27.6.09
balofas tetas
caem aos montões
em duas mamas pretas
chocalhos velhos a
bater na pança
e a puta dança.
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Flácidas bimbas sem
expressão nem graça
restos mortais de uma
cusada escassa
a quem do cu só lhe
ficou a cagança
e a puta dança.
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A ver se caça com
disfarce um chato
coça na cona e vai
rompendo o fato
até que o chato
de morder se cansa
e a puta dança.
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Os calos velhos com
sapatos novos
fazem-na andar como
quem pisa ovos
pisando o par de cada
vez que avança
e a puta dança.
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Julga-se virgem de
compridas tranças
mas se um cabrito
de cornadas mansas
abre a carteira e
generoso acode
a PUTA FODE.
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[António Botto, in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (seleccção, prefácio e notas de Natália Correia), Antígona/frenesi, 1999 (1ª ed Afrodite, 1966)]
22.6.09
editar livros é exercer uma actividade dirigida a quem não gosta de ler
“A não ser nas ‘editoras independentes’ (e cada vez mais timidamente, porque as condições a isso obrigam), desapareceram as colecções com um programa coerente e afirmativo. As próprias chancelas editoriais tornaram-se irreconhecíveis e as editoras mal de distinguem umas das outras: a diferença de critério editorial é cada vez mais ténue e a apresentação gráfica deixou de ser um sinal de identidade. Percebemos melhor o que se passa quando vemos o que está a acontecer com frequência: muitos livros que fazem parte do património literário nacional ou universal são editados como se fossem livros para as massas. É fácil reconhecer aqui uma anomalia da nossa situação editorial: o problema não está em editar Júlia Pinheiro, mas em editar “Amor de Perdição” como se edita “Não Sei Nada sobre o Amor”. Fazer com que um romance de Camilo passe como um produto editorial que se parece com o romance popular ou o feuilleton inventados no século XIX (veja-se a edição recente deste clássico pela Difel) é uma manobra que é preciso perceber como reveladora do que alguns editores acham dos leitores.
Este exemplo seria meramente anedótico e inócuo se não proliferassem muitos casos idênticos, se não fosse o sintoma de uma situação mais geral. Portugal é certamente o único sítio do mundo onde “Norte”, de Céline, tem uma inscrição na capa a acenar ao livro de reportagem (efeito que é acentuado pela fotografia de uma cidade bombardeada): “Uma viagem sem regresso a um mundo de violência e ruínas”; ou onde “Ulisses”, de James Joyce, é caucionado por uma citação retirada de um jornal (O Expresso, precisamente); ou, pior ainda, onde “Se Isto É Um Homem”, de Primo Levi, tem uma inscrição na capa que nos assegura tratar-se de um “Best-seller clássico da literatura mundial”. O pressuposto é sempre o mesmo: os leitores a que os livros se destinam não têm critérios para exercer o seu livre-arbítrio e para fazer escolhas é preciso atraí-los para um Joyce com os mesmos métodos com que lhes impõem uma Stephanie Meyner. Mas a verdade é que ninguém chega ao Joyce ou ao Céline por acaso, e pensar que é possível traficar estes autores à boleia dos livros de consumo imediato pode ser fatal. Eis como, progressivamente, os leitores no sentido mais próprio do termo (aqueles que sabem usar a sua razão e não precisam de ser tutelados) se afastam das livrarias. Se pensarmos que este pressuposto domina o percurso do livro em todas as suas etapas – edição, comercialização, divulgação e crítica – temos aqui o retrato de um percurso regressivo.”
[…]
“Os leitores esclarecidos e autónomos foram banidos dos cálculos das grandes editoras e de todas as instâncias de mediação, e em vez deles entraram em cena os consumidores de livros.”
[…]
“Por mais transformações que se tenham dado na actividade editorial, ela nunca deixou de ter um funcionamento próprio – uma dupla face –, que advém de uma tensão que a atravessa permanentemente: a tensão entre o cultural e o económico. Daí a ideia tantas vezes manifestada pelos editores de que há um certo número de códigos que importa não transgredir. Ora, querer vender Céline como se fosse prosa de reportagem pode ser uma dessas transgressões fatais: quem quer ler Céline, está consciente do que vai ler e rejeitará tal edição; quem se deixou enganar pelas dissimulações editoriais não passará da primeira página. No limite, e em jeito de caricatura da situação vigente, poderíamos dizer: editar livros é exercer uma actividade dirigida a quem não gosta de ler.”
