19.3.09

Entrevista com Eduardo Sousa

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Pode ser ouvida aqui uma entrevista para o programa Lido e Relido, na TSF, de Eduardo Sousa, um dos livreiros da melhor livraria de Lisboa, a Letra Livre.

13.3.09

Mário Cesariny: a entrevista do JL (24-11-2004)

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A propósito do documentário Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes, o Jornal de Letras entrevistou Mário Cesariny. A entrevista foi conduzida por Maria Leonor Nunes e Ricardo Duarte:
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UM SOPRO DE LIBERDADE
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Primeiro é o impacto, depois a surpresa, finalmente o deslumbramento. O escritório de Mário Cesariny, onde decorreu esta entrevista, é um lugar único, próprio de um espírito insaciável. Os mais variados objectos, espalhados pelas paredes, recuperam a memória de uma vida sempre levada no limite. São quadros, alguns pintados por si, retratos, bibelots, fotocópias, cartas, envelopes, pedras da calçada, poemas, livros, como a epopeia de Gilgamesh, «do tempo em que a poesia estava ligada à vida». Ao fundo, a um canto, imagens e escultura de gatos. Entre blagues, muita ironia, e um assombro de inteligência, o poeta e pintor recorda a «implosão surrealista» e a sua utopia: «Liberdade, Poesia e Amor».
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Jornal de Letras: Vai ter uma grande exposição e recebeu um prémio de consagração da sua pintura. Curiosamente, hoje reconhece-se que muitas das suas pinturas e processos criativos da segunda metade dos anos 40 foram pioneiros não só em Portugal, como em todo o mundo?
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Mário Cesariny: Lembro-me de uma colagem que fiz quando andava com o Fernando Lopes-Graça na rua a apanhar porrada da polícia e a cantar as canções do coro [da Academia dos Amadores de Música]. Uma vez saímos da Graça, da Voz do Operário, a cantar e fomos por ali abaixo. Só parámos na Rua Barros Queirós, porque estava a decorrer uma reunião da União Nacional, no teatro D. Maria. Começámos a levar porrada e a fugir. As coisas que fiz… Estive no Partido Comunista Português mas deixei de estar sem nenhuma explicação.
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Como?...
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Disseram que não podia ter uma forte ligação, para me ir embora e esperar. Mas nunca mais me chamaram. Acho que era influência dos poetas neo-realistas que não achavam graça nenhuma ao Surrealismo. Por outro lado, nunca me lembrava de avisar o controleiro do que fazia. Não havia tempo. Uma vez quando o Mário Soares e o Júlio Pomar estavam presos no Aljube, organizámos uma sessão de protesto, em que distribuímos panfletos. Fomos todos para à PIDE, por estupidez, porque o plano era muito fraquinho.
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Quem estava consigo no grupo?
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O João Rodrigues, o Cardoso Pires, o Luiz Pacheco, e não me lembro de quem mais. Na PIDE, meteram-nos num quartinho. E quando chegou a altura de começar a levar porrada, entraram os Pides com uns paus… Um deles olhou para o Pires e perguntou: «O que faz você aqui?» É que o pai dele tinha uma casa alugada no prédio do pai do Pires… Esta dá bem a medida do provincianismo português. Mas evitou-nos a porrada e mandaram-nos embora.
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Mas estava a falar de uma colagem…
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… Era inteiramente surrealista. E causou alguma perturbação nas hostes do Lopes Graça.
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Quando faz essa pintura, tinha conhecimento do que se passava lá fora?
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Não, eu e o Alexandre O’Neill fizemos escorregamentos, figuras de sopro, tudo fora da pintura-pintura, Chagámos a utilizar o termo «despintura». Estávamos noutro planeta. Também há histórias tristes. O Fernando José Francisco era o que entre nós tinha mais garra de pintor, ainda mais do que o Cruzeiro Seixas. Mas encontrou uma linda infanta e quis casar com ela. E para isso tinha de ganhar dinheiro. Os pintores nessa altura só tinham duas alternativas: ou iam para o SNI, o Secretariado Nacional de Informação, do Salazar e do António Ferro, ou para a Sociedade Nacional de Belas Artes, dos velhotes. Não havia mais sítio onde expor. Como ele não quis pactuar nem com uns, nem com outros, deixou a pintura, casou e teve uma vida normal. Dedicou-se à publicidade.
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A sua escolha foi a mais difícil: continuar sem pactuar…
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Era mais difícil, mas eu não dava por isso. Sempre fui pouco atento a certas coisas… Bom, andar na rua e ir ao café sem ser preso já era uma proeza. Andar na rua, engatar alguém, e ir para uma pensão, era uma vitória. Estas eram as respostas que nós dávamos, com ou sem programa. Este era o ar que se respirava. Mas hoje é difícil imaginar o que era a ditadura.
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Como é que a recorda?
