. Em papel-bíblia, claro.

25.1.08

Câmara Clara sobre Luiz Pacheco

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O Câmara Clara do último Domingo teve como convidados Alberto Pimenta e Vítor Silva Tavares e foi dedicado a Luiz Pacheco, tendo-se falado também de escritores e editores marginais (termo que ambos rejeitam) e tendo sido tentada uma ligação ao universo de João César Monteiro (também rejeitado pelos convidados). Foi uma conversa deliciosa, que pode ser vista na íntegra aqui.
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Para abrir o apetite (e não apenas literário) aqui fica este pequeno excerto:

21.1.08

A noite em que conheci o escritor Luiz Pacheco

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“Eu estava encostado ao balcão com o Zé Manel, a ouvi-lo falar da tristeza, da solidão, da perplexidade da sua vida, no interior daquela enorme piscina de azulejos povoada de vozes, de tilintar de copos, de roçar de tecidos, era em março e as pessoas mergulhavam o nariz na espuma da cerveja como os cavalos na praia, uma nuvem de fumo pairava sobre as nucas de cera, demasiado brancas, das pessoas, as feições de estearina e os cabelos suados das pessoas, e vai na volta o escritor Luiz Pacheco entrou, com dois sacos de plástico repletos de jornais nos punhos, um boné à Lénine na cabeça, os olhos protuberantes de tartaruga magra atrás dos óculos que os impediam de tombar no chão num ruidozinho de louça. Vinha perdido de bêbado e as mulheres e os homens frustrados da Cervejaria Trindade, as mulheres e os homens sem talento da Cervejaria Trindade troçavam dele, remexiam-lhe nos sacos, tiravam-lhe o boné, puxavam-lhe as abas da gabardina enodoada, riam-se-lhe nas costas o azedume do leite podre da inveja ou apertavam-lhe a mão como se aperta a mão aos augustos no circo, num misto estranho de condescendência e de desprezo.
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– Caralho – pedi eu ao Zé Manel –, pela tua saúde tira o velho das unhas destes cornos. São os netos dos cabrões que jogavam pedras no Rato ao Gomes Leal, são os impotentes que se queixam que neste país só se faz merda e que quando aparece alguém que não faz merda desatam a rosnar de fúria e de ciúme diante da tesão alheia por sentirem o trapo murcho nas ceroulas, por não serem capazes, por não serem definitivamente capazes de enconar a vida.
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– Este é o António Lobo Antunes – disse o Zé Manel na sua voz afectuosa e doce que transformava as palavras em ternos bichos de feltro. Trazia Le Monde consigo como os tipos do século XIX as bengalas de castão de prata, e eu pensava Le Monde é a gravata dele ao olhar-lhe a roupa lançada com descuido sobre o corpo pequeno, a pulseira de cabedal, o cabelo escorrido sobre a gola da camisa.
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O escritor Luiz Pacheco oscilou ligeiramente nas pernas inseguras: o seu orgulho pungente, a sua insuportável ironia, reduziam os pénis dos impotentes a engelhadas coisinhas moles de mijar, enroladas nas calças numa vergonha de lombrigas. Uma farripa descolorida oscilava como uma pluma contra os azulejos da parede. Deitou a gabardine para trás, desembaraçou-se dos sacos e esbofeteou-me a cara, com ambas as palmas, num júbilo divertido:
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– Ah rapazinho.
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E éramos os três os únicos sujeitos vivos naquele cemitério de tremoços.”
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[António Lobo Antunes, de Conhecimento do Inferno, 1980]

15.1.08

Luiz Pacheco: o caso do sonâmbulo chupista

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]
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“Conheço Condeixa-a-Nova, vivi curtas temporadas em Alcabideque, lugarejo dali distante uma légua, vai-se bem a pé, estrada plana, várzea fecunda, muita água a correr, monumentos romanos, gente boa e franca. Travei amizade com pessoas que lidaram com o Fernandinho desde pequenino, me revelaram o grande mistério daquela alma. Aí pelos 8, 9 anitos, ele começou a manifestar sintomas de sonambulismo. Não se curou. Aquilo agravou-se com a idade. Estamos agora em 1960, ano da fabricação de Domingo à Tarde, a dar crédito ao que ele exara no final do livro: Lisboa, de 1959 a Outubro de 1960. Por então chamava-se Flores para o túmulo de Clarisse, aliás o título da versão catalã: Flors a la tomba de Clarisse. Labor intelectual intenso, calor na moleirinha, ânsia desenfreada de caçar o prémio, será que terão contribuído para que as crises de sonambulismo orientado, esse estado crepuscular da consciência, se agravassem? com manifestações mais frequentes e agudas? A coitada da Clarisse, o Lins, o dr. Óscar, as oitenta quiladas não lhe saíam da cachola, dia e noite, dia após noite e vice-versa, baralhando-se numa enorme barafunda? Devemos admiti-lo. Mais: só pode ter sido isso. O quadro é, então, o seguinte: Namora dorme, pesadamente. De súbito, num gesto brusco, atira as roupas cama fora, senta-se, hirto, estica os braços para a frente, salta pró chão sem que nada ou ninguém o possam impedir. Do balandrau cor-de-rosa como ele gosta, para se dar ares de esquerda e lhe fica a matar com o bronzeado da cútis, sempre com os braços esticados, vai em passo de ganso, tal um robô, à saleta onde trabalha. Puxa um livro da estante, começa a folhear (sempre a dormir), sublinhar, copiar frases inteiras. Vai escrevendo («o esboço é escrito à mão, a versão definitiva à máquina», revelou, numa entrevista). A páginas tantas, chateia-se (o seu subconsciente, tá visto), levanta-se, estica outra vez os braços muito esticados e regressa, a passo de ganso ou aos pulinhos, para a caminha. De manhã, quando repara nos escritos com a sua letra sobre a secretária, elogia-se: «ena! ontem fartei-me de trabalhar». Toca a pôr na versão definitiva, à máquina.
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Esta minha versão, repito: científica, esclarece todas as dúvidas, destrói interpretações levianas, silêncios escusos. Por exemplo: suponhamos que Vergílio Ferreira veio a saber – e há quantos anos? – das fraudes, dos surripianços, do seu querido amigo. Conhecendo a doença dele, aguentou e, piedosamente, carinhosamente, calou-se. Também o tosco das coincidências, a inocência de Namora no caso do Prémio e durante todos estes anos que passaram, ficam ilibados. Por outro lado, e é problema que aos investigadores futuros desde já se coloca, quantas e quantas páginas, quer em Domingo à Tarde, quer nos seus outros livros, não terão sido resultantes de chupanços parecidos, em transe de sonambulismo orientado? Fontes de Namora: um tema inesgotável. Ou, então, ele vai curar-se definitivamente e vai consagrar o resto dos seus dias a varejar dos seus volumes tudo aquilo que lá meteu como sonâmbulo chupista."
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[Luiz Pacheco, in O Caso do Sonâmbulo Chupista, 1980]

