18.7.08

A crítica e o lixo

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"Não existe hoje uma razão visível para a existência da crítica nos jornais em Portugal, como é perceptível quando os percorremos, tal a sensação de falta de critério e de incapacidade em discriminar o relevante e o irrelevante, como se vê pelo caso em análise. A única razão para a sua manutenção é a inércia: pareceria mal, apesar de tudo, que jornais de referência deixassem de dar espaço aos livros que cada vez se publicam em maior número."
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[Osvaldo Manuel Silvestre, em post sobre a crítica ao novo livro de Margarida Rebelo Pinto no Actual e Ípsilon da passada semana]
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Depois da capa e longa entrevista na Ler, MRP chega agora ao Actual (suplemento do Expresso) e ao Ípsilon (suplemento do Público). Neste último há também uma crítica a um livro de Domingos Amaral. Vemos portanto o light/lixo a chegar em força a sítios que se pensava estarem imunes a ele, o que realmente nos põe a questionar a própria existência destes espaços supostamente dedicados à literatura.
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Vale a pena ler o post todo, mas gostava sobretudo de chamar a atenção para dois pontos que me parecem absolutamente evidentes, embora gerem frequentes confusões:
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1. ler não é necessariamente bom, depende do que se lê:
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"A leitura, em si, sejamos claros, não é um bem: depende, sempre, do que se lê e de como se lê. E a evidência empírica demonstra à saciedade que quem lê autores como MRP por sistema não passa mais tarde a, digamos, Thomas Mann."
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2. leitores do light e leitores de sublementos literários pertencem a mundos imiscíveis; a crítica literária não tem de se ocupar de "livros" mas de "literatura":
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"O equívoco vem já dos tempos do DNA e do seu então director, que se lamentava periodicamente de a crítica não enfrentar o fenómeno da literatura light. Falsa questão, pois, como Pedro Mexia já disse (e não me lembro se o escreveu também), os leitores de MRP não lêem resenhas em suplementos literários; e os leitores destes não lêem MRP."

17.7.08

É só fachada

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"Do ponto de vista dos princípios, um edifício é um todo e não pode ser amputado de nenhuma das suas partes sob pena de perder a sua coerência." [...] "Uma edificação também tem, por exemplo, dentro e fora, cimo e baixo, frente e traseira (tardoz), infra-estrutura e superstrutura e assim por diante.
[...]
No entanto, está a tornar-se "política" corrente e - pior ainda - aceitável, utilizar o expediente tosco de "conservar a fachada" que é apenas parte dum todo para fazer o que, vulgarmente, se designa por "recuperação" (de edifícios). Nestes casos, podemos dizer que estamos perante uma opção que, por ser falsa e postiça, "é só fachada" e, portanto, literal e culturalmente, errada e mentirosa. Mau de mais para ser aceitável."
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[Manuel Correia Fernandes, arquitecto, em artigo no Jornal de Notícias de 16-5-2008]