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Havia a moda das senhoras irem ao Chiado, à Pastelaria Garrett e à Benard, às cinco horas, todas chiques, com as jóias. Mas uma mulher sozinha na rua, em qualquer lado, arriscava-se a muitas coisas chatas: que lhe apalpassem o rabo, ou que lhe chamassem puta… E a repressão dos homossexuais também era feroz, ao mesmo tempo que mesquinha. O que o Salazar se preocupava com o rabo dos portugueses! Era uma obsessão. Havia sempre informadores, não se podia dizer mal do governo. No Café Gelo sabíamos qual era o Pide que estava de serviço, mas dizíamos coisas tão extraordinárias que ele ficava maluco. O Salazar era saloio, nunca poderia ter uma quinta, apenas um quintalzinho. Não deixou prosperar a grande indústria e fez disto tudo um quintal para a srª Maria ir buscar umas lenhas para assar a galinha. Já houve quem lhe chamasse o primeiro ecologista. Lá isso era…
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Começou a escrever poesia antes de começar a pintar…
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Comecei. Já tinha os poemas, de esquerda, e não surrealistas, que foram reunidos no livro Nobilíssima Visão. Por volta de 1945 ou 46, eu e o O’Neill descobrimos um livro que a censura das fronteiras deixou passar não sei bem porquê. Chamava-se História do Surrealismo, de Maurice Nadeau, que dava o movimento por encerrado com a II Guerra Mundial. Ficámos abismados com o sopro de liberdade, de poesia. E tornámo-nos surrealistas. Em 47 enganei o meu pai, dizendo-lhe que ia a Paris arranjar um emprego. Mas não havia emprego nenhum, estive lá a contactar os surrealistas.
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No ambiente irrespirável da ditadura a sua poesia foi um grito, uma revolução?
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Claro. Mas apesar de tudo, tínhamos uma vantagem, porque os pequenos livros de poesia que eu fazia, assim como outros, não tinham de ir à censura. Ao contrário das obras mais caras, com muitas páginas, que os editores não arriscavam publicar sem passar pela censura. E há aquela anedota que o Luiz Pacheco contava. Ele trabalhava na Inspecção Geral dos Espectáculos – era uma ratazana que estava a roer aquilo tudo – e descrevia uma conversa muito engraçada entre dois censores. Naquela semana, o João Gaspar Simões tinha dito mal de um livro do Alves Redol, acho que era a Barca dos Sete Lemes. E ao ler a crítica, um deles larga isto: «Se soubéssemos que era tão mau, tínhamos cortado mais». Esse era o país em que vivíamos. De um lado uma ordem férrea, do outro, uma desordem total, a tacanhez das pessoas.
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E a pintura, foi um meio de chegar à liberdade poética?
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Também. Até digo que a pintura me ajudou a desconjuntar a antiga poesia, atirando-me para uma maior liberdade. Trabalhei muito no caso objectivo, nas figuras de sopro, coisas à margem. Ajudou a limpar as excrescências da poesia.
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Em que sentido?
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Nem todos os textos de escrita automática valem a pena, mas alguns extraem-nos coisas que nem sabemos que estão cá dentro. E isso foi importante para mim. É uma procura da inspiração, alheada do racionalismo que a França espalhou a partir de Descartes.
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E porque deixou de escrever, ou pelo menos de publicar?
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Ah, isso tem de perguntar aos deuses… Não foi uma escolha, aconteceu assim, para meu grande desgosto. Ainda me lembro das tardes e noites sozinho pela Avenida da Liberdade, a dizer versos. E escrever era como voar, voar, voar. Para uma interpretação simpática e pretensiosa, pode dizer-se que o fogo era tal… que me consumiu. Ficaram só as cinzas, e com as cinzas não se faz poesia. Não sou capaz de escrever sem a tal luzinha que vem, nos salva e faz voar. E com a pintura está a passar-se o mesmo.
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Mas nunca deixou de pintar.
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Sem fazer poesia, se eu não pintasse rebentava. Tinha de fazer qualquer coisa e passei a pintar mais. Os benevolentes diziam que era porque a pintura dava dinheiro e a poesia não. É mentira, não é por isso. Não há dinheiro que se compare ao prazer de sentir os raios virem animar-te. É uma exaltação linda. A pintura também a dá. Mas parece mais impessoal a quem a faz.
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Mais impessoal?
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Sim. Porque a poesia é mais afecta à realidade imediata, é mais objectiva. Tens de dizer se te dói a barriga, se vais conspirar contra o Salazar, se é de dia, se é de noite. Se está apaixonado pela menina do lado e aflito por ela não te ligar nenhuma. Isso é a escrita, o que eu vou ou não fazer. Na pintura nada disso existe, agarra-se e tá tá tá… Mas o processo criador é isso mesmo, seja na pintura, na poesia, no teatro ou no bailado.
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Como vê a poesia contemporânea e os novos poetas?
