3.11.08

Entrevista com André Jorge nos 20 anos da Cotovia

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A Cotovia, uma das melhores editoras portuguesas, está a comemorar os seus 20 anos e está de parabéns. Na semana passada (29-10-2008) saiu no Público esta entrevista a André Jorge, feita por Alexandra Lucas Coelho:
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“SOU FEITO DO AVESSO”
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A Cotovia faz anos. É uma pequena editora. Publicou 700 livros. Com muitos perdeu dinheiro. Com uns pagou outros. Perde tempo com todos, de Homero a guias de vinhos. O homem por trás dos livros preferia não ser visto.
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Há 20 anos, dois irmãos juntaram-se para editar livros. Pouco tempo depois zangaram-se, até hoje, mas a editora continuou. Agora, ao longo de Novembro a Cotovia vai comemorar com livros novos, cursos, palestras e leituras. Num volume que reúne textos de autores e colaboradores, Luís Miguel Cintra lembra que o nome mãe não é Editora Cotovia, mas Livros Cotovia, e “não será por acaso”.
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A Cotovia é a casa da Odisseia ou da Ilíada, mas também de dezenas de poetas, ficcionistas, ensaístas e dramaturgos contemporâneos, portugueses e traduzidos.
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Quando começou, era um tempo em que as livrarias ficavam com 30 por cento do preço dos livros. Agora as cadeias ficam com mais de 40.
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Volta e meia, André Fernandes Jorge, 63 anos, paga para editar.
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Esta é a segunda-entrevista-e-meia que dá na vida, e quanto a fotografias, o que ele gostava era que só aparecesse a gata Maravilhas. Porque a Cotovia é uma casa lisboeta com gata, chá e, conta quem lá trabalhou, pão-de-ló.
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Como é que a Cotovia começou?
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Resultou de conversas entre mim e o meu irmão [o poeta João Miguel Fernandes Jorge, JMFJ].
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Queriam fazer a mesma coisa?
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Queríamos, mas sempre tivemos alguma conflitualidade, que resulta de sermos irmãos, e os únicos irmãos. Talvez sejamos demasiado parecidos para nos podermos dar bem por tempos prolongados. E estou já a dizer isto porque dois anos depois nos zangámos, e uma zanga que perdura. Hoje somos homens com mais de 60 anos, civilizadamente conversamos quando é preciso, mas só por razões especiais. Isso eu lamento, mas a partir de certa altura as coisas são irreversíveis.
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O que fazia antes da Cotovia?
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Nada em particular. Tinha vindo da Guiné, onde estive como cooperante para a cooperação holandesa, dois anos e tal. E voltei a colaborar, como antes, nos negócios do meu pai. Ele tinha uma farmácia, onde praticamente eu não tocava, e depois uma série de actividades na vila, o Bombarral, estabelecimentos e alguma agricultura – coisa que nos passou sempre ao lado [a André e a JMFJ]. O fundamental nessa primeira fase da Cotovia foi a revista As Escadas Não Têm Degraus. O resto foi um pouco a medo.
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Revista que era feita pelo seu irmão, por Joaquim Manuel Magalhães e por António M. Feijó. Mas a editora era sua e do seu irmão?
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Exactamente. O Joaquim fazia parte, como faz parte da família. As Escadas… foram sempre feitas pelo meu irmão e pelo Joaquim. O António colaborou, mas a coordenação foi deles. Sendo que obviamente eu estava de acordo com as escolhas [dos autores e textos]. Não foi por isso que nos zangámos. Também não vou dizer porque foi. Já nem eu sei.
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Quais eram os seus autores? O que é que lhe interessava mais, poesia, ficção?
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Poesia, sobretudo. Na juventude, como muitos outros, fui muito sectário. Houve uma fase em que achei que só os surrealistas eram bons. Houve um período em que teve influência a vivência política, mas na literatura não tanto. Nunca vivi bem com o neo-realismo português. Os poucos que achava bons era porque tinham lido Camilo.
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Mas não está a pôr o Carlos de Oliveira nos neo-realistas.
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Nunca pus. Os mais neo-realistas eram mais ou menos medíocres, e os outros partiam dali para coisas boas. Mas quem me pôs a ler prosa, porque eu sou um bocado preguiçoso, foi de facto o Camilo, que me acompanhou, numa série de volumes, quando fui fazer o serviço militar para Angola. Levei uma biblioteca só Camilo. Leio-o de trás para a frente, é um autor que me dá sempre gozo ler, e se estiver extremamente cansado, sob pressão, que era o caso, não conseguia ler outras coisas. E, logo a seguir, um autor que foi sempre maltratado em Portugal, e que eu adoro, o Georges Simenon, sempre mal editado, com péssimas traduções.
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É muito mais francófono?
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Completamente, tive sempre um problema com o inglês.
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A ideia de várias colecções na Cotovia existiu desde o princípio?
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Sempre. Ficção, ensaio, poesia traduzida. Nos primeiros anos não havia poetas portugueses porque o meu irmão e o Joaquim eram dois poetas, publicavam noutro lado, não queriam publicar aqui e não queriam fazer escolhas.
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O André queria?
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A partir de certa altura achei que se devia começar. Mas é muito difícil e arriscado. Aparecem propostas de coisas muito frágeis, de imitação. Vi aqui muitos originais influenciados, sobretudo pelo Eugénio de Andrade. Creio que há alguns que querem ser influenciados pelo Herberto, mas dá asneira, é mais difícil de imitar. O Eugénio é um autor de que gostei muito nos primeiros livros e depois deixei de gostar. Mas influenciou tanta gente, mesmo na prosa.
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Qual foi o primeiro livro da Cotovia?
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Não saiu um só, mas o primeiro terá sido uma tradução da Christiane Rochefort, que saiu com tantas gralhas que não saiu. Foram 2000 livros guilhotinados. Lembro-me de os ter recebido, ia partir de fim-de-semana, e sentei-me na mesa de cozinha a ver. A dada altura fui buscar uma caneta e comecei a marcar. Quando cheguei ao fim do livro tinha centenas de gralhas. Felizmente nunca mais aconteceu. Perdemos muito tempo com os livros antes deles saírem, estamos sempre atrasados.
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Quando se dá a separação? Em 1991?
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Tenho ideia que sim.
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Pensaram acabar com a editora?
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Esse era o ponto de vista do meu irmão, que é muito mais de rupturas, qualquer coisa é para apagar, para riscar. E do Joaquim. Ele não fazia parte da editora, mas era uma presença desejada. Para além de haver amizade, havia admiração e respeito pelo poeta e intelectual. O resto é a zanga. Foi aí que o Joaquim não quis que a revista continuasse, e que não saísse um livro dele [de poemas, que estava em provas]. Continuei sozinho. Eu tinha vontade. Também me tinha entregue completamente a este trabalho.
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Descobriu que era a sua coisa.
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Era, se calhar não podia voltar a trás, já tinham passado 40 anos. Tenho 63 hoje.
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Perdeu autores?
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Não.
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Os autores africanos foram coisa sua?
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Foram. Comecei por publicar um autor que já não publico, o Manuel Rui.
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Por motivos políticos [acusações de envolvimento no 27 de Maio de 1977 em Angola, quando retaliações do MPLA levaram a milhares de mortos]?
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Não! Nunca segregaria um autor por motivos políticos. Por motivos pessoais.
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Não tem a ver com o 27 de Maio?
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Não, absolutamente, e tenho dúvidas quanto a acusações que lhe são feitas. São questões pessoais. Aquela ideia do porreirismo lusófono acho que só prejudica.
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No livro comemorativo da Cotovia, Não Será Por Acaso, várias pessoas dizem que só publica o que gosta e lê tudo o que publica. É assim?
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Quase. Originalmente não leio em inglês nem em alemão. Leio através do francês, raras vezes através do castelhano. Mas portugueses, brasileiros sempre. No inglês tenho uma ajuda excepcional, porque a Cotovia tem outra editora, a Fernanda Barros. Algumas áreas que desconheço, como os autores da colecção Raposa, aquele romance tradicional inglês, a colecção Outono-Inverno [sobre a velhice] são escolhas da Fernanda. O que não decidimos aqui perguntamos a amigos.
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Recebe muitos originais?
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Sim, é uma depressão. São dezenas por mês. Há meses em que chegam diariamente.
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Sobretudo poesia?
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Já não. Mas talvez ainda seja maioritária. O resto é ficção. Na poesia continua a ser o adolescente. Na prosa, apareciam muito as recordações da guerra colonial, e donas de casa que, criados os filhos, escrevem as suas memórias. Hoje são predominantes os jovens em que se cria a ilusão de que têm um lugar na literatura, que nos cursos de literatura aprendem algumas técnicas.
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Publicou autores chegados pelo correio e que ninguém lhe tivesse recomendado?
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Sim. Mas muito raro. Um foi o José Pinto Carneiro [autor de O Estranho Caso da Boazona que Me Entrou Pelo Escritório Adentro], que depois não publicámos mais.
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Não correspondeu às suas expectativas.
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De maneira nenhuma. Esgotou rapidamente. A Teresa Veiga não veio pelo correio, mas veio pessoalmente e desapareceu. Não a conhecia de parte nenhuma.
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Mas é complicado dizer que não.
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É muito difícil e geralmente digo da pior maneira. Ando tanto tempo para dizer não que as pessoas têm uma justificação para estar zangadas, se era para dizer não podia ter dito logo. É por isso que eu digo que é uma depressão, fico mesmo angustiado com a carrada de originais.
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Já lhe aconteceu enganar-se? Recusar e perder um autor interessante?
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O caso a que não prestei devida atenção, por estar num período complicado da vida, foi o do José Eduardo Agualusa.
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O que teve dele que não publicou?
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A Estação das Chuvas.
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Quem gostava de editar?
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Alguém que certamente não me queria como editor, o Lobo Antunes, gosto bastante.
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Porque é que ele não havia de o querer?
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Não sei, ou nem eu o queria. Com aquele feitio dava asneira. Gosto muito da escrita dele, como gosto do Mário de Carvalho. Há um autor a que não dei a atenção devida, e de quem tive originais, é verdade.
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O Gonçalo M. Tavares?
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É verdade. Estiveram aqui O Livro da Dança, Um Homem Ou é Tonto Ou é Mulher e um terceiro. Eram registos completamente diferentes e eu estupidamente irritei-me com aquilo. Pareceu-me que havia presunção. E esta decisão foi influenciada. Houve uma pessoa por quem tenho estima que me fez chegar os originais, pessoa essa que tinha um cargo com relativo poder. Isso para mim é mortal. É que não consigo descolar.
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É muito avesso ao poder, não é?
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Sou feito do avesso.
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O braço-de-ferro que fez com a Bertrand… [em que para não cederem a margens altas de lucro para o livreiro, os Livros Cotovia deixaram de vender em todas as Bertrand].
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É uma teima.
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Uma editora como a Cotovia tem muito a perder em não estar numa cadeia com livrarias em cada capital de distrito.
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São 50 e tal.
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É preciso coragem. Como é que pode fazer isso?
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Não sei se é coragem ou teimosia. Custou-me caro, evidentemente.
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Isso significa o quê?
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Nos últimos tempos acabámos com a distribuição própria. E a razão principal é que não consigo dialogar com pessoas arrogantes e agressivas. Custa-me tanto pôr uma gravata como aturar um idiota que do alto da sua função tenta esmagar – “Este vem aqui porque precisa de vender, então vou impor as regras.”
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Isso é um retrato do mercado editorial hoje?
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Pelo menos daquele que mais me cega. Incomoda-me muito. E também o discurso da cultura dos agentes do livro. Acho péssimo invocar o nosso trabalho como cultural. Isso é usado sobretudo quando querem favores do Estado. Tanto somos agentes culturais como económicos.
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A poesia continua a vender como sempre vendeu?
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A poesia, algum teatro, são estáveis. 500/600 exemplares. Vendem-se durante anos, não esgotam
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Alguma vez reimprimiu um livro de poesia portuguesa?
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Não
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O mercado mudou muito em 20 anos. O caminho é este, editoras pequenas, que fazem o que gostam, para leitores estáveis?
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Esse caminho vai continuar. Há uma vulgarização da leitura e dos livros. Edita-se e vende-se mais, mas não estou a falar de literatura. Não concordo que estejam a fazer leitores. Estão a fazer aqueles leitores, ficam feitos, não têm nada a ver connosco. O que esperamos é que algumas livrarias possam sobreviver e especializar-se. Quando houver umas quantas com uma determinada orientação, como nós temos… Que uma Pó dos Livros [em Lisboa] sobreviva. Que Braga mantenha a Centésima Página, que Leiria tenha uma Arquivo…
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Tem funcionado bem a BI [colecção de bolso para a qual se juntaram a Cotovia, Assírio & Alvim e Relógio D’Água]?
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Razoavelmente. Foi muito bem recebida. Tivemos um stand na feira do livro de Lisboa – a pior feira de sempre – e correu bem. Com cerca de 40 livros editados, tudo com preços baixos, mesmo em vendas vendeu tanto como um stand normal das nossas editoras. Até ao fim deste mês teremos 60 livros.
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Isso é possível por serem amigos?
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Não. Não somos amigos. Sou amigo do Manuel [Rosa, editor da Assírio] há muitos anos, mas não é nada fácil. Todos temos feito um bom esforço. Somos individualistas. Eu e o Francisco [Vale] não tínhamos sequer relações. Cortei, desde o momento em que ele recebeu o meu irmão e o Joaquim como editor. Mas não ficaram reservas e o Francisco é de todos nós o mais lúcido, se calhar, o mais arguto. O Manuel tem a habitual dedicação, trabalhando como um louco, responsável por todas as capas e grafismo, e não dá a terceiros. Executa, mesmo que seja às três da manhã. Agora, não é por sermos amigos que nos juntámos. Percebemos que é preciso fazer alguma coisa para não perder de todo a visibilidade.
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Perde dinheiro com muitos livros?
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Sim, uns pagam os outros. À partida tenho a esperança de pagar os custos, mas nem sempre acontece.
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Como é que uma editora como a Cotovia consegue contornar isso?
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Trabalhamos muito por pouco dinheiro. Primeiro, pagamos mal aos colaboradores e recebemos mal. E tenho recorrido a dinheiro pessoal para suprir certas situações, desde sempre. Não é todos os anos, mas este ano foi um desses. Mas há anos que compensam. Não se pode é estar nesta actividade sem capital. É preciso de vez em quando insuflar.

