23.6.08

"Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale."
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[Albert Cossery em entrevista que se encontra no final de Mendigos e Altivos]

Albert Cossery (1913-2008)

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Morreu ontem, aos 94 anos, o escritor egípcio Albert Cossery. A viver em Paris desde os anos 40, Albert Cossey escreveu apenas 8 livros (7 romances e uma colectânea de novelas), todos eles exaltando a indolência, a reflexão, a preguiça e uma profunda rejeição do trabalho e da civilização moderna ocidental.
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Em Portugal está publicado na Antígona.

22.6.08

Av. da República (e imediações) à espera do fim

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O Paulo Ferrero, do Cidadania LX, tem estado a fazer um excelente trabalho ao assinalar uma enorme quantidade de belíssimos edifícios na Av. da República e nas suas imediações que têm já a sua demolição aprovada ou vão a caminho disso ou então estão à espera de sofrer obras que previsivelmente os vão barbarizar por completo (ampliações, demolições do interior, etc.).
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Esta aliás é uma zona da cidade onde a destruição do património existente, substituido por edifícios em geral deploráveis, tem sido uma constante nos últimos anos. Cada vez mais se está a tornar uma zona feia, agressiva, cheia de automóveis a circular em alta velocidade e edifícios de escritórios incaracterísticos. É urgente, por isso, que seja feita pressão para tentar salvar o que ainda é possível.
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Aqui ficam os edifícios em destaque no blog:
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Avenida da República, Nº 46.

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Vieira da Silva e Mário Cesariny

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A Assírio & Alvim lança na próxima semana Correspondências — Vieira da Silva por Mário Cesariny, livro com com reproduções de obras e cartas de Mário Cesariny, Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes.
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No blog da editora é apresentado assim:
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"Assinala-se este ano o centenário do nascimento da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). Com este livro, procuramos fornecer uma visão (até agora pouco conhecida) desta artista: a de Mário Cesariny. Assim, o presente volume vem dar conta da amizade que uniu o surrealista e o casal Arpad Szenes – Vieira da Silva. Por meio de fotografias, obra pictórica e correspondência trocada entre os três artistas, é testemunhado o grande afecto e admiração que trocaram. O casal e a sua produção artística estão fortemente presentes na obra de Cesariny: este pintou-os, estudou-os, escreveu-lhes poemas e até uma obra: Vieira da Silva – Arpad Szenes ou o Castelo Surrealista.
Correspondências assume-se como precioso testemunho desta amizade, mas também documento de estudo desta parte mais íntima da obra dos três artistas."

21.6.08

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"Tenho por intuição que para as criaturas como eu nenhuma circunstância material pode ser propícia, nenhum caso da vida ter uma solução favorável. Se já por outras razões me afasto da vida, esta contribui também para que eu me afaste. Aquelas somas de factos que, para os homens vulgares, inevitabilizariam o êxito, têm, quando me dizem respeito, um outro resultado qualquer, inesperado e adverso.
Nasce-me, às vezes, desta constatação, uma impressão dolorosa de inimizade divina. Parece-me que só por um ajeitar consciente dos factos, de modo a que me sejam maléficos, a série de desastres, que define a minha vida, me poderia ter acontecido.
Resulta de tudo isto para o meu esforço que eu não intento nunca demasiadamente. A sorte, se quiser, que venha ter comigo. Sei de sobra que o meu maior esforço não logra o conseguimento que noutros teria. Por isso me abandono à sorte, sem esperar nada dela. Para quê?
O meu estoicismo é uma necessidade orgânica. Preciso de me couraçar contra a vida. Como todo o estoicismo não passa de um epicurismo severo, desejo, quanto possível, fazer que a minha desgraça me divirta. Não sei até que ponto o consigo. Não sei até que ponto qualquer coisa se pode conseguir…
Onde um outro venceria, não pelo seu esforço, mas por uma inevitabilidade das coisas, eu nem por essa inevitabilidade, nem por esse esforço, venço ou venceria.
Nasci talvez, espiritualmente, num dia curto de inverno. Chegou cedo a noite ao meu ser. Só em frustração e abandono posso realizar a minha vida.
No fundo, nada disso é estóico. É só nas palavras que há a nobreza do meu sofrimento. Queixo-me, como uma criada doente. Ralo-me como uma dona de casa. A minha vida é inteiramente fútil e inteiramente triste."
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[Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 1998]