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Acho que em todo o mundo, não só cá, a partir dos anos 50 e 60 a coisa começou a deteriorar-se. Na pintura, apareceram os americanos a fazer fotografias. E na poesia os textualistas, que é uma coisa muito chata. Mas eu não posso dar uma palavra definitiva a esse respeito. É possível que num cantinho qualquer, até perto daqui, esteja um homem a escrever versos lindíssimos que hão de aparecer daqui a dez anos.
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Falou da viagem a Paris, em 1947, onde conheceu o André Breton…
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…Não fui a Paris conhecer o Surrealismo. Quando fui, já era surrealista. Estive com o Breton em casa dele e num café.
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Era uma altura de convulsão…
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…e de entusiasmo. Era o fim da guerra. O Surrealismo estava lá em plena efervescência, porque aqui, com o Salazar à perna… Era uma guerrilha, aparecíamos, desaparecíamos, para reaparecer noutro lado. Não podíamos fazer um ataque frontal, porque ao contrário dos neo-realistas, a prisão para nós era um falhanço, não uma vitória. Em todo o caso houve respostas de vários jovens, nos anos 50, aquele grupo do Café Gelo. Ah, os cafés que já não há… A desgraça começou com a televisão, quando aquilo está aceso é impossível não olhar para lá. Depois, o progresso tratou de mais triunfos… A verdade é que só a ideia de um grupo surrealista aqui em Portugal, com o Salazar, era um bocado louca. E houve tantas confusões que no estrangeiro não se percebia nada, uns diziam uma coisa, outros diziam outra, uma salganhada à portuguesa. Eu vim de Paris com uns projectos, mas o António Pedro encarregou-se de destruir tudo. Escrevi ao Breton quando decidi deixar o Grupo [Surrealista de Lisboa] e acho que eles desistiram de perceber, pelo que lá fora não se falou mais do surrealismo português.
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Como foi o encontro com o André Breton?
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O Breton era realmente um leão, em todo o sentido. Do aspecto até ao que dizia. No final da vida talvez fosse o homem mais desesperado que se podia ser. Estive com o Octávio Paz, no México e ele falou-me das longas conversas que tiveram a passear à noite e em que ele lhe confidenciava o seu temor pelo futuro do surrealismo. Com a repercussão que os seus livros tiveram em todo o mundo, mais a pintura e a poesia, devia estar muito contente. Mas não, estava triste porque o que ele realmente queria era a Revolução, que não houve. Pode ter havido individualmente, mas não na sociedade.
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Ainda poderá haver?
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Continua a haver surrealistas por esse mundo fora, com ou sem grupos. Em Chicago, há um grupo surrealista muito forte e guerreiro, como não podia deixar de ser. E também no Brasil, e em outras partes do mundo. No outro dia, entrou-me por aqui um rapaz desesperado. E disse «Tem de haver um Neo-Surrealismo». Eu, que não sou nada político, disse-lhe: Calma aí, Neo-Surrealismo não pode haver. Ou há Surrealismo ou não há. Se calhar devia tê-lo acarinhado mais, porque percebo a sua revolta, a sensação de que tudo está caído. Agora não nos cabe a nós, surrealistas de uma certa idade, para não dizer velhotes, estar sempre a repetir a lição. Um surrealista não consegue estar sempre a cantar a mesma cantiga, que ouviu, ouviu quem não ouviu, olha, paciência.
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Mas o que é ser surrealista, hoje?
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No século passado parece que houve duas grandes revoluções. A primeira foi a revolução russa, que acabou exterminada às mãos do Estaline. Diz-se que Estaline é o mau da fita, mas se o Lenine tivesse continuado faria o mesmo. Portanto, foi uma tragédia, uma grande aspiração e um fracasso total. Com o Surrealismo aconteceu o mesmo. Acho que é uma Revolução muito mais utópica e foi enterrada nos museus e nas bibliotecas. O que é o Surrealismo? É a pintura que está nos museus, no Rainha Sofia [em Madrid], no Museu do Chiado, que é de fartar de rir. Passou a ser encarado como uma outra forma de arte. E não é, é uma Revolução. Mas como não podíamos piar a sério, no tempo do Salazar, a nossa revolução foi uma implosão, uma coisa para dentro que nos modificou e que ditou o nosso comportamento.
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É essencialmente uma atitude?
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Não nos podemos esquecer que Breton, numa das suas antologias, incluiu o Jacques Vaché, que não escreveu uma linha, nem pintou um quadro. Suicidou-se com outro jovem num hotel de pouca categoria. Há só bilhetes postais que eles escreviam. Não é pela pintura, pela música, pela arquitectura, nem por nada disso, que um tipo é surrealista. Um tipo é surrealista quando é. Por uma escolha, não sei se ditada por um comportamento biológico, mas é uma escolha de uma forma de vida a que chamamos Revolução. Transformar o mundo, disse o Marx. Transformar a vida, disse Rimbaud. E o Breton inventou: Estas duas palavras são para nós uma só. Por isso eu digo, ao contrário de…, bom…é melhor não dizer nada. O Surrealismo agora é muito bonito para fazer uma exposição, mas espero que alguém se lembre (e o Perfecto Cuadrado já tem feito imenso pelo Surrealismo, por isso não é uma tirada para ele) de dizer que o Surrealismo é uma Revolução, Mental, Social, Moral…