31.10.08

Lisboa é das pessoas, mais contentores não!

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Porque se está a preparar para a zona ribeirinha de Lisboa, em Alcântara, a construção de 1,5 quilómetros de uma muralha de contentores com 12 a 15 metros de altura, está a decorrer esta petição, que conta já com mais de 9000 assinaturas.
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O principal dinamizador e primeiro subscritor da petição foi Miguel Sousa Tavares, no seguimento do artigo que escreveu para o Expresso.

30.10.08

Ainda se pode ser francófilo?

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É a pergunta a colocar na edição de hoje dos Livros em Desassossego, a propósito da recente atribuição do Nobel da literatura a um escritor francês.
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É às 21.30 na Casa Fernando Pessoa e contará com a presença de Eugénio Lisboa, Francisco Belard, José Mário Silva, Maria do Rosário Pedreira e Fernando Cabral Martins. A moderação é de Carlos Vaz Marques e a entrada é livre.

28.10.08

Saloiices

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"tenho dificuldade em expressar a dimensão da minha fúria face à saloiice e à idiotia da ideia de fazer da mais nobre artéria do centro de lisboa uma pista de corridas. mas esta ideia é mais do que saloia e idiota: diz o que pensa do centro da cidade quem a autorizou e promoveu. é gente que pensa que o que o centro precisa é desta 'animação': gente de fora na rua aos magotes para ver carros, barulho e farturas. uma espécie de playground de fim de semana para a malta dos arrabaldes"
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[Fernanda Câncio, no Jugular]
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Acrescente-se que isto nem se tratou de uma competição, mas uma mera acção publicitária por parte de uma marca de automóveis. Achei piada a um responsável da marca que, entrevistado para uma televisão, disse, orgulhoso, que dos vários sítios por onde este evento passou este era o melhor por ser o mais bonito e numa zona nobre e central da cidade. Não duvido, que cidade civilizada permitiria barbaridades destas nas suas zonas mais bonitas e centrais?

