8.10.08

Buchholz

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Depois de escrever o post anterior lembrei-me da Buchholz e da sua lenta agonia. Tenho imensa pena que não haja em Lisboa espaço para uma livraria com as suas características: uma livraria sóbria, clássica, sem animação, sem cor, sem cafetaria, sem acessórios, só livros. O atendimento nunca foi famoso, claro, mas era uma livraria com uma atmosfera muito especial e onde me sentia muito bem.
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Este é aliás um sentimento que tenho cada vez mais e nos mais diversos sítios: cafés, estações de metro, cinemas, lojas, restaurantes, esplanadas, supermercados e agora até táxis. Porque é que tudo tem que ter música alta, plasmas na parede, demasiada cor, demasiada animação, muita publicidade? E não me venham dizer que isto é tudo inevitável, que é o progresso e não há nada a fazer. Por que raio é que o progresso tem de vir sempre acompanhado desta tralha toda?
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Sobre a Buchholz tem-se escrito muito ultimamente na blogosfera. Destaco os posts de Francisco José Viegas e Eduardo Pitta.

7.10.08

FNAC

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"Depois de praticamente destruírem o mercado das pequenas e médias livrarias e de "esmifrarem" as margens comerciais dos editores, tornando-os FNAC-dependentes, têm agora caminho livre para fazerem o que querem"
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[Jaime Bulhosa, no blog da Pó dos Livros]
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"em França a FNAC tornou-se uma rede livreira com lógica de hipermercado; e, com a décalage do costume, é o que estamos a ter por cá também (alguém se lembra ainda, por exemplo, da secção de poesia da FNAC Chiado do início?)"
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[Osvaldo Manuel Silvestre, n'Os Livros Ardem Mal]
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"Desde a abertura da loja do Chiado (a que conheço melhor) que as pequenas mudanças foram acompanhando uma degradação paulatina daquilo que podia ser um espaço de livros agradável. A redução, lenta mas substancial, dos fundos e de algumas secções em particular (a banda desenhada é um bom exemplo, mas haverá outros), a rotatividade acelerada das novidades, muitas vezes associada à desaparição rápida dos livros que há um mês estavam em destaque, a oferta cada vez mais concentrada nas edições que se encontram em qualquer sítio (acabando com aquilo que poderia diferenciar a loja de outros grandes espaços comerciais livreiros) e a constante mudança de espaços, de que o ‘encafuamento’ da secção infantil no antigo corredor de leitura, com pouco espaço para leitores e menos ainda para carrinhos de bebé, é o exemplo mais recente, mas ao qual se poderia juntar o desaparecimento misterioso dos sofás de leitura que marcavam, no início, a identidade da loja, são exemplos dessa degradação."
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[Sara Figueiredo Costa, no Cadeirão Voltaire]
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Agora que a FNAC acabou com os seus decontos de 10% e algumas das suas características mais marcantes estão a desaparecer gradualmente, talvez seja altura de prestar alguma atenção às pequenas e médias livrarias de grande qualidade que vão resistindo:

A própria Byblos, que foi para mim uma relativa desilusão, tem melhorado muito e em certas áreas penso que já ultrapassou a Fnac.

MEC de regresso

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Miguel Esteves Cardoso está de regresso às livrarias, agora com Em Portugal Não Se Come Mal, como sempre pela Assírio & Alvim.
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Para abrir o apetite, podemos ler aqui as primeiras páginas e ouvir aqui um excerto da entrevista que deu ontem a Carlos Vaz Marques.

6.10.08

Dinis Machado: entrevistas

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Podemos aceder a duas entrevistas (a primeira para ouvir e a segunda para ler) que Dinis Machado deu por altura das comemorações dos 30 anos d'O Que Diz Molero, que estão disponíveis na internet: uma a Carlos Vaz Marques para a TSF (20/03/2007) e outra a Adelino Gomes para o Público (21/03/2007).