16.7.08

Medo do silêncio

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Se há coisa que me irrita é a omnipresença de música e televisão em cafés, restaurantes, lojas, metro, farmácias, esplanadas, escritórios, etc, etc.
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Este é aliás um fenómeno que não se limita a espaços públicos, mas vai alastrando também para os privados: é frequente as pessoas terem em casa a televisão ligada em permanência, mesmo que não estejam a ver qualquer programa ou ligarem imediatamente o rádio quando chegam ao carro, independentemente do programa ou música que esteja a passar. Acima de tudo noto uma crescente intolerância para com o silêncio.
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A Fernanda Câncio escreveu uma bela crónica precisamente sobre isso. Está disponível no 5 dias mas vou deixá-la também aqui:
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"Foi acontecendo. Acho que começou nas lojas. De repente, entrava-se numa loja e havia música. Depois começou a haver música aos berros. Do género de música aos berros que faz uma pessoa perder qualquer vontade de comprar e querer pôr-se a milhas rapidamente. Depois foi nos cafés. A seguir nos restaurantes. Queria-se fazer o que fazem pessoas que jantam juntas – conversar (a não ser que estejam terrivelmente apaixonadas ou terrivelmente fartas umas das outras) – e era impossível. Pedia-se para baixar a música e os empregados ficavam a olhar, tipo “olha a careta, não curte”.
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Depois, um belo péssimo dia, chegou à rua. Em Lisboa, na Baixa – a Baixa, o tal sítio que precisa tanto de “animação” — colocaram umas colunas e toca de “animar” os passantes. Não tão animados, estes tanto protestaram que a idiotice foi à vida. Quando demos por nós, estava nas praias, nos chamados apoios de praia. Peço desculpa por fazer uma pergunta tão estúpida, mas por que raio há-de alguém querer ouvir música aos berros numa praia quando tem o barulho das ondas, o ondular das lonas na brisa, e aquele clamor difuso, feliz, dos banhistas? Pois. Vai-se a ver e é do hábito. Uma espécie de vício. Certo é que está em todo o lado. Por exemplo, nos ginásios. Não se consegue fazer ginástica sem música. Nem se consegue tomar um duche no ginásio sem ouvir música. Há aulas de bicicleta (nome de código RPM) com luzes giratórias e não, não estou a inventar, bolas de espelhos, em que os instrutores têm microfones mas mesmo assim gritam para que alguém perceba que raio estão a mandar fazer. Até nas chamadas “aulas calmas”, aquelas de mistura de Tai Chi com Pilates e Yoga, invariavelmente a música está tão alta que em vez de relaxar, distender e apurar o equilíbrio, o participante esmifra os nervos por não lograr seguir as instruções.
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Parece pois que a música alta, tão alta que faz suspeitar de que está toda a gente a caminho da surdez, veio para ficar. A música e os ecrãs com música. No outro dia passei numa esplanada da Baixa (sim, outra vez a Baixa) e havia um ecrã. Quer dizer: uma esplanada no meio de uma enfiada de ruas numa zona onde passam milhares de pessoas, com um sol maravilhoso e edifícios bonitos por todo o lado, e um ecrã. Para que quer alguém um ecrã num sítio daqueles? Será por causa do europeu de futebol? Ou é mesmo só para ver, sei lá, vídeoclips?
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Bem sei que parece que tenho 80 anos e nunca dei cabo da paciência dos meus vizinhos com a aparelhagem no máximo, ou que não gosto de bares e discotecas. Mas, precisamente, esta ideia de que tudo tem de ser igual a um bar ou uma discoteca, de que alegria e “animação” (outra vez esta palavra execrável) são sinónimo de música alta é verdadeiramente encanitante. Aliás, é pior que encanitante, é de fazer perder a cabeça. A mentalidade de feira, de recinto de carrinhos de choque, de Big Show Sic, tomou conta de tudo. Tudo é uma rave. Na noite de Santo António, por exemplo, junto à Sé de Lisboa, um quiosque de venda de bebidas serviu cervejas e décibeis noite fora. Tipo assim uma espécie de Rock in Sé, sem apelo sem agravo para a malta que vive na zona e nem sequer um avisozinho prévio de que a cena sardinhas, febras, ruas cortadas, muita garrafa partida e muita bebedeira perdida ia desta vez meter também um sistema de som capaz de acordar os mortos de sob as lajes da catedral (se lá sobrar algum) ou, em alternativa, só os residentes num raio de quatrocentos metros. E, de caminho, pulverizar qualquer talento para o fado vadio nas tascas típicas das redondezas.
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Se calhar é de mim, mas tudo isto me parece, mais do que uma enorme saloiada – que também é –, uma espécie de desespero. O desespero de preencher, de fazer igual, de juvenilizar, de esconjurar o tédio e o vazio. Ter medo do silêncio é sempre mau sinal."