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[António Guerreiro, Actual (suplemento do Expresso), 20-06-2009]
17.6.09
frenesi

A frenesi é uma pequena editora interessantíssima, nascida em 1979 a partir da & etc de Vítor Silva Tavares, e dirigida desde então por Paulo da Costa Domingos. Regra geral apresenta-nos excelentes autores em edições cuidadíssimas (capa, papel, etc.) e tiragens reduzidas. O catálogo, constituído em boa parte por obras de carácter radical e anti-sistema, tem desde autores clássicos portugueses como Raul Brandão, Camilo Castelo Branco, Fialho de Almeida ou Ramalho Ortigão e estrangeiros como Céline ou Boris Vian até ensaios de Guy Débord e Raoul Vaneigem, passando pela poesia de Paulo da Costa Domingos, Jorge Fallorca, Manuel de Freitas ou Fátima Maldonado. O catálogo quase completo (faltam alguns livros mais recentes) pode ser consultado no blog da editora (partes I, II, III e IV).
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Boa parte do catálogo está esgotado e mesmo os livros não esgotados são muito difíceis de encontrar nas nossas livrarias, rendidas que estão aos livros de letra dourada e em relevo das leyas. Para os adquirir recomendo a Letra Livre (na Calçada do Combro), a mais completa que conheço em livros desta editora, ou a banca do próprio Paulo da Costa Domingos, todos os Sábados na feira de alfarrabistas da Rua da Anchieta (no Chiado).
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No seu primeiro número, na Primavera de 2002, a revista Periférica publicou um questionário a Paulo da Costa Domingos, que aqui deixo:
. (Como são, o que pensam e o que move algumas editoras de menor dimensão. Periféricas, talvez.)
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A ideia inicial deste questionário era espiolhar colectivamente a idiossincrasia de várias editoras aparentemente enquadráveis numa categoria similar. Compulsados os dados disponíveis das que seleccionámos para primeira leva, vacilámos na opinião. Talvez houvesse interesse em alargar o espaço individual. Só que o problema estava precisamente aí, na falta de espaço. (E também não se podia abusar da paciência dos leitores.) As respostas ao questionário dissiparam definitivamente as hesitações – haveria que tratar uma editora por edição da revista. A sorte grande saiu à Frenesi. Teve honras de abertura da rubrica. Nas primeira mesas do Café Nicola, trajando um sobretudo cinzento e montando guarda a um grosso volume de capas muito amarelas, estaria Paulo da Costa Domingos, editor da Frenesi. O volume era Marcas de Baton – Uma história secreta do século XX, de Greil Marcus, e o encontro destinava-se a conhecer melhor a editora para que a segunda parte do questionário tivesse as perguntas certas. Tentámo-las.
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. Quando foi fundada a editora? Que significado ou ideia subjaz ao logotipo da editora. E, já agora, como surge o nome?
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A Frenesi teve rompimento inaugural em 1979, na altura ainda sob a forma de acção autónoma dentro de outra casa editora (& etc). 1991 marca a nossa ruptura com aquilo que começámos a descobrir ser má vizinhança. Pode encontrar-se o nome da nossa editora mergulhando numa leitura do início do século XX, a abertura da sexta das «Sete Canções de Declínio», de Mário de Sá Carneiro: «Um frenesi hialino arrepiou / Pra sempre a minha carne e a minha vida, / Fui um barco de vela que parou / Em súbita baía adormecida… // Baía embandeirada de miragem, / Dormente de ópio, de cristal e anil, / Na ideia de um país de gaze e Abril, / Em duvidosa e tremulante imagem…» Por seu lado o logótipo é em silhueta uma cabra alada da cultura persa dos séculos VI-IV a.C., a mesma cultura que nos legou esse apólogo do vinho, que foi Omar Khayyam… Se a inspiração em Sá-Carneiro, por si só, já remetia para o enviesamento da cultura de direita modernista, o uso desviado desse símbolo persa, agora feito gárgula luciferina subordinada à espiral do Tempo, anuncia o refrigério de um Catálogo de edições inconveniente e inconvencional.
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Quantos livros já publicaram?
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O nosso Catálogo estende-se por 90 títulos, 60 dos quais esgotados.
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Quais as tiragens médias? (Se possível ou significativo, também a mínima e/ou máxima.)
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750 exemplares. Mínima 50 exemplares; máxima 2000.
