25.4.09
24.4.09
23.4.09
Tristessa
22.4.09
21.4.09
20.4.09
O país onde o dinheiro compra tudo

"O Paço do Duque mostrar-se-á novamente orgulhoso da sua herança, afirmando-se como uma notável ponte entre o Chiado de outros tempos e a Lisboa do século XXI."
[do site do empreendimento "Paço do Duque", na antiga sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso]
"Não sei quantos serão os endinheirados que ali se vão regalar a viver bem. Haverá certamente pois há sempre gente para tudo e mais alguma coisa. Até gente capaz de se sentir confortável olhando paredes onde já houve sangue espirrado de homens e mulheres sob tortura, comendo pancada, sem poderem dormir nem se sentarem durante dias ou semanas a fio só por não aceitarem uma ditadura que queria a todos com uma ideia só, a de obediência a Salazar, depois a Caetano. É certo que não vão ouvir agora gritos e urros dos antigos torturados. Nem os risos e os palavrões dos antigos pides, revezando-se nos turnos de tortura e de espancamentos, pisando a dignidade dos presos sem lei que os protegessem. Nem assistirão a presos atirados pelas janelas para se espatifarem no pátio. Mas não lhes gabo o gosto sádico de ali se sentirem bem, confortáveis, pagando com cheques sacados a contas gordas para habitarem um local de ignomínia."
[João Tunes, no Água Lisa]
"A suja história de sangue e horror do edifício e os gritos de dor de milhares de portugueses que as «velhas e nobres paredes com um metro de espessura» abafavam, são agora, pelo turvo milagre da usura, uma memória doirada, transbordante de festas e de bodas, e de duques, príncipes e embaixadores. Num país onde o dinheiro compra tudo, até a memória colectiva, os antigos torturadores tornaram-se «copeiros e gentis homens» ao serviço de ricaços e recém-chegados ansiosos por reconhecimento."
[Manuel António Pina, JN, 20-03-2009]
15.4.09
Mário Cesariny: Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos

7.4.09
Ler Devagar em Alcântara
3.4.09
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[Pacheco Pereira, Público, 29/03/2009]
1.4.09
Quero andar a pé! Posso?
29.3.09
Cruzeiro Seixas: entrevista à Time Out
. A propósito de uma grande exposição na Galeria São Mamede (termina no dia 2 de Abril), a Time Out entrevistou Cruzeiro Seixas:
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“O surrealismo é um pontapé!”
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Quem melhor para comentar o surrealismo em Portugal do que um dos seus fundadores? Miguel Matos à conversa com Cruzeiro Seixas.
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O Infinito Segredo é o nome da exposição patente na Galeria São Mamede, que reúne obras de Cruzeiro Seixas desde a década de 40 até aos nossos dias. Aos 88 anos, este homem finge que está velho mas acaba por provar diante dos nossos olhos que vive com força e faz os sonhos viver, não fosse a sua arte uma exploração onírica do inconsciente. Eis o ponto da situação pelo seu ponto de vista.
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Parece que as forças do inconsciente tomaram a cidade de assalto. É a exposição de surrealismo da Fundação Cupertino de Miranda na Cordoaria Nacional, Raúl Perez no Museu Berardo, surrealismo no Centro Português de Serigrafia, debates e conferências e agora a sua exposição... Acha que há um novo interesse por esta corrente, é uma miragem ou apenas uma feliz coincidência?
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Isso é muito difícil de responder. As pessoas andam esfomeadas porque nenhum organismo é capaz de organizar exposições que estejam ao nível de uma verdadeira sensibilidade ou cultura. As pessoas andam aqui por acaso e não há planos a longo prazo. Os projectos fazem-se por quem bate à porta. Bate à porta o Zé, faz-se uma exposição do Zé, e assim por diante. Isso não pode existir em parte nenhuma, só em Alguidares de Baixo... É inadmissível. E não me venham dizer que é por causa do dinheiro. É porque ninguém quer ou ninguém sabe fazer uma programação a sério. Estas exposições de surrealismo têm a ver com questões comerciais, como é o caso do Centro Português de Serigrafia. O Raúl Perez foi pedir à Fundação Berardo para expor. Eu sou incapaz de pedir. E no que diz respeito à Colecção Cupertino de Miranda, nada foi feito com um verdadeiro entendimento.
