20.5.09

“Entramos numa livraria e o que vemos é uma parafernália luminosa, em que nada se distingue. Livro que não tenha letras douradas e em relevo não existe.”
.
[Jorge Azevedo, da distribuidora Sodilivros, Actual (suplemento do Expresso), 01-05-2009]

19.5.09

“… as grandes cadeias de comercialização do livro triunfaram em toda a linha e, com as devidas excepções (e algumas tentativas de excepção que não conseguiram sobreviver) impuseram a sua lógica ao pouco que resta das livrarias tradicionais. Por conseguinte, tem-se acentuado a tendência para um mercado que incide quase em exclusivo nas novidades e para o desaparecimento dos fundos e dos livros de referência; neste ambiente, os livros de circulação mais lenta e com vocação minoritária (isto é, literatura que não cumpre a vocação de entretenimento e as ciências sociais e humanas, para não falarmos das ciências ‘duras’) ocupam cada vez menos espaços nas livrarias e estão ameaçados.”
.
[António Guerreiro, Actual (suplemento do Expresso), 01-05-2009]

18.5.09

Lisboa, História Física e Moral

.
.
"Chegou agora a vez de Lisboa. História Física e Moral (2008), nas livrarias desde o último Natal. Como vem escrito na contracapa, «cobre a existência contínua da cidade de Lisboa, abordando inicialmente o sítio geográfico e os seus primeiros habitantes, depois as cidades romana, visigótica e muçulmana, e indo, após a reconquista nacional de 1147, até depois do ano 2000.» Há capítulos específicos sobre os períodos Medieval, Manuelino, Maneirista, Filipino, Barroco, Joanino, Pombalino, Oitocentista e Novecentista, com as respectivas plantas topográficas. Em 23 subcapítulos recupera-se a memória e a circunstância dos mais relevantes factos históricos, políticos e culturais ocorridos até 1998. Vários índices remissivos — de autores, arquitectos, urbanistas, artistas plásticos, sítios, arruamentos, edifícios, monumentos, personagens, instituições, etc. —, um índice de mapas e ilustrações e ainda um índice analítico dos capítulos, permitem consulta orientada. Dizer ainda, porque é verdade, que o livro, apesar das suas 873 páginas de grande formato, se lê como um romance, com a vantagem de poder ser lido ao sabor dos nossos interesses."
.
[nota de leitura de Eduardo Pitta no Da Literatura]

14.5.09

Conferências de Lisboa

Mais informações aqui.

12.5.09

Livros de Lisboa: "A Escola do Paraíso" por Pedro Mexia

.
.
José Rodrigues Miguéis A Escola do Paraíso, Editorial Estampa, a 5 Euros na Feira do Livro
.
"José Rodrigues Miguéis (1901-1980) disse que estava apostado em suprir o hiato entre Eça e os neo-realistas. Queria escrever num registo realista já não oitocentista mas também não estreitamente programático. Cumpriu o seu intento, deixando uma importante obra ficcional eivada de um realismo crítico e irónico, hábil nos mecanismos narrativos e desenvolta nos diálogos e na caracterização psicológica. Escreveu novelas de suspense e angústia dostoievskiana, retratos das gentes exiladas (foi viver para os Estados Unidos em 1935) e crónicas lisboetas. É um dos mais importantes contistas portugueses. No romance, atingiu o auge com A Escola do Paraíso (1960), exemplo notável de retratismo socialmente atento e socialmente empenhado, depois prolongado, com intenção mais paródica em O Milagre Segundo Salomé (1975).
.
O narrador de A Escola do Paraíso é uma criança, Gabriel, que testemunha o mundo do fim da Monarquia e advento da República: o regicídio e a agitação revolucionária, mas também os adultérios burgueses e o aparecimento do automóvel. A acção decorre numa Lisboa de lojistas e meninas prendadas, numa Lisboa de infância que corresponde em grande medida às memórias de Miguéis.
.
A Escola do Paraíso é um estudo da pequena burguesia lisboeta como classe em que mais se notam as convulsões políticas e as mudanças comportamentais. É por isso uma elegia melancólica e vitalista das ruas de Lisboa. Miguéis faz do realismo uma forma de escrita acessível, ágil, aberta a pequenos esquissos ou a modulações poéticas, e em vez de optar por um realismo de interiores, importante na tradição portuguesa, põe as personagens constantemente nas ruas, tornando assim a rua uma personagem por direito próprio, não apenas na medida em que a rua é o palco constante da vida quotidiana mas porque naquele momento, como noutros, a rua se tornava sujeito histórico. É na rua que as coisas acontecem.
.
Texto de um exilado nostálgico mas genuinamente entusiasmado com a mudança e o caos criativo, A Escola do Paraíso é um clássico algo esquecido do cânone português. O Milagre Segundo Salomé foi adaptado ao cinema por Mário Barroso, mas A Escola do Paraíso também pede cinema, porque é um romance cinematográfico, móvel e às vezes febril. Enquanto não aparecem as anunciadas reedições na Assírio & Alvim, a ficção de José Rodrigues Miguéis, editada pela Estampa, está ao preço da chuva nas Feiras."
.
[Pedro Mexia, Time Out, 06-05-2009]

