7.10.08

FNAC

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"Depois de praticamente destruírem o mercado das pequenas e médias livrarias e de "esmifrarem" as margens comerciais dos editores, tornando-os FNAC-dependentes, têm agora caminho livre para fazerem o que querem"
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[Jaime Bulhosa, no blog da Pó dos Livros]
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"em França a FNAC tornou-se uma rede livreira com lógica de hipermercado; e, com a décalage do costume, é o que estamos a ter por cá também (alguém se lembra ainda, por exemplo, da secção de poesia da FNAC Chiado do início?)"
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[Osvaldo Manuel Silvestre, n'Os Livros Ardem Mal]
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"Desde a abertura da loja do Chiado (a que conheço melhor) que as pequenas mudanças foram acompanhando uma degradação paulatina daquilo que podia ser um espaço de livros agradável. A redução, lenta mas substancial, dos fundos e de algumas secções em particular (a banda desenhada é um bom exemplo, mas haverá outros), a rotatividade acelerada das novidades, muitas vezes associada à desaparição rápida dos livros que há um mês estavam em destaque, a oferta cada vez mais concentrada nas edições que se encontram em qualquer sítio (acabando com aquilo que poderia diferenciar a loja de outros grandes espaços comerciais livreiros) e a constante mudança de espaços, de que o ‘encafuamento’ da secção infantil no antigo corredor de leitura, com pouco espaço para leitores e menos ainda para carrinhos de bebé, é o exemplo mais recente, mas ao qual se poderia juntar o desaparecimento misterioso dos sofás de leitura que marcavam, no início, a identidade da loja, são exemplos dessa degradação."
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[Sara Figueiredo Costa, no Cadeirão Voltaire]
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Agora que a FNAC acabou com os seus decontos de 10% e algumas das suas características mais marcantes estão a desaparecer gradualmente, talvez seja altura de prestar alguma atenção às pequenas e médias livrarias de grande qualidade que vão resistindo:

A própria Byblos, que foi para mim uma relativa desilusão, tem melhorado muito e em certas áreas penso que já ultrapassou a Fnac.

MEC de regresso

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Miguel Esteves Cardoso está de regresso às livrarias, agora com Em Portugal Não Se Come Mal, como sempre pela Assírio & Alvim.
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Para abrir o apetite, podemos ler aqui as primeiras páginas e ouvir aqui um excerto da entrevista que deu ontem a Carlos Vaz Marques.

6.10.08

Dinis Machado: entrevistas

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Podemos aceder a duas entrevistas (a primeira para ouvir e a segunda para ler) que Dinis Machado deu por altura das comemorações dos 30 anos d'O Que Diz Molero, que estão disponíveis na internet: uma a Carlos Vaz Marques para a TSF (20/03/2007) e outra a Adelino Gomes para o Público (21/03/2007).

5.10.08

"O Que Diz Molero" por Luiz Pacheco

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Já o tinha feito há uns tempos mas volto a deixar aqui o texto que Luiz Pacheco escreveu em 1977 sobre O Que Diz Molero e que acabou por contribuir consideravelmente para o seu sucesso. Pode ser lido aqui um excerto da entrevista que Pacheco deu a João Pedro George em 2005 em que é referido este livro e o seu sucesso.
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DESCOBRI UM AUTOR
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Um livro-bomba. Uma obra referenciada para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum, o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).
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Podiam ser frases publicitárias. Quem ler «O QUE DIZ MOLERO», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará que não: é que é mesmo assim, como eu digo.
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Fiquei banzado. Para já, para já, não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado, se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.
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Trouxe da minha experiência de editor o arrepio que é deparar-se-nos, de um autor desconhecido, de quem nada sabíamos ou lêramos, obra original, íssima, íssima, e autêntica (que agora aqui invejo é a Bertrand). Isto me dá, como leitor ou crítico (e o crítico que será senão um leitor especial, obrigado a botar sua opinião em público?) ou, até, escriba, uma real disponibilidade de captação de entusiasmo sincero e barulhento (começo a ferver, a explodir alegria) perante o novo (cf. o frisson nouveau causado pelo Baudelaire). Meus colegas de escrita, muitos e entre eles os mais celebrados da Hora, os vejo, os percebo, mordendo-se pelas costas, disputando-se editores e clientela, numa ciumeira pegada. Nunca me deu prá-i. Quando embirro com um escritor é porque ele escreve mal e me fez perder tempo, e havia tanta obra-prima que não li e já não vou ler. Chatos duma figa!
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«O QUE DIZ MOLERO»: à abertura, comecei a ficar muito arreliado. «Mas que raio é isto?! Uma conversa entre um tal Austin e um Mister DeLuxe e logo a seguir uns burriés colados à parede para secar… mau, mau. Temos estopada.» Mas segui viagem, página a página. E comecei a ficar contagiado, envolvido. Daí em diante, uma cavalgada furiosa de episódios, uma feira, um tropel de gente, uma festa popular de malucos e malucas, tudo chalado, uma alegria enorme quase insensata o sintimento nos momentos doloridos (ex.: a morte e o funeral de César), mas tudo tão perto de nós e tão naturalmente reproduzido na escrita.
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Não tenho a mínima pretensão de sequer revelar, no pouco espaço que me é concedido, uma breve ideia do que seja «O QUE DIZ MOLERO». É este excessivo para se reduzir. Deturpava, por certo. Assim, e muito esquematicamente, irei limitar-me ao que me parece ali mais relevante.
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A cena de pancadaria entre o Ângelo, «danado para a porrada», e os camones (e já antes com os ciganos) que provocavam girls naquele bairro pobre e a ressaca do festival de mocada que o Ângelo lhes proporcionou é, pelo movimento, pelo achado dos detalhes, pela embalagem descabelada mas a rigor, um morceau de bravoure, que ficará (para mim não restam dúvidas) como das coisas mais bem conseguidas da nossa literatura. É humor, é violência álacre, é cinema escrito, recorda-me, superando-o, uma cena de um romance de Beckett («Murphy»? «Molloy»? Tive os livros, tive de os vender (comer), não consigo localizar a cena. É uma zaragata entre bêbados, jogando a pontapés um saco de cinzas de um amigo morto. O leitor que ajude. Diga para cá onde é) – não estou a exagerar.
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Também na parte imaginária do livro há umas páginas (162-166) um pouco forçadas ou esforçadas no tom (mas não será propositado?), pois já li daquilo não sei onde (ou saberei?), o texto que o rapaz entrega, no Tibete, ao dono da loja de ferragens, por sinal dono do único cão azul conhecido na região, é agora em lírico, dos mais belos do volume. Não esqueço, claro, os poemas que nele se entroncam e o trecho (págs. 65-66) aliciante de imagens e de contenção comovente, outro ponto alto do relatório de Molero.
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Uma teoria que me ocorreu, e não posso aqui desenvolver, é se Dinis Machado não usou, entre outras, uma finta: dos quatro protagonistas, o rapaz que apenas conhecemos pelo que diz Molero, e já interpretado por este nas suas divagações e comentários; o rapaz, de que nem o nome ficamos a saber e se some, desaparece no ar como o Mandrake, voilá Molero, que é por sua vez explicado, traduzido, por Austin que transmite a Mister DeLuxe, o qual, hierarquicamente superior e filosofante, extrai sempre uma conclusão teórica, uma síntese ideológica, desse contraponto surgiu-me a suspeita de que a osmose dos quatro era mais perfeita daquilo que se nos apresenta. Que eram um em quatro, e os quatro quase heterónimos do Autor, cúpula mal escondida nos bastidores da intriga («tudo o que criamos é apenas o que somos», está lá escarrapachado).
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Um breve senão: a meu entender, o A. Fornece em demasia pistas escusadas. As referências a Pessoa, Pessanha, Breton, Beckett, etc., se podem ser muito do agrado de literatos enfadam o leitor medianamente informado. Eu já tinha detectado aquele quarteto, e mais: um que Dinis Machado não cita, parece-me, e muito injustamente: o Almada do «Nome de Guerra» e ainda mais o Almada da «Engomadeira», que – baba-te, Dinis Machado! – é texto que «O QUE DIZ MOLERO» por assim dizer continua, saltando por cima de meio século de literatura parva, imitada, gaga prosa que se retrogradou ao Júlio Diniz e parece filha de «O Feliz Independente»… Também o Cesariny de «Corpo Visível» ou do «Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos» por ali corre.
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Outro: as mui discretas, quase sumidas no contexto, alusões à situação política nacional, num momento particularmente crítico (a acção decorre durante a Segunda Guerra Mundial e seu termo). O herói positivo seria apenas o Bigodes Piaçaba, «que era contra o Governo». Tão-pouco se acredite, apesar da discrição, na indiferença ou inocência da obra; pois num comentário de Mister DeLuxe se pode ler esta carapuça, a enfiar sem disfarces nos nossos políticos pluralistas (e outros, mais à direita): «é óbvio que a autoridade dos líderes assenta quase sempre sobre autênticas puerilidades.» Valeu!
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Repito e finalizo: um livro-bomba, uma obra d’arromba.