5.10.08

"O Que Diz Molero" por Luiz Pacheco

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Já o tinha feito há uns tempos mas volto a deixar aqui o texto que Luiz Pacheco escreveu em 1977 sobre O Que Diz Molero e que acabou por contribuir consideravelmente para o seu sucesso. Pode ser lido aqui um excerto da entrevista que Pacheco deu a João Pedro George em 2005 em que é referido este livro e o seu sucesso.
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DESCOBRI UM AUTOR
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Um livro-bomba. Uma obra referenciada para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum, o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).
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Podiam ser frases publicitárias. Quem ler «O QUE DIZ MOLERO», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará que não: é que é mesmo assim, como eu digo.
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Fiquei banzado. Para já, para já, não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado, se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.
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Trouxe da minha experiência de editor o arrepio que é deparar-se-nos, de um autor desconhecido, de quem nada sabíamos ou lêramos, obra original, íssima, íssima, e autêntica (que agora aqui invejo é a Bertrand). Isto me dá, como leitor ou crítico (e o crítico que será senão um leitor especial, obrigado a botar sua opinião em público?) ou, até, escriba, uma real disponibilidade de captação de entusiasmo sincero e barulhento (começo a ferver, a explodir alegria) perante o novo (cf. o frisson nouveau causado pelo Baudelaire). Meus colegas de escrita, muitos e entre eles os mais celebrados da Hora, os vejo, os percebo, mordendo-se pelas costas, disputando-se editores e clientela, numa ciumeira pegada. Nunca me deu prá-i. Quando embirro com um escritor é porque ele escreve mal e me fez perder tempo, e havia tanta obra-prima que não li e já não vou ler. Chatos duma figa!
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«O QUE DIZ MOLERO»: à abertura, comecei a ficar muito arreliado. «Mas que raio é isto?! Uma conversa entre um tal Austin e um Mister DeLuxe e logo a seguir uns burriés colados à parede para secar… mau, mau. Temos estopada.» Mas segui viagem, página a página. E comecei a ficar contagiado, envolvido. Daí em diante, uma cavalgada furiosa de episódios, uma feira, um tropel de gente, uma festa popular de malucos e malucas, tudo chalado, uma alegria enorme quase insensata o sintimento nos momentos doloridos (ex.: a morte e o funeral de César), mas tudo tão perto de nós e tão naturalmente reproduzido na escrita.
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Não tenho a mínima pretensão de sequer revelar, no pouco espaço que me é concedido, uma breve ideia do que seja «O QUE DIZ MOLERO». É este excessivo para se reduzir. Deturpava, por certo. Assim, e muito esquematicamente, irei limitar-me ao que me parece ali mais relevante.