14.1.08

Luiz Pacheco: a última entrevista

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Na sexta-feira falei aqui de uma prometida entrevista de Luiz Pacheco ao Sol (a sua última entrevista, segundo o jornal). Afinal era escusado e até desejável não comprar o jornal: a entrevista surgiu na revista “Tabu” mesmo ao lado de uma reportagem sobre uma “família numerosa”, com uma bolinha vermelha e avisos por causa da “linguagem que pode chocar alguns leitores”. A entrevista acabou por ser cortada vários pontos e algumas palavras ficaram reduzidas à primeira letra. A versão integral só foi colocada no site, disponível gratuitamente.
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Já não é a primeira vez que isto acontece (por exemplo nesta entrevista ao Correio da Manhã colocavam uns m. e c. não escrevendo as palavras completas). Acho isto um insulto a Luiz Pacheco. Toda a gente sabia como ele falava e a linguagem que utilizava. Se estes jornais “para toda a família” acham que a linguagem de Luiz Pacheco não é apropriada para figurar ao lado de reportagens sobre famílias numerosas era preferível absterem-se de o entrevistar e deixar isso para publicações que não têm esses problemas.
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Quanto à entrevista, feita por Ricardo Nabais e Vladimiro Nunes, aqui fica a versão completa:
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‘NÃO ESTOU AQUI A FAZER POSES’
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Quando mostrámos a capa do Exercícios de Estilo à entrada, reconheceram-no logo: ‘Ah, é aquele senhor alto e magrinho’. Há quanto tempo está aqui no lar?
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Cheguei há uns oito ou dez dias.
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E já é reconhecido por toda a gente?
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Não sou nada. Isto hoje é que é um acontecimento, não é? Aqui só o senhor da biblioteca é que lê. Estive um ano e meio com o meu filho e tinha um serviço de apoio domiciliário. Iam lá a casa, lavavam-me os tomates, o rabo e a merda, mudavam-me a fralda… Como me fazem agora aqui.
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Tratamento de luxo.
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Qual luxo? Ó pá… Ainda nem conheço a casa…
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Mas, pelo que vimos, já faz sucesso entre as mulheres. Uma das auxiliares até nos disse que, no outro dia, tinha prometido escrever um livro para ela.
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Está aí, é essa merda [aponta para cima da cama, para um exemplar em serigrafia de Comunidade]. Não é um livro, é um poema objecto, um investimento para despachar coisas do [Cruzeiro] Seixas, e foram buscar um texto meu. Nem sei quanto é que me deram. É o meu filho Paulo que recebe os dinheiros na conta, é o meu depositário. Esse gajo que eu não conhecia, da galeria, da…
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… Perve.
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Perde?! Nunca lá fui…
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A galeria chama-se Perve. De ‘perversão’.
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Qual Perve! Não me lixes, pá! É um gajo muito metediço – chamo-lhe ‘o urubu’ – que anda atrás de mim, do Cruzeiro Seixas, [e já tinha andado atrás] do Cesariny e daquele gajo de Sines, o Al Berto… O que eles querem é sacar espólios.
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Já folheou o livro?
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O texto é mais velho que a merda e os desenhos, vi um que me meteu medo e não quis ver mais nenhum. Mas aquilo é giro, porque é um investimento grande, acho que a serigrafia é muito cara. E está tudo numerado e assinado, para dar o ar de coisa rara. É uma golpada. Com todas as letras. Mas haja alguém que faça golpes destes.
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O Luiz Pacheco também já deu algumas golpadas.
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Já dei algumas.
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Qual foi a pior?
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Isso não posso dizer. E também não se avalia assim.
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Qual a que lhe deu mais gozo?
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Deram-me todas muito gosto. Tive aí uma actividade durante 50 anos [como editor da Contraponto]. O gosto que tenho é nos livros que vendi a cinco ou a 20 paus e hoje valem contos de réis. Também assinados, com dedicatórias, numerados. Agora é uma senhora, cunhada do Manuel Alegre, uma jornalista, que está outra vez a fazer edições da Contraponto.
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Um dos últimos livros que o Pacheco editou foi Villa Celeste, de Hélia Correia, em 1999.
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Ela agora fez um romance.
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E tem publicado vários livros na Relógio D’Água.
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Está a ter mais nome, até ganhou um prémio, parece-me. Já não a vejo há muito tempo. Quando eu estava em Palmela, foi lá com o marido, aquele rapaz dramaturgo, do Público, que também foi premiado… o Jaime Rocha… Ela escrevia lá para as Azenhas do Mar, porque gosta de ambientes húmidos. É gira. E um bocado tosca, maluca…
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Mas era uma das escritoras novas de que o Luiz Pacheco mais gostava.
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Era sim senhor.
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Até porque entretanto já se tinha fartado do Pedro Paixão e do Miguel Esteves Cardoso.
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O Pedro Paixão ainda é vivo, esse gajo?
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É. E o Miguel Esteves Cardoso também.
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Esse é um estupor. Ele, a mãe e o pai. É o gajo da televisão, não é?
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Não. Esse é o Miguel Sousa Tavares.
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Pois é. Desculpem. Não, do Esteves Cardoso gostava muito. Era um gajo giro. Depois fez aquela laracha d’ O Amor é Fodido. Os livreiros até tapavam o título. Conheço dois que taparam. Ele está a fazer o quê? Engordou muito, não foi?
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Voltou a fazer crónicas para o Expresso, mas sem o mesmo sucesso de antigamente.
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Nunca gostei muito dele em crónicas. Nunca me convenceu muito. Já o topava desde o Independente. Depois esteve numa revista com graça, a Kapa.
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Como tem ocupado o tempo aqui no lar?
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No outro dia houve festa com dançarinas sevilhanas. Desviaram as mesas, arranjaram espaço. E eu fiquei cá para trás. Puseram um disco desse gajo, o Quim Barreiros, que é o que toda a gente gosta. Aqui há muito barulho, mas é por causa das TV. Mas como quase não oiço nada do ouvido esquerdo, viro-me para esse lado e à minha frente estão os telespectadores.
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Não tem seguido nada da televisão.
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Vi uma coisa que não sabia que existia, que é a RTP Memória. Como é que a gente pôde gramar coisas tão estúpidas? Eram tão idiotas, tão impossíveis de ver. Aparecia o José Hermano Saraiva – eu detestava aquele filho da puta – que é um artista da aldrabice… Mesmo o Agostinho da Silva também me parecia um bocado aldrabão. E os programas com o Isidro, que é um belíssimo profissional e descobriu uma gaja daqui [do Montijo], a Dulce Pontes… Ela tem um vozeirão! Com o Herman José já não me consigo rir.
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E os Gato Fedorento?
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Nunca vi. Isso é de um filho da puta, aquele gajo, o Ricardo Araújo Pereira.
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Que já o entrevistou para o Jornal de Letras…
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Com o Rodrigues da Silva, um gajo que já conheço há muitos anos. Foram os dois entrevistar-me. E eu aí descaí-me, porque não estou aqui a fazer poses. Digo as coisas e depois o que sai é com vocês. Quero lá saber! Mas fui dizer que uma gaja me tinha feito um broche de pino. E o gajo meteu isso.
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Mas de quem foi a culpa?
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Fui na conversa. Saiu-me.
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Era verdade ou não?
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Puseram ali o broche de pino! O que é uma coisa de meter medo…
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Por que ficou tão zangado se era verdade?
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Era verdade, era! Um gajo fica deitado na cama. E a gaja faz-lhe o broche. Até aí, é como o outro. É trivial. Mas de repente é de pino: a cama está encostada à parede, ela faz o pino, abocanha, apoia os pés na parede, está para ali a funcionar e um gajo à espera que ela de repente caia, porque tem uma mão apoiada na cama. Um gajo, se pensa, começa a ver o perigo que aquilo é. Se ela, de repente, se chateia, perde o equilíbrio, e lá vai… Mas isto são coisas que saem, porque um tipo não está a fazer pose.
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Não gosta que esse tipo de coisas saia nas entrevistas, é isso?
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Não é não gostar, é o espanto que provoca nas pessoas.
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Está para sair um livro com entrevistas suas.
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Esse livro é uma merda! Isso é de um gajo que publicou o diário na D. Quixote.
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O João Pedro George?
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Sim.
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É seu amigo, não é?
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Acho que não.
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Mas vai escrever-lhe a biografia.
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Isso é uma aldrabice. Se ele está convencido de que eu acredito nisso, nunca acreditei. Um gajo, quando vai escrever uma biografia, tem de pedir logo um documento, que é a certidão de nascimento. Ele falou com muita gente. Mas anda a apalpar terreno. Agora, esse livro [de entrevistas, O Crocodilo que Voa, da Tinta-da-China] não saiu ainda. Saiu um no Porto, pequenino, que diz na badana ‘Luís Pacheco é asmático, bissexual, filho único, alcoólico, cadastrado’. Isto não é de um gajo que vai fazer uma biografia. É acintoso. Então eu tenho a culpa de ser asmático? Asmático, sim; bissexual, suponhamos; cadastrado? Ele nem sabe o que é um cadastrado. Matou 100 pessoas ou roubou um papo-seco, vai parar à prisão e é um cadastrado. Esse gajo tem uma moralidade muito duvidosa. É bom para andar por essas pequenas editoras.
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Convenhamos que a vida do Luiz Pacheco é apetecível para qualquer biógrafo.
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Assim como me desaparecem criancinhas, também me aparecem criancinhas. Apareceu-me no lar do Príncipe Real uma rapariga. Perguntei-lhe o que era: ‘Ah, eu vinha para lhe ler textos, como o senhor não vê…’. Disse-lhe para entrar e que não tinha dinheiro para lhe pagar. Ela respondeu que era tudo voluntário. Adeus! Um gajo pensa: ‘O que é que esta quer?’ Nem percebi.
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Mas ficou por aí a conversa?
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Não, ela foi lá várias vezes. Levou-me livros, levou-me discos. Um dia foi lá e apareceu este maluco, este João Pedro George.
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A quem dedica o Diário Remendado: ‘um colaborador impecável’ e ‘meu biógrafo improvável’.
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Está lá ‘improvável’? Nunca acreditei! Ele cortou, emendou… Nunca li isso. Li bocados e com muita dificuldade. São urubus. São parasitas, que vêm com uma golpada, biografias, isto, aquilo e aqueloutro. Adeus!
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Sempre aceitou ser operado à vista? Andou anos a dizer que ‘nem pensar’.
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E não queria. Mas fui. Fiquei melhor com a operação e agora vejo outra vez pior. Isto foi uma rapariga que me apareceu, para fazer uma entrevista, não me lembra para onde [para o Correio da Manhã]. Vocês são capazes de a conhecer, porque ela é um mulherão... Miriam Assor! Telefonou-me e eu disse ‘apareça’. Porque, assim de repente, qualquer visita é bem-vinda – se depois não for, põe-se na rua… Apareceu-me com um fotógrafo muito chato, assim como o vosso. Mas essa rapariga não tinha pretensões nenhumas e era muito simpática. Isto foi em Março e, às tantas, a conversa caiu na vista, nas cataratas, e ela disse-me ‘Tem de ser operado e tal. Venho cá buscá-lo no dia 26 de Abril’. Pensei que ela nunca mais se lembrasse daquilo, mas lá telefonou ao meu filho e veio. Achei-lhe graça e fui com ela. Até porque me faziam tudo de borla. E olhem, correu bem.
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Por falar em borla, tem conseguido equilibrar as suas finanças?