3.10.08

Dinis Machado (1930-2008)

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O grande escritor Dinis Machado morreu hoje, aos 78 anos. Ficará para sempre conhecido pelo genial O Que Diz Molero (1977), mas escreveu outras importantes obras: Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez (1984), Reduto Quase Final (1989), Gráfico de Vendas com Orquídea (1999) e , sob o pseudónimo de Dennis McShade, Mão Direita do Diabo (1967), Requiem para Dom Quixote (1967) e Mulher e Arma com Guitarra Espanhola (1968). Sairá ainda este ano um livro policial inédito chamado Blackpot.
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Em jeito de homenagem deixo aqui um delicioso excerto de O Que Diz Molero:
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“Chegou uma esquadra”, disse Austin, “e aqueles a quem chamavam os camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro”. “essas excursões a bairros desconhecidos desvendam mundos novos”, interrompeu Mister DeLuxe. “fiz duas ou três desse género e tirei excelentes fotografias”.Austin sorriu. “bem”, disse ele, “os camones continuaram a subir a rua, pararam junto ao Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, com os camones, estoicos a irem e a virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também não se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça das couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor de rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas , isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino , deu duas voltas lá dentro fazendo parar máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca, levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o metro e meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados, e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raúl Pechisbeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bébé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guarda, ó da guarda, muitíssimo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o Fox Terrier do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex- Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a mascarilha”. Houve uma pausa. ”o rapaz assistiu a tudo isto dentro da mercearia do João Azeiteiro, atrás de um saco de feijão, atónito perante aquilo que Molero denomina o maior fogo de artifício de que há memória em matéria de pancadaria, a balbúrdia plena, o filme de trinta e uma partes em carne viva, o real que se sobrepõe ao mítico, sonhar é pouco, é entra rapaziada, é entrar, eis a maior zaragata de todos os tempos, resolvida numa só sessão e sem ser preciso comprar bilhete, sem cenários de cartão, sem trucagens, sem intervalo segue imediatamente, cabeças, pernas e braços indiscutivelmente partidos, a cara do Pé de Cabra tapada pelo sangue que lhe escorria da cabeça, o Lucas Pireza transportado para o hospital na carripana do Bigodes Piaçaba, os intestinos enfiados outra vez na barriga um pouco à pressa, os camones espalhados pela rua, as mulheres a trazerem bacias de água e toalhas para limpar os feridos, as acusações mútuas, ó camone porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets ? ...não foram os camones, foi o Ângelo, o Ângelo é que começou logo a enfardar, isto foi coisa dos Vai ou Racha, os Vai ou Racha e os camones juntos são a lepra e a diarreia, as lágrimas e os gemidos, Vovô Resmungas de bengala no ar a despontar à esquina ao colo do Roque Sacristão,a Mafalda capoeira a correr atrás das galinhas, o Zeca Trampa a procurar lulas e carapaus nas couves do Hipólito, o Metro e Meio a vomitar coisas de cores esquisitas, esverdeadas e lilases, o Celestino a dizer ao Peito Rente mas tu não podias foder o material a outro?, o Tonecas Arenas a pedir para o ajudarem a sair do andaime, o Joca Farpelas de casaco na mão a chamar de filho da puta para cima a toda a gente, o Gil Penteadinho à procura do dente de oiro, se virem um dente de oiro é meu, o Pimentel à porta da barbearia com meia barba por fazer e o guardanapo ao pescoço, a Gertrudes com o bebé ao colo, alternando, num tom de voz claramente diferenciado, o ó papão vai-te embora, deixa dormir o menino, com o cambada de malandros, cambada de malandros, o Raul Pechisbeque a recolher, de nariz no chão e no boné de um dos camones, pedrinhas coloridas, colares, broches e anéis, o Silva Farmacêutico a tentar tirar da boca do fox-terrier os fundilhos das calças do camone, os Moscatéis a perguntarem ao Marocas se a carvoaria era uma pista de corridas, o Marocas a coxear e a dizer foda-se, foda-se, não mexam na mota, não mexam na mota, o Tó Peneiras rua abaixo em grande velocidade agarrado à trela do Alsácia que perseguia um dos gatos da Dona Maria Bicharoco, o Ventura dos móveis a explicar a um camone que a bed estava partida, o camone a contar com os dedos os galos que tinha na cabeça, o Zeferino Torrão de Alicante a dizer que desta vez ainda tinha sido melhor do que com os ciganos, o Chinês a dizer que sim com a cabeça, o carro da policia achegar, o Joaquim Navalhinhas a perguntar mas o que é que a policia vem fazer agora?, vem contar os mortos?, o Ângelo a por os óculos e a desaparecer, o Zuca havia de dizer mais tarde, que ele desaparecera no ar como o Mandrake, a Dona Ermelinda a devolver o sombrero do Tonecas Arenas pela janela por onde tinha entrado, o sombrero a descrever uma curva larga, planando e caindo suavemente aos pés do Dick Tracy, que era o policia à paisana lá da área, e o Dick Tracy, segundo Molero, conta quem sabe, de sombrero na mão, a perguntar a toda a gente e a ninguém: o que é que se passou?, o que é que se passou?, o que é que se passou?..."

