18.5.09
Lisboa, História Física e Moral
14.5.09
12.5.09
Livros de Lisboa: "A Escola do Paraíso" por Pedro Mexia
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O narrador de A Escola do Paraíso é uma criança, Gabriel, que testemunha o mundo do fim da Monarquia e advento da República: o regicídio e a agitação revolucionária, mas também os adultérios burgueses e o aparecimento do automóvel. A acção decorre numa Lisboa de lojistas e meninas prendadas, numa Lisboa de infância que corresponde em grande medida às memórias de Miguéis.
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A Escola do Paraíso é um estudo da pequena burguesia lisboeta como classe em que mais se notam as convulsões políticas e as mudanças comportamentais. É por isso uma elegia melancólica e vitalista das ruas de Lisboa. Miguéis faz do realismo uma forma de escrita acessível, ágil, aberta a pequenos esquissos ou a modulações poéticas, e em vez de optar por um realismo de interiores, importante na tradição portuguesa, põe as personagens constantemente nas ruas, tornando assim a rua uma personagem por direito próprio, não apenas na medida em que a rua é o palco constante da vida quotidiana mas porque naquele momento, como noutros, a rua se tornava sujeito histórico. É na rua que as coisas acontecem.
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Texto de um exilado nostálgico mas genuinamente entusiasmado com a mudança e o caos criativo, A Escola do Paraíso é um clássico algo esquecido do cânone português. O Milagre Segundo Salomé foi adaptado ao cinema por Mário Barroso, mas A Escola do Paraíso também pede cinema, porque é um romance cinematográfico, móvel e às vezes febril. Enquanto não aparecem as anunciadas reedições na Assírio & Alvim, a ficção de José Rodrigues Miguéis, editada pela Estampa, está ao preço da chuva nas Feiras."
7.5.09
Livros de Lisboa
A Time Out pediu a uma série de escritores, críticos e olissipógrafos (Pedro Mexia, Jorge Silva Melo, José Mário Silva, José Sarmento de Matos e António Guerreiro, entre outros) que escolhessem os melhores romances de Lisboa, tendo sido estes os mais votados (sem ordem):
- A Escola do Paraíso, José Rodrigues Miguéis
- Alexandra Alpha, José Cardoso Pires
- A Noite e o Riso, Nuno Bragança
- Livro do Desassossego, Bernardo Soares
- Requiem, uma alucinação, Antonio Tabucchi
- Os Maias, Eça de Queirós
- Gaivotas em Terra, David Mourão-Ferreira
- Enseada Amena, Augusto Abelaira
- O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
- Cândido ou o Optimismo, Voltaire
Dos autores escolhidos, a maioria têm outros belíssimos livros lisboetas: O Milagre Segundo Salomé, Páscoa Feliz e diversos contos como o brilhante Saudades Para Dona Genciana, de José Rodrigues Miguéis; A Balada da Praia dos Cães, Lisboa, Livro de Bordo e inúmeras crónicas e contos de José Cardoso Pires; O Primo Basílio ou A Capital, do Eça; Um Amor Feliz, de David Mourão Ferreira; ou Afirma Pereira, de António Tabucchi.
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Outras prosas lisboetas podemos encontrar no Nome de Guerra, de Almada Negreiros, n’ A Queda dum Anjo, de Camilo, em Fialho, n’A Via Sinuosa ou nas memórias Um Escritor Confessa-se, de Aquilino, em tudo o que Baptista-Bastos escreveu, no Cá Vai Lisboa, de Alface, em Manuel da Silva Ramos, em Mário de Carvalho, no recente Boa Noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio, e em certas páginas de Jorge Silva Melo.
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Quanto à poesia, temos também uma longa tradição lisboeta. Não indo mais atrás, Cesário Verde foi um grande poeta desta cidade e no séc. XX há uma linhagem de excelentes poetas lisboetas como Álvaro de Campos, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny e, para referir um nome mais recente, Manuel de Freitas.
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Devo estar a esquecer-me de coisas e há certamente muito que não conheço. Aceitam-se sugestões, por mail ou para a caixa de comentários.
4.5.09
A leya na feira
"Como é que há pessoas capazes de ir gastar dinheiro dentro daquilo!... Com alarmes e segurança à entrada... parece um condomínio-fechado. E há escritores sem vergonha de publicar ali!..."
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[ouvido por Paulo da Costa Domingos]
30.4.09
A Feira do Livro, por Jorge Silva Melo
29.4.09
Feira do Livro
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2ª a 5ª Feira
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Pela primeira vez em muitos anos as alterações são de monta: novas datas, novos horários, novos pavilhões e novos espaços de apoio/restauração, entre outras.
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Quanto aos horários, a antecipação da hora de abertura é excelente, mas encerrar a feira às 20.30 nos dias de semana é uma triste ideia. Uma das coisas mais agradáveis da feira é precisamente o passeio nocturno que proporciona (agora só aos fins-de-semana).