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. No catálogo têm nomes como Camilo Castelo Branco, Raul Brandão e outros aparentemente mais “mainstream”, entrecruzados com autores com outro tipo de catalogação. Quais os critérios que presidem à escolha das obras a publicar?
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O programa editorial da Frenesi é uma emanação directa do desenvolvimento individual e das contingências vivenciais do seu editor (Paulo da Costa Domingos). Neste sentido, são iniludíveis os nexos a estabelecer com a obra pessoal do mesmo. Também neste sentido, nunca publicaríamos qualquer obre cujo teor nós próprios não partilhássemos. E só «aparentemente» (muito bem dito na vossa inquirição) alguns autores passam por “mainstream”: porque “mainstream” foi a cultura seminarista, o galo de Barcelos, o marianismo, as touradas, a guerra colonial, a loiça das Caldas da Rainha, o fado, o hino nacional, a raça, a Mocidade Portuguesa, a Pide e a Legião, e, recentemente, o retorno a Fátima e ao futebol, as telenovelas… Homens como Camilo Castelo Branco, preso pelo menos duas vezes, ou Raul Brandão, um dos fundadores da Seara Nova, nunca participaram nessa procissão da “enxurrada principal”.
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Que autor/livro gostaria de publicar? Que autor famoso/obra famosa não publicaria?
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Teríamos imenso gosto em publicar qualquer obre de Maria Gabriela Llansol; nunca publicaríamos Mein Kampf do Hitler, nem a perniciosa escrita ligeira dos “novos” autores portugueses que fez o assalto às livrarias… Poderíamos citar nomes, mas a lista é extensa; e sem dúvida incompleta, porque a partir de certo ponto dá vómitos experimentar ler-lhes sequer uma dezena de páginas… Já basta ver-lhes os focinhos nos talk shows televisivos!
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Qual a principal diferença entre uma pequena editora e uma grande editora, para além do tamanho?
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Se não for uma pequena máquina de produção de mercadoria (vocacionada, portanto, para a reprodução do capital), a pequena editora – e mesmo a muito pequena editora – pode reunir a mobilidade furtiva da serpente ao esplendor luxuoso do cavalo. Deixando qualquer grande editora à mercê do fardo da sua grande visibilidade bélica de carro-de-assalto.
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Na última página de Pantagruel, Rei dos Dípsodos colocaram um convite raro, «Participe da difusão de ideias», seguindo uma autorização ainda mais rara, «Este livro pode ser livremente fotocopiado». Insanidade momentânea, ou a (in)sanidade tem-se coerentemente mantido ao longo dos anos?
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Por isso mesmo que disse na resposta anterior, entre as rupturas com que minámos o acesso ao nosso discurso e aos nossos saberes, encontra-se a livre-utilização, para efeitos de fotocopiagem, das obras por nós editadas. As ideias – assim como a generalidade da criação cultural – não devia andar à trela da propriedade intelectual privada. Lá dizia Brecht: «Tudo pertence a quem o melhore.»
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. Qual a principal dificuldade enfrentada por uma pequena editora?
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Conquistar a simpatia dos intermediários que servem de ponte entre os autores e os seus destinatários, esta é a grande dificuldade do momento. O que vem sucedendo actualmente é do foro da censura intelectual, a coberto de esfarrapadas desculpas mercantis: há livreiros que nem aceitam ter nas suas lojas os livros de alguns editores, e dentro do catálogo dos editores aceitos, atrevem-se a filtrar, rejeitando a seu bel-prazer. Basta o editor acenar com algum título de teatro ou poesia; basta mesmo ser-se somente um “pequeno” editor… Temos provas de exemplos recentes, se necessário… Claro que se trata de um género de censura incomparável com as antigas rusgas da Pide às editoras em busca de obras não consentidas (obras não-“mainstream”, portanto)! Ou mesmo incomparável com o assalto da Polícia Judiciária à casa & etc, por mim presenciado a 7 de Julho de 1980, em pleno reino da AD, à procura de um livro que supostamente melindrava o bispo de Beja!
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Como definiria o panorama editorial (actual e que se perspectiva) em Portugal?
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É pantanoso o panorama, e é de concorrência selvagem. E está à beira de, de uma vez por todas, ter cortado com a cultura da humanidade, pondo as relações entre os seres vivos no plano da roca de serviços pagos. Hoje em dia um livreiro já nem necessita vender livros, basta-lhe ter rendas de aluguer dos escaparates e das montras a editores fixos.