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E qual é o objectivo dessa revolução?
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As três palavras de ordem a que os surrealistas se propuseram: Liberdade, Amor, Poesia.
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A TENÇA, O CHAUFFEUR, O CEGO E ALGUNS CIGARROS
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Vivemos num país que tem «um tecto muito baixo», em que «o dinheiro não chega para mandar cantar o cego cultural». E a este país Cesariny não «deve nada», como diz no documentário Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes, que foi para ele, sublinha, uma «experiência muito bonita», um encontro que lhe deu «muita alegria».
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JL: Como se viu em Autografia?
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MC: Deu-me uma grande alegria ver que havia alguém que dava por mim, por aquilo que eu sou ou não sou. Até há pouco tempo só apareciam jornalistas a perguntar: «O que é o surrealismo?» E acho que ele fez um documentário muito bem feito. Bem, não vamos falar mal de outros cineastas… Mas este promete e tem uma paixão louca pelo cinema. Espero que o tecto baixo que este país tem há muitos anos, e não estou a falar só do Governo, não venha a dar cabo dele.
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Que ‘tecto baixo’ é esse?
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Pessoas muito amáveis dizem que sou um grande poeta e outras coisas assim. Eu aceito: sou um grande poeta numa época em que o tecto está baixinho, percebe? Por outro lado, e isto não é um queixume, porque a minha vida apesar de tudo é uma escolha, se eu fosse espanhol, como a minha mãe, já tinha um automóvel, um chauffeur e uma casinha onde eu quisesse. Mas em Portugal, o dinheiro não chega para mandar cantar o cego cultural. O cego cultural está muito em baixo… Por isso, devo ficar muito contente com a «tença» que recebo do Estado, por mérito cultural. E que dá para o tabaco. Foi-me dada há 15 anos, ou mais, e nunca foi actualizada.
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Nem com a inflação?
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Nada. Uma vez perguntei a uma pessoa do Governo: «Mas então como é? Há 15 anos, 130 contos até faziam um certo serviço. Agora não aumenta?» Não falava só por mim, mas por todos aqueles que também a recebem. Até o Luiz Pacheco, mas esse faz uma barulhada… Deram-lhe a tença para ver se ele se moderava. A mim já me chamou de tudo. Acho que a ideia dele era que eu respondesse. Mas nunca respondi. É mais com ele do que comigo: ele queria que eu fosse um herói. Mas eu não gosto de ir para a cadeia, não lhe fiz o gosto. Acho sempre mais agradável o exemplo do Voltaire: quando as coisas estavam tremidas em Paris, ele agarrava num saquinho com um relógio e ia ter com aqueles príncipes [-eleitores] alemães. Ficava lá na conversa, até que passava a crise… No tempo de Salazar, houve uma glorificação de quem ia preso. E quem era preso era bestial. Eu também estive preso, não por motivos políticos, mas por questões mais sérias…
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Quando é que esteve preso?
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Não quero falar disso, já se falou.
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No documentário Autografia diz, inclusivamente, que não deve nada a este país.
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Ah, pois não…
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E este país deve-lhe muito?
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Não sei se me deve, mas realmente eu não lhe devo nada. A não ser… Sabe que as ditaduras põem as pessoas mais… como é que hei-de dizer?, sabe-se quem é o inimigo. E toda a gente, zás, pancada no inimigo. No caso, era o Salazar. Havia uma grande unidade na oposição, porque ele era o diabo a abater.
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E hoje não se sabe quem é o inimigo?
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Uma vez falando com uma pessoa que foi muito importante na Revolução – não quero dizer quem é, para não parecer que estou a lamber botas – disse-lhe: «Oh, sr. dr. diga-me lá uma coisa, os socialistas não podem, não querem ou não sabem? Uma destas três coisas tem de ser». Não sei se por ratonice política ou espontaneamente ele respondeu-me: «Eu sei, este Guterres foi uma tragédia que nos aconteceu…» Mas eu não falava do Guterres! Falava do socialismo em todo o mundo. Está tudo assim de cabeça ao vento e não se percebe bem porquê… Mas penso que os socialistas não podem, porque há forças contrárias muito grandes…
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Que forças são essas?
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É a direita em todo o lado. Nós somos um apêndice. Já se fala que o Le Pen é capaz de voltar por causa dos véus e não sei que mais…