Forte de Peniche

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Depois da antiga sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, agora o Forte de Peniche. A passos largos a memória da repressão do Estado Novo vai desaparecendo. Na António Maria Cardoso está a ser construído um condomínio de luxo, no Forte de Peniche está agora prevista uma pousada do Grupo Pestana.
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Porque a memória desses anos deve ser preservada (e recorde-se que não há ainda nenhum grade museu sobre este período da nossa história) há que procurar impedir esta situação insultuosa para todos os que sofreram directa ou indirectamente com a repressão do regime salazarista, muito especialmente todos aqueles que estiveram presos em Peniche.
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Vale a pena ler o que Irene Pimentel (aqui e aqui) e Rui Bebiano escreveram sobre este assunto.

2.10.08

José Cardoso Pires no 10º aniversário da sua morte

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Faz este mês 10 anos que morreu José Cardoso Pires, um dos maiores nomes de sempre da literatura portuguesa, autor de livros tão marcantes como O Delfim ou Alexandra Alpha.
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Numa excelente iniciativa, a Câmara Municipal de Lisboa preparou um conjunto de actividades a decorrer durante este mês, de forma a recordar o escritor, incluindo exposições, conferências, visitas guiadas e exibição de filmes baseados nas suas obras. A programação completa pode ser consultada aqui.
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Para hoje, a partir das 18h, foi programada a sessão Os Amigos Recordam a sua Obra, na Casa Fernando Pessoa, com a presença de António Lobo Antunes e Júlio Pomar.

30.9.08

Gatos Comunicantes: o lançamento

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Gatos Comunicantes — Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952 - 1985, que chegou recentemente às livrarias pela Assírio & Alvim, vai ter o seu lançamento formal amanhã às 18h30m no auditório da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva.
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A apresentação será feita por Perfecto E. Cuadrado e Helena Barbas e algumas cartas serão lidas por João Grosso e Teresa Lima.
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Entretanto é possível ver algumas cartas aqui.

29.9.08

Cinemateca: 50 anos

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A Cinemateca Portuguesa comemora hoje 50 anos. Está de parabéns.

22.9.08

Os Três Seios de Novélia

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Foi agora reeditado, pela Dom Quixote, Os Três Seios de Novélia, livro de estreia de Manuel da Silva Ramos.
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Em 1968, com apenas 20 anos, Manuel da Silva Ramos ganhou o Prémio de Novelística Almeida Garrett (tendo como júri Óscar Lopes, Mário Sacramento e Eduardo Prado Coelho) com a novela Os Três Seios de Novélia. A esta o autor juntou os contos Um Longo Nascimento e A Respiração para a publicação do livro. Esta edição inclui também um prefácio de Óscar Lopes (escrito para a primeira edição) e um posfácio actual do autor.
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Estamos perante três textos admiráveis, com fortes traços surrealistas, que vale a pena conhecer.
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Sobre Novélia Óscar Lopes refere-se ao “romance de um jovem à descoberta do seu mundo lisboeta de 1968 – uma espécie de contrapartida a A Engomadeira de Almada Negreiros, meio século depois. Mas tal como com Almada, a arrumação cronológica, topográfica, e imediatamente verosímil do ambiente surge desfeita sob o fogo de uma fantasia sem tréguas, que, ao nível da narrativa como ao da simples cadeia verbal, nos empurra constantemente para a aventura do insólito, no contra-senso, no avesso ou na extremidade hiperbólica de tudo o que é vulgar. Ora este breve romance feito dos forros e dos extremos do quotidiano é, ao mesmo tempo, um poema de amor – do amor que ainda não o é, do amor masculino à procura da sua imagem de mulher.”
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Em crítica recente (Ípsilon, 12/09/2008) Pedro Mexia escreve que “Novélia segue três ou quatro coordenadas fundamentais que de algum modo iluminam toda a escrita de Silva Ramos: o tumulto dos 20 anos e o tumulto do ano de 1968; um estilo sarcástico e lírico, tributário dos surrealistas; e uma experimentação formal sem programa. As três narrativas que compõem Novélia constituem uma estreia a todos os títulos notável.”
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Talvez por ter estado fora de Portugal quase 30 anos, Manuel da Silva Ramos tem sido injustamente esquecido pela crítica e pelo público. Esperemos que a reedição do seu livro mais emblemático (embora ainda fosse possível encontrar a anterior edição, da Fenda) ajude a inverter essa situação.