7.5.09

Livros de Lisboa

.
.
A Time Out pediu a uma série de escritores, críticos e olissipógrafos (Pedro Mexia, Jorge Silva Melo, José Mário Silva, José Sarmento de Matos e António Guerreiro, entre outros) que escolhessem os melhores romances de Lisboa, tendo sido estes os mais votados (sem ordem):
  • A Escola do Paraíso, José Rodrigues Miguéis
  • Alexandra Alpha, José Cardoso Pires
  • A Noite e o Riso, Nuno Bragança
  • Livro do Desassossego, Bernardo Soares
  • Requiem, uma alucinação, Antonio Tabucchi
  • Os Maias, Eça de Queirós
  • Gaivotas em Terra, David Mourão-Ferreira
  • Enseada Amena, Augusto Abelaira
  • O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
  • Cândido ou o Optimismo, Voltaire
É duvidoso que se possa considerar o Cândido um livro de Lisboa, mas quanto aos outros as escolhas são muito boas. É claro que O Livro do Desassossego e Gaivotas em Terra não são romances mas isso é o que menos interessa. A grande falha, para mim, é a ausência d'O Que Diz Molero, de Dinis Machado, um livro excepcional, lisboeta até à medula, como o seu autor. Outro escritor que gostaria de ter visto aqui é Lobo Antunes, que tem Lisboa (sobretudo Benfica mas não só) em praticamente todos os seus livros.
.
Dos autores escolhidos, a maioria têm outros belíssimos livros lisboetas: O Milagre Segundo Salomé, Páscoa Feliz e diversos contos como o brilhante Saudades Para Dona Genciana, de José Rodrigues Miguéis; A Balada da Praia dos Cães, Lisboa, Livro de Bordo e inúmeras crónicas e contos de José Cardoso Pires; O Primo Basílio ou A Capital, do Eça; Um Amor Feliz, de David Mourão Ferreira; ou Afirma Pereira, de António Tabucchi.
.
Outras prosas lisboetas podemos encontrar no Nome de Guerra, de Almada Negreiros, n’ A Queda dum Anjo, de Camilo, em Fialho, n’A Via Sinuosa ou nas memórias Um Escritor Confessa-se, de Aquilino, em tudo o que Baptista-Bastos escreveu, no Cá Vai Lisboa, de Alface, em Manuel da Silva Ramos, em Mário de Carvalho, no recente Boa Noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio, e em certas páginas de Jorge Silva Melo.
.
Quanto à poesia, temos também uma longa tradição lisboeta. Não indo mais atrás, Cesário Verde foi um grande poeta desta cidade e no séc. XX há uma linhagem de excelentes poetas lisboetas como Álvaro de Campos, Alexandre O’Neill, Mário Cesariny e, para referir um nome mais recente, Manuel de Freitas.
.
Devo estar a esquecer-me de coisas e há certamente muito que não conheço. Aceitam-se sugestões, por mail ou para a caixa de comentários.

4.5.09

A leya na feira

.
"Como é que há pessoas capazes de ir gastar dinheiro dentro daquilo!... Com alarmes e segurança à entrada... parece um condomínio-fechado. E há escritores sem vergonha de publicar ali!..."
.
[ouvido por Paulo da Costa Domingos]

30.4.09

A Feira do Livro, por Jorge Silva Melo

.
.
"Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a rua dos livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII."
.
[in Os Livros no Parque, livrinho a favor da feira no Parque Eduardo VII, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]
.
Foto roubada aqui.