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Ainda estava no lar do Príncipe Real quando, com a história daquela Manuela Ferreira Leite e do défice dos três por cento, vi a coisa mal parada. Porque eles dão-me, há anos já, um subsídio. Foi até o Tio Patinhas, o Balsemão, que, quando foi primeiro-ministro – não foi muito tempo, mas foi – deixou lá um saco azul, um buraco que não tinha cobertura legal nenhuma. A certa altura, arranjou um decreto em que instituía o chamado ‘mérito cultural’. O Alçada Baptista tinha-me encontrado na Avenida da República e, como sabia que eu estava muito à rasca, a viver mal, tinha-me perguntado: ‘Ó Pacheco, não lhe convinha uma bolsa de sete contos?’. ‘Ó Doutor António, se você me falasse num conto de réis, eu ainda acreditava, agora sete contos não acredito; mas é claro que me fazia jeito’. Depois saiu o decreto do Balsemão e solicitei a bolsa. Primeiro foram dez contos, depois vinte, foi subindo.
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Até que Santana Lopes lhe atribuiu um valor mais razoável: 600 euros.
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Havia uma senhora, que ainda é viva, a Maria João Rolo Duarte, mãe do Pedro [Rolo Duarte]. Nunca a conheci, mas ela tinha uma página de espectáculos e televisão n’A Capital e começou a escrever uns textos: ‘Então o Luiz Pacheco não tem um subsídio capaz?’. Uma vez, encontrou o Santana Lopes, o Pedro… Bom rapaz, não lhe perdoam por ser um gajo das discotecas e por ter mulheres boas. E ele é bonitote, acho que até ganhou em Lisboa por causa disso, porque as mulheres são mais do que os homens e o voto não é assexuado. Bom, mas a Maria João encontrou-o numa recepção qualquer e disse-lhe: ‘Ó senhor doutor, então o Luiz Pacheco tem um subsídio tão baixinho?’. E tinha. Ele prometeu-lhe que me ia dar mais dinheiro. E deu. Ao fim de uns meses, recebi um aumento de 60 contos. Com retroactivos, foi uma abada bestial.
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E Sócrates, já lhe deu algum aumentozinho?
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O Sócrates não. Agora não sei quanto é que vai dar [de aumento].
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Mas já não vive como viveu em tempos, sempre à espera que alguém lhe trouxesse pão ou uns trocos.
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Não. Vivi este tempo todo, e não vivi do ar. E com filhos à roda.
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Muitos filhos.
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Em Setúbal, cheguei a ter dois de uma rapariga e dois da irmã: quatro. E a miúda, coitada, comia mal. Porque era assim: para pagar um copo de vinho, aparecia sempre um maluco qualquer, ‘Beba’. Mas para uma sandes já não era assim. Vocês conheceram o Cabeça de Vaca?
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Não.
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Era um crava excelentíssimo. Andava pelo cais, na zona onde as pessoas almoçavam e jantavam. Uma vez apareceu e disse a um: ‘Ó fulano, não me dás 50 paus para a dormida?’ E o outro gajo, ‘Ò pá, queres almoçar? Senta-te aí’. O outro encheu-se e, depois de almoçar muito bem, ‘Então e os meus 50 paus?’ Não perdoou. Esse Cabeça de Vaca não fazia absolutamente nada. Dizia-se escultor, mas nunca vi escultura nenhuma dele. Andava para aí a foder quem podia. E tinha, de facto, um treino… É claro que acabou completamente podre. Eu agora, com a reforma da Inspecção-Geral de Espectáculos e com o subsídio…
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… Já não tem medo que lho tirem?
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Creio que não. Porque 120 contos [600 euros] por mês, no orçamento do Estado, é uma merda. E, gajos com a minha idade, está tudo quebrado e há uns que desaparecem. De maneira que posso ter este pequeno luxo [o lar]. Mas o que me dão não chega para isto.
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Houve fases em que as prostitutas eram uma das suas grandes fontes de despesa. Conta-se que se estreou com uma certa ‘Arco Royal’. Quer contar essa história?
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Sim, era uma puta que metia medo, ali na Mouraria – não havia Martim Moniz. Havia umas fulanas a passear, com um ar muito chateado, e eram baratas, para aí a 20 paus – eu era um avarento maluco com as putas. Aquilo foi uma aventura, porque 20 paus era muito dinheiro para um estudante do Camões. Fui lá com um colega, também era a primeira vez dele.
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Não foi dessa vez que teve uma história qualquer com uma peça de fruta?
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Já viram o que é um gajo estar a dar uma foda e a gaja a comer uma maçã à dentada? Também, despachei-me logo…
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Que idade tinha?
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Teria aí 15 ou 16 anos. Nesse tempo, para se foder uma rapariga… Só aqui há poucos anos é que reparei nisso: gajos com automóvel ou com dinheiro fodiam o que queriam, mas um gajo que não tinha nada, nem era bonito sequer, para dar uma foda… Até fui preso cinco vezes por causa dessa merda: foder miúdas, que era o que se aproveitava. Era apanhar miúdas cheias de tesão e atacar.
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Muito antes disso, aí pelos 11 ou 12 anos, houve um poeta alentejano que foi ter consigo, o Acácio Gomes Guerra.
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Acho que fui enrabado.
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«Mas não muito», segundo esclareceu mais tarde. O que quis dizer com isso?
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Quer dizer que não fui enrabado todos os dias.
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Não foi uma violação de menor, como se diz agora.
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Isso é tudo conversa, porra! Aquela Casa Pia é um caso chapado de estupidez nacional! Os gajos que iam lá sabiam que havia uma boa feira de rabos de paneleirotes. Aquilo era prostituição de menores. Um gajo que engate um puto aí na rua, faz-lhe broches. Não vai enrabar o puto. Isso não é assim. Bom, mas eu estava a falar há bocado da dificuldade que os rapazes do meu tempo tinham para foder. Havia quem tivesse irmãs, primas e amigalhaças. Havia muito disso, até em casas que não eram do nível de dormirem todos na mesma cama, em casas já com dinheiro… o mais velho fodia aquela merda toda, as irmãs todas.
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Disse que teve problemas por se envolver com raparigas menores.
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Nessa altura, as raparigas tinham de manter o virgo para o casamento. Um tipo que topasse a miúda excitadíssima e cheia de comichões, ia-lhe para cima, e depois como era? Cadeia. Estive três vezes preso no Limoeiro e duas nas Caldas. A vida sexual deu um salto enorme. E não foi no 25 de Abril, foi antes, em 68 ou 69. Nessa altura, conheci muitas meninas universitárias que descobriram o sexo e o passaram umas às outras.
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O Luiz Pacheco sempre assumiu que era bissexual.
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Não assumi nada!
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Como não? Alguns dos seus textos são explícitos a esse respeito, já para não falar de quase todas as entrevistas que deu.
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Não, alto aí! Isso foi o meu filho que disse naquele documentário que passou na RTP 2.
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Disse numa entrevista ao Baptista Bastos, em 1994: «Desde que haja cumplicidade, ou vai com jeito ou com sabão, ou vai com mulher ou com homem, com um efebo; (…) desde que se goste de pessoas, raparigas, porque, na verdade, nunca tive paixões por nenhum gajo».
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Não, não. Isso… Ó pá, isso… Adeus! Vocês não fazem ideia do que é esta merda… Chega aqui o jornal e nunca mais me largam. Para um gajo que está aqui preso… E depois, isso não é importante.
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Mas está muito presente na sua escrita. Por exemplo, em O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor.
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No Libertino não se passa nada.
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É um trajecto de ‘negas’.
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Negas atrás de negas. Mas há um bocadinho de frustração nisso. Porque a questão de um gajo não ter dinheiro na algibeira é chata em todos os sentidos. Para ir às putas, 20 escudos. Para dar ao magala, 20 paus. Não tinha. O Libertino é um trajecto de frustração e de bebedeira. Eu vinha de Vieira do Minho, de uma almoçarada maluca, e andei atrás de uma miúda [de 14 anos] que era, de facto, muito gira. Já deve ter morrido. Agora, por ver aqui estas velhotas, ponho-me a pensar como não estarão as raparigas que conheci com 15 e 16 anos. Porque elas também envelhecem, coitadas.
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Por falar nisso, mantém contacto com as mulheres com quem viveu e com quem teve filhos?
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Não. Quando corto, corto. Com a minha primeira mulher, a Helena – casei com ela no Limoeiro [era menor] – a vida foi azedando. De repente, há uma espécie de ódio conjugal, de não se poder ver a pessoa nem à mesa, quanto mais na cama. Há um cansaço muito grande. Agora acho que há mais diversidade, as pessoas variam. Há mais mulheres casadas a darem as suas pinocadas, e fazem muito bem. Depois de já ter vivido com a Maria do Carmo e com a Irene [irmã menor desta – Pacheco engravida ambas], a Helena pediu o divórcio por ausência do lar. Ao fim de sete anos, aquilo é automático. A mulher arranja duas testemunhas que atestem que fulana e sicrano não vivem juntos há X anos e o juiz decreta o divórcio. Que também é chato, porque um casal que vive junto não sei quantos anos, que tem filhos, passou dificuldade mas também teve horas boas, de repente… Estava na Caldas, vim a Lisboa, e diz-me um amigo meu: ‘Lá fui ao tribunal.’ ‘Foste ao tribunal fazer o quê?’ ‘Fui ao teu divórcio’. ‘Ao meu divórcio?!’, ‘Ai não sabias que estavas divorciado?’
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Ela não o avisou de que ia pedir o divórcio?
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Para quê? Ela estava em Lisboa e eu nas Caldas. Não valia a pena, não era preciso para nada. Mas fiquei como quem leva um pontapé. Em 100 metros de passeio, aquilo passou-me. Essa arranjou outro gajo, teve uma filha que deu cabo da vida dela, morreu. Com a Maria do Carmo tive dois filhos. Ela levou-me à Macieira, à Sertã. Cheguei lá, conheci a irmã [a menor Maria Irene], ‘Espera aí que esta não escapa’. Não escapou. A Maria do Carmo veio-se embora para Lisboa com a nossa filha, deixou-me lá com o outro pequeno e eu forniquei a irmã, que ficou grávida. Vim para Lisboa e, mais tarde, vivi com as duas no mesmo quarto. Foi um caso sério.
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Não tinha descanso.
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Foder duas raparigas da Beira com 14 e 18 anos, cheias de tesão… E depois não é isso: é que a mais velha dormia comigo e a irmã dormia com um sobrinho num divã. Então, de noite, a outra [Maria do Carmo] fazia fodas de grande rebaldaria para incomodar a irmã, que estava grávida. É claro que assim que a mais velha saía para o emprego, a outra vinha para a cama e eu tinha de lhe dar outra foda. Também só aguentei assim oito dias.
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Como é que resolveu a situação? Foi-se embora?
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Não. Aquilo deu porrada: as duas irmãs, eu com a mais velha… Tive muita sorte, porque não houve mortes, e podia ter havido. Depois fui com a mais nova e com os meus filhos para Setúbal. Nessas coisas, não há como a ausência geográfica. Agora no mesmo quarto, porra! Em Setúbal, a Irene pôs-me os cornos – fez muito bem – com um rapaz da idade dela, ou mais novo, nem sei. E eu, ‘espera aí’, fiz o que um gajo naquela situação pode fazer: sacar a cona da mulher da pichota do amante. Arranquei com ela para as Caldas.
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Deu-lhe barbitúricos, segundo consta.
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Não dei nada.
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Isso está escrito algures, numa entrevista.
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O que um gajo escreve é sempre invenção.
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Embora o Luiz Pacheco diga que não tem grandes dotes de imaginação, que a sua fantasia é muito pobre.
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É verdade. Tenho a plena noção disso.
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O que não impede que, pelos vistos, haja muita coisa imaginada a seu respeito.
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Quero lá saber! Como é que posso evitar isso?
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A questão é essa: não evita, contribui alegremente.
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Deixa-os berrar! Quando falo em conter-me por estar aqui é por me sentir um bocado dependente.
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Não deixa de ser irónico vê-lo numa posição em que sente que é melhor não falar das coisas.