13.9.08

A recuperação cyborg

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“a partir dos anos 60 assistiu-se a uma progressiva demolição e substituição, de uma forma insensível para o contexto histórico e patrimonial e muitas vezes medíocre, do tecido arquitectónico que caracterizava a Lisboa romântica dos finais do séc. XIX e dos inícios do séc. XX.
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Nos anos 70 inventou-se uma forma de intervenção arquitectónica única para Portugal, a que decidi chamar “recuperação cyborg”, por constituir o conceito mais híbrido e inconcebível para uma intervenção num edifício histórico, que constitui um organismo em unidade indivisível.
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Um bom exemplo deste tipo de intervenção constitui o edifício Heron Castilho da Rua Castilho, no gaveto em frente do projecto de Conceição e Silva. A essência deste tipo de intervenção resume-se a manter intacta uma fachada, agora transformada numa “pele” descontextualizada do seu corpo original, tal como numa operação plástica de cosmética, para depois, tal como num cyborg, e após a destruição total do seu organismo interno, lhe inserir uma estrutura high-tech com aumento considerável de pisos, como um implante alienante mas “justificado” pelo alinhamento de cérceas com um dos lados da envolvente.
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No presente, praticamente todos os projectos de recuperação apresentados para as Avenidas propõe a demolição integral dos interiores e, de forma mais ou menos moderada, uma intervenção dentro desta filosofia cyborg.”
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“A situação ilustra um drama sempre presente em Portugal: a ausência de arquitectos formados e dedicados exclusivamente à conservação e ao restauro; e a inexistência de historiadores de Arquitectura com formação académica em História de Arte, e portanto ligados ao tratamento da História da Arquitectura numa perspectiva civilizacional, na tradição das humanidades e das letras.”
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[Sérgio Rosa de Carvalho, artigo no Público de 9/9/2008]

12.9.08

O regresso de Herberto

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É sem dúvida a grande novidade da rentrée (ou do ano?): vai sair brevemente na Assírio & Alvim um novo livro de Hererto Hélder. Chama-se A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita e incluirá poemas inéditos, o que não acontecia há muito tempo.

11.9.08

Gatos Comunicantes

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A Assírio & Alvim vai lançar já na próxima semana Gatos Comunicantes, volume que reúne em 200 páginas correspondência trocada entre Mário Cesariny e Vieira da Silva de 1952 a 1985. Aguardo-o com imensa expectativa (desde já o título é genial). O texto de apresentação é de José Manuel dos Santos e no site da editora é-nos facultado um pequeno excerto:
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«Página a página, linha a linha, palavra a palavra, este livro ergue as figuras reais de Maria Helena Vieira da Silva e de Mário Cesariny de Vasconcelos. Ergue-as, assim cada um foi inventando o outro, num frente a frente perpétuo, sem intervalo ou traição. Este diálogo de vozes e de silêncios-entre-as-vozes, de palavras e de sem-palavras-entre-as-palavras, levanta estas figuras sobre (e contra) um chão de pequenez, hostilidade e escuridão, dando-as como elas são. E como elas se olharam, se representaram, se admiraram, se amaram uma à outra: únicas, grandiosas e magnificadas. Ao fundo, aparece Arpad, com uma elegância longa, a saudá-los, a saudar-nos, na sua doçura inquieta, na paciência e sabedoria do seu estar. Um pouco atrás, ouve-se, vê-se Guy Weelen a anotar, a preparar, a cuidar, a tramitar, a transmitir. Este livro prova que “os encontros são proporcionais aos destinos” e que o amor pode ser um relâmpago contínuo, livre, invencível.»
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Entretanto a exposição Correspondências — Vieira da Silva por Mário Cesariny, na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva irá prolongar-se por mais alguns dias, até 9 de Novembro.