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A cena de pancadaria entre o Ângelo, «danado para a porrada», e os camones (e já antes com os ciganos) que provocavam girls naquele bairro pobre e a ressaca do festival de mocada que o Ângelo lhes proporcionou é, pelo movimento, pelo achado dos detalhes, pela embalagem descabelada mas a rigor, um morceau de bravoure, que ficará (para mim não restam dúvidas) como das coisas mais bem conseguidas da nossa literatura. É humor, é violência álacre, é cinema escrito, recorda-me, superando-o, uma cena de um romance de Beckett («Murphy»? «Molloy»? Tive os livros, tive de os vender (comer), não consigo localizar a cena. É uma zaragata entre bêbados, jogando a pontapés um saco de cinzas de um amigo morto. O leitor que ajude. Diga para cá onde é) – não estou a exagerar.
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Também na parte imaginária do livro há umas páginas (162-166) um pouco forçadas ou esforçadas no tom (mas não será propositado?), pois já li daquilo não sei onde (ou saberei?), o texto que o rapaz entrega, no Tibete, ao dono da loja de ferragens, por sinal dono do único cão azul conhecido na região, é agora em lírico, dos mais belos do volume. Não esqueço, claro, os poemas que nele se entroncam e o trecho (págs. 65-66) aliciante de imagens e de contenção comovente, outro ponto alto do relatório de Molero.
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Uma teoria que me ocorreu, e não posso aqui desenvolver, é se Dinis Machado não usou, entre outras, uma finta: dos quatro protagonistas, o rapaz que apenas conhecemos pelo que diz Molero, e já interpretado por este nas suas divagações e comentários; o rapaz, de que nem o nome ficamos a saber e se some, desaparece no ar como o Mandrake, voilá Molero, que é por sua vez explicado, traduzido, por Austin que transmite a Mister DeLuxe, o qual, hierarquicamente superior e filosofante, extrai sempre uma conclusão teórica, uma síntese ideológica, desse contraponto surgiu-me a suspeita de que a osmose dos quatro era mais perfeita daquilo que se nos apresenta. Que eram um em quatro, e os quatro quase heterónimos do Autor, cúpula mal escondida nos bastidores da intriga («tudo o que criamos é apenas o que somos», está lá escarrapachado).
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Um breve senão: a meu entender, o A. Fornece em demasia pistas escusadas. As referências a Pessoa, Pessanha, Breton, Beckett, etc., se podem ser muito do agrado de literatos enfadam o leitor medianamente informado. Eu já tinha detectado aquele quarteto, e mais: um que Dinis Machado não cita, parece-me, e muito injustamente: o Almada do «Nome de Guerra» e ainda mais o Almada da «Engomadeira», que – baba-te, Dinis Machado! – é texto que «O QUE DIZ MOLERO» por assim dizer continua, saltando por cima de meio século de literatura parva, imitada, gaga prosa que se retrogradou ao Júlio Diniz e parece filha de «O Feliz Independente»… Também o Cesariny de «Corpo Visível» ou do «Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos» por ali corre.
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Outro: as mui discretas, quase sumidas no contexto, alusões à situação política nacional, num momento particularmente crítico (a acção decorre durante a Segunda Guerra Mundial e seu termo). O herói positivo seria apenas o Bigodes Piaçaba, «que era contra o Governo». Tão-pouco se acredite, apesar da discrição, na indiferença ou inocência da obra; pois num comentário de Mister DeLuxe se pode ler esta carapuça, a enfiar sem disfarces nos nossos políticos pluralistas (e outros, mais à direita): «é óbvio que a autoridade dos líderes assenta quase sempre sobre autênticas puerilidades.» Valeu!
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Repito e finalizo: um livro-bomba, uma obra d’arromba.