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Não, espera aí! Nunca tive vergonha nenhuma de ser preso nem de nada. Agora, aqui é diferente, porque estou num estado de muita fraqueza. Vim para aqui a cair para o chão.
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Quando se lê os seus textos percebe-se que, mesmo nas relações que manteve com menores, mais do que uma mera perversão sexual, havia um amor profundo por aquelas raparigas.
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Não é só isso. Estava numa fase de muito alcoolismo, embora à base de copos de tinto e cervejas, porque não aguentava bagaço, whisky e coisas do género. Mas era aquele alcoolismo muito chato de um gajo acordar de manhã e se não bebe, treme. Tive a coragem, ou a sabedoria, de fugir a isso. Mas não fugi sozinho. Foi uma luta de anos. Andei meses em ambulatório, estive duas vezes internado no Júlio de Matos e outras tantas em Coimbra. No internamento havia a vantagem de ter cama, casa e comida. Fui parar duas vezes ao Rego, porque tinha lá uma médica amiga que arranjava maneira de me internar. Diagnóstico: ‘diabetes descompensada’. Comia, era injectado com vitaminas e depois vinha-me embora. E também estive por cinco vezes no sanatório do Barro [perto de Torres Vedras]. Vocês não fazem ideia, por muita habilidade que haja, do que é um gajo viver sem emprego. Estive sem emprego anos e anos. Cheguei a viver em escadas, uma vez ou duas.
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Estava sempre no ‘prego’.
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Em Setúbal, havia um prego em que os pescadores empenhavam camisolas interiores, roupas beras. Uma vez deram-me um fato bom e eu não o vesti. Foi logo para o prego.
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Até a máquina de escrever chegou a ir.
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Essa ficou lá. Quando cheguei com a Irene às Caldas da Rainha, fui logo saber onde era a casa de prego. Levava um ferro eléctrico e uns talheres de prata – na minha casa comia-se com talheres de prata. Comia eu, porque o meu pai punha-os no prego – nos meus não tocava.
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A Irene e as outras mulheres que viveram consigo não ambicionavam outra vida?
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Piraram-se.
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Por isso?
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Eu também ajudei à festa. A minha primeira mulher ficou grávida pela terceira ou quarta vez – já tinha feito desmanchos – e eu queria ir-me embora. Ela disse-me: ‘Se sais de casa, faço um desmancho’. ‘Isso não podes, senão morres’ – ela tinha uma doença cardíaca. Fiquei, aluguei casa, mobilei-a, pus telefone e, quando o bebé nasceu, disse que o choro me incomodava de noite. Era mentira, nunca tive disso, porque um bebé só chora de noite por duas razões: ou porque tem fome, ou porque está mijado. Essa pediu o divórcio e ficou tudo acabado. A Maria do Carmo disparatou porque fugi com a irmã. Com a irmã, nas Caldas, tínhamos casa, dois filhos… A pergunta é: como é que este gajo se aguentou?
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Pois, como?
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Tive gente que me ajudou. Por ser bonito? Não. Foi gente que me apareceu, como o Mário Soares. Costumo repetir isto, porque acho que é bom que as pessoas saibam que esses gajos grandes também são capazes de coisas assim. Se calhar, não vos passava pela cabeça que o Santana Lopes, o putanheiro da 24 de Julho, tivesse actos desses. Mas também tem. Aliás, nunca vi o homem.
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Estava a falar de como conseguia aguentar-se com uma vida tão desregrada.
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Terra onde chegava, aparecia-me alguém.
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Há um texto em que fala de ter um emprego das nove às cinco ou viver como se quer. ‘Vou ter prazer na vida, fazer o que bem entendo’. Isso decide-se assim?
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[Risos]. Não, são coisas que aparecem. E depois houve o 25 de Abril, que deu dinheiro a muita gente, não só a mim. Não é escolha, é feitio, são acasos. A vida é muito variada.
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Mas parece uma opção, até porque saiu daquele emprego seguro na Direcção-Geral de Espectáculos.
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Adorava desempregar-me. O Nicolau Santos, que foi director do Diário Económico (DE) e que agora é vice-director do Expresso, pagou adiantado e convidou-me a ir para o DE. Havia uma página de regabofe, de crítica de cinema, uma coisa de artes. Durante meses escrevi para lá. Aquilo era pago, primeiro, a 30 contos. O que era muito bom na altura. Mais tarde passou para 35 contos. Depois disseram-me que fazia parte de uma grupo que ia ser saneado no jornal. O Nicolau perguntou-me se não queria ir para o Público e saí do DE. Quando lá cheguei, disseram-me que não podia escrever como escrevia. Era na revista, onde estavam o Lobo Antunes e um psiquiatra qualquer. Davam-me 50 contos por crónica.
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Quanto tempo durou essa colaboração?
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Trabalhei lá até o Nicolau sair. Houve qualquer merda lá no Público, gajos despedidos, e ele saiu. Estive no Público com outros novos colaboradores e era ‘escritor e polemista’. ‘Ai querem que eu vá para aí fazer sangue?’ Tinha jeito para a porrada, sim…
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Era uma espécie de Vasco Pulido Valente bolchevique.
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Era. Mas só dei porrada em dois gajos. No Esteves Cardoso, porque, de repente, tinha um nome muito acima do que vale. Não é mau rapaz, mas é um bocado pateta. E dei a outro, que não conheço pessoalmente, o José Eduardo Agualusa. Um gajo que lá havia, o [Torcato] Sepúlveda fez-lhe uma punheta, escreveu sobre o romance dele, Nação Crioula. E então pensei: ‘Este gajo, o Sepúlveda, não vê que o outro é um aldrabão?’. Vai daí, dei uma porrada ao Agualusa, mas a porrada era também para o outro. Isso deu-me gozo, fiz o gosto ao dedo.
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Mas foi-se embora outra vez.
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Depois saiu o Nicolau, e eu, nem é tarde nem é cedo, escrevi-lhe: ‘Não somos siameses mas você é que me meteu no Público. Você sai, eu também saio’. Agora, o gozo que dá um gajo abandonar o emprego…
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Esteve muito tempo na Direcção-Geral dos Espectáculos.
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Entrei em 1957 e estive lá 14 anos. Como é que se arranja empregos? É por conhecimentos. O meu pai era amigo de um chefe de secretaria e foi lá comigo. Iam abrir seis vagas em Janeiro. Fui logo a correr. Tinha a vantagem do cartão da Inspecção, que permitia chegar a um cinema, a um teatro, ou a uma praça de touros, e entrar.
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E a saída, como foi?
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Outra grande alegria. Fui lá uma manhã e escrevi um requerimento ao ministro a pedir a demissão.
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Porquê?
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Já não podia ver aquela merda. O chefe de serviço até me perguntou: ‘Então o senhor Pacheco está a fazer mais um livro?’ De repente, ganha-se asco aos ambientes.
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E depois andou sempre desempregado?
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Não, tive vários empregos. Uma pequena crónica, a 30 paus, no Notícias de Teatro. ‘O Solnado vai deixar o Maria Vitória e vai para a revista tal’. Também escrevi para o Norte Desportivo, um jornal de desportos. E estive no Volante, de onde até saí duas vezes. Ganhava pouco, eram empregos foleiros. Nunca tive um emprego como o do DE. Aí pagavam mesmo. E havia as editoras. A D. Quixote pagou-me durante dois anos 60 contos por mês. Mas algumas editoras pagavam, outras não. Por exemplo, a Estampa, que editou esse livro [aponta para um exemplar de Exercícios de Estilo], acho que não pagou a terceira edição.
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Mas a literatura deu-lhe fama. Ainda é muito procurado?
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Ligou-me uma rapariga, a Ana Almeida, lá para o lar onde eu estava, no Príncipe Real, a dizer ‘queremos fazer um filme sobre a sua vida’. Respondi-lhe ‘não me chateie! Com licença. Pumba!’ [gesto de desligar o telefone]. E apareceu-me uma de vocês que anda aí, com um nome grego [Sarah Adamapoulos], que tem um livro e escrevia para O Independente. Apareceu-me lá e disse ‘Ó Luiz Pacheco, aquela coisa da TV vem depois do negócio’. E eu ‘do negócio? O que é o negócio?’ ‘É que aquilo é pago’. ‘Ah, não me falaram nisso! Então quanto é que pagam? Sou um autor muito barato’ [risos]. ‘Pagam dois mil euros’, disse ela. Era um bocadinho de massa… ‘Então o que é que é?’. ‘Ah, eles vêm cá filmar’. Lá vieram duas manhãs ou duas tardes filmar-me como quiseram. Foram como este gajo [o fotógrafo do SOL]. Foi simpático. O que é que se pode dizer? Esses gajos fizeram um programa com o Ramos Rosa, comigo, vários documentários. Têm outro sobre o Vitorino Nemésio que já está pronto. O Vitorino Nemésio foi meu professor…
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Deu-lhe 18 valores.
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Deu-me 18, mas eu não percebi um texto [risos]. Tinha era capacidade de escrita. E tive 15 a Latim. Fui o melhor aluno e, no acesso à universidade, era o gajo mais bem classificado.
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Não pagou propinas durante um ano inteiro e esteve a assistir a aulas…
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Na altura, eu tinha uma bagagem… Quando acabei o liceu – não era um aluno muito especial – foi meu professor o avô deste que morreu agora, o Eduardo Prado Coelho, chamado A. do Prado Coelho. Nunca soube o que era o ‘A’. Dizia ele: ‘recomenda-se o máximo silêncio’. E depois punha a gente, no 3º período, no liceu Camões, na Primavera, a recitar ‘A Balada da Neve’. Tínhamos de gramar aquela merda todas as aulas! E eu, como era o melhor aluno da turma – a Português, não era a tudo – um dia comecei a recitar: ‘Batem Leve, levemente/Como quem chama por mim’… As janelas estavam abertas – davam para o jardim, muito sol, Primavera – e, de repente, esqueci-me da continuação. Parei. Ele olhou para mim e eu disse ‘Sotôr, esqueci-me, desculpe’. Fui para o lugar.
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Naquela fase em que largou os empregos, quando escreve a Comunidade estava mesmo convencido de que era possível viver assim?
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Às vezes espanto-me. Mas em Setúbal tive muitos apoios. O [jornal] Setubalense empregava na altura. Ganhava por semana, como revisor tipográfico, 90 paus mais seis por cento para o desemprego. Na altura, em 1963, 90 paus já era dinheiro. Depois, o Manuel Vinhas pagou-me 500 escudos durante seis meses. A renda da casa eram 300 paus e ainda ficavam 200 para qualquer coisa. Não há milagres. Nunca conheci o Vinhas. Escrevia-lhe uma carta e vinham dois contos, era dinheiro.
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Mas teve outros ‘mecenas’.
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Havia o António, das Caldas da Rainha, que me ajudou muito.
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Quando é que deixou de acreditar na possibilidade daquele modo de vida, naquele ideal romântico?
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Não… Ideal, o caneco!
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A Comunidade é um texto muito sentimental.
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Mas não é piegas.
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Demonstra um grande amor pelas pessoas que estavam à sua volta. Diz que se pode viver à base do amor, que é a ideia mais romântica que pode haver.
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Vocês não têm noção disso, mas há ali pequenas insinuações, pequenas reticências: o que pensa uma mulher, uma mãe, a dar leite ao filho? Quem é que pode adivinhar?
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A quem acha graça hoje em dia?
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Agora acho muito pouca graça. E aqui então não se pode. Já mandei uma gaja aí à merda. Porque isto é um ambiente deprimente. Sexualmente isto é um desgosto. Mas aqui há namoros! É claro que vocês estão cá meia hora e depois arejam. Mas para a pessoa que cá fica… o que vale é que estou isolado... Também é muito cedo para dizer que estou mal. Ainda estou a experimentar. Em oito dias, só hoje é que fui conhecer o andar de cima. Ainda me desnorteia, não sei onde é o elevador. De resto, isto parece-me muito bom. É melhor do que eu supunha. Mas é difícil achar graça a alguma coisa com esta idade. Tenho 82 anos, porra! Há aquela coisa que é a PDI, a Puta Da Idade, o caruncho...E o velho, geralmente, é egoísta. Ou é mais egoísta do que o novo. Mas estou a falar de coisas muito tristes…
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Convenhamos que, ao longo da vida, o Luiz Pacheco também não se tratou muito bem.
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Não, tratei-me! Fui conservado em álcool. A questão é que não havia dinheiro para grandes rambóias. Não estou taralhoco de todo. Estou é um bocadinho desmemoriado e tomo muitos medicamentos.