1.9.08

Alexandre O'Neill: a última entrevista

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Está quase a fazer 23 anos, a 21 de Setembro de 1985, foi publicada no Expresso a última entrevista de Alexandre O’Neill, feita por Clara Ferreira Alves. Deixo-a aqui:
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ALEXANDRE O’NEILL: «JÁ NÃO CORRO ATRÁS DE MIRAGENS»
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Alexandre O’Neill tem andado arredado dos lugares da fama. Se o homem se confessa solitário e «meio-morto», o poeta – presente em reedições e traduções – está mais vivo que nunca…
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Quiseram dar-lhe uma medalha. A Ordem de Santiago e Espada. Respondeu, por escrito, que não aceitava porque se havia entre ele e o país uma dívida, era ele quem devia. «Sou contra, era a forma mais simpática de dizer não». Vive num prédio descascado da Rua da Escola Politécnica, rodeado de livros, desordem e solidão. É poeta, publicitário nas horas não vagas. Chama-se Alexandre O’Neill e tem 51 anos de idade.
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Há quem o ignore, quem o tenha por blagueur, que o considere um dos maiores poetas vivos portugueses, na fórmula habitual. Não sei se é, se não. Sei que gosto muito de alguns poemas dele, palavras «escorraçadas como pobres amantes», «de um tempo sem amor nenhum». Citei, utilizando fora do poema, palavras do poeta. Um poeta que não publica há algum tempo, apenas reedita. Uma segunda edição (Imprensa Nacional) das suas Poesias Completas, em Junho de 84, revista e aumentada. E a reedição (Presença) de Uma Coisa em Forma de Assim, em Abril de 85. Porquê a entrevista? Espanta-se. Ele, que nem sequer «está na moda»… Consta dos manuais que os entrevistados têm de fazer coisas actuais, dar nas vistas. No caso do Alexandre O’Neill não é preciso, porque se a sua pessoa é discreta a sua poesia não. Entrevemos nela uma qualidade que se vai tornando rara. Não é também para isso que servem as entrevistas? Para entrever? Pressentir?
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Expresso – No seu livro A Saca de Orelhas, de 1979, há um poema chamado precisamente Entrevista. Começa assim: «diz-lhe que estás ocupado / a entrevistar-te a ti mesmo / mesmo porque se não / o pões desde já porta fora (…)». Tem raiva às entrevistas?
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Alexandre O’Neill – Não, não! Esse poema fazia parte de um filão de poemas que eu estava a explorar na altura, um contínuo… não tenho qualquer preconceito contra as entrevistas.
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De qualquer modo, não tem dado muitas entrevistas na sua vida. Como poeta, o que é que tem andado a fazer?
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Poemas, poemazinhos, e provavelmente vou publicar outro livro, para o ano que vem ou coisa assim.
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E os poemazinhos onde é que estão? Na gaveta, prontos a serem editados? Os seus poemas são de gestação rápida ou lenta?
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Estão a repousar. É fazê-los, guardá-los e esquecê-los. Mais tarde volto a pegar neles, porque o mais difícil é saber se aguentaram ou não. A gestação é rápida, faço um poema em dois ou três dias, e só depois do pousio faço as modificações, o tal ofício de marceneiro, para usar uma imagem gasta.
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Não vai a lançamentos de livros (dos outros), não frequenta soirées nem tertúlias, não aparece em festas nem recepções… na televisão ninguém o vê há muito tempo, na rádio tão pouco se houve alguma vez a sua voz. Não escreve longos artigos de opinião em jornais. Isolamento deliberado, reacção contra o establishment literário?
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Não saio quase nunca. Estou na segunda linha, não tenho nada contra o establishment, continuo a fazer poesia e é em relação à minha poesia que se cometeram alguns exageros. O meu objectivo nunca foi fazer pouco, diminuir, satirizar, embora os poemas emanem de um certo número de trivialidades.
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Numa entrevista ao JL, ao Assis Pacheco, publicada há uns anos, você dizia que estava tão doente que nem podia caminhar contra o vento…
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Sim, sim, eu tive um enfarte há nove anos e o meu médico proibiu-me de caminhar contra o vento, aconselhando-me a virar-me e caminhar sempre no sentido do vento.
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E desde aí, ficou sempre a favor do vento, metaforicamente falando? Nos seus primórdios artísticos gostava muito de caminhar contra o vento…
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Estou bastante mais a favor do vento, sim, o que não quer dizer que seja uma imagem de conformismo.
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Ultimamente, voltou a falar-se na sua doença…
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Já estou meio morto. O ano passado tive outra vez problemas de saúde que me deixaram abalado. A partir daí tenho que inventar o meu próprio interesse pelas coisas. Alheei-me um bocado de coisas inutilmente cansativas.
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Alheou-se da vida? A vida de que é feita, afinal, a sua poesia?
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A vida interessa-me, o que não me interessa é a vidinha.
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A vidinha?
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Videirar, ou videirinha. O viveter francês, ou seja, ir vivendo.
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Desiludido consigo, ou com os outros? Nada o faz correr?
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Já não corro atrás de miragens, como todos os jovens bem-intencionados. E quase não posso correr, tenho uma ligeira oscilação quando ando, até uso uma bengalinha.
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Dá um certo panache
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Dá, dá imenso. Posso oferecer-lhe um café, sumo de laranja?
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Nada de bebidas alcoólicas, portanto. O whisky, a cerveja, que apareciam nalguns poemas…
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Só posso beber um copo por dia, de vinho branco ou tinto.
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Sempre me deu a impressão que gostava de cumprir itinerários lisboetas que incluíam os copos, os amigos… com que se entretém?
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Escrevo, leio. Até tenho um fraco que estou a ver se mudo que é aquela crónica no Jornal de Letras, quero ver se deixo de a escrever, porque é uma espécie de rom-rom.
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A crónica, exercida muito tempo, mata qualquer um, nunca pensou escrever um romance, um romance a sério, inteiro, não pequenas prosas, textos dispersos?
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Já escrevi, até escrevi seis, só que não os publiquei. Como dizia o Aragon, quando um cretino é automático é provável que também o romance seja cretino.
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Então porque é que não se abalançou ao romance? Seria normal, dada a sua tremenda facilidade verbal, o seu gosto das palavras.
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Romance? Nem pensar! Acho que não tenho jeito para isso. Escrevi um livro de crónicas. E depois, há muita concorrência.
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Uma vez disse, publicamente, que não escrevia um romance porque não estava para contar a vidinha, que é o que fazem muitos romancistas portugueses. No entanto, o Eu, na sua poesia, é forte. O pendor autobiográfico, o inventário interior. Que Eu é esse, o do poeta? É, ainda, o do homem?
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O Eu da poesia é o meu. Eu crítico, o meu Eu inventado, embora esteja por vezes bastante perto do outro.
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Tem o vício de escrever?
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Realmente tenho. E é cada vez mais difícil, porque se vai ganhando uma certa consciência da dificuldade de escrever.
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É metódico? Tem rituais de escrita? É capaz de se levantar a meio da noite para ir escrever?
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Faço na cabeça e então é que escrevo. Não tenho método nenhum, mas levanto-me muitas vezes a meio da noite para ir ao papel, para não esquecer no dia seguinte.
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Em criança como é que era? Escrevia?