3.10.08

Dinis Machado (1930-2008)

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O grande escritor Dinis Machado morreu hoje, aos 78 anos. Ficará para sempre conhecido pelo genial O Que Diz Molero (1977), mas escreveu outras importantes obras: Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez (1984), Reduto Quase Final (1989), Gráfico de Vendas com Orquídea (1999) e , sob o pseudónimo de Dennis McShade, Mão Direita do Diabo (1967), Requiem para Dom Quixote (1967) e Mulher e Arma com Guitarra Espanhola (1968). Sairá ainda este ano um livro policial inédito chamado Blackpot.
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Em jeito de homenagem deixo aqui um delicioso excerto de O Que Diz Molero:
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“Chegou uma esquadra”, disse Austin, “e aqueles a quem chamavam os camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro”. “essas excursões a bairros desconhecidos desvendam mundos novos”, interrompeu Mister DeLuxe. “fiz duas ou três desse género e tirei excelentes fotografias”.Austin sorriu. “bem”, disse ele, “os camones continuaram a subir a rua, pararam junto ao Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, com os camones, estoicos a irem e a virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também não se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça das couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor de rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas , isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino , deu duas voltas lá dentro fazendo parar máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca, levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o metro e meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados, e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raúl Pechisbeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bébé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guarda, ó da guarda, muitíssimo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o Fox Terrier do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex- Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a mascarilha”. Houve uma pausa. ”o rapaz assistiu a tudo isto dentro da mercearia do João Azeiteiro, atrás de um saco de feijão, atónito perante aquilo que Molero denomina o maior fogo de artifício de que há memória em matéria de pancadaria, a balbúrdia plena, o filme de trinta e uma partes em carne viva, o real que se sobrepõe ao mítico, sonhar é pouco, é entra rapaziada, é entrar, eis a maior zaragata de todos os tempos, resolvida numa só sessão e sem ser preciso comprar bilhete, sem cenários de cartão, sem trucagens, sem intervalo segue imediatamente, cabeças, pernas e braços indiscutivelmente partidos, a cara do Pé de Cabra tapada pelo sangue que lhe escorria da cabeça, o Lucas Pireza transportado para o hospital na carripana do Bigodes Piaçaba, os intestinos enfiados outra vez na barriga um pouco à pressa, os camones espalhados pela rua, as mulheres a trazerem bacias de água e toalhas para limpar os feridos, as acusações mútuas, ó camone porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets ? ...não foram os camones, foi o Ângelo, o Ângelo é que começou logo a enfardar, isto foi coisa dos Vai ou Racha, os Vai ou Racha e os camones juntos são a lepra e a diarreia, as lágrimas e os gemidos, Vovô Resmungas de bengala no ar a despontar à esquina ao colo do Roque Sacristão,a Mafalda capoeira a correr atrás das galinhas, o Zeca Trampa a procurar lulas e carapaus nas couves do Hipólito, o Metro e Meio a vomitar coisas de cores esquisitas, esverdeadas e lilases, o Celestino a dizer ao Peito Rente mas tu não podias foder o material a outro?, o Tonecas Arenas a pedir para o ajudarem a sair do andaime, o Joca Farpelas de casaco na mão a chamar de filho da puta para cima a toda a gente, o Gil Penteadinho à procura do dente de oiro, se virem um dente de oiro é meu, o Pimentel à porta da barbearia com meia barba por fazer e o guardanapo ao pescoço, a Gertrudes com o bebé ao colo, alternando, num tom de voz claramente diferenciado, o ó papão vai-te embora, deixa dormir o menino, com o cambada de malandros, cambada de malandros, o Raul Pechisbeque a recolher, de nariz no chão e no boné de um dos camones, pedrinhas coloridas, colares, broches e anéis, o Silva Farmacêutico a tentar tirar da boca do fox-terrier os fundilhos das calças do camone, os Moscatéis a perguntarem ao Marocas se a carvoaria era uma pista de corridas, o Marocas a coxear e a dizer foda-se, foda-se, não mexam na mota, não mexam na mota, o Tó Peneiras rua abaixo em grande velocidade agarrado à trela do Alsácia que perseguia um dos gatos da Dona Maria Bicharoco, o Ventura dos móveis a explicar a um camone que a bed estava partida, o camone a contar com os dedos os galos que tinha na cabeça, o Zeferino Torrão de Alicante a dizer que desta vez ainda tinha sido melhor do que com os ciganos, o Chinês a dizer que sim com a cabeça, o carro da policia achegar, o Joaquim Navalhinhas a perguntar mas o que é que a policia vem fazer agora?, vem contar os mortos?, o Ângelo a por os óculos e a desaparecer, o Zuca havia de dizer mais tarde, que ele desaparecera no ar como o Mandrake, a Dona Ermelinda a devolver o sombrero do Tonecas Arenas pela janela por onde tinha entrado, o sombrero a descrever uma curva larga, planando e caindo suavemente aos pés do Dick Tracy, que era o policia à paisana lá da área, e o Dick Tracy, segundo Molero, conta quem sabe, de sombrero na mão, a perguntar a toda a gente e a ninguém: o que é que se passou?, o que é que se passou?, o que é que se passou?..."

