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"dois terços do espaço são ocupados por um kindergarten, o staff das marcas anda fardado, há uma caixa central e não, não há fundos editoriais. Pois é. Editoras com fundos imemoriais, como a Asa, a Dom Quixote, a Caminho, etc., reduzidas às novidades dos últimos 15 dias. As míticas barracas em novo formato são uma espécie de contentores onde se entra. O pior é que, em tendo 4 pessoas lá dentro, já ninguém vê nada. Portanto, em vez da batalha campal, a concorrência devia estar agradecida. Dali não vem (não pode vir) prejuízo. Muito mais eficaz e concorrida é a tenda dos pequenos editores."
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[Eduardo Pitta no Da Literatura]
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"a dita praça não impressionou de todo: os caixotes ainda por abrir foram apenas um pormenor sem importância; já o facto de olhar para os pavilhões, maiores do que os outros - mesmo sem fita métrica, é óbvio - e não só não distinguir umas editoras de outras como ainda por cima ficar com a ideia de que há poucos livros, pareceu estranho. Pensar que há ali editoras com catálogos extensos e de referência e só conseguir vislumbrar capas expostas e pouco mais causa estranheza."
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[Sara Figueiredo Costa no Cadeirão Voltaire]
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"A Leya representa algumas das editoras portuguesas com melhores catálogos (caso da D. Quixote e da Caminho). Por isso mesmo, anteriormente estas editoras tinham um merecido lugar de destaque na Feira do Livro, ocupando várias das tais “barracas” que são “todas iguais”. Mas não: uma barraquita para a Caminho, duas para a D. Quixote, semivazias, apenas com as principais novidades. Das três ou quatro barracas que cada uma destas editoras costumava ocupar, a atafulharem com todo o seu catálogo, nem sinal. É para isso que eu e, creio, a maioria das pessoas vão a Feiras do Livro: as “novidades” encontram-se em qualquer livraria. Tanto barulho causado pela Leya e, afinal, o resultado é ir à Feira do Livro e não encontrar a Caminho e nem a D. Quixote. Se era esse o objectivo da Leya (desconfio que sim), poderiam ter dito logo, e escusavam de ter vindo com os estafados argumentos do “direito à diferença” e da “liberdade” contra o “igualitarismo” do modelo tradicional. Os “liberais” da Leya, sob o argumento hipócrita da “liberdade individual” de cada editora ter o espaço que quiser, não estão nada interessados na Feira do Livro."
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[Filipe Moura no Cinco Dias]
3.6.08
1.6.08
Os livros de Torcato Sepúlveda
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Camilo Castelo Branco “A Queda dum Anjo”
Eça de Queirós “Os Maias”
Almada Negreiros “Manifesto Anti-Dantas”
Alexandre O’Neill “Um Adeus Português”
Mário Cesariny “Obra Completa”
Herberto Hélder “Obra Completa”
Nuno Bragança “A Noite e o Riso”
André Breton “Nadja”
Karl Marx “18 de Brumário de Luís Bonaparte”
Guy Debord “A Sociedade do Espectáculo”
“Os dez livros escolhidos são os que mais me influenciaram na adolescência e no início da idade adulta e me continuam a impressionar. Revisitando o passado, noto um extraordinário salto entre os clássicos portugueses do século XIX e o surrealismo, apenas mediado pelo Manifesto Anti-Dantas. Autores portugueses como Pessoa, Nemésio, Agustina e Carlos de Oliveira chegarão mais tarde; e estrangeiros, como Joyce e Musil. A crítica social lá está, representada por Marx e pelo situacionista Debord. Bakunine só depois ganhará o seu lugar. Li muito os clássicos russos, mas não posso dizer que me tenham duradouramente comovido.”