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Era um chato, uma tristeza. Estava quase sempre em casa, era filho de gente que não me deixava ir à rua. Era um miúdo fechado, um bocado triste, e passava muito tempo à janela, bem perto daqui por sinal, na Rua da Alegria e ela provocava-me um sentimento de tristeza, quando via subir as carroças com os trabalhadores de aspecto cansado… Interessava-me o espectáculo das pessoas.
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A sua infância não repassou para a poesia.
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Sim, é verdade, talvez porque não foi uma infância feliz, nem infeliz. Foi um tempo cinzento, sem relevos, não o distingo dos outros.
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Na adolescência, se continuava fechado e espectador de janela, devia ler muito. E escrever poemas de adolescência.
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A partir dos 15 anos comecei a ler. Lia Júlio Verne, aqueles livros da altura que todos os rapazes liam. E escrevia versos.
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Recordações particulares?
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Andei em colégios particulares. Lembro-me que quando fui para o liceu, a partir do 2º ano começou a segregação de sexos, meninos de um lado e meninas do outro. Uma chatice!
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Já se interessava pelas mulheres?
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Tenho alguma bossa de femeeiro? Bom, do liceu fui para a Escola Náutica, queria se piloto, achava um modo de vida simpático. Só que durante as férias do 1º ano fui à capitania de Lisboa pedir a cédula marítima para navegar como praticante de piloto sem carta e aí eles disseram-me: nem pense nisso, você tem uma miopia desgraçada! Arrumei o curso. É preciso ver que, burocraticamente, não havia inspecção médica para entrar na Escola Náutica. Tinha de fazer a prova de que sabia nadar, de que via para nadar, e pronto. Por isso não fui apanhado. Até já escrevi a propósito: «Já andei para marinheiro mas pus óculos e fiquei em terra.»
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Deve gostar do mar, no entanto ele quase nunca aparece na sua poesia, ou na prosa. Aparece o azul, mas é o azul do céu, aliás uma cor quase obsessiva em certos poemas…
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Talvez haja aí um certo recalcamento, por não conseguir fazer do mar a minha profissão. O azul é, de facto, o do céu.
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Já deu por si a analisar os seus poemas?
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Oh, sim. Os poemas iniciais acho-os sujamente quotidianos, demasiado comprometidos com uma poesia que não é autobiográfica mas finge sê-lo. Acho, assim, uma coisa…
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Por volta de 47 e dos seus 20 e poucos anos, já andava metido na fundação do Grupo Surrealista de Lisboa. Devia andar pelos cafés, as tertúlias, ser politicamente contra. Quando é que conheceu o Cesariny?
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Conheci-o através do Lopes Graça que tinha um Grupo Coral, chamado Amizade, ligado aos movimentos juvenis da política. O Cesariny era membro do desdobramento juvenil desse coral. Nós andávamos pelo Barreiro, pelas colectividades, a cantar em grupo. Politicamente claro que era contra, era MUD juvenil.
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O surrealismo, claro, era de importação. Mas os surrealistas já existiam há muitos anos. Porque é que estavam tão atrasados? O Cesariny já devia estar mais avançado do que vocês nesses campo…
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Não, não. Fui eu que comprei a História do Surrealismo do Maurice Nadeau e disse que tínhamos de fazer uma coisa daquelas. Foi uma descoberta de 1948, através do livro e da antologia que ele publicou. Foi um alvoroço, o surrealismo surgia-nos exaltante e libertador. O Cesariny fez a descoberta na altura, embora já escrevesse umas coisas com muito humor, que eram uma charge ao neo-realismo. O nosso surrealismo era, aliás, uma reacção ao neo-realismo da época.
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E o que é que achavam do neo-realismo e dos seus membros?
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Uma chateza! O Mário Dionísio, o Cochofel! Na poesia não havia quase ninguém. Havia o Joaquim Namorado, que era fanaticíssimo. Havia até uma piada que se contava a propósito do Cochofel. Dizia-se que quando chegasse a revolução, o Cochofel chamava a criada e gritava: «Maria, traz a bomba!» E depois vinha a criada, toda ataviada em rendas, lhe trazer a bomba numa bandeja de prata, ele atirava a bomba pela janela… Afinal de contas, o Cochofel até era um bom tipo.
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Nesta sala há muitos livros em grande desordem. O que é que jaz nesta desarrumação?
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Coisas muito boas. E tenho mais estantes assim, pelo resto da casa. Há de tudo, poetas americanos, franceses…
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Poetas ingleses, não? É estranho, mas quando reli outro dia dois poemas seus, havia um vestígio de Elliot, um afloramento de Prufrock.
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Tenho-o neste momento à cabeceira, embora não possa dizer que seja um autor da minha cabeceira. Comecei-o a ler tarde, mais tarde do que é costume. Por volta dos 26, 27 anos.
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Onde eu noto um paralelismo acentuado entre a poesia de O’Neill e a de Drummond de Andrade é na recuperação, num certo tratamento que é pueril, transformando-o em sublime. Uma certa captação do real. Já sei que detesta que lhe apontem influências, mas é uma herança que não está em condições de negar.
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É verdade e também é verdade que nunca se disse em Portugal o quanto o surrealismo português deve a Drummond de Andrade. E ao Bandeira, que tenho a fraqueza de considerar um excelente poeta.
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Fraqueza?
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Dele se disse que é um grande poeta menor.
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E acha que esses rótulos que os sacerdotes da crítica metem na poesia devem influenciar a sua opinião? O que é, afinal, um grande poeta menor? Não é um rótulo?
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Sim, tem razão, não passa de um rótulo, embora tenha vindo de uma pessoa amiga. Para mim, o Bandeira é simplesmente um grande poeta. Se há poetas menores, ele é dos maiores.
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Acha que existem bons críticos de poesia em Portugal?
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É possível, mas nunca vi. Às vezes há um acerto, é tudo.
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Parece-me que está a jogar à defesa, a remeter… Ainda o «par delicatesse j’ai perdu ma vie?»
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Delicatesse não há. Hoje passo tudo pela refinadora, é diferente.
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Depura as palavras, as ideias? A espontaneidade (aparente) da sua poesia soa a falso. Quando calha, alia magistralmente a arte e a técnica, ou busca essa precisão, trabalhando o verso?
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O verso é muito trabalhado, é um processo lento de dizer uma coisa. E agora estou cada vez mais exigente. É um trabalho minucioso, e mesmo quando parece desataviado, é um desatavio voluntário. Não acredito na poesia… bom… vamos lá a ser modestos… o que quero dizer é que a grande, a boa poesia, percebe-se logo. Desconfio do que é fechado, hermético, chamemos-lhe assim.
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Já se emocionou com um poema seu, muito depois de o ter escrito?
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Tantas vezes! Há poemas privilegiados em que isso acontece com certa frequência. Também acontece o contrário, aqueles que são falhanços. Há um poema sobre os fogos-postos de que gosto muito, considero-o um dos mais bem acabados que escrevi até hoje. E emociono-me.
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O que o emociona é, em última análise, a forma, não o conteúdo. E a memória, a recordação de momentos?
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Sim, emociono-me por estar bem feito. Claro que há poemas que têm a ver com memórias de situações que não tinham nada a ver com o poema em si mesmo, e são poemas de amor, Também aí pode existir emoção.