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Isso terá que ver com um vazio de espírito crítico e de uma deturpação da História de Arte. Só assim se explica o que se passa em Portugal, em que se enterram gerações inteiras de artistas que tantas obras importantes fizeram e hoje são quase desconhecidos. Temos neste momento a exposição de António Palolo no CAMB, mas é raro fazerem-se antologias e retrospectivas...
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Pois, e há outro pintor muito interessante que é o René Bertholo. Gostaria muito de ver. Outro muito importante e que está vivo, com uma pintura lindíssima e um raro sentido da cor, é o Carlos Calvet. Deveria ser feita uma retrospectiva, mas ninguém se lembra disso. Há coisas esquisitas.
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Doou a sua colecção de arte à Fundação Cupertino de Miranda, com vista à criação do Centro de Estudos do Surrealismo e do Museu do Surrealismo. Parte dela podemos vê-la agora na Cordoaria Nacional. Como conseguiu reunir uma colecção tão importante?
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Olhe, eu sou um teso. Não tenho fortuna de família e fui funcionário público toda a vida. Após a guerra, tinha eu 20 anos , trabalhava na Intendência-Geral dos Abastecimentos. Tratava do racionamento do pão, do açúcar, do feijão, etc. As donas de casa tinham umas senhas para levantar estes géneros alimentícios. Era uma coisa horrorosa. Mas confesso que era um péssimo funcionário, não fazia nada nos sítios onde estava.
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[sem título, 1970].
Tem um grande espólio porque muitos destes artistas eram seus amigos, não é?
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Eu estava apaixonado por aquelas obras e muitos artistas acabavam por trocar obras uns com os outros. Algumas comprei. Ficava sem dinheiro nenhum, já pouco ficava para comer... Durante muitos anos aconteceu que eu tinha dado mais obras do que vendido. Eu gosto é de dar e de expor sem ser para vender.
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Quando pensa numa peça não pode pensar se vai vender ou não, porque isso aniquila logo qualquer trabalho artístico...
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Ah, mas muitos artistas hoje quando põem uma tela no cavalete já estão a pensar no preço que vão pedir. No meu tempo as coisas não eram assim.
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Mas há que lutar contra o tempo como faz, criando...
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Agora só crio galinhas.
Mas não vai expor galinhas, pois não?
Não me importava nada.
Pronto, aqui está o surrealismo a penetrar na conversa... Esta corrente apareceu numa altura em que a realidade era cada vez mais insuportável, o escape, a quebra das regras, o regresso ao inexplicável, a exploração dos sonhos, dos instintos eram a única saída possível. E isto com um programa ideológico a acompanhar. Acha que temos de novo uma urgência de fuga para fazer a revolução, por pequena que seja?
Não conheço outra alternativa, outra ideia com igual força.
O surrealismo foi e é para mim uma ideia muito forte, um mito com muitas possibilidades de nos aguentar neste mundo incrível.
Há quem diga que está esgotado...
Eu acho que não. Mas a maioria das pessoas ligadas à arte está a repetir muitas das coisas inventadas pelos surrealistas nos anos 20, embora sem revelarem a proveniência da sua inspiração. Isso eu acho muito triste. No outro dia descobri uma série de objectos numa galeria de Lisboa. Eram objectos interessantes que poderíamos chamar de surrealistas mas a pessoa que os fez não tem consciência disso ou não quer ter.
É difícil um artista ver-se inserido nessa “máfia” do surrealismo. André Breton, o primeiro fundador do movimento, expulsava artistas do grupo (como Dalí) como se fosse um partido político...
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[sem título, 1970] O surrealismo exige da pessoa que tenha uma revolta sincera contra o que está à sua volta. É a partir dessa revolta que o surrealismo pode crescer e afirmar-se. Quem pegar no surrealismo como uma estética está redondamente enganado. O Raúl Perez, no dia da inauguração da sua exposição dizia na rádio que não é um surrealista militante. Então as obras são surrealistas e ele não?