10.7.08

Os Livros Ardem Mal

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Estive hoje a ler uma série de posts d' Os Livros Ardem Mal, blog ao qual ainda não tinha prestado a devida atenção.
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O blog vive sobretudo dos posts de Osvaldo Manuel Silvestre, embora Rui Bebiano, Miguel Cardina e Ana Bela Almeida, entre outros, também escrevam por lá. A qualidade é quase sempre muito elevada. Gostava de destacar estes dois textos (I e II) sobre Maio e a Crise da Civilização Burguesa de António José Saraiva, deixando um pequeno excerto do primeiro:
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"este consenso sobre o livro de Saraiva é não apenas frágil mas falso, pois o que se tem recuperado é, em menor grau, a reportagem daquele mês, e, sobretudo, a crítica, pela esquerda – mas não pela extrema-esquerda, que não era a de Saraiva, e sim pela tradição libertária que marcará o autor na sua fase tardia –, da perspectiva com que os Partidos Comunistas enfrentaram e, em boa medida, atraiçoaram, a dinâmica do movimento estudantil. Tem-se referido bem menos a crítica radical de Saraiva ao capitalismo e, mais do que isso, à Razão instrumental, que para Saraiva definia capitalismo e comunismo juntamente (...) e, antes disso, todo o projecto da modernidade, que Saraiva preferia qualificar como «burguesa»: dissociação entre trabalho e capital, triunfo do espírito de «mensuração» e «contabilização», perda da relação não-instrumental com a Natureza e com o Outro."

8.7.08

Dennis McShade na Assírio & Alvim

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Uma excelente notícia: a Assírio & Alvim vai reeditar A Mão Direita do Diabo, um dos três livros policiais que Dinis Machado escreveu sob o pseudónimo de Dennis McShade.
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A Mão Direita do Diabo, de que já falei aqui, foi publicado pela primeira vez em 1968 e integrava a colecção Rififi da editora Ibis. De momento só em alfarrabistas (e com muita dificuldade) se consegue ainda encontrar.
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Esperemos que se sigam os outros dois: Requiem por D. Quixote (1968) e Mulher e Arma com Guitarra Espanhola (1968).

7.7.08

Av. da República (e imediações) à espera do fim (2)

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Depois de uma série que aqui dei conta, o Paulo Ferrero, do Cidadania LX, assinalou mais uma enorme quantidade de edifícios em perigo, agora não na Av. da República, mas nas suas imediações. O panorama é assustador:
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Av. Cinco de Outubro, Nº 108-110
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Avenida dos Defensores de Chaves, Nº 60
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Avenida dos Defensores de Chaves, Nº 16
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Avenida dos Defensores de Chaves, Nºs 5-7-9
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Avenida dos Defensores de Chaves, Nº 17
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Avenida dos Defensores de Chaves, Nº 37
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Avenida Barbosa du Bocage, Nº 65 e 67
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Avenida Elias Garcia, Nº 60-62
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Avenida Elias Garcia, Nº 132
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Avenida Elias Garcia, Nº 107-121
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Avenida Visconde de Valmor, Nº 53, 55 e 57
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Avenida Visconde de Valmor, Nº 43
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4.7.08

TV 7 Dias

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E eis que ao terceiro número a Ler se transforma na Tv 7 Dias...

A Quinta dos Animais

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A Antígona acaba de lançar uma nova tradução de Animal Farm, célebre obra de George Orwell, agora traduzindo correctamente o título por A Quinta dos Animais. Recorde-se que as anteriores edições portuguesas intitulavam-se O Triunfo dos Porcos.
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Ainda não li a nova tradução (de Paulo Faria) mas a avaliar pelo título e pela excelente tradição da editora neste campo, presumo que seja boa.
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Quanto ao livro, é absolutamente indispensável, claro.

30.6.08

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SABER VIVER É VENDER A ALMA AO DIABO
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Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
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Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
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Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
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Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
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(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
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Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
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Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
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Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
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Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
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E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
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Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
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Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
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Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
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Dizes tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
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Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
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[Alexandre O´Neill, in Abandono Vigiado, 1960]

27.6.08

Porquê trabalhar?