[Ler nº 23, Verão de 1993]
Eça de Queirós “Os Maias”
Almada Negreiros “Manifesto Anti-Dantas”
Alexandre O’Neill “Um Adeus Português”
Mário Cesariny “Obra Completa”
Herberto Hélder “Obra Completa”
Nuno Bragança “A Noite e o Riso”
André Breton “Nadja”
Karl Marx “18 de Brumário de Luís Bonaparte”
Guy Debord “A Sociedade do Espectáculo”
“Os dez livros escolhidos são os que mais me influenciaram na adolescência e no início da idade adulta e me continuam a impressionar. Revisitando o passado, noto um extraordinário salto entre os clássicos portugueses do século XIX e o surrealismo, apenas mediado pelo Manifesto Anti-Dantas. Autores portugueses como Pessoa, Nemésio, Agustina e Carlos de Oliveira chegarão mais tarde; e estrangeiros, como Joyce e Musil. A crítica social lá está, representada por Marx e pelo situacionista Debord. Bakunine só depois ganhará o seu lugar. Li muito os clássicos russos, mas não posso dizer que me tenham duradouramente comovido.”
[Ler nº 23, Verão de 1993]
31.5.08
Oportunidades na feira (3)
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Obras completas de José Rodrigues Miguéis a 5 euros cada volume, na Estampa
30.5.08
Assírio & Alvim: o blog
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Nasceu há poucos dias o blog da Assírio & Alvim. Funcionando como um complemento ao seu excelente site, para já tem servido sobretudo para divulgar os livros do dia da editora, na feira. Hoje, por exemplo temos as Poesias Completas de Alexandre O'Neill (20 euros) e a Poesia de Alberto Caeiro (13 euros). Muito bem vindos à blogosfera!
Nasceu há poucos dias o blog da Assírio & Alvim. Funcionando como um complemento ao seu excelente site, para já tem servido sobretudo para divulgar os livros do dia da editora, na feira. Hoje, por exemplo temos as Poesias Completas de Alexandre O'Neill (20 euros) e a Poesia de Alberto Caeiro (13 euros). Muito bem vindos à blogosfera!
Praça Leya
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Depois de tamanha insistência para impor o seu modelo na feira do livro, o resultado da praça Leya é, no mínimo, desanimador, não só em termos estéticos mas também de funcionalidade.
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Mas o que é mesmo grave é, por um lado o reduzido número de livros presentes (não nos esqueçamos que editoras como a Asa, Caminho ou Dom Quixote têm um enorme catálogo e tinham sempre um bom número de stands em feiras anteriores); e por outro lado o elevadíssimo preço dos mesmos, que desencorajam qualquer um.
Depois de tamanha insistência para impor o seu modelo na feira do livro, o resultado da praça Leya é, no mínimo, desanimador, não só em termos estéticos mas também de funcionalidade.
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Mas o que é mesmo grave é, por um lado o reduzido número de livros presentes (não nos esqueçamos que editoras como a Asa, Caminho ou Dom Quixote têm um enorme catálogo e tinham sempre um bom número de stands em feiras anteriores); e por outro lado o elevadíssimo preço dos mesmos, que desencorajam qualquer um.
Editores em Desassossego
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Tive muita pena mas não pude assistir ao debate de ontem, na Casa Fernando Pessoa, que parece ter sido bastante animado. A Sara Figueiredo Costa e o blog da Ler fazem um resumo.
Tive muita pena mas não pude assistir ao debate de ontem, na Casa Fernando Pessoa, que parece ter sido bastante animado. A Sara Figueiredo Costa e o blog da Ler fazem um resumo.
29.5.08
Oportunidades na feira (2)
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O Amor Louco, de André Breton, a 7 euros na Estampa
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Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria, a 7 euros na Estampa

Marânus, de Teixeira de Pascoaes, a 5 euros na Assírio & Alvim
28.5.08
A civilização do "time is money"
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“A aceleração do progresso tecnológico põe-nos portanto perante a perspectiva da aniquilação de todas as virtualidades não úteis e não rentáveis com que Deus provavelmente distraído, ou talvez só desejoso de se divertir, dotou os humanos. Ou, porventura, esse Deus não era ainda suficiente «desenvolvido», conhecedor das leis da rentabilidade e da planificação. O facto é que não foi capaz de fabricar, logo de entrada, o homo æconomicus et planificator. Passaram muitos séculos antes que o burguês procurasse corrigir a obra divina à imagem e semelhança de si próprio.
