27.1.09

O regresso de Chamilly
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Marianna
ficou sozinha
no convento
de Beja
porque as outras freiras
casaram-se todas
ou morreram
menos ela
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*
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Batem à porta
do convento
Marianna pensa
as testemunhas de Jeová
ou a publicidade
mas não
é Chamilly
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[Adília Lopes, in Obra, Mariposa Azual, 2000]

26.1.09

O marquês de Chamilly a Marianna Alcoforado
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Minha senhora deve ter
uma coisa muito urgente e capital
a dizer-me
porque me tem escrito muito
e muitas vezes
porém lamento dizer-lho
mas não percebo
a sua letra
já mostrei as suas cartas
a todas as minhas amigas
e à minha mãe
e elas também não percebem bem
não me poderia dizer
o que tem a dizer-me
em maiúsculas?
ou pedir a alguém
com uma letra mais regular
que a sua
que me escreva
por si?
como vê tenho a maior boa vontade
em lhe ser útil
mas a sua letra minha senhora
não a ajuda
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[Adília Lopes, in Obra, Mariposa Azual, 2000]

25.1.09

Escrevia
porque estava sozinha
e queria estar
com pessoas
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Depois
estava com as pessoas
e queria estar sozinha
para escrever
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[Adília Lopes, in Le Vitrail La Nuit / A Árvore Cortada, &etc, 2006]

20.1.09

Os alfaiates de livros

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"qualquer escritor que se preze abominará o objecto empresarial de uma linha de montagem de ideias literárias, de livros a pedido do mercado, de investimento criativo somente a pensar na caixa registadora, etc. A cultura não está a passar por aí. Mesmo argumentando a brilhante descoberta de já haver disto lá fora, nos países avançados, qualquer escritor português, que se preze, lhe citará o proverbial provincianismo que é actuar estimulado por modas copiadas de países que, isso sim, só estão avançados na degradação da humanidade."
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[Paulo da Costa Domingos, no blog da Frenesi]
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Paulo da Costa Domingos diz aquilo que qualquer escritor, editor ou crítico devia dizer: estes booktailors não têm nada a ver com cultura ou literatura. São meros técnicos de marketing de um produto, que por acaso é o livro mas podia ser pasta de dentes ou outra coisa qualquer. É por isso, para mim, incompreensível a relevância que lhes é dada em certos meios culturais que deviam ser os primeiros a lutar contra a progressiva invasão da cultura por esta gente do "marketing" e da "gestão". No entanto são-lhes concedidas reportagens, entrevistas e até, pasme-se, uma coluna na Ler, que não é mais do que publicidade gratuita para o seu negócio e um insulto aos leitores da revista.

16.1.09

AS PUTAS DA AVENIDA
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Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
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vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
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essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
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mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena.
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[Fernando Assis Pacheco, in A Musa Irregular, Assírio & Alvim, 2006]

14.1.09

Novidades Assírio & Alvim: Herberto e Cesariny

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Depois de ter esgotado em poucos dias os 3000 exemplares de A Faca não Corta o Fogo, a Assírio & Alvim prepara-se para lançar Ofício Cantante, uma nova reunião da poesia completa de Herberto Helder, que incluirá, como de costume, alguns poemas inéditos e outros retrabalhados. Terá 624 páginas e o preço de 48 euros.
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Quanto a Mário Cesariny, a Assírio irá reeditar Vieira da Silva - Arpad Szenes ou o Castelo Surrealista, publicado originalmente em 1984 e há muito esgotado, e uma edição fac-similada de Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, publicado originalmente pela Contraponto em 1953.