21.10.08

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"Seríamos incapazes de 'pôr no mercado' uma capa florida que se assemelhasse a um toalhete de bidé somente para atrair um público de hipermercearia."
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[Paulo da Costa Domingos, editor da Frenesi, em entrevista para a Periférica nº1, Primavera de 2002]

20.10.08

Trópico de Câncer

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Foi agora reeditado pela Presença o mítico Trópico de Câncer, primeiro livro de Henry Miller. A anterior edição portuguesa, da Livros do Brasil com tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, estava há muito esgotada (a última hipótese de o adquirir foi quando saiu há 4 ou 5 anos na colecção Mil Folhas, do Público).
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Trópico de Câncer, na minha opinião o melhor livro de Miller, é um retrato profundamente autobiográfico dos tempos loucos que o escritor norte-americano viveu na Paris dos anos 30. Acaba por ser uma espécie de precursor da beat-generation, quer pelas experiências e estilo de vida descritos, quer pela própria escrita do autor, numa torrente algo anárquica, que haveria de ser anos depois característica marcante de autores como Kerouac.
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Dado o conteúdo muitas vezes sexualmente explícito e uma apologia da libertinagem que atravessa todo o livro, este foi imediatamente proibido nos Estados Unidos quando foi publicado, em 1935, tendo sido retirada a proibição apenas nos anos 60.
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Esta edição tem uma nova tradução, de Jorge Freire, que não li, e uma capa que, não quero mentir, mas acho que é a mais feia que já vi na vida. Não sei o que se passa com a Presença, editora que nos últimos anos apresenta sistematicamente capas pavorosas. Esta ultrapassa tudo, Henry Miller não merecia isto.

16.10.08

Dinis Machado na Ler nº 72 (3)

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“«Let’s get out of here», dizia ele, era a frase que mais se ouvia nos filmes americanos. Ele, o Dinis Machado, foi meu colega de trabalho e meu amigo – meu amigo ainda é – durante mais de 10 anos.
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Conheci-o na Íbis, uma editora que ficava algures na Venda Nova, e onde ele era editor da revista Tintin e de livros policiais e de cowboys, nos idos de 68. Eu passei a traduzir in­ve­rosímeis livros onde o herói às vezes morria na página 20 para ressuscitar na página 53 e foi assim que entrei, pela ­porta das traseiras e pela mão do Dinis Machado, no mundo da edição. Foi também nessa colecção, com um pseudónimo «ameri­cano», que ele publicou a trilogia policial que agora ­é reeditada pela Assírio e Alvim.
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Mais tarde partilhámos a mesma sala durante muitos anos sem eu saber que para além dos seus múltiplos interesses, que iam da literatura e do cinema, de preferência americano, à Volta a Portugal em Bicicleta, que acompanhara muitas ­vezes enquanto jornalista, ou ao futebol, ele estava a escrever um livro, de que nunca falava e que mais tarde me mostrou para saber a minha opinião. Era O Que Diz Molero e foi um choque. Um choque primeiro para mim, quando o li, e depois para o Dinis Machado, quando o sucesso lhe desabou em cima.
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Tudo começou com um artigo do Luiz Pacheco e a partir daí foi uma onda que não parava de crescer. O Dinis Machado foi, nessa altura, e com razão, um homem feliz. Ainda hoje O Que Diz Molero é lido por novas gerações e eu, que o reli há pouco, não lhe encontrei nem uma ruga de idade.
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Mas falando ainda do Dinis Machado que então conheci, era um homem discreto, grande fumador, dado a raras mas tempestuosas fúrias, que passavam depressa, mas também a uma grande ternura pelas pessoas de quem gostava, especialmente a mulher e a filha e os amigos que vinham já da infância no Bairro Alto e que ele conservava. Era um admirador incondicional do Citizen Kane, que conhecia pormenorizadamente, de Orson Welles ou de James Cagney, dos filmes ­negros dos anos 40 e 50, e era capaz de falar deles entusias­ticamente. Numa época em que a minha geração se interessava par­ticularmente pela literatura e pelos filmes franceses, ele mantinha-se fiel às suas paixões de sempre.
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Aprendi muito com ele e recordo com muita saudade os tempos em que convivíamos diariamente, os mais felizes ­como os mais difíceis, os do sucesso e os da ressaca do sucesso.
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Um beijo amigo, Dinis Machado e let’s get out of here!”
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[Maria Piedade Ferreira, Ler nº 72]

Dinis Machado na Ler nº 72 (2)

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“Dennis McShade, tal como o gémeo Dinis Machado, nasceu para ser um grande escritor. Por trás de cada historinha banal está todo um universo literário que, até à época, ninguém ainda lograra alcançar, assim tão bem disfarçado de policial de bolso», escreve José Xavier Ezequiel no posfácio de Mão Direita do Diabo, título que inaugura a reedição dos romances policiais de McShade – publicados entre 1967 e 1968 na colecção «Rififi», da Íbis, dirigida pelo próprio Dinis Machado –, pela Assírio & Alvim (com grafismo de João Fazenda), a que se juntam Requiem para Dom Quixote (nas livrarias em Outubro), Mulher e Arma com Guitarra Espanhola (Março ou Abril de 2009) e o inédito Blackpot (fim de 2009), de que publicamos, em exclusivo, o primeiro e curtíssimo capítulo.
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Dez anos antes do magistral O Que Diz Molero (1977), Dinis Machado (n.1930) construía, através do seu pseudónimo literário e «disfarçado de policial de bolso», uma galeria fascinante de personagens (Lucky Cassino, Johnny Arteleso, Eddie Piano ou Charlie di Luca, só para citar alguns do primeiro volume da trilogia) que se movimentam num universo repleto de referências – das suas referências, os filmes negros dos anos 40 e 50, a obra de Orson Welles, de James Cagney, etc. –, como recorda Maria da Piedade Ferreira, editora da Oceanos, que trabalhou com o jornalista e escritor durante mais de 10 anos. E no centro desse universo está Peter Maynard – não é inocente a ligação ao conto «Pierre Ménard, Autor do Quixote», de Jorge Luis Borges –, assassino profissional a contas com uma úlcera, anjo vingador entre as sombras, justo entre os injustos e que, no intervalo dos seus monólogos, ouve Mozart e Debussy, lê Céline, Ionesco ou Walt Whitman e cita John Huston e Howard Hawks. Só não sobrevive a um triângulo amoroso: Olga, a Beretta e um copo de leite.
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«Montálban pode ficar descansado», acrescenta José Xavier Ezequiel no posfácio, «nunca ninguém vai perceber que, quando Pepe Carvalho nasceu, já Peter Maynard comia pão com côdea.» “
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[João Pombeiro, Ler nº 72]

Dinis Machado na Ler nº 72 (1)

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“Dinis Machado é o autor de um dos livros que, se fôssemos mais tocados pela palavra «gratidão», elogiaríamos com mais frequência: O Que Diz Molero, publicado quando a ficção portuguesa não sabia que era portuguesa e ignorava que tinha de trocar de bandeiras, por volta de 1977. O Que Diz Molero, o livro que não envelhece, foi o primeiro grande best-seller de ficção portuguesa depois da revolução e transportava uma imensa alegria nas suas páginas. Ora, na época em que a chamada «literatura policial» não se escrevia em nome próprio (até porque, no Portugal de Salazar, não havia razões para que os romances se ocupassem de crimes lusitanos – que «não existiam»), Dinis Machado inventou um personagem admirável, o assassino Peter Maynard (devedor de Pierre Ménard, a quem Jorge Luis Borges atribui a proeza de reescrever o Quijote palavra a palavra), e um pseudónimo adequado para figurar como autor: Dennis McShade.”
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[Francisco José Viegas, Ler nº 72]