Forte de Peniche

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Depois da antiga sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, agora o Forte de Peniche. A passos largos a memória da repressão do Estado Novo vai desaparecendo. Na António Maria Cardoso está a ser construído um condomínio de luxo, no Forte de Peniche está agora prevista uma pousada do Grupo Pestana.
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Porque a memória desses anos deve ser preservada (e recorde-se que não há ainda nenhum grade museu sobre este período da nossa história) há que procurar impedir esta situação insultuosa para todos os que sofreram directa ou indirectamente com a repressão do regime salazarista, muito especialmente todos aqueles que estiveram presos em Peniche.
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Vale a pena ler o que Irene Pimentel (aqui e aqui) e Rui Bebiano escreveram sobre este assunto.

2.10.08

José Cardoso Pires no 10º aniversário da sua morte

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Faz este mês 10 anos que morreu José Cardoso Pires, um dos maiores nomes de sempre da literatura portuguesa, autor de livros tão marcantes como O Delfim ou Alexandra Alpha.
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Numa excelente iniciativa, a Câmara Municipal de Lisboa preparou um conjunto de actividades a decorrer durante este mês, de forma a recordar o escritor, incluindo exposições, conferências, visitas guiadas e exibição de filmes baseados nas suas obras. A programação completa pode ser consultada aqui.
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Para hoje, a partir das 18h, foi programada a sessão Os Amigos Recordam a sua Obra, na Casa Fernando Pessoa, com a presença de António Lobo Antunes e Júlio Pomar.

30.9.08

Gatos Comunicantes: o lançamento

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Gatos Comunicantes — Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny 1952 - 1985, que chegou recentemente às livrarias pela Assírio & Alvim, vai ter o seu lançamento formal amanhã às 18h30m no auditório da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva.
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A apresentação será feita por Perfecto E. Cuadrado e Helena Barbas e algumas cartas serão lidas por João Grosso e Teresa Lima.
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Entretanto é possível ver algumas cartas aqui.

29.9.08

Cinemateca: 50 anos

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A Cinemateca Portuguesa comemora hoje 50 anos. Está de parabéns.

22.9.08

Os Três Seios de Novélia

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Foi agora reeditado, pela Dom Quixote, Os Três Seios de Novélia, livro de estreia de Manuel da Silva Ramos.
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Em 1968, com apenas 20 anos, Manuel da Silva Ramos ganhou o Prémio de Novelística Almeida Garrett (tendo como júri Óscar Lopes, Mário Sacramento e Eduardo Prado Coelho) com a novela Os Três Seios de Novélia. A esta o autor juntou os contos Um Longo Nascimento e A Respiração para a publicação do livro. Esta edição inclui também um prefácio de Óscar Lopes (escrito para a primeira edição) e um posfácio actual do autor.
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Estamos perante três textos admiráveis, com fortes traços surrealistas, que vale a pena conhecer.
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Sobre Novélia Óscar Lopes refere-se ao “romance de um jovem à descoberta do seu mundo lisboeta de 1968 – uma espécie de contrapartida a A Engomadeira de Almada Negreiros, meio século depois. Mas tal como com Almada, a arrumação cronológica, topográfica, e imediatamente verosímil do ambiente surge desfeita sob o fogo de uma fantasia sem tréguas, que, ao nível da narrativa como ao da simples cadeia verbal, nos empurra constantemente para a aventura do insólito, no contra-senso, no avesso ou na extremidade hiperbólica de tudo o que é vulgar. Ora este breve romance feito dos forros e dos extremos do quotidiano é, ao mesmo tempo, um poema de amor – do amor que ainda não o é, do amor masculino à procura da sua imagem de mulher.”
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Em crítica recente (Ípsilon, 12/09/2008) Pedro Mexia escreve que “Novélia segue três ou quatro coordenadas fundamentais que de algum modo iluminam toda a escrita de Silva Ramos: o tumulto dos 20 anos e o tumulto do ano de 1968; um estilo sarcástico e lírico, tributário dos surrealistas; e uma experimentação formal sem programa. As três narrativas que compõem Novélia constituem uma estreia a todos os títulos notável.”
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Talvez por ter estado fora de Portugal quase 30 anos, Manuel da Silva Ramos tem sido injustamente esquecido pela crítica e pelo público. Esperemos que a reedição do seu livro mais emblemático (embora ainda fosse possível encontrar a anterior edição, da Fenda) ajude a inverter essa situação.