13.1.09

Xutos & Pontapés: 30 anos

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[Remar, Remar (1984) em versão ao vivo]

12.1.09

Rodrigues da Silva (1939-2009)

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Morreu na madrugada do dia 10 José Manuel Rodrigues da Silva, brilhante jornalista e editor do Jornal de Letras desde 1992, depois de ter passado pelo Diário Popular, Diário de Lisboa e O Jornal.
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Foi este o último texto que escreveu para o JL, publicado em 8/10/2008:
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Um imenso adeus
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Inicio hoje a célere caminhada para o esquecimento. Uma caminhada, na verdade, já iniciada há uns meses, quando, devido ao cancro, fiquei de baixa médica permanente, deixando de escrever para este jornal, para o qual escrevia, número após número (sem falhar um único) desde 1993.
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Com 68 anos de idade e doente, pedi a reforma, que note-se ninguém me impôs; impu-la eu a mim próprio, porque me recusei a prosseguir de rastos uma profissão onde me orgulho de durante 40 anos ter sempre andado de espinha direita. E meu orgulho maior sem apoio de partidos, igrejas, maçonarias, mundanismos, lobbies de qualquer espécie e quaisquer corredores de poder, que nunca frequentei, até porque jamais votei nos partidos de governo.
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Mas se digo que inicio hoje, ou iniciei já há meses, a célere caminhada para o esquecimento, é porque este é bem capaz de ser o meu derradeiro texto para o JL, jornal em cuja ficha técnica o meu nome, como editor, aparece hoje, dia 8 de Outubro de 2008, pela última vez. A partir de depois de amanhã, dia 10, estou reformado; ponto final. A pensão (à volta de 2 mil euros, mais uns picos, menos uns picos, ainda não sei ao certo) é a que é me devida após quatro décadas ininterruptas de jornalismo, antecedidas de três anos na defesa da Fé e do Império pelas plagas afr icanas. É uma reforma ligeiramente inferior à daquela rapaziada que passou uns anitos (ou nem isso) pela administração da Caixa Geral de Depósitos, e também menor do que a daquela outra rapaziada que, sem levantar cabelo, se mantém, mui quieta e posta em sossego, dez anos no Parlamento.
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Mas a vida é assim, nem todos possuem vocação deputal e, quanto ao resto, como na Fanny Owen sentenciou a Agustina, «uns têm sorte, outros têm paciência».
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Mas dizia eu do esquecimento. E dizia porque o jornalismo contém em si uma epistemológica contradição. Como historiadores do instante, os jornalistas fabricam a memória, mas, incapazes de reter a História do Jornalismo (que não é a mesma coisa que a História da Imprensa), fabricam em simultâneo o seu próprio esquecimento. Na avidez na notícia, vampirizam o presente, e o presente paga-lhes na mesma moeda: jornalista que deixe de escrever deixa de existir, para em breve nunca sequer ter existido. As stars jornalísticas do momento que se preparem: por muito que hoje andem nas bocas do mundo, um dia virá em que ninguém sabe quem são, em que ninguém sabe quem foram.
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Sei de dezenas de grandes jornalistas, a quem o jornalismo português muito deve, mas que hoje nem os próprios jornalistas sabem que existiram. Alguns, a maior parte deles já falecidos, tenho-os como meus mestres na tarimba da profissão, e podia evocá-los neste texto. Podia e talvez devesse, mas não o farei.
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Porque neste texto de despedida optei por, em vez de evocar os meus mortos, invocar os meus vivos. E os meus vivos neste momento não podem ser outros senão os camaradas do JL, um jornal fundado em 1981 e dirigido até hoje pelo Zé Carlos de Vasconcelos.
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Se sublinho isto, que toda a gente sabe, é porque faço questão de aqui declarar que, durante quatro décadas de profissão, em nenhum outro jornal gozei de tanta liberdade criativa como no JL, onde sempre escrevi o que quis e sobretudo como quis. Razão pela qual considero que é neste JL que jazem os meus melhores textos jornalísticos.
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Mas a invocação dos meus vivos não passa apenas pelo Zé Carlos. Passa também pela Maria Otília (dele e nossa secretária), pelo João Ribeiro (velho repórter fotográfico, meu companheiro de mil e um serviços), pelo Miguel Eduardo (gráfico com quem há quinze anos trabalho face a face, não raro trocando impropérios), pelas Maria João e Maria Leonor (de cujo percurso sou cúmplice há mais de duas dezenas de anos), como cúmplice sou também, mas mais recente, do Manel Halpern e até da Rita e da Marta (duas noviças que ainda não percebi se querem mesmo professar no jornalismo).
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Falta alguém a esta lista de grandes camaradas e de excelentes profissionais? Falta, sim senhor, e não por acaso, porque quis reservar para o fim dois dos mais jovens jornalistas a quem este jornal já muito deve. Sem desprimor para ninguém, o seu voluntarismo, o seu entusiasmo, o seu dinamismo, a sua solicitude e a sua generosidade são contagiantes.
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Nesta hora esperar-se-ia que eu dissesse, evocando os mortos, que ando no jornalismo há tantos anos que ainda trabalhei com A, B e C, tudo jornalistas esquecidos. Mas não é isso que eu vou dizer. O que eu vou dizer é que ando nisto há tantos anos que ainda tive o privilégio de trabalhar com o Luís Ricardo Duarte e com a Francisca Cunha Rêgo. E digo mais: digo que, graças ao modo como eles encaram e praticam a profissão, fazem parte daquela infantaria do jornalismo a que me orgulho de sempre ter pertencido. Como a restante redacção do JL, são gente da minha espécie, daquela espécie para a qual um jornalista está sempre em serviço. Isto porque o jornalismo (o verdadeiro, não a sua abjecção) é uma honra mas também um sacerdócio.
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Uma espécie que, noutros tempos, acreditava que os jornalistas iam desaparecendo, mas os jornais não; como instituições, eram eternos. Mas afinal não eram: dos dez jornais diários que se publicavam em Lisboa nesse remoto 30 Junho de 1968 em que me iniciei na profissão sobra um, e da meia dúzia de revistas então existentes, nem isso: foram-se todas. Não refiro isto por saudosismo, mas porque sei que nada, nem ninguém está seguro no jornalismo português actual. Mesmo quem pensa que está, provavelmente está-o bem menos do que julga. Daí que, neste meu texto de despedida alerte os leitores para a possibilidade de esta redacção, que durante década e meia integrei, um dia se desfazer. Como se a minha passagem à reforma fosse o início de um fim, e esse sim, seria o meu maior desgosto; um desgosto de morte. Todavia, se tal acontecer, não percam de vista o Zé Carlos, as Joões, as Leonores, os Halperns e os jovens Ricardo e Francisca. Eles todos hão-de continuar a escrever por aí, honrando a profissão. Acreditem em mim, que sou macaco de rabo pelado e ando nisto há 40 anos. Ou andava...
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Rodrigues da Silva