15.10.08

Dinis Machado: um autor embaraçado pelo sucesso

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No último Domingo o Público publicou um artigo de Luís Miguel Queirós sobre Dinis Machado, que aqui deixo:
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Dinis Machado (1930-2008)
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Um autor embaraçado pelo sucesso
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Dinis Machado não conseguiu escrever um segundo O Que Diz Molero. Mas já tinha escrito antes três livros notáveis. Ninguém reparou, porque eram policiais.
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Dinis Machado escreveu sete livros e é como se só tivesse escrito um. Depois de O Que Diz Molero, que se tornou um livro de culto e um sucesso de vendas em 1977 - saiu em Março desse ano e, pelo Natal, já ia na quinta edição -, ninguém levou muito a sério os três livros seguintes. Nenhum deles parecia ter a ambição de se apresentar como um sucessor à altura do Molero. O Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, de 1984, talvez ainda tenha correspondido, na irreverência do tema, a uma tentativa genuína, embora falhada, de voltar a agitar as águas. Reduto Quase Final (1989), uma espécie de testemunho do que o autor viveu e pensou, e que inclui alguns textos notáveis, já não pretendia ser um romance. E o último, Gráfico de Vendas com Orquídea (Cotovia, 1999), é uma selecção dos muitos textos que Dinis Machado, que morreu no dia 3 de Outubro, deixou dispersos em jornais e revistas.
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Filho de um árbitro, que era também proprietário do restaurante lisboeta Farta-Brutos, e a quem chamavam Oliveira Penálti, Dinis foi jornalista desportivo durante 20 anos, colaborando em títulos como o Norte Desportivo, o Record, o Diário de Lisboa ou o Diário Ilustrado. Deve ter assistido muitas vezes à suposta angústia do guarda-redes no momento do penálti, que não é angústia nenhuma, porque ninguém espera que ele o defenda. Nada que se compare à ansiedade do escritor que acerta à primeira e de quem todos esperam que saque mais um coelho da cartola. Alguns conseguem, muitos tentam e falham, outros nem sequer tentam. Dinis Machado não deixou de publicar após o êxito estrondoso de O Que Diz Molero, mas ele próprio admitiu, numa entrevista a Sara Belo Luís para a revista Ler, que nunca mais, como ao escrever esse livro, voltou a estar "diante da folha de papel com aquela vontade de descobrir o texto".
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Maria da Piedade Ferreira, que editou O Que Diz Molero na Bertrand, acha que o sucesso do livro foi "tão súbito e tão grande" que criou em Dinis Machado um "sentido de responsabilidade que ele nunca conseguiu ultrapassar". Nem ela nem o autor estavam à espera de que a obra se tornasse um sucesso daquela dimensão, e acredita que esse êxito acabou por "inibir" Dinis Machado de voltar verdadeiramente a escrever outro livro. "Acho que ele sofreu muito com isso", diz Piedade Ferreira, que já o conhecia desde os finais dos anos 60, quando este trabalhava na editorial Íbis, onde dirigia a revista de BD Tintin. A revista passou depois para a Bertrand, mas Dinis Machado continuou a editá-la, de modo que trabalhou durante anos na mesma sala que Piedade Ferreira. No entanto, só quando tinha O Que Diz Molero pronto a editar, e após ouvir algumas opiniões prévias, é que mostrou o livro à sua amiga. "Foi uma surpresa, porque ele não falava do assunto, nunca me disse: 'Estou a escrever uma coisa que gostava de lhe mostrar.'"
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O livro que todos liam
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Piedade Ferreira afirmaria mais tarde numa entrevista que, após ter lido o livro, ficou de tal modo entusiasmada que soube que tinha de o publicar, mesmo que a despedissem por causa disso. Ainda que se tenha tratado de uma força de expressão, é sintomática, já que confirma que nem ela, que tanto admirara o livro, e que tinha o olhar treinado de uma profissional, sonhou com a bomba que se preparava para fazer rebentar. Outros livros de ficção portuguesa terão, posteriormente, vendido mais exemplares. Mas talvez não tenha havido mais nenhum ao qual, com tanta propriedade, se possa chamar um livro de culto. Não se limitou a receber o aplauso unânime da crítica e a esgotar edições umas atrás das outras. Em 1977, O Que Diz Molero era o livro que todos levavam debaixo do braço e comentavam no café.
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Após o 25 de Abril, nota Piedade Ferreira, "tinha saído muita coisa política, a atirar para o neo-realismo, livros que estavam na gaveta, e aquilo era diferente de tudo, com diálogos vivíssimos, divertido de ler, enternecedor - era a infância no Bairro Alto, os amigos".
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Para quem não leu, o livro - pelo qual deambulam figurantes com alcunhas tão sugestivas como Peito Rente, Lucas Pireza, Descoiso, Joaquim Navalhinhas, Bigodes Piaçaba ou Peida Gadocha - tem apenas duas personagens que funcionam no presente: Austin e Mister Deluxe. Pertencem ambos a uma organização que nunca é nomeada, mas que terá podido ser lida, em 1977, como uma paródia à PIDE. Austin está a apresentar a DeLuxe um volumoso e circunstanciado relatório sobre um "rapaz", cujo nome nunca é revelado, e que vem sendo seguido por um escrupuloso agente, Molero. Trata-se, portanto, do que diz Molero.
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O assassino que bebia leite
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Francisco José Viegas, que assina um belo texto sobre Dinis Machado no editorial do penúltimo número da revista Ler, também acha que o autor "não estava preparado" para o sucesso de O Que Diz Molero, que julga que só pode ser percebido no contexto dos anos 70 do século passado, quando, em Portugal, "os caminhos da literatura passavam pelos restos do neo-realismo e do nouveau roman", e ainda por uma corrente interessada na "identidade portuguesa" e por algumas primeiras tentativas de abordar a guerra colonial. Neste cenário, diz, "aparece um livro que parte de tudo isso para contar uma história que não tem de se explicar a si própria", um livro de alguém para quem "as memórias do cinema e as leituras dos autores policiais são importantes" e que o pode assumir naturalmente, "sem fazer teoria". Para Viegas, quem acertou no ponto ainda foi mesmo Luiz Pacheco, ao afirmar que o livro era "uma explosão". Na sua crítica à obra, Pacheco ajuizava que o O Que Diz Molero "é uma bomba, um livro de arromba". E Eugénio de Andrade, por norma pouco liberal a distribuir elogios, escreveu uma frase que mais tarde apareceria nas badanas do romance: "Este livro é uma alegria."
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"Ele vinha daquela cultura noctívaga do Bairro Alto, que nunca tinha produzido nada, a não ser artigos e crónicas desportivas", diz Viegas. "Aquilo tinha mesmo de ser explosivo, e foi."
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Mas, embora concorde que o sucesso do romance "imobilizou" o autor, Viegas pensa que, para se explicar a escassa produção posterior de Dinis Machado, também não se pode ignorar a preguiça. "É uma geração de tipos que gostam de viver, de ir ao cinema, da conversa, e que não estão para ter muito trabalho."
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Recordando o prazer que lhe dava ouvir Dinis Machado falar de cinema - "conhecia os secundários todos, os tiques dos actores..." -, Viegas diz que só alguém com aquele tipo de cultura poderia "servir-se do Menard [Pierre Menard, personagem de um conto de Borges] e transformá-lo, sem alarido e cambalhotas teóricas, em Peter Maynard, um assassino profissional que bebe leite porque tem uma úlcera".
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Viegas refere-se aos três policiais que Dinis Machado publicou na colecção Rififi, da Íbis, sob o transparente pseudónimo de Dennis McShade. Após o êxito de O Que Diz Molero, o Círculo de Leitores recuperou estas novelas, e a Assírio & Alvim está a agora a reeditá-las, tendo já lançado A Mão Direita do Diabo (1967), que também foi publicada em 2005 numa colecção lançada pelo PÚBLICO.
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O próprio Dinis Machado afirmou numa entrevista que os livros anteriores a O Que Diz Molero "foram um arranque" e que os posteriores "foram arrancados a ferros". Na segunda metade dos anos 60, casado e com uma filha, o autor precisou de dinheiro e fez um acordo com a editorial Íbis. Adiantavam-lhe 20 contos e ele escrevia três novelas para a colecção Rififi. Bem podemos estar gratos, nós, leitores, a essa sua circunstancial penúria financeira.
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Protagonizados, todos eles, por Peter Maynard - um tipo duro, como o Mike Hammer de Spillane, dado a solilóquios, como o Philip Marlowe de Chandler, bebedor de leite, como o Archie Goodwin de Rex Stout, e grande leitor, como o patrão do dito Goodwin, Nero Wolfe -, esses três livros estão a milhas dos policiais que então se escreviam em Portugal e, mesmo no panorama internacional, constituem objectos altamente singulares. Sobretudo o segundo, Requiem para D. Quixote (1967), é uma obra francamente excepcional.
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Ignorados pela crítica, só lhes foi feita verdadeira justiça em 2007, na tese de doutoramento de Maria de Lurdes Sampaio - História Crítica do Género Policial em Portugal (1870-1970) - Transfusões e Transferências (ed. policopiada, 2007), que lhes dedica um extenso capítulo. Diz Sampaio que "em nenhum outro autor nacional de finais dos anos 60, mesmo no âmbito da literatura canónica, se encontra uma tão aguda consciência de que todos os livros - não apenas os policiais - falam sempre de outros livros e de histórias já contadas". E sublinha que em Dinis Machado não "há lugar para distinções entre a literatura elevada e a literatura baixa" e que "esse é, porventura, o gesto mais subversivo deste autor". Está a referir-se aos seus policiais. Mas podia bem estar a falar de O Que Diz Molero.
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[Luís Miguel Queirós, Público, 12-10-2008]