12.3.09

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[Mário Cesariny, Figuras de Sopro, 1947]

11.3.09

Renovar a Mouraria

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Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima (foto tirada daqui)
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A Associação Renovar a Mouraria (ver site e blog) está a comemorar o seu primeiro aniversário, estando por isso de parabéns.
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O programa das actividades, que estão a decorrer durante o mês de Março, pode ser consultado aqui.

9.3.09

O Surrealismo na Fundação Cupertino de Miranda

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[Cruzeiro Seixas, A Grande Refeição, 1972]
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Absolutamente a não perder a exposição sobre o surrealismo que a Fundação Cupertino de Miranda trouxe a Lisboa, à Cordoaria Nacional.
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A exposição é composta por pintura, desenho, fotografia e escultura e inclui todos os grandes nomes do surrealismo português: Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, António Dacosta, Vespeira, Alexandre O'Neill, Fernando Lemos, Risques Pereira, Mário-Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Carlos Eurico da Costa, Isabel Meyrelles, Raúl Perez e muitos outros. Estão ainda na exposição alguns nomes com ligações vagas ao surrealismo, como Paula Rego ou Teixeira de Pascoaes. Podemos ver ainda algumas obras de artistas estrangeiros, como este cadavre-exquis (1936) de André Breton, Greta Knutson, Tristan Tzara e Valentine Hugo:
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A exposição pode ser vista até 29 de Março, de terça a sexta, das 10h às 19h e Sábados e Domingos, das 14h às 19h.

A entrada é gratuita.

4.3.09

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[Carlos Paredes, Os Verdes Anos]

3.3.09

Os Verdes Anos

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Vai passar hoje, às 22h, na Cinemateca, Os Verdes Anos, de Paulo Rocha. Estreado em 1963, este mítico filme foi, juntamente com Belarmino (1964), de Fernando Lopes, e poucos mais, absolutamente revolucionário para o cinema português. Estes filmes definiram uma nova forma de fazer cinema em Portugal, muito influenciada pela Nouvelle Vague francesa, rompendo com tudo o que se fazia por cá até então. N'Os Verdes Anos colaboraram nomes como Nuno Bragança, Pedro Tamen ou Carlos Paredes e teve actores como Isabel Ruth, Rui Gomes, Ruy Furtado ou Paulo Renato.
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Uma vez que não está disponível em DVD, há que aproveitar quando, volta e meia, a Cinemateca se lembra dele.