10.1.09

Luiz Pacheco: "Os dois ases d'O Volante"

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Os dois ases d’O Volante
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Será que ele ainda se lembra, como eu? Pois era aquilo um terror apanicado, que nos tolhia a ambos. Um silêncio que nos calava, constrangidos, talvez a pensar quem iria primeiro para o olho da rua. Quando chegava da imprensa Astória o novel número d’O Volante, o Mário Cesariny de Vasconcelos e eu, que éramos os esteios da Redacção daquele órgão de automobilismo, turismo e aviação (ao tempo, quase único em Portugal e o mais antigo, pioneiro do automobilismo da Velha Guarda, com prestígio internacional), percorríamos as páginas à procura da gralha, do disparate, que nos lixasse de vez. O Director, Campos Júnior, durante algum tempo ainda supus ser o autor daqueles romances históricos (Ala dos Namorados, Os Doze de Inglataerra) que lera na infância, o nosso director e também o proprietário era exigentíssimo… mas só com os anúncios. Felizmente. Ou, decerto, não teria admitido dois sujeitos que de automobilismo nada percebiam. Poderei estar enganado: a minha só vantagem sobre o Mário era que eu sabia andar de bicicleta e ele acho que nem isso. Mais: eu comprara com uns dinheiros roubados uma moto BSA 2,5, LI – 5736, ao stand do Vidal, coisa (ostentação de bens, em desmesura com os ganhos reais – fenómeno social muito em prática nos tempos que correm) que ia dando bronca.
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As nossas aventuras naquele emprego maluco ainda agora me divertem. Havia, claro, quem ali percebesse de carros, era o Hélio Esteves Felgas. Nós limitávamo-nos às tarefas menos nobres, coisas de pacotilha, traduções, revisão tipográfica. E mesmo assim! Tenho contado isso: não querem acreditar-me! O Poeta Mário Cesariny e o Pacheco a fazerem a cobertura jornalística do circuito de Monsanto, na época a grande prova nacional, equivalente aos giros no autódromo; os Mil Quilómetros do Benfica, o Rally Shell e tantas mais. Não sei se alguma vez o Mário entrevistou o Fangio. Como sabia espanhol, seria ele o indicado. E como se desenrascaria? Lembro como eu fazia, em Monsanto: ia para junto das «boxes». Escutava, feito SIS, os comentários técnicos da malta. Registava. E trazia tudo para a minha reportagem. Ah, e antes que me esqueça, foram tempos esses que recordo com ternura. Havia mais companheiros: o Vítor Direito, estudante ainda; O João Alves das Neves, o José de Freitas. Acima, muito acima, o Cesariny, foi quando lhe editei o Manual de Prestidigitação e nos dávamos como irmãos.
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[Luiz Pacheco, in Diário Económico de 26-07-1995 e Figuras, Figurantes e Figurões, O Independente, 2004]