14.10.08

Dinis Machado por Clara Ferreira Alves

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Dinis, o Deus das pequenas coisas
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Estava pouca gente. Os enterros de escritores costumam ser mais concorridos, com muita celebração e muita elegia, a admiração dos amigos e dos leitores, e esse sentimento difuso dos que julgam conhecer um desconhecido pelo simples facto de o terem lido. Na verdade, Dinis Machado, o escritor de O Que Diz Molero, o bom malandro chamado Dennis McShade, não cabia em nenhum armário ou nomenclatura, não cabia em nenhum fato por medida. Não era reconhecido pelas catedrais do saber nem pelas academias, não era objecto de teses ou cerimónias. Teve bons editores e foi lido pelos seus leitores, e muito lido no caso do Molero, com uma atenção e um culto que merecem as coisas novas que nunca existiram antes, ou nunca existiram assim, porque a literatura existe sempre e a boa escrita também, e as duas carregam o corpo do escritor para a cripta do "best-seller". O Que Diz Molero, um livrinho saído da experiência da infância lisboeta de Dinis Machado e da imaginação delirante do adulto que resolve inventar uma linguagem nova para contar sobre personagens e mundos novos, é uma obra original, e isto de poucos livros pode ser dito.
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Original pela narrativa, pela forma, pela linguagem, pela história, pelas personagens, pela utilização do tempo e do espaço, pela medida certa do que deve ficar e do que deve sair da frase até ela ser considerada perfeita. Uma história da rua e das estrelas que o teatro revelou como um lugar sem pecado original, um lugar isento da convenção literária ou plástica. Um lugar de liberdade absoluta do verbo, graças ao Nuno Artur Silva e ao António Jorge Gonçalves, dois devotos que reinventaram Molero no palco. O Que Diz Molero foi assim um livro e uma peça que não cabem em categorias, uma espécie de vanguarda estética, a última coisa que o Dinis esperaria. A humildade cívica, moral e intelectual que fazia dele um grande ser humano e um grande conversador, nunca conseguiu conviver com a modernidade daquela escrita, rara nos realismos da altura.
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Quando o conheci, nos idos de 80, o Dinis andava triste. Morava sozinho numa casa modesta de uma avenida de Lisboa, tinha ficado viúvo, não sabia se voltaria a escrever. Só sabia escrever quando lhe apetecia. Era, como o José Cardoso Pires, escritor bissexto, mais do que bissexto, escasso, escassíssimo. Era então um homem de cinquenta e tal anos, encurvava os ombros ao falar e tinha no olhar uma sombra de malícia que remetia para os apartes da conversa, o sumo da coisa. O Dinis foi sempre um grande comentador das pequenas coisas da vida, dos pequenos acasos, das pequenas picardias, dos pequenos encontros. Eram um modo de viajar, não tinha dinheiro para mais. E por trás estavam os filmes e os policiais, a banda desenhada, em que ele lia a realidade a cores e preto e branco. O cinema era uma paixão, e o Dinis lembrava-se sempre de um filme a propósito, e havia uma tela de cinema e uma cena de cinema, com actores de cinema, no dia-a-dia da sua obscuridade. Às vezes, penso que ele viveu assim, nessa obscuridade desejada, porque se sentia sentado num cinema, à espera da luz do ecrã e que o filme começasse. Um dos seus grandes amigos, já morto, era o Pedro Bandeira Freire, o homem do Quarteto. Outro foi, durante uma época, António Lobo Antunes, que ouvi chamar ao Dinis "o sétimo irmão". E outro Cardoso Pires. Depois afastaram-se, a amizade entre escritores de qualidade tem uma cauda comprida e muito pisada. Falou sempre deles com admiração e estima, eram os seus companheiros literários mais próximos, escritores de uma cidade apinhada de personagens por descobrir, personagens populares e destituídas das cortesias da aristocracia literária.
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Dinis Ramos e Machado nasceu em Lisboa e foi um homem de Lisboa. Habitou a cidade como uma personagem, não intermediando a realidade com subtilezas formais, antes a moldando até a tornar linguagem e literatura. É isto um escritor, dizem os manuais. Alguém que transcende a sua experiência e a torna universal. A Lisboa de Molero é uma Lisboa mítica, onírica, poética e profundamente real. Doentiamente real. As personagens de Molero reluzem num quotidiano cinzento. A única liberdade é a da imaginação, que se solta com um furor anárquico. Dinis Machado nasceu a 21 de Março de 1930, numa primavera de Salazar. Viveu boa parte da vida nesse regime que deu bons escritores, e viu os tempos e os costumes mudarem-se até ao fim das grandes proibições existenciais. Hoje, tudo ou quase tudo é permitido, tudo ou quase tudo é mostrado, e nesse conhecimento pornográfico do mundo, instantâneo, os pormenores perdem-se e a atenção a eles também. As pequenas coisas. "O universo machadiano", disse o Fernando Assis Pacheco, "não podia ser contado por outrem".
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Com a passagem dos anos, o Dinis foi esmorecendo. Nunca mais escreveu um livro como Molero, de 1977, e talvez ele achasse imperdoável não o ter feito. Talvez não. Os amigos elogiaram-no e partiu sozinho. A Última Fronteira, como no Molero. Foi um Mr. "DeLuxe" e um homem livre que nunca perdeu a inocência. E isto de poucos escritores pode ser dito.
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[Clara Ferreira Alves, Expresso (revista), 11-10-2008]

10.10.08

Dinis Machado: entrevista à Ler em 2002

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Dinis Machado foi entrevistado por Sara Belo Luís para a Ler de Outono de 2002. Aqui fica:
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A BALADA DO ESCRITOR ADIADO