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Mas os meios do burguês eram precários, e o combate tinha de ser incessantemente recomeçado, contra a prodigalidade e a preguiça, a anarquia, o espírito contemplativo, o sonho, o capricho, o aventureirismo, a criancice, a ilusão. Era uma luta de jardineiro obrigado a podar todos os dias a estátua de murta, de que fala o Vieira. Alguns sucessos prodigiosos foram alcançados: a invenção do livro do Deve e Haver, os bancos, os cheques, a revolução industrial inglesa, a unificação do trabalho mercantil, a exploração de matérias-primas desconhecidas, a contabilização geral da vida, a subordinação à Ciência e à Técnica. Tudo passou a ter um valor contável na expressão quantitativa mais universal que existe: o dinheiro. Viram-se nascer cidades, como Amesterdão, em que os homens estão tão domesticados como o mar dentro dos canais. E civilizações fabulosas surgiram, como a norte-americana, em que ninguém para de trabalhar; em que se almoça a correr, no bar; em que não se perde um minuto, em que tudo se capitaliza. Encontraram-se soluções admiráveis para tirar ao sexual intercourse o seu carácter mágico e sagrado, assegurando ao mesmo tempo o equilíbrio higiénico favorável à produtividade. O erotismo substituiu o amor. Um aforismo sublime resume esta civilização: Time is Money; o tempo não é vida que se gasta, nem prazer que se goza, nem é tão-pouco desespero em que se perde; é capital que se acumula, que fica disponível e que serve para investir, multiplicando o mesmo tempo, em benifício individual ou colectivo.
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Mas estas conquistas do homo æconomicus ou burgalensis eram, apesar de tudo, frágeis. Viu-se isso em Maio, em Paris, em que o Adão quase ressurgiu com a inocência e a força do Paraíso, e gritou «Prenos nos désirs pour dês réalités!»
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Mas chegámos talvez à época em que ele vai desaparecer definitivamente. Pelo menos, muito boa gente assim o pensa e deseja. O novo Adão, convenientemente seleccionado na semente e tratado in vitro, será o arquétipo da civilização citadina, científica e burguesa, higiénica e indolor, podado de todos os impulsos insociais e improdutivos. Nem sequer terá a consciência de ser infeliz porque uma adequada intervenção na cadeia genética lhe tirará a memória do Paraíso.”
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Mas os meios do burguês eram precários, e o combate tinha de ser incessantemente recomeçado, contra a prodigalidade e a preguiça, a anarquia, o espírito contemplativo, o sonho, o capricho, o aventureirismo, a criancice, a ilusão. Era uma luta de jardineiro obrigado a podar todos os dias a estátua de murta, de que fala o Vieira. Alguns sucessos prodigiosos foram alcançados: a invenção do livro do Deve e Haver, os bancos, os cheques, a revolução industrial inglesa, a unificação do trabalho mercantil, a exploração de matérias-primas desconhecidas, a contabilização geral da vida, a subordinação à Ciência e à Técnica. Tudo passou a ter um valor contável na expressão quantitativa mais universal que existe: o dinheiro. Viram-se nascer cidades, como Amesterdão, em que os homens estão tão domesticados como o mar dentro dos canais. E civilizações fabulosas surgiram, como a norte-americana, em que ninguém para de trabalhar; em que se almoça a correr, no bar; em que não se perde um minuto, em que tudo se capitaliza. Encontraram-se soluções admiráveis para tirar ao sexual intercourse o seu carácter mágico e sagrado, assegurando ao mesmo tempo o equilíbrio higiénico favorável à produtividade. O erotismo substituiu o amor. Um aforismo sublime resume esta civilização: Time is Money; o tempo não é vida que se gasta, nem prazer que se goza, nem é tão-pouco desespero em que se perde; é capital que se acumula, que fica disponível e que serve para investir, multiplicando o mesmo tempo, em benifício individual ou colectivo.
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Mas estas conquistas do homo æconomicus ou burgalensis eram, apesar de tudo, frágeis. Viu-se isso em Maio, em Paris, em que o Adão quase ressurgiu com a inocência e a força do Paraíso, e gritou «Prenos nos désirs pour dês réalités!»