8.1.09

Luiz Pacheco: a homenagem da Galeria Perve

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Até ao dia 10 deste mês a Galeria Perve está a homenagear Luiz Pacheco, no âmbito do seu 2º Encontro de Arte Global. São mostrados alguns textos inéditos do autor e excertos de um Diário Falado, gravado entre 1994 e 1998, ambos cedidos por Ana da Silva.
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Podem também ser vistas diversas fotografias e documentos respeitantes à editora Contraponto e à sua relação com Mário Cesariny.
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A Perve está em Alfama, na Rua das Escolas Gerais.

5.1.09

Um ano sem Luiz Pacheco (7 de Maio de 1925 - 5 de Janeiro de 2008)









[excertos do documentário de António José de Almeida sobre Luiz Pacheco]

31.12.08

Alguns livros de 2008

  • O Homem sem Qualidades, Robert Musil, Dom Quixote
  • Fome, Knut Hamsun, Cavalo de Ferro
  • Menina Else, Arthur Schnitzler, Cotovia
  • O Diabo e Outros Contos, Lev Tolstói, Relógio D'Água
  • A Educação Sentimental, Gustave Flaubert, Relógio D'Água
  • O Primeiro Amor, Ivan Turgeniev, Relógio D'Água
  • Trópico de Câncer, Henry Miller, Presença
  • O Festim da Aranha, vários autores (escolhidos por Aníbal Fernandes), Assírio & Alvim
  • A Faca Não Corta o Fogo, Herberto Helder, Assírio & Alvim
  • Gatos Comunicantes, Mário Cesariny e Vieira da Silva, Assírio & Alvim
  • O Crocodilo que Voa, Luiz Pacheco, Tinta da China
  • Já Cá Não Está Quem Falou, Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim
  • A Vida de Horácio, José António Almeida, &etc
  • Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, Fernando Cabral Martins (org.), Caminho
  • Lisboa – História Física e Moral, José Augusto-França, Livros Horizonte

29.12.08

A aberração tornada regra

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"Exemplo triste e eloquente da aberração que se tornou regra: a capa da mais recente reedição de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino (Teorema), tem letras prateadas e em relevo. Calvino é um dos grandes escritores do século XX e este livro é dos mais importantes da sua obra. Não é literatura de quiosque nem se destina às massas. Tentar traficá-lo desta maneira dissimulada é um péssimo serviço prestado pela editora. Mas esta é a regra em que vivemos no campo editorial: os livros são editados visando os «consumidores» que não os vão ler e pondo à distância os leitores que sabem o que querem ler. E como esta é a regra, as livrarias portuguesas tornaram-se um imenso bazar de capas coloridas, o que desafia qualquer capacidade de orientação: é tudo igual a tudo e até um livro de Carl Schmitt (imagine-se) vem disfarçado de subliteratura. A sobreprodução editorial, sem fim à vista, dá ao espectáculo um aspecto exasperado, onde se consuma sem pudor a lei da economia que tem sido transposta para outros campos: a má moeda expulsa a boa moeda."
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[António Guerreiro, Actual (suplemento do Expresso), 27/12/2008]

24.12.08

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[Max Ernst, Virgem espancando o menino Jesus perante três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o pintor, 1926]