15.6.08

A Feira do Livro por Francisco José Viegas

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"Gosto da Feira do Livro com as barraquinhas. Gosto de ir lá à tarde e de encontrar amigos, gente que não vejo há muito tempo, trocar «notícias» por «notícias». Gosto de ir às barraquinhas de livros velhos, stocks, obras completas de Mao, Escritos Escolhidos de Lenine, A Cozinheira Ideal ou os John Le Carré em hardcover. Gosto de comprar Rex Stouts repetidos. Não gosto de novidades na Feira; prefiro livros de há anos, são esses os que procuro, os que perdi e que quero repor na estante. Gosto de comprar livros por 1€, 3€, 5€. Gosto de encontrar amigos a dar autógrafos e de ir para as filas pedir-lhos. Gosto de churros com chocolate (este ano estão a 2€, o que é um assalto). Gosto das cores das barraquinhas. Gosto dos grupos que se sentam ao sol, na relva do Parque. Gosto de encontrar editores que vão sempre à Feira. Gosto de gente que atravessa a Feira assinalando títulos nos catálogos. Gosto da Feira com ar saudável e relativamente anárquico, com cadeirinhas na calçada onde autores se sentam perto de quem passa, com ar desprotegido (por isso é que se reconhece um editor; é ele que está lá, ao lado, a fazer companhia). Gosto de ir à Assírio & Alvim perguntar se tem o Equador. Gosto da Feira com sol, gosto quando chove. Gosto quando o MJM me telefona a dizer que encontrou um livro meu com uma fotografia que nem vista se acredita. Gosto das sacolas pretas da Tinta-da-China e de ficar por ali. Gosto das cores da Oficina do Livro. Gosto de ir à Guimarães Editores, à Relógio d'Água ou às bancas da Vampiro. Sinto-me um provinciano feliz que está onde quis ir. À Feira."
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[Francisco José Viegas em post n'A Origem das Espécies]

12.6.08

Oportunidades na feira (5)

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Entrevistas, de André Breton (tradução e prefácio de Ernesto Sampaio) da Salamandra, a 2 euros no PAvilhão 76
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Retratos Falados, de Fernando Assis Pacheco e O Segredo de Joe Gold, de Joseph Mitchell, ambos a 5 euros na zona de promoções da Leya.
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Os Vagabundos do Dharma, de Jack Kerouac, a 7,5 euros na Relógio D'Água

11.6.08

Lisboa e os carros

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"em tempo de crise do preço dos combustíveis e de aquecimento global, há que acarinhar o transporte público"
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"Para muita gente, sobretudo da burguesia urbana, o autocarro é um desconhecido porque é um tabu. Como se ao colocar o primeiro pé na coisa se perdesse estatuto social na hora."
[...]
"o nosso “modelo de desenvolvimento” (gasp! cóf, cóf!) privilegiou o carro e a gasolina. Hoje muita gente não pode prescindir do carro, é certo. Mas será mesmo assim? E quem tem estações de comboio praticamente à porta? E quem, vivendo em Lisboa, se desloca de qualquer modo de carro? Não desprezo a existência de necessidade automóvel para muita gente, mas desprezo e desconfio de duas coisas: desprezo a discussão constante sobre “o trânsito” como um problema quase da ordem da natureza e cuja resolução é transformada em prioridade política para que haja trânsito e não para que haja substituição pelo transporte público; e desconfio que a razão última do amor ao carro seja mesmo estatutária e simbólica, sobretudo para as gerações do deslumbramento, do “modelo de desenvolvimento” terceiro-mundista dos últimos 30 anos. O carro - e a autonomia que ele dá (dá mesmo?) - é o símbolo da superação da pobreza.
Não é por acaso que Lisboa é a cidade europeia onde mais se sente a presença dos carros: nas ruas, nos passeios, no ruído, na poluição. Não é por acaso que por cá a publicidade está saturada de automóveis, as conversas sobre automóveis abundam e as pessoas medem-se mutuamente pelos carros. Pela parte que me toca tenho um chaço velho e sujo, parado a maior parte do tempo e faz-me uma impressão horrível imaginar pagar milhares de euros por um objecto que desvaloriza no minuto seguinte. Não fossem os nossos governantes muito provavelmente auto-deslumbrados também eles, e poderíamos ter uma revolução cultural, inspirada “no estrangeiro” (outro deslumbramento, mas com certeza com bons resultados e por boa causa), onde a palermice do auto-status foi já substituída pela auto-nomia dos cidadãos que andam a pé, flanam, param nas montras, saltam para o autocarro e descem ao metro, meditando cidade fora."

[Miguel Vale de Almeida em post n' Os Tempos que Correm]

10.6.08

A raça de Cavaco

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“Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”
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[António de Oliveira Salazar, perdão, Anibal Cavaco Silva, em declarações prestadas ontem a jornalistas]

8.6.08

Inacreditável

.(fotos do Khiasma)

Custa a acreditar que uma praça da cidade de Lisboa (a das Flores) possa ser vedada aos cidadãos durante 3 semanas para ser utilizada numa acção de marketing de uma marca de automóveis. Por muitas dificuldades financeiras que a Câmara possa ter não são admissíveis coisas destas e não esperava que Sá Fernandes concordasse com elas.