2.3.09

As letras de João Aguardela

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[de Uma Inocente Inclinação para o Mal, 2008]
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filha de duas mães
adoro vesti-las de igual
tenho andado à tua procura
para te amar
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sobre a mesa posta
sem nenhuma vaidade
ensinar-te-ei meu amor
a praticar a caridade
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nunca direi saudade
ligo pouco ao que se diz
mas não levo muito a mal
a ideia de ser feliz
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_m.r.t.
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Quando saiu o terceiro álbum d'A Naifa, Uma Inocente Inclinação para o Mal, a autoria das suas letras foi atribuída a uma misteriosa Maria Rodrigues Teixeira, cuja existência deixou muitas dúvidas.
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Foi agora divulgado aquilo que já se desconfiava: estas magníficas letras foram escritas por João Aguardela, recentemente desaparecido.

1.3.09

Já está nas livrarias

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A Obra Completa (1969-1985), de Nuno Bragança, em 735 páginas. Edição Dom Quixote.

27.2.09

Henry Miller: “o meu mundo”

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“A maravilha e o mistério da vida, que são sufocadas em nós quando nos tornamos membros responsáveis da sociedade! Até sermos empurrados para o trabalho, o mundo era muito pequeno e nós vivíamos na sua orla, por assim dizer na fronteira do desconhecido. Um pequeno mundo grego, apesar de tudo suficientemente profundo para nos proporcionar toda a espécie de variedades, toda a espécie de aventura e especulação. Mas também não era tão pequeno como isso, pois tinha de reserva as mais ilimitadas potencialidades. Não ganhei nada com o alargamento do meu mundo; pelo contrário, perdi. Desejo tornar-me cada vez mais infantil e passar para além da infância na direcção oposta. Quero seguir exactamente ao contrário da linha normal de desenvolvimento, passar para um estado de ser superinfantil, que será absolutamente louco e caótico, mas não louco e caótico como o mundo que me rodeia. Fui adulto, e pai, e membro responsável da sociedade. Ganhei o pão de cada dia. Adaptei-me a um mundo que nunca foi o meu. Quero abrir caminho através desse mundo alargado e encontrar-me de novo na fronteira de um mundo desconhecido, que mergulhará em sombra este mundo pálido e unilateral. Quero passar da responsabilidade da paternidade para a irresponsabilidade do homem anárquico que não pode ser coagido, nem adulado, nem persuadido, nem caluniado. Quero escolher como guia Oberom, o cavaleiro nocturno que, sob o palio das suas asas negras, elimina tanto a beleza como o horror do passado; quero correr para uma alvorada perpétua com uma velocidade e uma implacabilidade que não deixem campo para o remorso, pesar ou arrependimento. Quero ultrapassar o homem inventivo que é uma maldição para a Terra, a fim de me encontrar de novo perante o abismo intransponível que nem as asas mais fortes me permitirão vencer. Mesmo que me torne um parque natural e selvagem habitado apenas por sonhadores indolentes, não me quero deter a descansar aqui, na fatuidade ordenada da vida adulta, responsável. Quero fazê-lo em memória de uma vida sem comparação alguma com a vida que me foi prometida, em memória da vida de uma criança que foi estrangulada e reprimida pelo consentimento mútuo daqueles que se tinham rendido. Renego tudo quanto os pais e as mães criaram. Vou regressar a um mundo ainda mais pequeno do que o antigo mundo helénico, regressar a um mundo que poderei sempre tocar se estender os braços, ao mundo do que sei, e vejo, e reconheço de momento a momento. Qualquer mundo é absurdo para mim, absurdo, e estranho, e hostil. Ao reatravessar o primeiro mundo luminoso que conheci em criança, não desejo parar lá e, sim, forçar a passagem para um mundo ainda mais luminoso, do qual devo ter vindo. Ignoro como esse mundo é e nem sequer tenho a certeza de o encontrar, mas é o meu mundo e nada mais me preocupa.”
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[in Trópico de Capricórnio, trad. Fernanda Pinto Rodrigues, ed. Livros do Brasil]

26.2.09

Trópico de Capricórnio

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A reedição da obra de Henry Miller continua em ritmo acelerado. Depois de Trópico de Câncer (Presença) e Sexus (Asa), chega agora às livrarias Trópico de Capricórnio (novamente na Presença), publicado originalmente em 1939 e passado na Nova Iorque dos anos 20. Mais uma vez a capa é desastrosa...