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Quando alguns nos querem pôr a trabalhar 65 horas por semana (!), é a altura certa para ler Albert Cossery, desaparecido esta semana e que, recorde-se, está todo publicado na Antígona.
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No Público de hoje Ricardo Dias Felner escreveu um longo artigo sobre o escritor:
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Albert Cossery viveu a maior parte da vida em Paris, escreveu sempre em francês, mas o seu mundo era outro. Nascido no Cairo, retratou todo o saber ocioso dos marginais e pobres do seu país. A pergunta que decorre da sua obra é sobretudo uma: porquê trabalhar?
Por Ricardo Dias Felner
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Era um homem fora do seu tempo, derrotado pelo seu tempo, mas foi coerente até ao fim. O romancista egípcio de língua francesa Albert Cossery morreu esta semana, com 94 anos, e tudo aconteceu como havia desejado: um último suspiro no seu quarto do hotel Louisiana, na mítica Rue de Seine, em Paris, onde vivia desde finais da década de 40.
Numa altura em que os valores do trabalho, do profissionalismo, do dinamismo, do consumo e da tecnologia pulverizam o mundo, quase tudo o que o escritor representou foi sendo ultrapassado. Mas isso nunca o desviou da sua filosofia.
A indolência, a preguiça, o desprendimento material e político, a alegria dos bas-fonds, guiaram-no sempre. Como as personagens que criou, seus velhos conhecidos da cidade do Cairo, Cossery era capaz de viver a pensar, a observar, sem ter um projecto ou um objectivo imediato - sem uma ambição que não a do prazer e a da reflexão para lá do senso comum.
Também por isso só publicou oito livros (em Portugal, todos pela Antígona), um em cada dez anos. E também por isso cada um desses livros é uma pedra preciosa, de um rigor extremo no uso das palavras, sempre de uma elegância rara. O poeta e crítico literário Pedro Mexia e Júlio Henriques, um dos seus tradutores para português, são apenas alguns dos que lhe elogiaram a "invejável limpidez" e a "grande depuração" dos seus textos.
O próprio Albert Cossery não renegava este tipo de elogios. Era um autor ciente da sua qualidade, por vezes arrogante. E não gostava que a demora no seu processo criativo fosse usada para o desvalorizar: quem quisesse acrescentar algo de novo à literatura, quem tivesse horror aos lugares-comuns, não podia nem devia produzir em série.
Aos seus colegas adeptos de metas, metodologias e prazos - que diziam escrever "cinco páginas todos os dias" - acusava-os de redigirem "um texto qualquer", impublicável para os seus parâmetros. "Eu escrevo uma frase. Simplesmente, reviro-a vinte vezes para conseguir dizer alguma coisa", contrapôs, numa longa conversa com o realizador francês Michel Mitrani, que viria a ser editada em livro.
Apesar de não ser um autor pródigo, nem gostar do marketing e dos eventos literários, a sua obra tornou-se singular e foi traduzida em 15 línguas. Para além disso, Cossery criou um pequeno grupo de indefectíveis, que acompanharam o seu percurso desde o início e que se reconheceram no ambiente e na forma de estar que promovia. Luís Oliveira, editor da Antígona (que publicou em Portugal todos os seus livros), é um dos seus admiradores incondicionais. Conheceu-o em meados da década de 90 e recorda, das conversas no Café de Flore, em Saint Germain-de-Prés, onde o escritor se espreguiçava todas as tardes, "um homem que não dizia uma banalidade", mas que podia ser duro. "Quando alguma coisa não lhe agradava, fazia um olhar que gelava", lembra.
O editor foi um dos seus alvos. Sem qualquer diplomacia, para sublinhar a diferença de pensamento com Luís Oliveira, que sabia ser o seu único editor em Portugal, Cossery definiu-o certa vez como um "comerciante" e chegou mesmo a duvidar das suas qualidades. Luís Oliveira apenas lhe perguntara onde arrumava ele a sua biblioteca, visto viver num quarto modesto de um hotel modesto. O romancista respondeu-lhe: "Fique sabendo que guardo apenas entre 50 e 100 livros e que estão todos no meu quarto comigo. Se acha que existem mais de 10 livros por século que merecem a pena, então não deve continuar aqui a falar comigo".
Júlio Henriques, que fez a tradução de três dos seus livros (Mandriões no Vale Fértil, A Violência e o Escárnio e Mendigos e Altivos), e que também conversou por "três ou quatro vezes" com Cossery, confirma o seu mau génio. "Era simultaneamente muito agradável e muito intratável", diz. Uma das coisas que o aborreciam, recorda Júlio Henriques, era precisamente ter-se tornado numa personagem do bairro de Saint Germain-de-Prés, uma espécie de símbolo da vida boémia e excitante de Saint Germain-de-Prés. Continuava a frequentar os cafés, mas gostava de ficar apenas sentado a olhar a rua e a pensar, sem ser incomodado pelas "pessoas incongruentes" - leitores, escritores ou artistas - que frequentemente o abordavam.
Entre os amigos que fez, e com quem partilhou a noite de Paris das décadas de 40 e 50, encontravam-se Albert Camus, Henri Miller, Jean Genet ou Alberto Giacometti. Todos já mortos. Nos últimos anos, não era capaz de eleger um bom escritor, alguém que valesse a pena. "A Paris dos últimos anos já não lhe dizia nada", conclui Júlio Henriques.