Durante muito tempo refugiou-se à sombra de um pseudónimo americano, inventado para fazer sair uma trilogia de romances policiais com um herói “borgesiano”. Em 1977, cumprem-se agora vinte e cinco anos, escreveu O Que Diz Molero, o livro onde depositou as memórias de uma infância perdida nas ruas de um bairro popular de Lisboa. Apesar do êxito obtido junto da crítica e do público, o “bartleby” Dinis Machado sempre recusou a carreira literária que alguns lhe davam como certa. Preferiu, antes, ficar à esquina, a lembrar-se do tempo em que, nas prateleiras de um alfarrabista, descobriu Viagem ao Fim da Noite, apenas porque gostou do título. Vida e obra de um dos poucos escritores de culto portugueses.
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Em jeito de metáfora, ele chama-lhe pesca à linha. Só que, em questões literárias, não existem canas para segurar com vigor. Nem muito menos qualquer espécie de isco, capaz de atrair cardumes inteiros. Mesmo assim, Dinis Machado teve uma boa jornada. Ao logo de setenta e dois anos de vida, o pescador – de livros, entenda-se – apanhou pesca grossa, mas também muita arraia-miúda. Desafiando cânones, fronteiras e estatutos adquiridos, de ambas, retirou um pormenor, uma história eloquente, uma personagem audaz. Uma frase, uma palavra. Dessas leituras de juventude conduzidas ao acaso, guardou tudo, bem guardado, bem fechado. Para quando, um dia mais tarde, se decidisse a imprimir o seu próprio nome na capa de um volume.
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Esse dia haveria de surgir em 1977, quando Maria da Piedade Ferreira, então responsável pela Bertrand, não deixou escapar o manuscrito do romance que acabou por se tornar num dos maiores êxitos editoriais portugueses das últimas décadas. No papel mais barato disponível no mercado, saiu O Que Diz Molero, uma história contada pelas personagens Austin e Mister Deluxe, a partir de um relatório completíssimo de trezentas e doze páginas. Em 1994, Nuno Artur Silva adaptou a obra ao teatro, numa peça que entretanto foi reposta para plateias sucessivamente lotadas. Dela se publicaram dezoito edições e cinco traduções. Lançada este ano, a versão francesa suscitou-lhe os maiores elogios no Libération, no Fígaro e no Magazine Littéraire. O retrato do Bairro Alto dos anos 1930 foi comparado a Kafka, a Orwell e a Borges no país da Alta Cultura. Ainda hoje Dinis Machado, o rapaz nascido na Calçada do Combro, se espanta com os louvores que lhe dirigem. Ele, que levou toda a vida para escrever um livro. Também foi jornalista no Diário de Lisboa e no Diário Ilustrado e chefe de redacção da Tintin. Para além d’O Que Diz Molero, foi ainda autor de Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Marquez (1984), Reduto Quase Final (1989) e Gráfico de Vendas com Orquídea (1999). À volta pelas prateleiras de um alfarrabista, devem andar Mão Direita do Diabo, Requiem para Dom Quixote, Mulher e Arma com Guitarra Espanhola. São três romances policiais trazidos a lume em 1967 e 1968 na colecção Rififi, que ele escreveu sob o pseudónimo “americano” de Dennis McShade. Estão esgotados, mas ninguém parece reeditá-los. E são pérolas raras.
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Hoje, vinte e cinco anos depois, vê O Que Diz Molero como um romance ou como um registo das suas memórias de infância?
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Há, de facto, uma certa diferença entre a actualidade e o momento em que escrevi O Que Diz Molero. Na altura, apesar de ter tido a tentação de o alargar às fronteiras do discurso universal, não sabia que estava a fazer um texto um pouco memorialista. Tinha saúde, força e vontade de dizer, mas estava sobretudo a descobrir em mim a energia da palavra. Saiu-me assim. E só mais tarde me apercebi que tinha feito um levantamento de um sítio e de um tempo que foi o meu, que estava a revelar a infância, a juventude e a minha gente. Hoje, vejo-o como uma imagem esbatida, com uma certa patine, onde eu já não estou. Hoje, já o vejo como um livro que correspondeu a um tempo meu, mas que já não é o de agora.
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Estava a escrever o romance que sempre quis fazer?
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Desde miúdo que queria fazer qualquer coisa de diferente (toda a gente tem um pouco essa mania). Queria ser um bom jogador de futebol, um bom actor, um bom realizador de cinema, e, principalmente, queria escrever um livro, pois tinha uma grande admiração pela nobreza do trabalho do escritor. Mas não queria fazer um livro qualquer, que entrasse na ordem geral das coisas. Queria fazer… o meu livro.
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Quem foram os primeiros leitores de O Que Diz Molero?
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Descobri que queria ser o primeiro leitor a surpreender-se com aquilo que eu próprio escrevia. Depois, além da Marília, a minha mulher, foram os meus amigos de infância, aos quais li o livro em voz alta. Eles ficaram encantados e só me perguntavam como é que tinha conseguido passar a atmosfera do sítio, da nossa gente. Não havia correlação directa com as personagens, mas eles reviram-se na história. Levei-o então à Bertrand, à Piedade Ferreira, um bocado a medo, porque o livro era muito anticonvencional, podia ferir susceptibilidades. O Luiz Pacheco foi a primeira autoridade literária a lê-lo. Ele viu as provas tipográficas e perguntou: “O quê, o gajo do Tintin também escreve livros?” Ficou muito entusiasmado e, dias depois, escreveu um artigo no Diário Popular. Foi aqui que tudo começou.
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O livro podia tornar-se incómodo, de facto. Que organização era aquela?
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Toda a gente queria que eu dissesse quem era a organização, mas julgo que um dos encantos do livro reside justamente no facto de não se saber quem são aqueles gajos… Tanto podia ser o KGB, a CIA, a PIDE ou a Gestapo. Ou então uma organização muito mais nebulosa, um poder oculto que requer serviços para procurar alguém que é escolhido pelo sistema como n’O Processo. O texto tem qualquer coisa de orwelliano, mas Molero tem a particularidade de participar no jogo e, ao mesmo tempo, de o desfazer.
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Costuma reler o romance?
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Tenho uma memória fotográfica. E aquilo que escrevo com uma energia muito grande fica-me estampado na cabeça. Há textos que nunca mais voltei a ler, mas que sei de cor. A O Que Diz Molero só vou lá de vez em quando, para desfazer uma dúvida, ver o que terei dito sobre isto ou aquilo, esclarecer alguém. Por acaso, agora fiz uma leitura para dar uma ajuda na tradução francesa.
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Não é praticamente impossível transpor aquela linguagem para outra língua?
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Sim, é quase impossível. Pode, contudo, tentar-se instalar um outro universo que tenha correspondência com aquele, utilizando, por exemplo, o calão de Paris. Depois disso, existe ainda o problema da desgramatização do texto.
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Apesar de todas as dificuldades, sempre são os mesmos códigos, porque julgo que houve mesmo quem tivesse tentado adaptá-lo ao cinema?
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Muita gente o quis fazer, entre eles o meu amigo Pedro Bandeira Freire. E também o José Fonseca e Costa, que até mandou vir um argumentista do Brasil, mas que ao fim de muito trabalho me disse: “Ainda vamos na sexta página e já temos meia hora de filme. Não é possível, não há dinheiro que chegue.”
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O êxito de O Que Diz Molero sufocou-o?
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Quem escreve um livro quer ter aceitação. O problema é que eu, que não tinha nenhuma relação com as zonas literárias propriamente ditas, tive mais do que uma simples aceitação. Houve uma espécie de rebentamento, de explosão, que me deixou de facto um pouco atordoado. Fiquei offside, sem perceber bem o que se estava a passar. Diziam-me que o livro trazia uma grande liberdade de escrita e um novo processo de linguagem, queriam que continuasse a escrever Moleros… Mas eu não queria repetir-me. Depois, com a morte da minha mulher, fiquei muito sozinho na vida. Fiquei sem sítio. Lembro-me daqueles dias tremendos, em casa, sem ninguém, até que saí para uma história que não tinha a certeza de querer fazer. No Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel Garcia Márquez, há uma espécie de drama, de sofrimento, de fusão de elementos surreais com uma carga patética. Acho que andava à procura de um género onde conseguisse incluir isso tudo. Com Reduto Quase Final, um testemunho da minha passagem pela vida, fiz o ajuste de contas.
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Mas isso foi já em 1989 e, antes de O Que Diz Molero, também já tinha escrito três livros policiais.
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A explicação para isso está na história dos caminhos cruzados. Antes de O Que Diz Molero, escrevi três romances policias porque precisei de dinheiro. Estava a trabalhar na Íbis e, quando pedi vinde contos emprestados, propuseram-me fazer três livros num ano. Para assinar o contrato, arranjei um pseudónimo americano (tinha de ser), três capítulos e as respectivas informações da contracapa.
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Já se sentia com mão de escrita para a tarefa?
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Vinha de um trabalho de escrita muito intenso – tinha vinte anos de jornais desportivos, a escrever todos os dias, e mais umas centenas de peças no Diário Ilustrado. E, naquela altura, fascinava-me poder parodiar o policial negro e o romance americano, fingindo que era americano. São uns livros muito estranhos porque tentei fazer o mesmo que o Boris Vian, fiz homenagens, subversões, provocações, brincadeiras e desvios. O que é curioso é que, quando fui para a secretária com apenas uma espécie de bilhete de identidade do herói, não sabia o que ia fazer.
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Não sabia mesmo?
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Sabia apenas que um dos livros tinha alguma coisa a ver com o Dom Quixote, cuja versão em castelhano eu tinha lido, como mandava Gaspar Simões. Mas eu tinha a cabeça cheia de livros e de cinema. Peter Maynard vem de Pierre Ménard, a personagem de Borges que andava a escrever o Dom Quixote. E também aproveitei uns versos que tinha lido há muito tempo (“Hacer bien a villanos es hechar agua en la mar”), a partir dos quais escrevi Requiem para Dom Quixote. É quase a pedra da sopa. Depois, os policiais têm de ter uma história, algumas perseguições, os gajos que matam e os que morrem… Costumo dizer que fiz o primeiro na linha do Dashiell Hammett, o segundo na linha do Raymond Chandler e o terceiro na linha do Kafka. Escrevi-os, ganhei os vinte contos e fechei o escritório policial.
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Apesar de todos esses livros, há quem lhe chame um escritor-de-um-livro-só. Gosta da designação?
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As pessoas têm o direito de julgar o que quiserem. Acho que gostam de pensar em mim como um escritor-de-um-livro-só porque esse livro tem uma carga pessoal enorme e também porque o seu êxito me criou essa auréola mais ou menos falsa de que sou um escritor de uma única obra. O que é facto é que isso combina comigo – só quis escrever um livro. À maneira de Borges, a minha ideia era que todos os livros se podem condensar num só, uma espécie de última triagem, sabedoria sucinta das coisas. Os anteriores são, pois, livros de arranque, e os posteriores são arrancados a ferros. Já não estava diante da folha de papel com aquela vontade de descobrir o texto, como tive com O Que Diz Molero.
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Tem muita coisa na gaveta?
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Não, porque sou um dissidente daquilo que não acabo. Não sou um escritor – se é que sou um escritor… – teimoso. Cada livro tem o seu tempo de trabalho e, enquanto não chega a exaustão, escrevo, mas, quando o largo, posso estar muito tempo sem pensar nele. Acho que já não vou escrever mais nenhum, porque me falta saúde. E o livro puxa muito por mim – fumo mais, fico mais doente. Não sei o que isso significa, mas eu escrevo com o corpo. De resto, nem sei bem como hei-de situar os meus vários tempos de escrita, penso que são áreas separadas – os policiais correspondem a um período de gozo (deu-me muito prazer o lado falsificado e a questão de pôr no terreno um certo número de manias), O Que Diz Molero foi um pouco a agarrar o texto pelo pescoço, a não deixar fugir o que queria fazer, e os outros já foram quase laboratoriais. .
Esses tempos de escrita envolveram também processos de escrita diferentes?
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Hemingway dizia que, quando estava a fazer descrições, escrevia à mão, mas que, quando queria fazer diálogos, escrevia à máquina. Isto é muito curioso – e é verdadeiro. Acho que o facto de O Que Diz Molero ser tão rápido tem a ver com o ter sido escrito à máquina. A máquina acompanha a velocidade do pensamento, adapta-se ao pensamento, cuja rapidez por vezes não é possível reter. Escrevi uma grande parte de O Que Diz Molero assim, quase em estado de hipnose. Os outros livros já os escrevi à mão. Obra pequena, obra pequena… Nunca fui de obras grandes.
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Nem de livros grandes…