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Saindo da emoção para o calão. Muitas vezes lhe é atribuído um conhecimento profundo da linguagem lisboeta de rua, do bas-fond. Chegou mesmo a inventar palavras de calão, como Onassis para dizer dinheiro. Frequentava os lugares verdadeiros dessa linguagem? Era uma pessoa da noite?
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Era mais fama do que outra coisa, embora essa do Onassis seja verdade, também não pegou. Nunca fui pessoa da noite, frequentador de tabernas ou alfurjas, e os que as frequentavam devem estar mais dentro do assunto do que eu.
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Acredita em gerações?
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Não acredito.
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O tempo é uma das abstracções mais terríveis que permitem os seus versos. O que é, aos 50 anos, o tempo? A sua passagem?
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Até à pouco tempo não dei pela passagem do tempo, fui vivendo, fiz do corpo alavanca sem pensar no futuro. Há pessoas que passam a vida a pensar na reforma, aos 20 anos já pensam na reforma, aguentam empregos terríveis para chegarem lá. Há muita gente com essa mentalidade de funcionário público. Nunca foi o meu género. Também nunca fui poeta de pensar no currículo, de fazer da poesia propriedade de um currículo. Recusando estas coisas, cheguei aqui.
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Acha que a actual poesia portuguesa foi invadida pelo academismo?
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Nitidamente. Os académicos apossaram-se da poesia portuguesa e puseram-na ao serviço do currículo.
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Faz sentido a frase de que Portugal é um país de poetas?
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Nunca fez sentido para mim. A não ser se se identificar poeta com distraído, lunático. Lá que somos um país de lunáticos, somos. No outro sentido, nada.
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Lê poetas portugueses contemporâneos?
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Poucos. Só dois ou três. O João Miguel Fernandes Jorge, o Herberto Hélder, o Eugénio de Andrade.
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Nunca se sentiu injustiçado, em relação ao seu valor poético? Não acha que o puseram de parte apesar da sua qualidade?
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Sei que não estou na moda. Pode ser sem intenção, talvez certas ideias tenham sido, por mim, mal desenvolvidas, ou expressas, e por isso não foram compreendidas e tornaram-se desinteressantes para os outros.
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Será que falhou aí um certo trabalho de auto-promoção? A moda precisa da auto-promoção hábil, do marketing.
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Não quero fazer acusações. As pessoas que me lêem gostam do que lêem e algumas têm surpresas agradáveis: olha, aquele fulano é um poeta! E ficam a conhecer-me de novo.
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Como é que é conhecido?
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Como blagueur. Um tipo com graça. E é o contrário porque se graça existe, ela é um bocado amarga. Até me arrumaram apressadamente com o Tolentino, o Junqueiro.
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Quem o arrumou?
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A crítica. Voltamos, simpaticamente, à crítica.
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Arrumaram-no bem ou mal, em sua opinião?
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O Tolentino era um grande poeta, não me importava de ser parecido com ele mas não sou. No tempo da crítica impressionista havia a mania de estabelecer parentescos. As pessoas tinham que ter pais, avós, ascendentes e descendentes.
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Prefere ser bastardo ou filho legítimo? Se tivesse que escolher um pai quem é que escolheria? Cesário Verde?
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Gostava do Cesário, sem dúvida.
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Digo-lhe duas palavras e quero que me responda o que lhe vier à cabeça, automaticamente. Intertextualidade…
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É muito importante saber praticá-la inteligentemente.
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…psicanálise…
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Não acredito muito. É acomodatícia, o seu papel foi acomodar as pessoas a uma sociedade intragável. À parte isso, deve ter tido um certo valor terapêutico.
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A sociedade é intragável?
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Sim, porque nos propõe fazer e consumir coisas que, conscientemente, não faríamos nem consumiríamos. A vida na cidade, os autocarros a transbordar, os refrescos de anúncio…
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Essa é engraçada vinda de alguém que ajuda a vender coisas, que inventa imagens de consumo. Você trabalha em publicidade. Já se viu a consumir algo que tivesse proposto publicitariamente?
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É boa! (Risos) Não, acho que não.
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Como muita gente que não pode viver exclusivamente da escrita, teve que se arrimar a uma profissão onde as palavras importam. Porque escolheu a publicidade e não os jornais, por exemplo?
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Não sei como fui lá parar mas fui. Fiz-me aprendiz de publicidade porque era uma maneira pouco trabalhosa de ganhar para o sustento. Talvez fosse essa a razão. Já lá vão 30 anos.
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Não será essa mentalidade semelhante, afinal, à do funcionário público a sonhar com a reforma? Você sonhava com o fim do mês?
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Não. Com o fim do mês sonha toda a gente. E mudei tantas vezes de empresa e de trabalho, de forma tão livre, que nunca tive a proposta da reforma no final do túnel.
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Tem ou não direito a uma reforma?
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Deve dar para morrer alegremente.
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Ganhou dinheiro com a poesia?
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Sim, em Itália, e aqui, na Imprensa Nacional.
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O que é mais importante: a relação com os outros ou com as palavras?
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A relação com as palavras é fundamental e a relação com os outros depende da relação com as palavras. Mas não sacrifico um jantar com um amigo para acabar um soneto.
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E um jantar social?
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Nunca.
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Não o convidam?
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Não vou.
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Tem muitos amigos?
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Não, para aí um ou dois.
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Podemos falar de solidão?
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A procurada é boa, a não procurada às vezes é chata.
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Faz parte da mitologia de criação artística, a solidão…
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O estar sozinho não é a solidão. Às vezes está-se sozinho porque se quer e isso pode dar um bom monólogo, uma meditação. O facto de eu viver só é que, às vezes, é chato e vou até ao barbeiro da esquina só para falar com alguém.
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Não usa o telefone? Nunca ficou agarrado ao telefone à espera que tocasse, a quebrar uma ansiedade solitária?
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Já fiquei, mas ele não tocou.
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O que é a velhice?
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Não é nada. Não a sinto a não ser nas limitações que o estado de doença me impõe. Com alguns cuidados evita-se.
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E o medo da morte?
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Curiosidade, como é que isto tudo vai desfechar.
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Não se detecta no poeta O’Neill qualquer misticismo, panteísmo, nem mácula de sentimento religioso. Porquê? É um ateu puro e duro?