11.1.08

Luiz Pacheco: os livros

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Quando morrem os escritores é inevitável, fruto da atenção dada nos meios de comunicação e por um certo sentimento de remorso de pessoas que nunca leram nada do escritor em causa, uma procura acrescida das suas obras. Claro que seria melhor se tivessem prestado a devida atenção em vida, mas mais vale tarde do que nunca.
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No caso de Luiz Pacheco, quem procurar as suas obras está perante um problema: ele publicou dezenas de livros, dispersos por inúmeras editoras (pequenas ou até micro-ediotoras que já não existem em grande parte dos casos), e é dificílimo encontrá-los nas livrarias. Muitas livrarias (a maioria?) não têm uma única obra dele.
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O livro mais fácil de encontrar é o Diário Remendado, já que saiu recentemente (2005) e numa grande editora (a Dom Quixote). A Byblos, por exemplo, embora seja suposto ter tudo o que existe em Portugal, na semana passada só tinha este livro.
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Também o Exercícios de Estilo (a 3ª edição aumentada, da Estampa) se encontra com facilidade. Este é sem dúvida o livro mais adequado para quem se quer iniciar na obra de Luiz Pacheco, já que tem os seus principais textos: Comunidade, Os namorados, O teodolito, O cachecol do artista, entre vários outros, tendo sido ainda acrescentados na 3ª edição O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor, Os amigos. Os bambinos, Porto-Lisboa a pedir esmola e outros. É a obra maior de Luiz Pacheco, absolutamente imperdível.
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Na FNAC do Chiado costuma haver sempre os dois anteriores e por vezes também Cartas ao Léu (Quasi, 2005) ou os dois livros que saíram na Oficina do Livro, Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus (de 2002) e Raio de Luar (de 2003).
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Tirando os livros que já referi, é dificílimo encontrar o que quer que seja, embora nalguns casos não completamente impossível.
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Recentemente reparei que os dois volumes de Textos de Guerrilha (Ler, 1979 e 1981) apareceram baratíssimos em várias livrarias. Reparei neles na Pó dos Livros, quando abriu, na Portugal (na Rua do Carmo) e há pouco tempo naquela livraria do Jardim da Parada, em Campo de Ourique).
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A nova livraria Trama (Rua São Filipe Nery, junto ao Rato), tinha ontem na montra Pacheco versus Cesariny (Estampa, 1974) e Uma Admirável Droga (Quarteto, 2001).
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A Portugal há umas semanas tinha o Cartas na Mesa (Escritor, 1996).
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A Bucholz teve durante muito tempo (não sei se ainda terá) um grande stock daquela colecção que saiu com o Independente, incluindo o Figuras, Figurantes e Figurões (de 2004).
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Muito fácil de encontrar é a excelente tradução (ou versão, como ele preferiu chamar) de A Minha Mulher, de Anton Tchekov (Quasi, 2006).
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Duas livarias que costumam ter muitas coisas de Luiz Pacheco são a Letra Livre (na Calçada do Combro) e a Ler Devagar.
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Quanto a esta última, desde que está no Braço de Prata nunca reparei no que é que tem mas nas anteriores instalações era talvez a melhor livraria de Lisboa para encontrar livros de Luiz Pacheco. A Letra Livre costuma também ter várias coisas. Além dos livros que já referi em outras livrarias, já vi por lá coisas como Textos Malditos (Afrodite, 1977) ou Mano Forte (Alexandria, 2002), entre outros.
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Por fim, restam-nos sempre os alfarrabistas. Só lá é que podemos encontrar as edições da Contraponto ou outras mais ou menos raras, mas aqui é necessária uma boa dose de paciência e por vezes muito dinheiro (algumas edições andam pelas largas centenas de euros!).
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Perante este panorama, torna-se fundamental reeditar convenientemente a obra completa de Luiz Pacheco, ou, caso não seja possível, pelo menos as coisas mais importantes (a Assírio & Alvim parece-me a editora ideal para isso), de forma a que um autor tão importante não comece a cair no esquecimento.

Luiz Pacheco:entrevista ao Sol

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O Sol está a anunciar para a sua edição de amanhã uma entrevista com Luiz Pacheco, concedida em finais de 2007.
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Por uma vez, compremos pois o pasquim do arquitecto Saraiva, o Pacheco merece...

Luiz Pacheco: o tradutor

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]

10.1.08

Luiz Pacheco por Rui Ramos

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O Portugal de Luiz Pacheco
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Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom
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Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom - melhor do que a maior parte dos literatos contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga justifica os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século.
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Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. No que disse e escreveu, estão os traços da colheita literária de 1945: por exemplo, o culto do "amor" e da "sinceridade". Mas está também um drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O'Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o "surrealismo" foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (bem explicada por Eduardo Lourenço). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade.
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Numa literatura colonizada por "antifascistas" e académicos, todos muito respeitáveis, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do "desgraçado" que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o "ismo" necessário para arrumar tudo isso: "neo-abjeccionismo". Nesta lenda do "escritor maldito", cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia algo de defensivo: sem quase nada a perder, pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde conduzir a "guerrilha" que o tornou célebre. O grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado "meio" levava a sério os "grandes autores" do momento. Em público, porém, todos faziam as esperadas genuflexões. Pacheco não. Imprimiu a "má língua", lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um "mercado livre das Letras". Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam.
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Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como "libertino", versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe "graça". A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu.
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Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da "nossa terra". Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o autor só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da Estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e, em lá chegando, fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora na estação, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido "auto", tem uma ideia para "legalizar" o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do autor passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.
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Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não é verdadeiro?
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[Rui Ramos, Público, 9/1/2008]

9.1.08

Luiz Pacheco: o cachecol do artista

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]
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"O texto que eu te vou mandar, tu diz-me francamente se gostas ou não, e faz-lhe uma crítica cerrada, é a melhor maneira de me ajudares. Estou aqui metido num buraco, onde não falo com ninguém, não vou a Lisboa há um mês, quase, e esse isolamento às vezes não é vantajoso, desproporciona e apouca o sentido da auto-crítica.
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A tese é: não há neste momento, que eu saiba, por minha experiência, uma possibilidade de trabalho em criação literária, livre e honesto, que dê para um escritor viver, mesmo modestamente. Não será preferível, em vez de cair na aldrabice, o escritor cair na pedinchice, apresentando de tempos a tempos, obra sua, séria e válida? isto é, conseguir dum mecenato, ou da simples amizade e caridade, aquilo que os patrões lhe negam e o público, como clientela, não compensa? (É o caso do teatro, onde não há actor hoje a trabalhar, com decência, que não seja subsidiado). Daí que o artista precise de um cachecol, O CACHECOL DO ARTISTA… A tese vai em forma humorística; o momento dos números e das memórias reais ainda não chegou. Mas a verdade, entre a ‘solução Mário’ (bolsa da Gulbenkian, destino Frèsnes), a ‘solução Lima’ (muito trabalho, uma grande barafunda, dinheiro – mas obra à espera na gaveta) é que vou tentar um terceiro caminho.”
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[Luiz Pacheco, carta para António José Forte de 7 de Dezembro de 1964, in Mano Forte, Alexandria, 2002]

Luiz Pacheco no Funcionário Cansado

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Até ao Sábado passado, tinha colocado aqui no blog duas entrevistas e dois artigos de Luiz Pacheco. Aqui ficam os links:

- Entrevista ao Correio da Manhã
- Entrevista à K
- O Mito do Café Gelo
- Descobri um Autor (sobre O Que Diz Molero)

Luiz Pacheco nos blogs


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Nos últimos dias houve na blogosfera uma série de reacções à morte de Luiz Pacheco, bem como algumas homenagens e comentários diversos. Entre muitos outros seleccionei os seguintes posts de:

Gostaria ainda de chamar a atenção para este indispensável site dedicado a Luiz Pacheco.