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Sempre gostei muito de escrever textos curtos, textos de jornais, do dia, quase em cima da hora de irem para a máquina. Sempre gostei daquele corpo a corpo com o papel.
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Porque é que nunca quis ter aquilo a que habitualmente se chama uma carreira literária?
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Fazer livros? Estou quase sempre em afrontamento com o que deve ser feito… Era necessário uma obediência a um certo número de regras, uma certa capacidade de sacrifício. E eu gosto de viver. Para escrever a vida, o escritor quase não a vive. Além do mais, quem é o escritor? Os que não chegam a ser publicados (alguns deles, porventura, interessantes)? Ou que se caucionou sem o ter merecido? Vêm dos tempos grandes monstros sagrados que devo ler? A institucionalização da literatura é algo de muito estranho. Porque o texto não é para ser instituído, o texto é para revelar.
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Nunca pertenceu a quaisquer correntes literárias.
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Não, nunca pertenci. Li os surrealistas, os neo-realistas, os poetas parnasianos… Li tudo aquilo. O que me interessava era encontrar uma linguagem própria que também é feita de acasos, que também é feita de questões de sorte e azar nas palavras.
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António Lobo Antunes é um dos seus poucos amigos que, simultaneamente, é seu colega de ofício. Como foi esse encontro?
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Uma vez, ele disse que gostava de me conhecer e, quando saiu a Memória de Elefante, fui ao lançamento do livro. A partir daí, passámos a jantar todas as quartas-feiras. Depois, a seguir à morte da minha Marília, ele foi muito importante para mim. Eu isolava-me, estava sempre muito triste, era má companhia. Ele foi buscar-me e levou-me a sua casa. Saíamos com o Cardoso Pires e com o Artur Semedo, íamos comer aqui ou ali, falávamos de literatura e de futebol. Ainda andei nisto uns meses, mas a vida muda e, por vezes, as pessoas afastam-se.
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Viveu trinta e três anos no Bairro Alto. Costuma lá voltar?
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Muito raramente. Não tenho vontade nenhuma de lá ir…
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É muito diferente do bairro que conheceu?
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Não sei se é do bairro, se é de mim… Eu mudei, fiquei mais velho, mas o bairro também mudou. Já não tem a inocência daquela época. Aquele lado efervescente das esquinas, dos cafés e dos jornais, para mim, era uma coisa diária. Era vida. A ópera, a Brasileira, a Benard, a Bertrand, as casas de fado, a Barateira, os cinemas. Agora, os amigos que mais prezo são os amigos de juventude porque esse foi um período de descoberta, no qual existia uma camaradagem muito especial, quase mafiosa.
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Passavam os dias no cinema. Que filmes viam?
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Víamos de tudo. Cresci a fugir à escola para jogar à bola na rua e ir ao cinema. Ficávamos nas sessões contínuas até à meia-noite, no Loreto, onde entrávamos dois com apenas um bilhete, a ver filmes vulgares, filmes de carregar pela boca, filmes só para entreter. “Action and More Action”, cowboys e gangsters. Depois, começaram a aparecer os Charlot e os Pamplinas. No meio disso tudo, apanhávamos grandes clássicos do cinema, películas que hoje são consideradas como tal, mas que nós não sabíamos… Eram aventuras. Era miúdo, cresci assim, a ver cinema, com o fascínio das imagens. Vivia muito em estado de cinema, de tal modo que o real, cá fora, era transfigurado pelo que via no ecrã. Havia um do meu grupo que até tinha um caderno onde ia anotando os anos dos filmes, os realizadores e a sua evolução. Qual era a fita? Realizado em 1932 por fulano de tal, com estes e estes actores. Era uma espécie de dicionário de realizadores, uma cinemateca pessoal.
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O seu pai gostava da vida que levava?
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O cinema era um bocado desprezado. O meu pai queria que eu tivesse uma profissão prática. Não queres ser mecânico? Mecânico? Eu, que nunca tinha pegado num carro? O meu avô dizia que o cinema era bonecos na parede. Era um sugeito notável, coleccionava A República nas vitrines da loja de guarda-chuvas, foi anarquista, revolucionário e talvez bombista (nunca consegui confirmá-lo). Diziam-me que tinha estado preso na Torre do Bugio, mas ele nunca me falava disso. Quando o conheci, já não queria saber disso para nada.
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Quando é que começou a ler a banda desenhada que o há-de acompanhar, depois, em várias alturas ao longo da vida?
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Quando era pequenino, vendiam-se nos passeios o Flash Gordon, o Mandrake, a revista do Fantasma. Depois, quando comecei a crescer, deixei de ligar à banda desenhada. Só lhe voltei a pegar mais tarde, por razões de ordem profissional, porque não estava nada previsto que o voltasse a fazer. Quando o Diário Ilustrado fechou, fui organizar os festivais de cinema da Casa da Imprensa, uma coisa que me deu uma trabalheira imensa por causa da censura. Um dia, telefona-me o Roussado Pinto a perguntar se eu queria ir trabalhar com ele. Fui para a Íbis, que era um mastodonte de coisas incríveis, subprodutos que vinham de Espanha, anedotas, colarinhos de beatos, Kansas City… O Tintin surgiu porque ele, além de querer ocupar as máquinas, também queria uma revista de banda desenhada. Quando a Íbis faliu, continuei a fazer a revista para a Bertrand.
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E, o futebol, ainda o vê da mesma maneira?
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Hoje há um certo desencanto, por causa destas coisas das televisões, dos negócios, das marcas, dos compadrios, das FIFAs. Do futebol, o que guardo é sobretudo o prazer de jogar. A relação mágica entre o miúdo e a bola.
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Em que posição jogava?
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Era um ponta-de-lança de estatura média, mas habilidoso. Metia golos – e também levei muita pancada, agarrava-me um bocado à bola, queria sempre entrar com ela na área. Uma vez, até fui treinar ao Atlético, um clube popular que jogava taco a taco com o Sporting e o Benfica. Viram-me na praia e perguntaram ao meu pai se eu podia ir jogar à Tapadinha, o team do atlético contra um team de miúdos com jeito (perdemos, 4 a 1). A bola ia à frente, eu ia a correr atrás dela e ouço o Baptista, que era o back direito, dizer para os outros: “Eh pá, dá um pontapé na cigarreira desse miúdo." Eu, que era de um bairro popular, não sabia o que aquilo queria dizer e, quando o jogo acabou, perguntei-lhe. “Era para ele te dar um pontapé na boca se fosses com ela para a baliza”, explicou-me ele. Gosto deste lado estilista do calão. Porque é muito imaginativo. Como alguém disse, “o futebol não é um jogo de vida ou de morte, é muito mais do que isso”.
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Muitas das suas referências literárias vêm dos tempos em que se alugavam livros nos alfarrabistas. O que lia na Barateira?
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Formávamos uma espécie de grupo de culto que lia a poesia portuguesa toda (sempre gostei mais dos poetas portugueses do que dos prosadores). Acho que até muito d’O Que Diz Molero, para além de ter a ver com a banda desenhada e o cinema, tem a ver com a carga poética que tirei das centenas de poemas que decorei. Às duas da manhã, depois do cinema, íamos para o largo dizer versos. Também gostávamos de alguns prosadores, quase nenhum deles português… Andávamos armados em franceses e americanos. Às vezes, no meio daquelas prateleiras, até descobríamos livros de agronomia e de gastronomia. Vamos levar o Pantagruel! Li coisas esquisitíssimas.
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Era uma espécie de escola paralela?
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Claro que sim. Nós andávamos no Fernando Pessoa e no Mário de Sá-Carneiro, e eles, na escola, na instituição, ainda andavam a dar o Augusto Gil e o Gonçalves Crespo. Falavam-me no Guerra Junqueira e eu fazia-lhes um discurso moderno, fora do status quo e da pauta do autor catalogado. A minha escola paralela era infinita, comparada com a escola da escola.
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Alguém lhe orientava as leituras?
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Ninguém. Era apenas o prazer de descobrir livros. Andávamos em dia com a poesia, acompanhávamos o Gaspar Simões e as páginas dos jornais. Líamos os brasileiros, até chegar à conclusão que o que eles faziam era imitar os americanos e, assim, apanhávamos os Caldwells e os Faulkners. Tínhamos a curiosidade e o ouvido atento. Estávamos sempre com as antenas ligadas. Alguém, na Brasileira, escutava o Ramada Curto falar de um autor e ia logo dizer à malta da mesa do café.
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Leituras do acaso, portanto.
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Sim, uma espécie de franco-atirador. Era ao calhas ou através de uma dica de alguém mais avisado. Havia lá um gajo, que só falava em calão (era quase um universitário do calão), que tinha uma cultura extraordinária. Era uma personagem um pouco solitária, mas, às vezes, encontrávamo-nos na esquina e ele começava a desbobinar.
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Em termos de livros, qual é que foi para si a maior revelação?
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Deixei imensos livros a meio – Guerra e Paz, que era chiquíssimo, Sheakespeare, que não me agradava muito… A maior revelação, para mim, talvez tenha sido Dom Quixote, na tradução de Aquilino Ribeiro (foi daí que tive a ideia de o ler em castelhano…). Adorávamos os livros de capa e espada de Alexandre Dumas, d’As Aventuras de Tartarim de Tarascon, que eram em folhetins. E do Júlio Verne, lido em catadupa. Tive também algumas surpresas – A Queda, que apanhei por acaso, A Viagem ao Fim da Noite, porque gostei do título. E os americanos, claro – Saroyan, Fitzgerald e muito Steinbeck (houve uma altura que tivemos mesmo uma fúria Steinbeck).
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Que viagens fez?
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Não fiz quase viagens nenhumas. E as que fiz foram quase sempre relacionadas com o futebol. Fui uma vez a Londres, enquanto estava no Diário Ilustrado, cobrir um jogo entre selecções militares de Portugal e Inglaterra. Também fui a Madrid, por causa de um Sporting-Léon, a Munique, a Barcelona, uma cidade fulgurante de cuja força me admirei. Mas eu sou sedentário, não gosto de viajar. As minhas viagens são todas como as de Céline, pela imaginação. Além disso, não preciso de ir aos sítios – tenho fotografias, relatos, romances, filmes, mapas… Tenho noção de como as coisas são e como funcionam. Sei, por exemplo, as ruas de Nova Iorque porque tenho a memória do cinema de Raoul Walsh e de Howard Hawks. Claro que, como os espólios não são completos, apenas percebo o que é possível perceber. Mas, afinal, tudo na vida é um bocado arbitrário e ninguém pode ter a bilioteca total para saber tudo. Uma vez, perguntaram a Borges sobre a sua tarefa com a literatura. “A minha tarefa”, disse ele, “não seria particularmente difícil, bastar-me-ia ser imortal para a realizar.”
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Prefere guardar essa memória mediada dos lugares?
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Acho que sim. De qualquer modo, também já não vou ao cinema. Nos últimos vinte anos, só ia ao Quarteto, com o livre-trânsito que o Pedro Bandeira Freire me arranjava. Quando ele saiu de lá, deixei de ir. E não me custou nada. Sou capaz de viver com uma preguiça quase permanente. Tenho a qualidade de ser capaz de estar, sem fazer nada, a fumar e a beber café, a ler um livro antigo que me apetece reler. Falo com a Rita [a filha], falo com a Dulce [Dulce Cabrita, a mulher] e já me chega. É a minha vida – e assim vai ser até ao final. Mas agora, de repente, apareceu-me muita coisa ao mesmo tempo. No outro dia, telefonaram-me a perguntar se queria desempenhar o papel de um detective particular num filme policial. Além do caldeirão dos vinte e cinco anos de O Que Diz Molero, também me querem em Bordéus e em Paris… Mas eu não falo bem francês, nem quero falar línguas estrangeiras, acho que sou daqueles escritores de raízes que só falam a própria língua.
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Mas lê francês…
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Sim, mas não falo quase nada. Falo melhor inglês. Isto é, o “americano” que aprendi nos filmes.
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“A época não era melhor, nós é que tínhamos juventude.” Esta frase de Reduto Quase Final não pode vir de um nostálgico, porque estes acham sempre que o passado era glorioso em si mesmo.
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Não sou, de facto, um nostálgico. Vivi bem o tempo que passou, não o podia ter vivido melhor e fiz quase sempre o que queria. O passado fica, porém, apenas como passado. Nunca quis aquela vida das nove às seis, tive guerras de meia-noite, ameaçavam-me com processos e tudo, mas acabavam por desistir. Situações de sorte… Este estatuto do gajo que escreveu O Que Diz Molero dava um bocado para tudo.