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Contra a militância
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Albert Cossery nasceu no Cairo, filho de um proprietário literato e de uma mãe analfabeta. Aos 18 anos, começou a escrever - em francês, língua usada no Egipto naquela altura pela classe média - e as suas primeiras novelas, publicadas em revistas, já reflectem o imaginário do povo ocioso e pobre do seu país.Com 32 anos, com o pretexto de se ir formar, viaja então para Paris. Mas nunca esquece o povo e o ambiente do seu país; nunca esquece o seu tema de sempre. Os oito livros que escreveu (sete dos quais já em Paris) tinham todos o Egipto como cenário e os seus habitantes como actores.
Henry Miller veria logo na colectânea seminal Os Homens Esquecidos de Deus o ideário que o autor iria defender até à sua morte. Num ensaio elogioso, que apresentou o escritor egípcio à vanguarda artista da altura, seria o primeiro a elogiar e a perceber a coerência da filosofia cosseriana da preguiça. Daí em diante, todos os heróis criados pelo escritor egípcio eram preguiçosos.
Estes miseráveis espirituosos, movidos pelo prazer e pelo sono, não deveriam, contudo, ser confundidos com idiotas amorfos e vazios. "Há a preguiça do homem que reflectiu e a preguiça dos idiotas." "Um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E, quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir", concretizaria, em 1995, no livro de Mitrani Conversas com Albert Cossery.
A ideologia que perpassa nos seus livros e na sua forma de vida nunca assumiu, contudo, contornos panfletários: o escritor nunca quis doutrinar ninguém. É verdade que a propensão libertária, o seu desprezo pela autoridade - sobretudo política e policial -, bem como a crítica implícita ao capitalismo e ao materialismo, o poderiam situar em movimentos anarquistas ou comunistas. Mas não há nos seus textos qualquer resquício de militância, apenas pessoas que pensam diferente, que vivem num mundo diferente, personagens coerentes no seu mundo coerente, que transformam cada história numa história que vale por si, passível de ser devorada por qualquer leitor descomprometido farto de enredos e sociedades de telenovela.
Em A Violência e o Escárnio, aliás, Cossery trata de esclarecer tudo isto. Lido como uma crítica à militância comunista, o livro mostra a receita para combater o autoritarismo. A certa altura, Heikal aconselha o subversivo Taher a não agir com violência - porque isso seria levar os tiranos a sério, seria contribuir para o seu prestígio - mas a vencê-los "no seu terreno", o terreno da "palhaçada", escarnecendo-se das suas atitudes. Cossery explicaria que "as pessoas que praticam o escárnio nunca manifestam raiva seja contra quem for. Divertem-se na vida. Tudo os diverte, até mesmo as guerras". E que essa era a razão pela qual os seus conterrâneos eram pessoas alegres, "um povo pacífico", onde existia "muito pouco ódio entre as pessoas".
No livro As Cores da Infâmia, o autor daria um retrato vivo, magnífico, dessa ideia. "Impermeável ao drama e à desolação, esta chusma de gente carreava uma espantosa variedade de personagens pacificadas pela sua ociosidade; operários sem trabalho, artesões sem clientela, intelectuais desinteressados da glória, funcionários administrativos expulsos das repartições por falta de cadeiras, diplomados das universidades vergados ao peso da sua ciência estéril, enfim, os eternos trocistas, filósofos amorosos da sombra e da quietude que dela emana, para quem a deterioração espectacular da sua cidade tinha sido especialmente concebida para lhes aguçar o sentido crítico."
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A escrita polida
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Só uma coisa pode, no entanto, perturbar até os espíritos menos preconceituosos na obra de Cossery. Em nenhum dos seus textos, ele se refere a uma relação normal com uma mulher normal. As mulheres que encantam as suas personagens são sempre adolescentes, raparigas meigas e prestáveis, frequentemente prostitutas.
Júlio Henriques arrisca caracterizar o escritor como um misógino, mas Albert Cossery nunca abordou com ele, nem com ninguém, de forma profunda e pública, o assunto. A Michel Mitrani diria apenas, comentando o desinteresse de Rafik, personagem de Mandriões no Vale Fértil, perante uma mulher desnuda: "O sono ocupa-o mais do que o desejo. É algo que também me acontece a mim, isto é, as mulheres que amo cansam-me. Ser simpático, indulgente, durante três ou quatro horas torna-se cansativo."
Nada disto deve, no entanto, desmerecer Albert Cossery. Até porque seria redutor, injusto e pouco rigoroso, sublinhar apenas a mensagem ou o tema dos seus livros. A escrita de Cossery, o seu estilo próprio e cuidado, vale por si. A sua linguagem é culta, adjectivada e erudita sem ser rebuscada nem supérflua: a palavra certa, no momento certo. Acresce um ritmo perfeito, o encadeamento das frases, quase sempre curtas, sem um entrave; e personagens extraordinárias, fundas, compondo histórias mirabolantes e surpreendentes. Por outro lado, a ironia do princípio ao fim dos livros, o sarcasmo, o humor negro e subliminar a cada página.
Sigamos, por isso, o princípio do prazer de Cossery. Leiamos os seus livros devidamente descansados. Sejamos preguiçosos.