8.1.08

Luiz Pacheco: os amigos

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]

Luiz Pacheco por Torcato Sepúlveda

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O último patuleia das letras, conservador e insurrecto
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Abjeccionismo. Pacheco não foi surrealista, mas um clássico que utilizou a libertinagem
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“Eu sou um atraso de vida, porque sou um gajo de 1800 e tal ou 1900. Olha, nunca andei de avião”, declarava Luiz Pacheco, em entrevista a Carlos Quevedo e Rui Zink, para a revista K, de Julho de 1992. Um exercício de auto-análise muito lúcida.
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O mito do Pacheco surrealista não passa disso mesmo, de um mito. O autor de O Teodolito acompanhou os surrealistas portugueses – o surrealismo chegou cá com décadas de atraso – e outros vanguardistas, mas é um clássico: escrevia o português de Camilo Castelo Branco, condimentado com a oralidade da língua portuguesa da segunda metade do século XX. Isto significa que Pacheco é uma espécie de porta aberta que conduz do passado para o presente. Outros houve antes dele: Fialho de Almeida, por exemplo. Fialho foi panfletário, Pacheco também; Fialho foi polemista, Pacheco também; Fialho foi um camiliano apimentado pela Geração de 70, Pacheco foi um camiliano fecundado pelo surrealismo.
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Pacheco nunca escreveu romances porque a sua literatura era de urgência: de matar a fome, de zurzir os bonzos que mandavam nas letras pátrias, de atacar o salazarismo a golpes de impropérios e gargalhadas, não por causa da condenação lavrada por André Breton contra o género. Deixou-se proteger por um guarda-chuva inventado por ele e pelos seus amigos do lisboeta Café Gelo – Mário Cesariny, António José Forte, Virgílio Martinho, Manuel de Lima, etc. – o abjeccionismo. Uma espécie de revolução individual e colectiva, sobretudo individual, que se exprimia no nojo. A ditadura política do salazarismo e a ditadura dos costumes herdada da Inquisição deixaram marcas na obra de todos eles.
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O principal texto do abjeccionismo foi precisamente da autoria de Luiz Pacheco. O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor. E não há narrativa mais portuguesa no seu falhanço: um libertino, o próprio Pacheco, é claro, tenta conquistar, em Braga, uma rapariguita; ele adorava rapariguitas e por causa delas bateu várias vezes com os costados na cadeia. Nada consegue. Tenta a sorte com um magala, numa muito desamparada investida homossexual. Nada. A noite acaba tristemente em masturbação solitária.
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O contraponto de O Libertino… é o belo monólogo Comunidade, elogio da família-clã, da paternidade, da filharada. Porque o autor, defendendo embora o aborto livre, defendia também a procriação. Aspecto esquecido da sua obra é o da sensibilidade para o tempo que passa; leia-se a narrativa A Velha Casa, antologiada em Exercícios de Estilo: “Olhou para onde há pouco havia sol e já não o viu.”
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Com Pacheco morre certo Portugal antigo. Contraditoriamente conservador e insurrecto. Luiz Pacheco foi o último patuleia das letras.
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[Torcato Sepúlveda, DN, 7/1/2008]

7.1.08

Luiz Pacheco: o testemunho de Vítor Silva Tavares

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Requiem para um inimigo
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Pacheco reconcilia-me com a permanência e a necessidade do estilo.
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Como Jarry em Ubu e César Monteiro em João de Deus, desdobrou-se Luiz Pacheco em Pacheco, com artigo definido. E de tal forma, tão vincado à caricatura, que a personagem abafou a um tempo o homem (sem qualidades?) e o escritor, ou escriba de circunstância. A personagem, essa, desenhou-se inconfundível entre gentes (de sobremodo "marginais") e lugares outros da excelência cosmopolita - tugúrios do Bairro Alto, de Massamá, das Caldas, de Setúbal, de Braga e do Limoeiro. Breve, o andarilho, o vadio e pedinte, o ávida-vintes, o linguareiro temível, o pai-chocadeira, o arrebenta, o libertino, o libertário se deu ao diz-se, à lenda, ao muito anedótico. Um pouco como, nos seus tempos, Bocage ou Gomes Leal, que a arraia-miúda sabia serem poetas, vá lá, extravagantes nas suas faltas de preparo e bem assim nos seus públicos infortúnios e verrinas.
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Certo que o pesadelo concentracionário da era salazarista e o cinzentismo da praça literária, esta ao fim e ao cabo conformista e conformada, mais fizeram recortar a iconoclastia do guerrilheiro, extensível, como não podia deixar de ser em Pacheco, às glórias (poucas) e vicissitudes (muitas, e das que vão matando) da sua vida íntima, tão contrária ainda por cima aos bons usos e costumes da hipocrisia social, que ele combateu com fúria e ácido.
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Raros, em Portugal, os escritores que tão fundamente entrosaram vida e literatura. Raros também, por isso mesmo, aqueles que souberam tocar, com tão absoluta veracidade, as cordas mais sensíveis do sentimento humano. Leia-se, releia-se, A Comunidade (ou Os Namorados, exemplos à mão da memória) e eis que, de anedotário faceto como da aura sempre por ele negada de "escritor maldito" (quando o que havia era, e é, "escritores mal escritos"), ressalta então o homem que se despoja, que se desnuda até ao mais fundo da crueldade e do amor. Para exemplo. Nada disto seria de preservar, se não fora a maestria, a cintilância, com que o Luiz Pacheco laborou, elaborou, a língua escrita-oral portuguesa, as "audácias" pessoais nela contidas para maior afirmação e esplendor do seu, afinal, classicismo. Ler o Luiz Pacheco reconcilia-me com a permanência e a necessidade do estilo, tão maltratado este entre as letras funcionárias.
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Do editor que ele foi (sem recursos financeiros, mas com pontaria de conhecedor, a sua Contraponto cumpriu-se como aventura intelectual à revelia de negócios e oportunismos) só uma palavrinha: reconhecimento. Neste ponto, não posso deixar de ter sido seu amigo (por ele conheci Cesariny e Herberto), eu, que lá perdi agora - e como o lamento! - um dos meus mais ferozes e dedicados inimigos. Por admirações mútuas, por ciúmes, por amores, por dissonâncias existenciais.
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Não estou só. Ao perder um tal inimigo, mais desamparadas ficam as ronceiras letras portuguesas que inundam escaparates e supermercados.
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"A crítica - eis a razão da nossa permanência", frase de António Maria Lisboa que o Pacheco chamou sua para a contracapa da Crítica de Circunstância que me honrei de publicar e a PIDE sacou, num ápice.
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Estará, na circunstância, tudo dito, que é nada.
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[Vítor Silva Tavares, Público, 7/1/2008]

Luiz Pacheco nos jornais

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Os jornais de hoje dão algum destaque à morte de Luiz Pacheco, embora não tanto como eu esperava. Podem ser vistos alguns artigos nos sites do Público, DN e Correio da Manhã, para referir os principais.
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Assinale-se em particular os testemunhos de Vítor Silva Tavares (no Público, mas no site não consegui aceder ao texto propriamente dito, situação infelizmente habitual no inacreditável site deste jornal) e de Torcato Sepúlveda (no DN, indisponível on-line), que tentarei deixar aqui no blog assim que me for possível.
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A registar ainda a notícia da reunião em livro das últimas entrevistas de Luiz Pacheco, prometida há algum tempo. A organização é de João Pedro George e sairá ainda este mês na Tinta-da-China com o título O Crocodilo que Voa.

Luiz Pacheco: entrevista ao Jornal de Letras (2005)