13.9.08

A recuperação cyborg

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“a partir dos anos 60 assistiu-se a uma progressiva demolição e substituição, de uma forma insensível para o contexto histórico e patrimonial e muitas vezes medíocre, do tecido arquitectónico que caracterizava a Lisboa romântica dos finais do séc. XIX e dos inícios do séc. XX.
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Nos anos 70 inventou-se uma forma de intervenção arquitectónica única para Portugal, a que decidi chamar “recuperação cyborg”, por constituir o conceito mais híbrido e inconcebível para uma intervenção num edifício histórico, que constitui um organismo em unidade indivisível.
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Um bom exemplo deste tipo de intervenção constitui o edifício Heron Castilho da Rua Castilho, no gaveto em frente do projecto de Conceição e Silva. A essência deste tipo de intervenção resume-se a manter intacta uma fachada, agora transformada numa “pele” descontextualizada do seu corpo original, tal como numa operação plástica de cosmética, para depois, tal como num cyborg, e após a destruição total do seu organismo interno, lhe inserir uma estrutura high-tech com aumento considerável de pisos, como um implante alienante mas “justificado” pelo alinhamento de cérceas com um dos lados da envolvente.
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No presente, praticamente todos os projectos de recuperação apresentados para as Avenidas propõe a demolição integral dos interiores e, de forma mais ou menos moderada, uma intervenção dentro desta filosofia cyborg.”
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“A situação ilustra um drama sempre presente em Portugal: a ausência de arquitectos formados e dedicados exclusivamente à conservação e ao restauro; e a inexistência de historiadores de Arquitectura com formação académica em História de Arte, e portanto ligados ao tratamento da História da Arquitectura numa perspectiva civilizacional, na tradição das humanidades e das letras.”
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[Sérgio Rosa de Carvalho, artigo no Público de 9/9/2008]

12.9.08

O regresso de Herberto

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É sem dúvida a grande novidade da rentrée (ou do ano?): vai sair brevemente na Assírio & Alvim um novo livro de Hererto Hélder. Chama-se A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita e incluirá poemas inéditos, o que não acontecia há muito tempo.

11.9.08

Gatos Comunicantes

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A Assírio & Alvim vai lançar já na próxima semana Gatos Comunicantes, volume que reúne em 200 páginas correspondência trocada entre Mário Cesariny e Vieira da Silva de 1952 a 1985. Aguardo-o com imensa expectativa (desde já o título é genial). O texto de apresentação é de José Manuel dos Santos e no site da editora é-nos facultado um pequeno excerto:
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«Página a página, linha a linha, palavra a palavra, este livro ergue as figuras reais de Maria Helena Vieira da Silva e de Mário Cesariny de Vasconcelos. Ergue-as, assim cada um foi inventando o outro, num frente a frente perpétuo, sem intervalo ou traição. Este diálogo de vozes e de silêncios-entre-as-vozes, de palavras e de sem-palavras-entre-as-palavras, levanta estas figuras sobre (e contra) um chão de pequenez, hostilidade e escuridão, dando-as como elas são. E como elas se olharam, se representaram, se admiraram, se amaram uma à outra: únicas, grandiosas e magnificadas. Ao fundo, aparece Arpad, com uma elegância longa, a saudá-los, a saudar-nos, na sua doçura inquieta, na paciência e sabedoria do seu estar. Um pouco atrás, ouve-se, vê-se Guy Weelen a anotar, a preparar, a cuidar, a tramitar, a transmitir. Este livro prova que “os encontros são proporcionais aos destinos” e que o amor pode ser um relâmpago contínuo, livre, invencível.»
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Entretanto a exposição Correspondências — Vieira da Silva por Mário Cesariny, na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva irá prolongar-se por mais alguns dias, até 9 de Novembro.