26.6.08

Mouraria: afinal ainda não foi desta

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«O vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa, Manuel Salgado, achou uma "excelente ideia" a proposta das vereadoras dos Cidadãos por Lisboa (CPL) para a reabilitação do bairro histórico da Mouraria, mas acabou por reprová-la juntamente com os outros vereadores socialistas e a restante oposição, à excepção dos autarcas do movimento Lisboa com Carmona (LCC), que se abstiveram.
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[Notícia do Público de hoje]

25.6.08

Mouraria

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"São edificações antigas, encravados numa das sete colinas, mais exosqueletos que casas, com chapéu de zinco e poleiro de pombos." (...) "prédios descarnados até ao miolo com a ruína suspensa pelas escoras ferrugentas que lhes alfinetam as entranhas."
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No Público de hoje pode lêr-se uma reportagem de Catarina Prelhaz sobre o bairro da Mouraria e os níveis de degradação extrema a que chegou. Tudo isto a propósito de uma proposta dos Cidadãos por Lisboa que vai/foi hoje a reunião de câmara. Será que é desta?

23.6.08

"Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale."
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[Albert Cossery em entrevista que se encontra no final de Mendigos e Altivos]

Albert Cossery (1913-2008)

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Morreu ontem, aos 94 anos, o escritor egípcio Albert Cossery. A viver em Paris desde os anos 40, Albert Cossey escreveu apenas 8 livros (7 romances e uma colectânea de novelas), todos eles exaltando a indolência, a reflexão, a preguiça e uma profunda rejeição do trabalho e da civilização moderna ocidental.
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Em Portugal está publicado na Antígona.