25.2.09

A censura passeia por Braga

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[Gustave Courbet, A Origem do Mundo, 1866]
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Esta pintura de Courbet está reproduzida na capa de Pornocracia, de Catherine Breillat, livro que a PSP de Braga apreendeu numa feira do livro perante um suposto “perigo de alteração da ordem pública”, acabando depois por dar umas desculpas esfarrapadas e devolver os livros. Todo o processo teve um aspecto de tal forma pidesco, que por momentos me senti a recuar umas décadas. Nem sequer faltou a confusão dos agentes entre "Pornocracia" e "Pornografia"e tudo isto se passar em Braga. Seria de rebolar a rir, não fosse o facto de estarmos perante um assunto muito sério e esta sensação de estar a recuar para outros tempos me ocorrer cada vez com mais frequência.

20.2.09

Os carros contra a cidade

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"Quem passa de carro na Baixa vindo de não sei onde para ir para não sei onde, de janelas bem fechadas, e que acha que ali não mora ninguém e que para ir às compras é no Colombo terá grande dificuldade em perceber por raio haverá de encontrar caminhos alternativos e andar às voltas quando por ali é sempre a direito. Parece até que o Automóvel Club de Portugal ameaça processar a autarquia se avançar com as restrições de tráfego na Baixa. Será um processo interessante e absolutamente simbólico do que está em questão: os carros contra a cidade. Até agora, todo o planeamento de Lisboa foi feito a pensar no tráfego automóvel e na sua fluidez. Tudo o resto foi visto como secundário ou mesmo inexistente. É normal que quando finalmente se tenta introduzir algum equilíbrio na gestão da cidade e começar a dar primazia às pessoas, os carros se enraiveçam e tudo façam para manter o seu império. Porque é mesmo disso que se trata: se ganham os carros ou a cidade, os carros ou as pessoas. É bom que todos os que querem uma cidade e não uma auto-estrada percebam que há uma guerra, e que é preciso lutar."
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[Fernanda Câncio, DN (13-02-2009)]
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Não posso estar mais de acordo, é óbvio que a Baixa não pode ter o volume de tráfego que tem, ainda por cima quando a maior parte nem sequer se destina à Baixa, mas é mero tráfego de atravessamento. A única coisa que me preocupa é a possível sobrecarga de outras zonas. A redução de trânsito tem de se fazer em toda a zona central de Lisboa, não só na Baixa, apostando em bons transportes públicos (mais eléctricos, por exemplo) e obrigando as pessoas a andar neles, criando barreiras ao automóvel particular. É tempo de acabar com a mentalidade terceiro-mundista que obriga as "classes médias e altas" a circularem de carro (quanto maior e mais caro melhor) e que desclassifica socialmente quem utiliza o trasporte público.

17.2.09

Confundir Primo Levi com Paulo Coelho

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“Saiu, suponho que muito recentemente, uma nova edição de Se isto é um homem
[…]
“Nesta nova edição na editora de sempre, a Teorema, o nome do autor aparece em tamanho garrafal e em relevo, impresso a verniz e, não fôssemos nós não alcançar o dramatismo da obra (e deste nome de autor), a vermelho. Na capa, uma foto de um campo que em nenhum lado do livro é referenciada. Ao cimo, antes mesmo do nome do autor, uma frase promocional: «Uma das mais lúcidas e impressionantes visões dos campos de extermínio nazis». Ainda assim, a coisa parece não ter sido bastante, pois abaixo do título, e entre dois filetes a preto, surge a frase que realmente importa: «Best Seller clássico da literatura mundial».”
[…]
“há uma certa diferença entre editar Primo Levi e Paulo Coelho. E nada melhor, para perceber a evolução cínica do capitalismo livreiro nas últimas décadas, do que assistir a fenómenos como o desta recodificação de um fundo de catálogo que não corresponde já hoje à editora que o produziu.”
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[Osvaldo Manuel Silvestre, n’Os Livros Ardem Mal]
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Vale mesmo a pena ler o post todo.
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É muito triste o rumo que a Teorema está a levar depois de ter sido engolida por sucessivos grupos livreiros e obrigada a alinhar com a tendência de pôr todas as capas com aspecto de literatura light de terceira categoria (já aqui tinha referido as últimas edições de Italo Calvino e Henry Miller). Custa-me a crer que Carlos da Veiga Ferreira concorde com coisas destas, mas provavelmente não pode fazer grande coisa…

16.2.09

Raúl Perez no CCB

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É hoje inaugurada, no CCB, a maior exposição de sempre dedicada a Raúl Perez. Termina a 12 de Abril.