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Não possuo qualquer sentimento religioso. Não sou ateu porque nem sequer me defino em relação a uma crença qualquer.
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Teve uma educação religiosa tradicional, católica, com missa e comunhões?
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Primeira comunhão, comunhão solene, baptismo, tudo. Não sou contra, acho que até fez bem. Não se tornou repressiva e aprendi a detestar a hipocrisia.
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Já esteve à beira de morrer. Apelou a quê ou a quem?
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Ao bom senso. Lembro-me que senti que o universo minguava, as preocupações do dia-a-dia desocupavam a cabeça e ficou só à espera… Mais um bocadinho de vida, ou então de morte.
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Acredita na imortalidade literária? E se não acredita, em que é que acredita?
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Não acredito. Acredito naquilo que escrevo.
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Isso confere-lhe algum sentimento de superioridade? Já se sentiu muito inteligente, ou até genial?
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Nenhuma superioridade, mas já me senti muito inteligente. Genial, nunca. Se posso fazer a classificação de mim mesmo então sou o grande poeta menor a que me referi há pouco.
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Já utilizou a sua facilidade verbal contra alguém, numa disputa? Ou para ferir alguém?
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Ao longo da vida, tenho-o feito e algumas vezes com arrependimento. Dizer uma graça pode significar crueldade para com os outros.
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Componente lírica, componente satírica, qual a mais forte?
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São ambas fortíssimas. Uma vez um padre jesuíta, o padre João Maia, escreveu que eu tinha um lirismo envergonhado.
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Leio-o há muitos anos. Agora, parece-me só um entrevistado envergonhado. É capaz de me dizer que se acha um bom, um grande poeta?
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Acho! Pois sou, sou um bom poeta.
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Pagou algum preço para chegar aqui?
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Incomunicação a nível do quotidiano.
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Tenho na minha frente um publicitário incomunicado e um satírico triste. Como é isto?
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A lei. Os que funcionam no reino do riso, do humor, são todos muito tristes. Não conheço nenhum humorista que seja alegre na vida de todos os dias, exactamente por ser humorista.
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Vai ao cinema?
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Rarissimamente. O cinema foi uma arte que se traiu, talvez por ter de ser também uma indústria. Traiu o que prometia com um Griffith, com tantos outros. O Spielberg, aquele dos Salteadores e do ET, apresenta um produto comercial muito bem vendido e muito imaginativo e não mais.
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E televisão, vê? Viu os debates políticos?
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Vi. Vejo televisão. Achei aqueles debates melancólicos.
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Fé política, alguma?
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Tenho uma fezada. Tendo para uma coisa que todos execram – esperemos que se diga execram – e que é o PS. Com todos os seus defeitos. Até fiz um slogan que andou por aí: ele não merece mas vota no PS.
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Diga outro slogan famoso cuja paternidade lhe pertença.
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Há mar e mar, há ir e voltar.
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Devia ter ganho uma fortuna com esse…
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Devia mas não ganhei. Estou a fazer diligências junto da Sociedade de Autores para ver se ao menos de 83 para cá, consigo alguns direitos. O slogan até já consta de um dicionário de provérbios portugueses. Mais uma prova de como eu sou desarrumado e nunca penso nas consequências, a não ser quando escrevo.
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A tradução da sua poesia em italiano como foi, acompanhou-a de perto?
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Apareci numa prestigiosa colecção da Einaudi, que tinha o Cavafy, o João Cabral de Melo Neto… mas a tradutora, a certa altura não suportou que eu interferisse e acabou por traduzir o dito está dito por il dito resta dito. Este dito não era o meu dito mas dedo, veja-se a confusão. Noutro ponto, onde eu dizia não deve a literatura ao absinto em quantidade mais que ao tinto, ela traduziu tinto por tinta de paredes. A do dedo era óptima, cada vez que eu ia a Itália, cumprimentavam-me com o dedo.
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Tem filhos?
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Um de 25 anos e um de 9, que é o meu neto.
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O mais velho gosta do seu trabalho poético?
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Lê e gosta. E gosta que eu lhe leia certas coisas. Outro dia queria à força que lhe lesse a Morte à Tarde do Hemingway.
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Foi você que lhe passou os livros para as mãos, na adolescência? O Hemingway, entre outros?
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Sim, passei-lhe o Cabral de Melo Neto, que ainda hoje o faz ficar espantado.
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Gosta de Hemingway, hoje?
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Conforme a fase. Tenho um poema em que digo género Hemingway, fase kitsch. O Velho e o Mar acho um horror. Mas tem coisas muito boas. A aventura, o cabotismo, são recuperados.
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Era capaz de dar um tiro na cabeça, como ele deu, quando chegasse que já não conseguia? O suicídio é uma vocação eminentemente poética, pensa o vulgo…
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Não vejo grande mal em uma pessoa poder contribuir para a sua morte decisivamente, quando nada resta a fazer. O Koestler e a mulher fizeram isso. Acho que era capaz, sim.
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Há na sua poesia disfarçadamente às vezes, outras não, uma preocupação da justiça social, com o verso a servir de factor corrector dessa situação. Os pobres incomodam-no, entristecem-no?
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Tenho má consciência. Dou sempre esmola. Pode ser o maior bêbado, dou sempre esmola para os copos dele, acho que tem direito aos seus próprios vícios e a alimentá-los.
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Estas perguntas parecem fait divers mas faço-as porque quando no romance de Kundera, de que agora todos falam e todos retiram citações e ilações, ele teoriza sobre o kitsch. Os portugueses acharam fabulosa essa teorização do kitsch mas, na sua poesia, você fez notáveis inventários do kitsch nacional. E tratou-os a preceito…
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Não me faça um especialista do kitsch. O kitsch começa por ser uma hipocrisia e acaba por ser um subproduto de uma sociedade que se apieda de si mesma, em demasia. Entre o que se deve sentir e o que se sente, às vezes há uma grande distância. E depois, o kitsch é a fancaria. Como eu escrevi, é ter o Guernica que liga com as cortinas… isso não!
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Nunca teve crises de autopiedade? Não as deixou penetrar na poesia?
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Então não tive?
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Humor negro: diga um epitáfio que gostasse para si mesmo. Não me diga que nunca fez nenhum, preparado para aquele momento bem português em que morre um artista e lhe caem em cima os vampiros da homenagens, dos amigos, dos depoimentos, das desculpabilizações, dos discursos e dos engrandecimentos. A gloriola – a palavra é sua –, em Portugal é muito póstuma.
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Não gostava nada que me caíssem em cima, nem que dissessem nada sobre mim. Epitáfio… eu até tinha um:
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Aqui jaz Alexandre O’Neill
Um Homem que dormiu
muito pouco
Bem merecia isto
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Fiz este epitáfio aos 30 anos.