29.4.09

Feira do Livro

.
.
Abre amanhã a Feira do Livro de Lisboa, estando até 17 de Maio no Parque Eduardo VII, com o seguinte horário:
.
2ª a 5ª Feira
Das 12h30 às 20h30
6ª e véspera de feriados
Das 12h30 às 23h00
Sábados
Das 11h00 às 23h00
Domingo
Das 11h00 às 22h00
.
Pela primeira vez em muitos anos as alterações são de monta: novas datas, novos horários, novos pavilhões e novos espaços de apoio/restauração, entre outras.
.
.
Relativamente aos novos pavilhões e espaços de apoio, as alterações parecem-me positivas.
.
Quanto aos horários, a antecipação da hora de abertura é excelente, mas encerrar a feira às 20.30 nos dias de semana é uma triste ideia. Uma das coisas mais agradáveis da feira é precisamente o passeio nocturno que proporciona (agora só aos fins-de-semana).
.
Quanto às novas datas, temo que antecipar a feira, aumentando consequentemente a probabilidade de haver dias com chuva e frio, possa servir de argumento aos que querem encaixotar a feira na FIL. É uma opção muitíssimo arriscada que seria bom repensar. Pelas suas características esta feira precisa de sol e calor e por isso quanto mais tarde se realizar melhor.
.
Mais informações no site e no blog oficiais.

28.4.09

A estupidez do trabalho

.
“– Por que são a um tal ponto desdenhosos? – perguntou Chloé. – Trabalhar não é coisa assim tão boa...
– Disseram-lhes que é bom – respondeu Colin. – Em geral costuma achar-se que é bom. Mas a verdade é que ninguém pensa assim. Trabalha-se por hábito, justamente para não pensarmos nisso.
– De qualquer forma, é idiota fazer um trabalho que pode ser feito pelas máquinas.
– É preciso construir máquinas – disse Colin. – Quem o fará?–
Oh! Claro! – disse Chloé. – Para fazer um ovo é preciso uma galinha, e uma vez que haja galinha podemos ter uma porção de ovos. Portanto, mais vale começar pela galinha.
– Seria preciso saber o que impede a construção das máquinas – disse Colin. – É, com certeza, falta de tempo. As pessoas perdem tempo a viver, por isso já lhes não sobra nenhum para trabalhar.
– Não será antes o contrário? – disse Chloé.
– Não – disse Colin. – Se tivessem tempo para construir máquinas, depois já não seria preciso fazer mais nada. O que eu quero dizer é que trabalham para viver, em vez de trabalharem para construir máquinas que iriam levá-los a viver sem trabalhar.
– É complicado – concluiu Chloé.
– Não – disse Colin. – É muito simples. A coisa deveria dar-se progressivamente, bem entendido. Mas perde-se tanto tempo a fazer coisas que se gastam...
– Não acreditas que gostassem mais de ficar em casa a dar beijos à mulher, de ir à piscina e a divertimentos?
– Não – disse Colin –, porque não pensam nisso.
– Mas será culpa deles, se pensam que trabalhar é bom?
– Não – disse Colin –, a culpa não é deles. Foi porque lhes disseram: «O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que acima de tudo conta, e só os que trabalham têm direito a tudo.» Mas sucede que as coisas estão feitas para serem obrigados a trabalhar o tempo todo, e dessa forma não podem aproveitar o facto de terem trabalho.
– Serão afinal estúpidos? – disse Chloé.
– Sim, são estúpidos – disse Colin. – Por isso estão de acordo com quem lhes faz acreditar que o trabalho é o que há de melhor. Isto evita que reflictam e tentem progredir até não trabalhar.
– Falemos de outra coisa – disse Chloé. – São assuntos cansativos. Diz-me se gostas do meu cabelo...”
.
[Boris Vian, in A Espuma dos Dias, frenesi, 1997]

25.4.09

23.4.09

Tristessa

.
.
A Relógio D'Água continua (lentamente) a publicar Jack Kerouac. Chegou agora a vez do belíssimo Tristessa:
.
"Escrito na Cidade do México em 1955 (a primeira parte) e em 1956 (a segunda), contando a história da sua paixão por uma toxicodependente (de seu verdadeiro nome Esperanza Villanueva), Tristessa era (na palavras do próprio) a obra preferida de Kerouac, ainda que ele estivesse bem ciente da predilecção dos seus fãs por Pela Estrada Fora. O texto foi manuscrito (e não escrito directamente à máquina, como Kerouac habitualmente fazia) em caderninhos de bolso que ele trazia sempre consigo, entremeado de desenhos e esboços, composto de jactos nas ruas e praças, nos bares e tabernas de má nota, mas, ainda assim, «imaculado, sem emendas», orgulhava-se ele de afirmar."
.
[Paulo Faria (tradutor), no prefácio]

22.4.09

.
.
"Meu caro: do cadáver de um homem livre pode sair acentuado mau cheiro; nunca sairá um escravo."
.
[João César Monteiro, As Bodas de Deus]