É um exemplo entre outros. Eu estou em contacto com imensos surrealistas no mundo e vejo que as pessoas continuam a fazer coisas fracas e a chamarem-se surrealistas. Aqui é ao contrário: o Perez desculpa-se de ser surrealista. É como dar um pontapé numa pessoa e depois pedir desculpa. O surrealismo é um pontapé!
Os artistas que partilham da sua visão artística tendem a fazer retratos de amigos, trabalham em conjunto, fazem homenagens mútuas... Por que razão há esta ligação tão forte entre vocês?
Era forte nos tempos do Mário Cesariny e antes de eu ir para África, onde estive 14 anos. Quando regressei, o mundo era outro, tudo se tinha modificado. O Cesariny e eu tinhamos uma paixão um pelo outro e isso foi muito bonito a partir dos nossos 17 anos quando nos conhecemos na Escola António Arroio. Depois, já éramos adultos e as coisas não corriam da mesma maneira. Tínhamos opiniões divergentes e estávamos diferentes. O Mário pintava muito, vendia muito e não parecia o mesmo. Eu acreditava mais na poesia. Erro meu, talvez. Mas realmente era a poesia que eu tinha visto nascer ao meu lado pelas ruas de Lisboa e isso separava-nos. Às tantas ele decidiu fazer de mim a grande figura internacional do surrealismo português e eu não tenho jeito nenhum para ser grande em coisa nenhuma. Nisso o Mário teve uma espécie de fracasso porque não tinha a força suficiente para se impor lá fora.
O próprio André Breton não se interessou muito pelo movimento em Portugal...
Não. Foi tão desastrada a apresentação do nosso surrealismo ao Breton que ele acabou por não se interessar. Mas também isso tudo tem a ver com a pouca sorte deste país. Nunca ninguém vai dar por isto.
Vê o surrealismo assumido pelas novas gerações de artistas?
Lá fora, sim. Aqui não vejo ninguém. Somos apenas três ou quatro gatos que não se procuram uns aos outros nem se entendem. Mas os iniciadores do surrealismo foram de tal forma grandes que hoje em dia é difícil alguém fazer uma coisa nova. Magritte, Ernst, Chirico... gente verdadeiramente genial, já não há nada disso.
Aos 88 anos como encara a arte?
A arte continua a ser o grande apoio, uma grande descoberta da humanidade. Mas em muitos essa parte está adormecida.
Sempre se deixou levar pelo mundo onírico. Ainda é possível sonhar?
Eu acho que é a única salvação. O sonho acordado é das coisas mais bonitas que o homem tem. É tão belo como a vida sexual... São coisas das quais podemos pôr e dispor à nossa vontade.
É a liberdade!
27.3.09
Dia Mundial do Teatro
"Vamos, mais uma vez, fingir que nos amam, que nos respeitam, almoçar, ouvir declarações de amor e pedidos de voto, vamos mais uma vez ouvir dizer que povo sem teatro não é povo nesta cultura europeia, que faremos mais com menos, [...] dar beijos, agradecer e dar abraços, vamos todos fingir."
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[Jorge Silva Melo, Público de hoje]
Centro Mário Dionísio
Embora só esteja concluído daqui a uns meses, vai ser já este fim-de-semana apresentado o futuro Centro Mário Dionísio, no Largo da Achada, em Lisboa (Mouraria).
Segundo a notícia do DN, em parceria com a Associação Renovar a Mouraria, no domingo dois jovens artistas da Escola de Artes das Caldas da Rainha vão pintar o muro frente ao CMD e haverá leituras de textos por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, dois dos fundadores da Associação Casa da Achada, que irá gerir o Centro Mário Dionísio - onde já funcionam três salas de biblioteca e arquivo.
26.3.09
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Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
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Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
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Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se um copo de oiro e sonharem-se índias.
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[António Maria Lisboa, in Poesia, Assírio & Alvim, 1995]
20.3.09
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[Henry Miller, in O Tempo dos Assassinos, Hiena, 1985]