"Mão Direita do Diabo": a crítica de Pedro Mexia

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É possível ler aqui a crítica de Pedro Mexia (Ípsilon, 15/08/2008) a Mão Direita do Diabo, primeiro livro policial que Dinis Machado escreveu sob o pseudónimo Dennis McShade. Foi publicado originalmente pela Ibis em 1967 e agora reeditado pela Assírio & Alvim.

9.10.08

Nobel

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O prémio Nobel da literatura deste ano foi para o escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio. Em Portugal tem editados:
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O Caçador de Tesouros (Assírio & Alvim, traduzido por Ernesto Sampaio)
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Índio Branco (Fenda)
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Deserto (Dom Quixote)
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Estrela Errante (Dom Quixote)
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Diego e Frida (Relógio D’Água)
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O Processo de Adão Pollo (Europa-América)
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Quase todos estão esgotados.

Já está nas livrarias

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Engoli
água. Profundamente: — a água estancada no ar.
Uma estrela materna.
E estou aqui devorado pelo meu soluço,
leve da minha cara.
O copo feito de estrela. A água com tanta força
no copo. Tenho as unhas negras.
Agarro nesse copo, bebo por essa estrela.
Sou inocente, vago, fremente, potente,
tumefacto.
A iluminação que a água parada faz em mim
das mãos à boca.
Entro nos sítios amplos.
— O poder de reluzir em mim um alimento
ignoto; a caras
e a roça a mão sombria, acima
da camisa inchada pelo sangue,
abaixo do cabelo enxuto à lua. Engoli
água. A mãe e a criança demoníaca
estavam sentadas na pedra vermelha.
Engoli
água profunda.