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Mas chegámos talvez à época em que ele vai desaparecer definitivamente. Pelo menos, muito boa gente assim o pensa e deseja. O novo Adão, convenientemente seleccionado na semente e tratado in vitro, será o arquétipo da civilização citadina, científica e burguesa, higiénica e indolor, podado de todos os impulsos insociais e improdutivos. Nem sequer terá a consciência de ser infeliz porque uma adequada intervenção na cadeia genética lhe tirará a memória do Paraíso.”
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[António José Saraiva, in Maio e Crise da Civilização Burguesa, Gradiva, 2005]
27.5.08
Maio e a Crise da Civilização Burguesa
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O Maio de 68 tem sido recordado em jornais, revistas, televisões, blogs, mas curiosamente não me apercebi de muitas referências a um livro que me parece fundamental sobre este período: trata-se de Maio e a Crise da Civilização Burguesa de António José Saraiva.
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António José Saraiva, na altura a viver em Paris, acompanhou empolgadamente os acontecimentos, publicando pouco depois (em 1969) este livro extraordinariamente lúcido e inteligente.
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É um livro “constituído por um «diário», por notas e por breves ensaios inspirados por aquilo que no título se designa por «crise da civilização burguesa»” como refere o autor no posfácio.
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A maior parte do livro é de facto constituída pelo diário “de João Cândido” que vai retratando e analisando o que de principal aconteceu em Paris entre 23 de Maio e 30 de Julho de 68.
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Por exemplo, no dia 27 de Maio (há precisamente 40 anos) escreveu:
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“O que é que um marxista ortodoxo vindo de Portugal pode perceber disto? Deve ficar completamente às aranhas, emitindo juízos contraditórios como um louco. «A quoi ça rime?» Ataques violentos aos sindicatos e ao PC nos anfiteatros. Como é possível? Não é o PC, por definição, a vanguarda da classe operária e a classe operária a classe revolucionária? E como é que toda aquela literatura excluída do «socialismo científico», enterrada como «ultrapassada», «utópica», etc., reaparece na actualidade? Anarquismo (mas o Marx não liquidou o anarquismo?), federalismo, fourierismo, etc.? Como, como? E as «leis da história» não funcionam? Os estudantes não são os «filhos da burguesia»? Não será tudo isto uma acção de provocadores ao serviço da burguesia?”
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Além do diário o livro tem uns pequenos ensaios e um longo posfácio, de onde retirei este excerto, ainda mais pertinente hoje do que há 40 anos:
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“A civilização burguesa já só nos oferece a perspectiva de haver cada vez mais máquinas para fabricar mais objectos e distribuir mais moeda para os comprar; cada vez mais rapidez para percorrer rectiliniamente a distância entre dois sítios cada vez mais iguais; cada vez mais precisão nos gestos e tempo das pessoas para poderem engrenar com as máquinas; cada vez mais igualdade entre indivíduos condicionados em série; cada vez menos imprevisto, menos gritos, menos lágrimas. E também cada vez mais psiquiatras para «normalizar» os homens rebeldes à norma uniforme. Estes homens, cada vez mais padronizados, fazem cada vez mais o que os economistas, os estatísticos, os sociólogos, os psicólogos, os especialistas de marketing, esperam que eles façam.”
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Maio e a Crise da Civilização Burguesa foi reeditado em 2005 pela Gradiva, integrado nas suas obras completas.
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António José Saraiva, na altura a viver em Paris, acompanhou empolgadamente os acontecimentos, publicando pouco depois (em 1969) este livro extraordinariamente lúcido e inteligente.
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É um livro “constituído por um «diário», por notas e por breves ensaios inspirados por aquilo que no título se designa por «crise da civilização burguesa»” como refere o autor no posfácio.
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A maior parte do livro é de facto constituída pelo diário “de João Cândido” que vai retratando e analisando o que de principal aconteceu em Paris entre 23 de Maio e 30 de Julho de 68.