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Nos últimos anos Luiz Pacheco deu inúmeras entrevistas que muito ajudaram a celebrizá-lo junto de uma geração mais nova, com pouco contacto com os seus livros (até porque são dificílimos de encontrar). Não esquecendo nunca que a verdadeira grandeza de Luiz Pacheco está nos seus maravilhosos textos, as entrevistas não deixam no entanto de ser interessantíssimas.
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Esta que aqui deixo foi publicada no Jornal de Letras de 31 de Agosto de 2005, a propósito do seu Diário Remendado (Dom Quixote) e o entrevistador foi Rodrigues da Silva:
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UM DIÁRIO INTEIRAMENTE LIVRE
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É um diário sem paralelo na literatura portuguesa porque não foi escrito para ser publicado. Aliás, boa parte dele perdeu-se ou anda perdida, nem Luiz Pacheco, o seu autor, sabe por onde. De qualquer modo, o Diário Remendado, que, com posfácio de João Pedro George, a Dom Quixote vai lançar na primeira semana de Setembro vai de 1 de Novembro de 1971 a 12 de Dezembro de 1975, vivia Pacheco em Massamá. Agora, com 80 anos feitos em Maio, vive num lar de idosos, onde o JL o foi encontrar. Para redescobrir o mesmo Pacheco de sempre. Um homem vertical, que, a despeito da velhice e da decadência física, não é habitado pela menor amargura, antes mantém inalterável o seu proverbial humor mordaz e a sua constante auto-ironia.
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Conheço-o vai para 50 anos, devo-lhe muito (como todos aqueles a quem o Pacheco, em finais de 50, «impingiu» edições quase clandestinas dos primeiros livros do Herberto e do Cesariny, autores em que, salvo ele, nenhum editor apostava), e o Luiz Pacheco está igual. Não, não está. Fez em Maio 80 anos, já não edita livros, já não isto, já não aquilo, nem já bebe, o Pacheco. Mas é o mesmo. O mesmo tipo que, aos 20 anos, optou por um modo de vida e assumiu-o, nunca disso se queixando. Se a liberdade tem como contraponto a responsabilidade, Luiz Pacheco é disso um paradigma. Porque jamais lhe ouvi um lamento. E, sempre mordaz, jamais também o vi invejar fosse quem fosse. Uma tarde desta reencontrei-o num lar de idosos, ali ao Príncipe Real. Ouve mal, vê muito pouco, já não consegue ler, nem escrever, tão-pouco distingue sequer a comida no prato; usa fraldas, habita um quarto despido de quase tudo, está ligado ao mundo por um telemóvel e pela rádio, mas fartámo-nos de rir os dois com as piadas dele, porque o Pacheco continua possuído de um humor e de uma ironia absolutamente invejáveis. Muito do que me disse não é possível publicar-se numa entrevista, mas o que a seguir se poderá ler dá o tom. O tom de um homem que soube aceitar a velhice e (por que não dizê-lo?) a decadência física com essa imensa nobreza que se chama sabedoria. Por isso, quando lhe perguntei pela morte, o Pacheco disse que sim, advertindo, porém: «Não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar».
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Jornal de Letras – Como é que te sentes aos 80 anos, tu que dizias que não passavas dos 40, dos 50, dos 60 e por aí fora?
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Luiz Pacheco – Olha, passei.
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Como é que passas o tempo aqui?
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Aqui!? Tu já foste ali à sala de espera? Nem vás. Aqui não há pessoas. Há moribundos a imitar pessoas. Um gajo não vem para aqui para se curar ou melhorar. Vem… Eu farto-me de rir quando me falam de qualidade de vida. De vida? Aqui! Farto-me de rir. Mas não estou mal. No Natal passado vieram aí uns tipos visitar-me e deram-me um leitor de CD e um rádio. É com isso que me entretenho. E com o telemóvel, que é uma boa coisa. Televisão não vejo, ouço, para não me deixar isolar demasiado.
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Ainda lês?
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Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: «De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim». Afinal não era arroz de pombo, era arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo… Foder não é indispensável. Deixar de ver e de ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.
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Porque só agora sai este Diário Remendado?
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Isso é uma coisa maluca. Sabes, eu não tenho dinheiro para estar aqui. Isto custa mil euros por mês, fora os remédios e as fraldas. E as gorjetas às miúdas, porque sem o apoio delas é difícil. Recebo 120 contos [600 euros] do Ministério da Cultura, mais uns 40 ou 50 contos [200 ou 250 euros] da reforma, mais uns 60 euros da SPA. Depois há umas vendas de livros e outras larachas. Aquela coisa que passou na televisão deu-me 2 mil euros, o Vasco Graça Moura publicou a Comunidade pagou-me 500 euros, o livro do Independente [Figuras, Figurantes e Figurões] também me deu 2 mil – acho eu. O António Mega Ferreira vai publicar não sei o quê meu e também me vai pagar. Olha: é à justa. À justa porque eu não vou à rua. Há dois anos que não saio daqui e há dias em que nem saio do quarto. E aqui não há onde se gaste dinheiro. Na rua é diferente: há sempre um livro, um doce, uma merda qualquer, e lá se vai a massa.
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A família vem-te visitar?
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A família é a família, sabes como é… Os filhos têm a sua vida. O Paulo está em Palmela, o do Montijo pouco cá vem, o Luís José mora em Queluz de Baixo, a minha filha Maria Luísa agora ficou viúva, a Adelina anda por aí na Europa, a Geninha está no Ribatejo e tem um negócio de bolos. E o de França está preso.
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Preso?
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Matou um gajo, um empregado dele, também português. Discussão, estava ali uma faca à mão… Estás a ver. Felizmente foi imigrante contra imigrante. Se tivesse matado um francês estava fodido. Assim safou-se: apanhou 12 anos, sai ao fim de 6, está satisfeitíssimo, estuda imenso na prisão, computadores. É um gajo das Arábias.
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E netos, quantos tens?
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Sei lá, ando lá agora a controlar a gravidez das meninas. Devem ser para aí uma dúzia. A Geninha tem uma filha muito bonita.
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Voltemos ao Diário Remendado. Edita-lo agora…
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Por dinheiro, claro. As pessoas nunca falam em dinheiro, mas é.
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O Diário vai de 1971 a 1975, mas dizes que é a terceira série. Quais são as duas primeiras?
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Eu digo que é a terceira série!? Eu não reli nada do que vai sair. O Diário começou a ser feito a 1 de Janeiro de 1970, no Hospital de Santa Marta. Estava lá internado com uma merda qualquer do coração, depois de uma grande bebedeira que apanhei com o Jorginho, a Rata dos Cabarés; tu não te lembras dele? Apareceram-me lá a Lia Gama, o Lauro António e o Vítor Silva Tavares com 500 exemplares da 1ª edição d’O Libertino [Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor] para eu assinar e numerar, mas levaram-me também um daqueles cadernos pautados, muito grandes, da [Papelaria] Emílio Braga. Foi nesse caderno que comecei a escrever o Diário. Depois, quando saí, continuei em Massamá, para onde, nesse ano, em Setembro, fui morar sozinho.
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Na Rua das Camélias…
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… Número 5, rés-do-chão direito.
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Um dia destes a Junta de Freguesia manda pôr lá uma lápide evocativa da tua passagem, de cinco anos, por Massamá.
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Tas doido. Aquilo era um cóio de vagabundos. Eu morava lá sozinho mas entrava e saía gente todos os dias, malucos, bêbados, marginais. Só lá não foi parar o Beringela e a Mana Gorda, o resto caiu lá tudo: a Elsa, a Odete Calmeirona, a Miss Cacilhas, o Cabeça de Vaca, o Garcia Pereira, o Nhonhó, o Chico Bres, que um dia me pediu para lá dormir uma noite e ficou oito meses, o Sampaio, um rapaz que tinha um restaurante no Parque Mayer e foi preso por vender cocaína (não era cocaína, era farinha), sei lá mais quem. Aquela experiência não se repete. Repara: havia aquela maluqueira toda, mas em cinco anos traduzi livros infantis para a Verbo, escrevi os Exercícios de Estilo, Literatura Comestível e Pacheco versus Cesariny.
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Apesar das bebedeiras…
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Não estava sempre bêbado. Também trabalhava.
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Não bebes desde quando?
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Sei lá. Aqui (estou cá há cinco anos) ao princípio ainda bebia, uma taça de vinho tinto ali na esplanada do jardim. Depois deixei. Em Massamá bebia muito, depois tinha de tomar injecções na veia, uma para os rins, outra com um choque vitamínico. Era bom, fazia bem. Mas a recuperação melhor foi em Celas (Coimbra), já depois da do Hospital Júlio de Matos (no Centro António Flores), onde me foste visitar.
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Todo o Diário é feito em Massamá.
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Sim. Há umas coisas que podem ter sido em Campo de Ourique, mas poucas. Isto deveria ter levado umas notas a explicar quem era este e aquele, mas dava muito trabalho e assim nunca mais saía.
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Mas paraste o Diário em 1975?
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Não. Fui escrevendo sempre até 1999. Agora é que já não vejo.
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Mas onde é que estão esses cadernos de 1975 a 1999?
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Sei lá. É difícil recuperá-los. Uns dei-os, outros vendi-os, outros perdi-os em tabernas, em pensões, o Paulo [o filho] ainda lá tem muita coisa.
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Quem te propôs esta edição?
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Eu já vendi este Diário duas vezes. Esta é a terceira. Uma vez, estava aflito de dinheiro, fui à Moraes, do Nelson de Matos [então director literário da editora], e disse-lhe «Eh pá, não queres publicar isto?» O gajo abriu aquilo ao calhas e deu logo com uma página em que eu falava mal dele, de dois romances muito maus que tinha escrito, e eu chamava-lhe «pajem do Urbano Tavares Rodrigues». Claro que o Nelson disse que não («vai-te embora, meu filho da puta»). Lá se foi a edição. Isto passou-se aí por 1970 ou 1971.
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Não é possível: este Diário começa a 1 de Novembro de 1971.
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Mas eu escrevia muito. O I volume é de 1970 e parte de 1971 e tem uma figura feminina, a Teresa; deves tê-la conhecido, era uma miúda muito bonita. Não te lembras daquela cena com ela no Bairro das Colónias, quando o pai a pôs na rua, toda nua, e a mãe lhe atirou um lençol pela janela.
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Mas essa parte que levaste à Moraes perdeu-se?
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Uma parte deve ter o Paulo, a outra não sei. Depois há um II volume, esse em que falo muito da Teresa. Um dia ela foi a Massamá e eu dei-lho. Falava dela, dei-lho. Ela levou aquilo, passaram-se anos e anos e há meses pedi-lho. Ela disse-me que tinha ardido, num incêndio em casa da mãe. Foi-se. Há pessoas que têm uns cadernos, mas não mos dão.
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E essa parte que vai sair estava onde?
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Vamos primeiro às vendas. Em 1972, por 2 contos, vendi isto e mais uma tradução ao Pedro Antas. O Antas não editou nada e levou tudo para Paredes de Coura. Depois apareceu o Sérgio Guimarães, que me dava umas coroas de vez em quando (500 paus, um conto, assim). Até que um dia me disse: «Essa coisa do Diário é uma grande aldrabice». Respondi-lhe: «Então empresta-me aí dinheiro para eu ir ao Porto a ver se eu não te trago o Diário». Ele emprestou-me mais 500 paus, fui à Foz do Douro onde morava o Antas, ele foi a Paredes de Coura buscar o Diário e eu recambiei-o para o Sérgio. Aquilo ficou nas mãos dele uma série de anos, ele tinha uma editora de coisas pornográficas, mandou bater tudo à maquina mas nunca publicou nada, até que a editora faliu e depois o Sérgio morreu. Consegui reaver a tralha, de modo que fiquei com o original e com a cópia à máquina, que tive de emendar, porque a miúda que dactilografou não percebia a minha letra e engatou aquela merda. Já com aquilo emendado fui à Rolim levar a porra do Diário. O gajo da Rolim deixou-me desgostoso. Disse-me: «Isto requer muito trabalho». Ora um diário não requer trabalho, não é nenhum romance. Voltei com a papelada para casa e desisti da publicação, acabando por dar tudo a uma senhora de Coimbra e não pensei mais no Diário. Só que, já eu estava aqui no lar, surgiu aquela ministra das Finanças, a Manuela Ferreira Leite, a cortar nas despesas todas, e eu pensei «Ai que lá se vão os meus 120 contos do Ministério da Cultura…» Foi então que telefonei para Coimbra e a senhora devolveu-me o Diário. Mas era um calhamaço enorme. Peguei naquilo, e, como já não via para cortar parágrafos, períodos e frases, cortei partes inteiras até reduzi tudo para metade. O Paulo levou à Dom Quixote, que disse que sim e acho que até meteu umas coisas que eu tinha cortado. Tanto faz. Os gajos vão-me pagar 300 euros por mês, é porreiro.
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Tu dizes no Diário uma coisa muito bonita. Chamas-te «um escriba de circunstância» e afirmas-te «um tipo que queria ser escritor mas antes queria ser um homem livre».
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Tu escreveste isto sobre mim?
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Não fui eu, Luiz. Foste tu, no dia 13 de Fevereiro de 1974. E acho que é a tua auto-definição.
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E, é, sim senhor, mas já não me lembrava de ter escrito isso. Este Diário é inteiramente livre, não tem nada a ver com os do Torga ou do Vergílio Ferreira, que escreviam para ser publicados. Isto é diferente: uma espécie de reflexão, de desabafo, de confidência; coisas para mim.
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Como é que aparece o posfácio?
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Ai há um posfácio!? Não sabia.
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É de João Pedro George.
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Esse gajo é uma espécie de índio chupista. Apareceu-me aqui um dia para fazer a minha biografia. Dei-lhe uma porrada de nomes para ele procurar, gravou, gravou, gravou, também coisas minhas, até que eu lhe disse que depois de estar aqui há cinco anos, já não tenho biografia possível. De modo que ele agora quer rentabilizar o esforço que teve a gravar e um espólio importante que tem sobre mim, porque há quem lhe tenha dado muita coisa, cartas, sei lá. O gajo sabe mais de mim do que eu. Mas isso do posfácio também não interessa: a malta lê meia dúzia de páginas do Diário e larga, ninguém chega ao posfácio.
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Ele diz que é «um dos mais autênticos diários da literatura autobiográfica portuguesa»:
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Ele diz isso!?
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Não obstante, considera-o narcisista…
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É natural. Um gajo se está a escrever sobre o que fez ou vai fazer neste dia assim-assim, é, de facto, narcisista. Queres coisas mais narcísicas que os diários do Torga ou do Vergílio Ferreira? O meu deve ter muita parvoíce. Mas ao fim de 30 anos, o Diário já não me diz nada.
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A propósito, no outro dia na televisão disseste que te estavas nas tintas para os jovens de hoje.
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Disse «puta que os pariu».
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É blague. Falas dos teus filhos, de uma neta muito bonita, para que é que dizes essas coisas?
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A primeira vez que disse isso foi para a revista Ler. O gajo massacrou-me horas com a entrevista, eu já estava cansado, às tantas fiz-lhe um manguito, mas ele, no corredor, ainda me veio com essa do futuro. Puta que os pariu.
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Não acredito que penses isso. Aposto que no futuro ainda vais ser lido. Achas que sim?
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Não faço ideia. Os livros caem como se fosse num poço. Há 50 anos que eu tenho essa experiência. Que livros meus venceram o bloqueio?
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Uma série deles. A Comunidade tem 11 edições e deu origem a um espectáculo teatral. O Libertino tem seis edições, os Exercícios de Estilo três, mas há ainda a Crítica de Circunstância e muitos outros textos teus. E, quase todos, para além do mais, são um testemunho fantástico sobre uma época.
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Há coisas que furam, mas lentamente. Daqui a 50 anos pode ser que se fale é de mim como um doido desta época. Mas não estou preocupado com isso.
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Eu sei, mas ficas para a História como um marginal, um escritor ou um editor?
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A edição [editora Contraponto, fundada por Luiz Pacheco em 1950] foi o que fiz de mais positivo. Havia uma barreira difícil de ultrapassar, eu lutei contra essa barreira e venci-a. Era a PIDE, a Censura, toda essa merda, mas também havia os neo-realistas que ocupavam tudo (eu fundei uma editora porque não tinha outra para onde ir). Eles ocupavam tudo e caluniavam imenso. Essa malta não me escapa.
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Não te escapa, mas, como muitos deles, foste parar ao PCP.
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Pois foi. Olha: soube ontem que o meu secretário-geral vai ser candidato a Presidente da República.
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Vais votar?
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Não posso. Perdi o cartão de eleitor quando [nas últimas eleições presidenciais] votei no António Abreu. Estava no Montijo e tinha que ir votar a Palmela, onde estava recenseado. Perguntei quanto era de táxi, pediram-me três ou quatro contos, eu achei muito e não me apeteceu. Mas no lar do Montijo estava uma gaja horrorosa que tinha sido cozinheira do Champalimaud, falei-lhe nisso, ela disse-me «era só o que me faltava: gastar três ou quatro contos para votar». Aí irritei-me e fui mesmo de táxi votar. Mas, na barafunda, perdi lá a porra do cartão. Quando vim para aqui fui à Junta de Freguesia mas ainda estou à espera da 2ª via do cartão para poder votar.
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Em quem?
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No Mário Soares.
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Teu antigo colega da Faculdade de Letras.
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Sim senhor. O gajo aguenta. Os pais e os avós dele chegaram aos 100 anos.
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Tu deves-lhe uns favores, sempre te deu umas massas. Cravaste-lhe 20 paus quando um dia ele ia a sair da PIDE.
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Isso é mentira. O que é verdade é que – era ele Presidente da República – me deu 650 contos. Olha que é muito dinheiro! Deu-me de uma vez 200 contos em cheque, depois 250 contos em 25 notas de 10 contos e por fim mais 200 contos.
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E o Jorge Sampaio?
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Esse nem cheiro. Pior foi o Eanes. Como o David Mourão-Ferreira tinha conseguido um subsídio para o Raul de Carvalho, o Alçada Baptista falou-lhe de mim. E o Eanes respondeu-lhe: «Para quê? Para ir gastar na taberna?». O Soares não perguntou onde é que eu ia gastar a massa.
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Soares é fixe?
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Então não é? Vou votar nele.
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E nas autárquicas?
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Nesses macacos de Lisboa? Sei lá. Espera: vou votar no Ruben de Carvalho. Um gajo aqui perde um bocado as motivações.
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Mas não estás com mau aspecto.
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Eu nunca esperei acabar nisto.
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Nisto, como?
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Eh pá: com criadas, auxiliares, assistência médica. Fazem-me a cama, limpam-me o quarto.
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Não te sentes sozinho?
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Não. Tenho uma memória muito razoável. Já não posso ler, já não posso escrever, de modo que repiso o que vivi. Depois há malta que vem cá e me conta umas coisas de que eu já não me lembrava.
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Não escreves, mas podias ditar para um gravador.
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Eu cheguei a ter um Diário Falado, gravado para as cassetes.
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E onde é que estão essas cassetes?
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Algumas deve-as ter o Paulo. Outras perdi-as nas pensões, nos sanatórios, por aí… Um diário, escrito ou falado, torna-se um vício, uma espécie de dependência. Mas depois também passa.
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Ouve lá: quais os escritores portugueses actuais que pensas que serão lidos daqui a 50 anos?
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Os que vierem nos programas escolares. Achas que os putos agora lêem A Sibila? É uma maravilha aquele livro, mas que miúdos urbanos de hoje é que vão ler aquilo? O Pessoa perdura, de certeza. Não sei se o Saramago e o António Lobo Antunes têm tomates para continuar. Não faço ideia do Herberto. Esse é diferente, é poesia, mas a prosa dele também é muito boa. Mas quem é que lê hoje Os Passos em Volta?
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Muita gente, e jovem.
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Ai é!? O Herberto é muito complexo. Não será o nosso maior poeta, mas é muito bom.
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Pensas na morte?
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Penso, mas não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar.