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Quanto às novas datas, temo que antecipar a feira, aumentando consequentemente a probabilidade de haver dias com chuva e frio, possa servir de argumento aos que querem encaixotar a feira na FIL. É uma opção muitíssimo arriscada que seria bom repensar. Pelas suas características esta feira precisa de sol e calor e por isso quanto mais tarde se realizar melhor.
28.4.09
A estupidez do trabalho
“– Por que são a um tal ponto desdenhosos? – perguntou Chloé. – Trabalhar não é coisa assim tão boa...
– Disseram-lhes que é bom – respondeu Colin. – Em geral costuma achar-se que é bom. Mas a verdade é que ninguém pensa assim. Trabalha-se por hábito, justamente para não pensarmos nisso.
– De qualquer forma, é idiota fazer um trabalho que pode ser feito pelas máquinas.
– É preciso construir máquinas – disse Colin. – Quem o fará?–
Oh! Claro! – disse Chloé. – Para fazer um ovo é preciso uma galinha, e uma vez que haja galinha podemos ter uma porção de ovos. Portanto, mais vale começar pela galinha.
– Seria preciso saber o que impede a construção das máquinas – disse Colin. – É, com certeza, falta de tempo. As pessoas perdem tempo a viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar.
– Não será antes o contrário? – disse Chloé.
– Não – disse Colin. – Se tivessem tempo para construir máquinas, depois já não seria preciso fazer mais nada. O que eu quero dizer é que trabalham para viver, em vez de trabalharem para construir máquinas que iriam levá-los a viver sem trabalhar.
– É complicado – concluiu Chloé.
– Não – disse Colin. – É muito simples. A coisa deveria dar-se progressivamente, bem entendido. Mas perde-se tanto tempo a fazer coisas que se gastam...
– Não acreditas que gostassem mais de ficar em casa a dar beijos à mulher, de ir à piscina e a divertimentos?
– Não – disse Colin –, porque não pensam nisso.
– Mas será culpa deles, se pensam que trabalhar é bom?
– Não – disse Colin –, a culpa não é deles. Foi porque lhes disseram: «O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que acima de tudo conta, e só os que trabalham têm direito a tudo.» Mas sucede que as coisas estão feitas para serem obrigados a trabalhar o tempo todo, e dessa forma não podem aproveitar o facto de terem trabalho.
– Serão afinal estúpidos? – disse Chloé.
– Sim, são estúpidos – disse Colin. – Por isso estão de acordo com quem lhes faz acreditar que o trabalho é o que há de melhor. Isto evita que reflictam e tentem progredir até não trabalhar.
– Falemos de outra coisa – disse Chloé. – São assuntos cansativos. Diz-me se gostas do meu cabelo...”
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[Boris Vian, in A Espuma dos Dias, frenesi, 1997]
25.4.09
24.4.09
23.4.09
Tristessa
22.4.09
21.4.09
20.4.09
O país onde o dinheiro compra tudo

"O Paço do Duque mostrar-se-á novamente orgulhoso da sua herança, afirmando-se como uma notável ponte entre o Chiado de outros tempos e a Lisboa do século XXI."
[do site do empreendimento "Paço do Duque", na antiga sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso]
"Não sei quantos serão os endinheirados que ali se vão regalar a viver bem. Haverá certamente pois há sempre gente para tudo e mais alguma coisa. Até gente capaz de se sentir confortável olhando paredes onde já houve sangue espirrado de homens e mulheres sob tortura, comendo pancada, sem poderem dormir nem se sentarem durante dias ou semanas a fio só por não aceitarem uma ditadura que queria a todos com uma ideia só, a de obediência a Salazar, depois a Caetano. É certo que não vão ouvir agora gritos e urros dos antigos torturados. Nem os risos e os palavrões dos antigos pides, revezando-se nos turnos de tortura e de espancamentos, pisando a dignidade dos presos sem lei que os protegessem. Nem assistirão a presos atirados pelas janelas para se espatifarem no pátio. Mas não lhes gabo o gosto sádico de ali se sentirem bem, confortáveis, pagando com cheques sacados a contas gordas para habitarem um local de ignomínia."
[João Tunes, no Água Lisa]
"A suja história de sangue e horror do edifício e os gritos de dor de milhares de portugueses que as «velhas e nobres paredes com um metro de espessura» abafavam, são agora, pelo turvo milagre da usura, uma memória doirada, transbordante de festas e de bodas, e de duques, príncipes e embaixadores. Num país onde o dinheiro compra tudo, até a memória colectiva, os antigos torturadores tornaram-se «copeiros e gentis homens» ao serviço de ricaços e recém-chegados ansiosos por reconhecimento."
[Manuel António Pina, JN, 20-03-2009]
15.4.09
Mário Cesariny: Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos