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Por exemplo, no dia 27 de Maio (há precisamente 40 anos) escreveu:
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“O que é que um marxista ortodoxo vindo de Portugal pode perceber disto? Deve ficar completamente às aranhas, emitindo juízos contraditórios como um louco. «A quoi ça rime?» Ataques violentos aos sindicatos e ao PC nos anfiteatros. Como é possível? Não é o PC, por definição, a vanguarda da classe operária e a classe operária a classe revolucionária? E como é que toda aquela literatura excluída do «socialismo científico», enterrada como «ultrapassada», «utópica», etc., reaparece na actualidade? Anarquismo (mas o Marx não liquidou o anarquismo?), federalismo, fourierismo, etc.? Como, como? E as «leis da história» não funcionam? Os estudantes não são os «filhos da burguesia»? Não será tudo isto uma acção de provocadores ao serviço da burguesia?”
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Além do diário o livro tem uns pequenos ensaios e um longo posfácio, de onde retirei este excerto, ainda mais pertinente hoje do que há 40 anos:
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“A civilização burguesa já só nos oferece a perspectiva de haver cada vez mais máquinas para fabricar mais objectos e distribuir mais moeda para os comprar; cada vez mais rapidez para percorrer rectiliniamente a distância entre dois sítios cada vez mais iguais; cada vez mais precisão nos gestos e tempo das pessoas para poderem engrenar com as máquinas; cada vez mais igualdade entre indivíduos condicionados em série; cada vez menos imprevisto, menos gritos, menos lágrimas. E também cada vez mais psiquiatras para «normalizar» os homens rebeldes à norma uniforme. Estes homens, cada vez mais padronizados, fazem cada vez mais o que os economistas, os estatísticos, os sociólogos, os psicólogos, os especialistas de marketing, esperam que eles façam.”
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Maio e a Crise da Civilização Burguesa foi reeditado em 2005 pela Gradiva, integrado nas suas obras completas.
Oportunidades na feira
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.Pacheco versus Cesariny, a 5 euros na Estampa
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. Memórias para o Ano 2000, de José-Augusto França, a 3 euros nos Livros Horizonte.
26.5.08
O elogio do transporte público
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Aproveitando para dar os parabéns (um bocado atrasados) ao Miguel Vale de Almeida pelos 5 anos do blog, recupero aqui um excerto de um post seu, já com algum tempo, de que gostei muito e subscrevo na íntegra:
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"Ao contrário do que é portuguesmente comum, nunca senti que o carro me desse "liberdade" ou "autonomia". Sinto-me constrangido por tudo o que um carro na cidade significa: conduzir no meio de loucos, procurar estacionamento, apanhar com engarrafamentos, não conseguir cumprir horários, stressar. Com os transportes públicos (normalmente o metro, pois os autocarros não são de fiar) faço tudo mais calmamente mas, sobretudo, sinto-me mais cosmopolita: ando a pé nas ruas duma cidade a caminho da paragem ou estação, vejo as pessoas e as faunas duma cidade nos transportes, vou ouvindo pedaços de conversas, em suma, vou tomando o pulso à polis. E ainda aproveito para ler. Não é, no fundo, este o modo de fazer as coisas nas verdadeiras cosmópolis, como Paris, Londres ou Nova Iorque, onde não passa pela cabeça de ninguém andar de carro? Quando me atrevo a andar de carro na cidade, durante o dia, para os percursos normais, sinto imediatamente que estou em Caracas."

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Aproveitando para dar os parabéns (um bocado atrasados) ao Miguel Vale de Almeida pelos 5 anos do blog, recupero aqui um excerto de um post seu, já com algum tempo, de que gostei muito e subscrevo na íntegra:
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"Ao contrário do que é portuguesmente comum, nunca senti que o carro me desse "liberdade" ou "autonomia". Sinto-me constrangido por tudo o que um carro na cidade significa: conduzir no meio de loucos, procurar estacionamento, apanhar com engarrafamentos, não conseguir cumprir horários, stressar. Com os transportes públicos (normalmente o metro, pois os autocarros não são de fiar) faço tudo mais calmamente mas, sobretudo, sinto-me mais cosmopolita: ando a pé nas ruas duma cidade a caminho da paragem ou estação, vejo as pessoas e as faunas duma cidade nos transportes, vou ouvindo pedaços de conversas, em suma, vou tomando o pulso à polis. E ainda aproveito para ler. Não é, no fundo, este o modo de fazer as coisas nas verdadeiras cosmópolis, como Paris, Londres ou Nova Iorque, onde não passa pela cabeça de ninguém andar de carro? Quando me atrevo a andar de carro na cidade, durante o dia, para os percursos normais, sinto imediatamente que estou em Caracas."