6.1.08

Luiz Pacheco (1925-2008)

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Morreu ontem à noite Luiz Pacheco, um dos grandes nomes da cultura portuguesa do Século XX, sobretudo um magnífico escritor e editor.
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Em jeito de homenagem deixo aqui um dos seus mais brilhantes textos:
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O LIBERTINO PASSEIA POR BRAGA, A IDOLÁTRICA, O SEU ESPLENDOR
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Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):
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AMANHÃ MESMO MORRERÁS!
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Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Geninha jamais esquecida. A Super-Super-Geninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!
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Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur ("O Enjeitadinho"? "O Corcundinha"?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: "Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada". Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar... Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.
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Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.
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Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a "Seara". Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, "da maneira mais arbitrária...", diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!... É para ver se perdem mais depressa, ah!... ah!... (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza - e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!
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Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: "Eu sento-me já aqui", e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultado dão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã... ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos. Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: "Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...". O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!
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Meto a caminho de Somar. Saem-me à estrada duas bezerras, tasquinhando castanhas. Peço-lhes de que comer, mostra-me uma um naco de pão com carne ou presunto. "Que o reparta", digo. Mas elas são duas toiras muito sabidas e não vão às primeiras com o meu ar tedibói pobretana. A de cá, da direita, é um belo pedaço de mulher, coxas reais, pernas, cabelos e cara, bicho para dar trabalho de cu-abaixo-cu-acima a um batalhão. Vão para um baile ou encontro furtivo. Que as fodam! Dou-me todo a pensar na minha Deolinda e aperto a bolota-talismã. Chego ao local onde a vira primeiro, de manhã, com uma casa afidalgada na curva da estrada e a azinhaga que enviesga para os campos, à direita. Farei referência pela igreja, já que o lugar de Assento é vizinho e depois bisbilhotarei pelos campos, usando o meu faro atiradiço. Onde estará agora a casta diva? Lá se vê a capela, e pergunto a quatro moçoilas onde é o lugar de Assento, "que é por ali", respondem, "então sigam à minha frente que é para eu as ver melhor" , digo, a fingir de domador de potras vadias. Estas são mais novas que as duas de há bocado na estrada, aí entre os 15 ou os 18, mulherzinhas já, mas não fazem concorrência à Deolinda, ah! não, p.q. as pariu! Vão numa grande galhofa, e eu rio-me cá atrás, para saberem que lhes estou interessado nas falas. A que vai do meu lado, à esquerda da azinhaga, é uma loira espigadota, bonitota, provocante; é a que mais vezes se volta e encaro-a com o meu olhar mágico de duzentas megatoneladas e um riso de dizer (e o pior era o bafo, a mosto...) "anda cá, rapariga, estou cheio de tesão por ti, pois não vês?". Vamos neste jogo modesto até ao lugar de Assento e eu já arranjei pretexto para andar por ali, com o meu traje um tanto invulgar: blusão de nylon preto, calças rotas no rabo, sapatos rotíssimos nas solas e sujos de poeira por cima, uma coisa entre o tedibói e o vagabundo, com a pêndula a dar neste quando melhor se reparasse que blusão, calças e sapatos, novos ou rotos, velhos ou rebrilhantes, não iam com o meu corpo por medida senão por força de hábito e contrariados. O pretexto é: que me disseram que a capela ou igreja é muito, muito antiga e tem muito que ver; faço-me de Raul Proença ou Torga, a coscuvilhar raridades perdidas na Província, preocupado com velharias e ossos, quando o que quero são caras e bocas e olhos e risos. E mãos e pernas. Tudo, etc., de mulheres. Dou com a capela aberta: fazem um baptizado. O padre tem cara de cabra doente. Puta que o pariu mais ao pai da criança (que, depois, vim a sabê-lo, está em Angola-é-Nossa. Boa ocasião de conhecer melhor a mãe do neófito, para compensá-la do patriotismo do marido). As raparigas sentaram-se numa pedra e faço o mesmo, mesmo ao pé delas. Então entro em palestra, que toma logo um caminho picante: se a igreja é muito antiga, se elas são solteiras, se moram por ali, se há na casa da loirita um quarto a mais ou uma cama (abespinha-se: "isso num chei!") e mais isto e aquilo. Não dão muito pela minha curiosidade arqueológica e não sabem bem a qual delas me atiro ou que faço ali. Duas saem aos saltos, à outra peço-lhe tremoços que mos atira, caem no chão, pede desculpa, dá-me mais na mãozinha, pergunto se não há vinho para os forasteiros. Estou nisto e sai da porta, mesmo ao pé da igreja, a Lindita, a minha Lolita, a Super-Geninha. A bolota-talismã não me desenganou. Sai a correr, leva um cântaro e desaparece numa azinhaga. (A esta maravilha perco-a sempre por azinhagas). Estou em ir ou não ir atrás dela, mas disfarço o jogo, por causa das quatro sabichonas e também porque ela, tendo-me visto, não deu mostras de me reconhecer. O que me parece pouco natural, dado o meu blusão negro, característico, os óculos, a cara espantada, as calças todas amachucadas. Vira-me ainda não há umas 5 horas. Falara com ela duas vezes. Rondara-a com os olhos. Mas talvez não desse à minha ida ali qualquer significado especial, talvez não me topasse por eu estar a pôr-lhe os cornos com as outras, qualquer delas me servia para abrir o meu apetite da Super-Geninha, se isso fosse preciso. Mas o foder dá a vontade do foder (mais). Reparou em mim? não reparou? Daí a nada voltava a correr, sem o cântaro, e olhou-me como da primeira vez e eu olhei-a, com naturalidade. As quatro sabichonas não deram por nada. Entretanto, tinham-se ido sentar mais adiante e eu dei-lhes sopa, porque não aturo más-criações (mesmo fingidas e provocadoras) e agora que já vira a Super-Lolita-Super-Geninha não me calhava estar a namorar com elas. Vou-me para a capela, na minha nova pele de arqueólogo amador, neo-Proença. Surge o sacristão, que olhou para a blusa nova e não reparou nas calças esfiampadas, rotas e cosidas no cu. Óptimo. Falo para o futuro (dele): que quero tirar umas fotos àquela igreja tão antiga (muito, muito, diz-me o tipo a impingir-me a mercadoria), vejo uns baixos-relevos muito antigos (?) e muito toscos também, entro na capela, bisbilhoto tudo. O baptizo já acabou, e estão agora todos cá fora a conversar. Falo ao tipo na minha reportagem, em fotos - ele aí atrapalhou-me porque está um tipo precisamente cá fora a tirar fotografias ao bebé ranhoso e ao padre cara-de-cabra-doente, mas digo que a minha máquina é melhor, é minha. (Não tenho máquina nenhuma). O tipo concorda, está à espera duma gorja bestial mas eu lanço-o no caminho das grandes esperanças (no futuro). Falo da Fundação Gulbenkian, de milhões, de petróleo. Sou agora repórter da Fundação, faço de Santana Dionísio. Logo a seguir tomo nota do nome e morada do cavalheiro a aprazar vinda próxima, pois é nesta terra que me sinto bem. Entretanto, catrapisco ao longe a Super, que está numa bela pose inclinada a ver o grupo a tirar poses e mais poses para mandar ao pai da criança. Se a pudesse engatar! Vou atrás daquelas bestas, sempre metendo fantasias na pinha do sacristão, que é um espertalhão-estúpido, típico maloio de Braga. E vou-me. Marcho para Braga, está a fazer-se tarde e faz frio. Gasto a última coroa para a caixinha da rapariguita que me guardou a bagagem. Visto o casaco e vou ao ataque da Pensão Oliveira, onde há que fazer meter na pinha do hospedeiro que sou um velho e fiel cliente da casa. Havia nesta pensão duas velhotas Antigo Regime, uma sala de cortinados com um piano e duas maganas que tinham (uma delas) bigodaça loira. Tá tudo mudado: bar americano, tasco infame, forno de assar frangos. "As velhas morreram, para dar lugar à gente, antão?!", diz-me a filha do dono. Este leva-me ao meu antigo quarto no 2º andar, pergunto pelo piano, ainda lá está porque não há quem o queira. E na antiga cozinha é agora um quarto para noivos ou casais que façam muito uso de água, porque tem chuveiro e bidé sanitas anexo. Um regalo para encontros furtivos. Aqui a luxúria envolveu-se no campo perigoso da política, ah! ah! Bebo mais um copo, que me dá uma grande volta às tripas. Tenho de ir para o jardim passear, com vómitos embrulhados na língua. Aguento. Jantar. Dois moços de fidalgas famílias ou de massa? são estúpidos mas gulosos de mulheres. Meto conversa. Pergunto como é isto aqui de putas em Braga. Faço-lhes um sinalzinho com o dedo indicador em curva para virem até à minha mesa e levo o assunto para o minete, reforçado depois com o biminete. Dizem que há aqui o 28, que tem uma (pelo menos) gaja boa. Pergunto se já fizeram ou viram fazer minete. Explico-lhes o biminete. Pretendo com isto uma bacanal a cinco, que eles pagariam para me ver e foder as miúdas. Ficaram chocados com a minha declaração de que o foder já não se usa, cansa muito e eu tenho tesão, mas não fodo. São eles que terão de foder as mulheres. Não percebo bem se estão espantados, irritados ou entusiasmados. Querem ir ao 28 mas digo que depois de jantar, nada. Mais tarde. Eles então vão para o cinema e eu fico de ir esperá-Ios à porta. Saem jurando vingança! Cravo um maço de Paris ao balcão e fósforos. E perco-me pouco depois a explicar a um melro que o Totobola não prejudica isto da lotaria porque o lucro vai para a mesmíssima sereníssima beatíssima Misericórdia. Depois aparece um velho ginja que é monárquico, um tipo assanhado com um olho com um grande penso branco e um cabo ou sargento (não entendo de divisas) que vai para Angola e diz que um rei alemão, que nem sabe falar português, não lhe serve. Grande barafunda, berraria, copos, risadas. Eu vou de grupo a grupo, dou razão ao que está mais perto, digo ao sargento que o ginja pode ser um agente da Pide e provocador, o do olho entrapado diz que ele é um caixeirote, que nem fidalgo é, etc. O sargento diz que ele é que é da Pide, que pode até mostrar o cartão, que o monárquico é um mentiroso. Nessa altura levo os dois republicanos ao meu quarto (o monárquico acabara de revelar a sua isenção cívica, declarando que tirava o chapéu à bandeira verde-vermelha, porque era a bandeira da Pátria, a Nação em forma de trapo, e que isso da bandeira azul-e-branca era uma história). Percebo que é um monárquico convicto, mas desiludido: está-se cagando para o D. Duarte Nuno, e diz apenas que há-de morrer assim, já que sempre foi monárquico.
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No meu quarto dou ao sorja o Depoimento duma Angolana. Ele começa a ler em voz alta. Lê bem, mesmo as gralhas. O tipo do olho branco começa a ficar branco pró resto da cara. Abre a porta o dono da pensão (diz) porque viu luz. Suporia panascaria? Fecho a porta, à chave, depois de o ter tranquilizado que era tudo gente de bem. Discussão atrapalhada ou trapalhona sobre Angola-é-Nossa, pretos maus e brancos bons e vice-versa, com o sorja. O do olho tapado diz que tem gente à espera e desaparece. A discussão com o sorja nunca se azeda: ele diz que sempre é bom um tipo estar informado, eu digo-lhe que ele me pode prender ou mandar prender, mas que é o meu dever (tirada de editor patriota), ele tem medo de deixar as impressões digitais no papel, eu digo-lhe que a autora (branca, note, branca, e filha de brancos e casada com um branco) já foi chamada à Pide, ele suporá agora que sou eu da Pide, estamos os dois bêbados e taralhoucos, acaba por jurar que pode morrer mas aquilo é nosso e foi nosso, sim, que há uma razão para se defender, e que pensa que há-de ter a sorte de matar ao menos um preto antes de o matarem a ele, e pira-se, clamando mortes e glórias. É um doido.
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Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma miúda ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um marçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.
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Até aqui, tudo muito bragal. Mas está-me a apetecer agora abjecção; saí da porta do cinema chateado com a demora dos rapazinhos, até porque não sabia se teriam ido ao Teatro Circo se ao Geraldo, onde também havia sessão. E aconteceu então o inesperado: tudo aliás muito naturalmente encadeado.
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Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do Mundo! Venho diante do café das Arcadas e de repente noto a meu lado um magala, de passo a par do meu. Olho-o uma vez e ele olha-me; olho-o segunda vez e ele volta a encarar comigo. Silêncio. Puxo do tabaco e ofereço-lhe: ele pára, pega no cigarro, dou-lhe lume, acende o meu, seguimos lado a lado. Entabula-se a conversa: trato-o logo por tu, mas sem superioridade, singelamente, como um velho camarada. Tem bom tipo: cara magra, olhar triste, rosto varonil e um pouco fatigado. Não é bonito, mas também não é boçal nem repelente. Magro de corpo, altura média. Um tipo calmo. Sei-Ihe a história num quarteirão de casas. Não é daqui, mas de Vila Franca de Xira ou perto, tem família em Lisboa, tios e tias, está danado de estar aqui (há dois meses), já emagreceu, por causa da comida; e mulheres, nada ou quase nada, não se safa: o tal 28 é a trinta paus cada virada, onde terá ele massa para isso com o pré da tropa (uns tostões, coisa que nem chega a 5 coroas). Segue amanhã às 3 para Lisboa, vai levado para a Amadora (?) fazer um treino e lá para o fim do ano, ala para Angola-é-Nossa. Parece que é mecânico ou coisa assim. A meio do cigarro apaga-o, para guardar a beata para o dia seguinte. Desconvenço-o. Acendo-lha outra vez e dou-lhe mais dois cigarros, que ele guarda um pouco avidamente na bolsa. Vamos conversando como dois velhos amigos, de repente eu olho-o muito a direito na cara, admiro-lhe o rosto. Ele já deve estar convencido que eu sou um paneleiro rico e tem a noite safa. Mas a conversa mantém-se sempre num plano de grande dignidade: malvadez da comida nos quartéis, carestia das putas, política no Ultramar (restos da minha discussão com o sargento), guerra em Angola-é-Nossa. Não é um herói, tudo isso o entristece muito, mas sem emoção. Lamenta-se mas não choraminga. A nossa conversa tem por vezes longos silêncios de metros. Vamos agora na estrada que conduz ao quartel: é aquelas duas luzes lá ao fundo; digo que sei mas não distingo senão manchas esborradas de luz, que podem ser os candeeiros da estrada. Passam por nós, em andar cadenciado de marcha, um rancho de taratas, à pressa de chegarem ao quartel antes da meia-noite. Olham o par arrebenta mas não têm uma palavra. Dum primeiro andar umas raparigolas dão uns risinhos e dizem uns dichotes.
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- Estão a meter-se comigo - diz o meu companheiro cheio de calma. Voltamos a ficar sós na estrada. Parece-me que já consigo agora distinguir as tais duas luzes do quartel. Devo-lhe uma explicação.
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- Gostas de broche? - pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural.
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- An, nem por isso - responde sempre calmo.
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- Pois é só o que eu te posso fazer - digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian.
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- E quanto me dá? - pergunta desagradável feita em tom meramente comercial.
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- Olha, não te posso dar nada - diz o falso Calouste - dava-te se tivesse, mas estou tesíssimo, não tenho um tostão, já o tabaco foi fiado na pensão, só amanhã é que recebo um vale de Lisboa, amanhã às duas e meia.
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- 'tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde a sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.
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- Se tivesse dava-te, já te disse.
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Acreditou? não acreditou? O meu blusão rico de nylon, a minha barba mal feita, toda a nossa conversa, deram-lhe algum entendimento de mim?
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- Ao menos, qualquer coisa para um maço de tabaco.
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- Já te disse que não tenho um tostão Mas se queres tabaco, vens comigo à pensão e eu cravo lá um maço e bebes um copo ou uma cerveja. É fiado.
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Paramos os dois na estrada. Aí - tenho a certeza - um pouco de insistência minha, qualquer promessa, fariam voltá-lo para trás. Mas não fiz nada disso; devo ter-lhe parecido um velho forreta, gabiru em chupar caralhos de borla. Resistiu.
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- Só por isso não vale a pena, não interessa.
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- Tens pouco tempo, não é?
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- Não, posso recolher até à uma e mesmo ficar a noite fora. Mas não vale a pena - diz o ribatejano - é longe...
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- Não sei - digo eu, quase no mesmo jogo, muito diplomata.
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Voltamos a caminhar lado a lado. Calados.
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- Vou ali fazer uma mija - diz o gajo.
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- Vê lá se te vêem. Aqui há casas.
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- Não faz mal, há aqui um sítio.
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Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.
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- É pena não ter dinheiro, aqui era um bom sítio.
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- O senhor tem, há bocado disse que tinha - diz o franjolas a mijar à minha frente (e nem para a picha lhe olhei).
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- Não tenho, já te disse que não tenho um tostão.
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Sacudiu a gaita, voltámos à estrada.
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- Ao menos, podia-me dar esse maço que tem aí...
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- Toma.
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E dou-lho, puxando um cigarro:
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-Tiro este para mim.
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Andamos, paramos. Estudamo-nos?
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- Se quiseres aparecer, estou na Pensão Oliveira.
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- Onde é que é isso?
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- Ali ao pé da Polícia de Trânsito, no Campo da Vinha, mesmo defronte.
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- Ao pé do posto da Polícia?
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- Sim.
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- Então ficamos assim: amanhã das nove às nove e meia estou lá, perto do posto da Polícia.
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-Tá bem.
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Dou-lhe um aperto de mão.
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- Como te chamas?
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- António.
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- E eu Luiz.
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- Até amanhã, então.
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- Até amanhã.
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Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a Pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?
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Pergunto:
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- Que tal esse cinema?
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- Não foi mau - respondeu com ar de zangado.
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Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água de Castelo? Fumo? Peço mais fiados? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense.
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Quando andava a passear à tarde fui ao Campo da Vinha. 3 autocarros da Viação Courense (? Paredes de Coura ?). Farejei minhotas. Dentro, maioria de velhas e velhos, gente cansada, garotos com sono. Duas ou três mulheres cantam, um velhadas bate palmas a compasso. O problema estava em que duas das viandantes tinham cá os namorados e andam à solta. A chefa da excursão está arreliada e diz-lhe um home:
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- Nós agora tínhamos o direito dirmos embora e deixá-las acá.
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Mas a chefa tem as suas responsabilidades. Eu giro à roda daquelas caixas de gente envidraçada, olho uns, olho outros cá debaixo. Elas cantam. Há uma mulheraça à janela, que quer entusiasmar a malta. Canta. Parece a minha Rosinha (Rosa da Costa Vaz, de Viana, Santa Marta de Portuzelo ), mais velha, mais fodida. Canta bem. Eu acabo por ficar fixado na janela dela. Olho debaixo. Não me apetece como mulher fito-a como fantasma. E eu próprio sou um fantasma do que era há cinco anos ou seis quando aqui estive com a Rosinha - Rosa da Costa Vaz que foste, minha mulher (que não foi) minhota. Como eu a amei! Chegam as transviadas. Vêm refilonas, suadas, queriam mais foda. Barafustam com a chefa, a chefa barafusta com elas. Os carros começam a andar. Eu estou especado outra vez debaixo da janela da mulheraça (Rosinha, Rosinha, onde estarás?).
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E esta que fingiu nunca dar por mim, quando o carro arranca e me deixa esquecido, diz:
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- Adeus, meu senhor.
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Como quem diz: estavas aí e me viste e me desejaste, e quiseste o meu cono, e fui tua. Nunca mais me verás, fantasma de blusão negro e óculos grossos cara aparvalhada, fica-te, tarrenego!, sei lá quem tu és - não sou para ti.
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E eu que era para ela. Outra qualquer. Dentro e fora da memória, fantasma para fantasmas.
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Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 6 ou 5 horas, há um grupo na Pensão que se está a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo. Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.
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Como a Natureza previu todas as nossas fraquezas e ausências, dotou-nos também com outro caralho para o cu detrás. Meto o dedo (médio?) todo no cu, bato a punheta. E a ejaculação, forte porque há dias que estou sem deitar nada cá para fora, dá-me contracções no esfincter. Gozozíssimas. Venho-me imenso. Estou cada vez mais excitado. Cada passo na escada parece julgo que é o António que vem e me penetra e me obriga a chupar-lhe o delicioso caralho que não vi. Escândalo. Tribunal Militar. Vergonha. Filhos a saberem tudo. Loucura. Suicídio. Tomo meio Calmax. A pouco e pouco a corda vai-se aligeirando, estou melhor. Mas que vontade de ter pecado. De pecar. Como assim: de viver.
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Descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cima, o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridão, loucura. Mas o que toma tudo igual é que ambas as cadeias se encontram, nada a fazer, meus caros, daqui a cem anos ninguém se lembra.
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E a nossa lição-abjecção a quem aproveitará?
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Já tanto faz.
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Tanto nos faz.
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Braga, 16 ou 17 de Outubro, 1961.
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(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?
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(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.
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(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!

3.1.08

"Hesito em tudo, muitas vezes sem saber porquê. Que de vezes busco, como linha recta que me é própria, concebendo-a mentalmente como a linha recta ideal, a distância menos curta entre dois pontos. Nunca tive a arte de estar vivo activamente. Errei sempre os gestos que ninguém erra; o que os outros nasceram para fazer, esforcei-me sempre para não deixar de fazer. Desejei sempre conseguir o que os outros conseguem quase sem o desejar. Entre mim e a vida houve sempre vidros foscos: não soube deles pela vista, nem pelo tacto; nem a vivi essa vida ou esse plano, fui o devaneio do que quis ser, o meu sonho começou na minha vontade, o meu propósito foi sempre a primeira ficção do que nunca fui."
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[Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 1998]