6.6.08

Oportunidades na feira (4)

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As Mãos na Água, a Cabeça no Mar, de Mário Cesariny, a 7,50 euros na Assírio & Alvim
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Ficções do Interlúdio, de Fernando Pessoa, a 7,50 euros na Assírio & Alvim

3.6.08

Manuel Hermínio Monteiro

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Faz hoje 7 anos que morreu Manuel Hermínio Monteiro, um dos grandes editores de sempre em Portugal. Faz muita falta.

Leya na blogosfera

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"dois terços do espaço são ocupados por um kindergarten, o staff das marcas anda fardado, há uma caixa central e não, não há fundos editoriais. Pois é. Editoras com fundos imemoriais, como a Asa, a Dom Quixote, a Caminho, etc., reduzidas às novidades dos últimos 15 dias. As míticas barracas em novo formato são uma espécie de contentores onde se entra. O pior é que, em tendo 4 pessoas lá dentro, já ninguém vê nada. Portanto, em vez da batalha campal, a concorrência devia estar agradecida. Dali não vem (não pode vir) prejuízo. Muito mais eficaz e concorrida é a tenda dos pequenos editores."
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[Eduardo Pitta no Da Literatura]
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"a dita praça não impressionou de todo: os caixotes ainda por abrir foram apenas um pormenor sem importância; já o facto de olhar para os pavilhões, maiores do que os outros - mesmo sem fita métrica, é óbvio - e não só não distinguir umas editoras de outras como ainda por cima ficar com a ideia de que há poucos livros, pareceu estranho. Pensar que há ali editoras com catálogos extensos e de referência e só conseguir vislumbrar capas expostas e pouco mais causa estranheza."
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[Sara Figueiredo Costa no Cadeirão Voltaire]
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"A Leya representa algumas das editoras portuguesas com melhores catálogos (caso da D. Quixote e da Caminho). Por isso mesmo, anteriormente estas editoras tinham um merecido lugar de destaque na Feira do Livro, ocupando várias das tais “barracas” que são “todas iguais”. Mas não: uma barraquita para a Caminho, duas para a D. Quixote, semivazias, apenas com as principais novidades. Das três ou quatro barracas que cada uma destas editoras costumava ocupar, a atafulharem com todo o seu catálogo, nem sinal. É para isso que eu e, creio, a maioria das pessoas vão a Feiras do Livro: as “novidades” encontram-se em qualquer livraria. Tanto barulho causado pela Leya e, afinal, o resultado é ir à Feira do Livro e não encontrar a Caminho e nem a D. Quixote. Se era esse o objectivo da Leya (desconfio que sim), poderiam ter dito logo, e escusavam de ter vindo com os estafados argumentos do “direito à diferença” e da “liberdade” contra o “igualitarismo” do modelo tradicional. Os “liberais” da Leya, sob o argumento hipócrita da “liberdade individual” de cada editora ter o espaço que quiser, não estão nada interessados na Feira do Livro."
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[Filipe Moura no Cinco Dias]

1.6.08

Os livros de Torcato Sepúlveda

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Camilo Castelo Branco “A Queda dum Anjo”
Eça de Queirós “Os Maias”
Almada Negreiros “Manifesto Anti-Dantas”
Alexandre O’Neill “Um Adeus Português”
Mário Cesariny “Obra Completa”
Herberto Hélder “Obra Completa”
Nuno Bragança “A Noite e o Riso”
André Breton “Nadja”
Karl Marx “18 de Brumário de Luís Bonaparte”
Guy Debord “A Sociedade do Espectáculo”

“Os dez livros escolhidos são os que mais me influenciaram na adolescência e no início da idade adulta e me continuam a impressionar. Revisitando o passado, noto um extraordinário salto entre os clássicos portugueses do século XIX e o surrealismo, apenas mediado pelo Manifesto Anti-Dantas. Autores portugueses como Pessoa, Nemésio, Agustina e Carlos de Oliveira chegarão mais tarde; e estrangeiros, como Joyce e Musil. A crítica social lá está, representada por Marx e pelo situacionista Debord. Bakunine só depois ganhará o seu lugar. Li muito os clássicos russos, mas não posso dizer que me tenham duradouramente comovido.”

[Ler nº 23, Verão de 1993]

31.5.08

Oportunidades na feira (3)

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Obras completas de José Rodrigues Miguéis a 5 euros cada volume, na Estampa