25.5.08
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"Guilhermina Gomes, directora editorial do Círculo de Leitores, numa entrevista poblicada na «Única» do passado sábado, defendia com estas palavras um programa editorial muito abrangente: «Eu não posso, nem devo, exercer um juízo de valor dizendo: este é um leitor menor, consome lixo.» Trata-se de uma daquelas frases que afirmam aquilo que negam e dão nome ao que não querem nomear. A hipótese de um livro se ter tornado objecto de uma indústria do lixo em grande escala encontra confirmação no espectáculo nauseabundo que a maior parte das livrarias - os terminais da produção - hoje oferecem. Muitos outros sectores produzem tanto ou mais lixo, mas a nenhum deles foi dado o privilégio de proclamar impunemente que trabalha para o progresso espiritual dos homens, da nação e do mundo em geral. Os livros que são em si uma coisa boa, os leitores que por o serem já estão a cumprir os desígnios culturais que lhes garantem a passagem para um estatuto de maioridade: eis o discurso que editores e agentes oficiais da promoção da leitura repetem incansavelmente e encontra eco nos «boulevards» da opinião. Dessa massa indiferenciada e acrítica salvam-se os livros dotados de uma resistência que os protege dos seus amadores e até (às vezes, sobretudo) dos seus autores."
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[António Guerreiro, no Actual (suplemento do Expresso) de ontem]
"Guilhermina Gomes, directora editorial do Círculo de Leitores, numa entrevista poblicada na «Única» do passado sábado, defendia com estas palavras um programa editorial muito abrangente: «Eu não posso, nem devo, exercer um juízo de valor dizendo: este é um leitor menor, consome lixo.» Trata-se de uma daquelas frases que afirmam aquilo que negam e dão nome ao que não querem nomear. A hipótese de um livro se ter tornado objecto de uma indústria do lixo em grande escala encontra confirmação no espectáculo nauseabundo que a maior parte das livrarias - os terminais da produção - hoje oferecem. Muitos outros sectores produzem tanto ou mais lixo, mas a nenhum deles foi dado o privilégio de proclamar impunemente que trabalha para o progresso espiritual dos homens, da nação e do mundo em geral. Os livros que são em si uma coisa boa, os leitores que por o serem já estão a cumprir os desígnios culturais que lhes garantem a passagem para um estatuto de maioridade: eis o discurso que editores e agentes oficiais da promoção da leitura repetem incansavelmente e encontra eco nos «boulevards» da opinião. Dessa massa indiferenciada e acrítica salvam-se os livros dotados de uma resistência que os protege dos seus amadores e até (às vezes, sobretudo) dos seus autores."
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[António Guerreiro, no Actual (suplemento do Expresso) de ontem]
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“Hoje lê-se muito, lê-se mal e depressa. E principalmente lê-se muita coisa que não se devia ler, que não adianta um chavo seja para o que for. Mas dizem-me que tem de ser assim mesmo, que é ao fim de se ler muito e à toa que o gosto, o discernimento e o selectivo sentido crítico se formam numa pessoa. Pode ser.”
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[Alexandre O’Neill, in Uma Coisa em Forma de Assim, Assírio & Alvim, 2004]
“Hoje lê-se muito, lê-se mal e depressa. E principalmente lê-se muita coisa que não se devia ler, que não adianta um chavo seja para o que for. Mas dizem-me que tem de ser assim mesmo, que é ao fim de se ler muito e à toa que o gosto, o discernimento e o selectivo sentido crítico se formam numa pessoa. Pode ser.”
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[Alexandre O’Neill, in Uma Coisa em Forma de Assim, Assírio & Alvim, 2004]
24.5.08
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