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. Qual a sua posição face à realidade FNAC? E face à venda de livros nos hipermercados?
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Essa ditas grandes superfícies, esses mercantilódromos, são o lugar concentracionário onde melhor reina o espírito do mundo actual (como já aludimos na resposta anterior). São bons para os arquitectos desse “mundo actual”. Tanto a leviandade do leitor sem critérios como o conformismo lisonjeado da maior parte dos autores têm aí ponto de encontro com a lógica de entendimentos tácitos sob os auspícios do dinheiro. É óbvio que tais lugares vivem do proxenetismo da cultura… mas esta, no geral, tem-se verificado que até gosta.
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A edição, quando não é comércio de “objectos quase” ou excrescências de vedeta televisiva, é um acto de resistência, ou o que é? A Frenesi está na vizinhança de alguma ideologia?
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Para nós, editar e desmascarar a mentira organizada são sinónimos. Não tendo que, imperativamente, remeter para algum compêndio de ideias feitas ou programa. As oposições ideológicas com assento oficial são uma criação dos Estados modernos com o único fito auto-regulador de enquadrar a revolta e o descontentamento na alienação do seu precário poder: votando. A lógica da editora Frenesi radica na vasta mobilidade da História do Pensamento Renegado; e a teoria da editora nasce no acto da sua praxis.
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A “massificação” da leitura cria dificuldades na diferenciação qualitativa das obras? A abundância de edições e a facilidade de editar são benefícios ou obstáculos na disseminação da qualidade?
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Preferimos a faculdade total e indiscriminada de acesso à cultura do que o proteccionismo jesuíta. A qualidade de uma obra é uma qualidade definida pelas expectativas de conhecimento do ser humano interessado, e nunca resposta aos badalos de qualquer pastor de ovelhas culturais. Os críticos somente promovem um fenómeno gregário episódico.
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. Como são as relações da Frenesi com a imprensa? Enviam os livros aos “gurus” da crítica? Que tipo de promoção fazem das vossas edições?
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Temos vindo a reduzir drasticamente aos empregados da “imprensa especializada”. Se no início (anos 80) chegámos a suscitar referências jornalísticas baseadas em obras inexistentes (apenas escassos exemplares de folhas policopiadas com envio direccionado), hoje em dia estamos a testar a ignorância daqueles que fazem carreira de noticiário de novidades sem entrar sequer numa livraria. Em suma: tornámos a divulgação diminuta, o que não afecta o comércio e nos proporciona, suplementarmente, o espectáculo de ver “profissionais” perderem o comboio da História.
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A “perifericidade” pode ser um critério editorial. Essa mesma característica pesa sempre negativamente na localização geográfica duma editora? (A aldeia ainda não é tão global assim?)
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A “perifericidade” corre o risco de não se inscrever logo de imediato nesta aldeia que não é, afinal, tão global como se julga… Mas o risco, se devidamente administrado, até pode ser o sal da tentativa.
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E a Frenesi, é uma editora “periférica”? Quer crescer? É possível crescer sem se desvirtuar? Ou consideram-se uma editora peterpânica?
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Quanto a nós, na Frenesi, gostamos do sabor amargo do centro; e por isso sempre recusámos liminarmente qualquer empurrão para dentro da fossa masoquista dessa coisa que muitos gostam de designar por “margem”. Basta ter um punhado de saberes para de pronto concluir que não existe margem nas economias de mercado. Não seja isto indício de vontade de crescimento! Por alguma triste razão se diz «quanto maior a nau, maior é a tormenta». A maximização de um efeito despendendo o mínimo de recursos e de exposição exige certa ciência. O nosso crescimento está sob cálculo e sob vigilância, até porque as prioridades de aplicação de energias são livro a livro, autor a autor; o que se reflecte, por exemplo, na execução gráfica de cada título por nós editado, onde as capas não são o empacotamento com fins promocionais do interior, mas a extensão visual do universo literário dos respectivos autores. Seríamos incapazes de “pôr no mercado” uma capa florida que se assemelhasse a um toalhete de bidé somente para atrair um público de hipermercearia.
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Onde são precisos mais livros: em Davos ou em Porto Alegre? E quais?
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A formação da humanidade não tem prioridades hierárquicas (isso é uma mistificação salazarista). A formação da humanidade é um imperativo horizontal. Provavelmente, na passagem histórica que testemunhamos, estarão a fazer mais falta livros na Casa Branca. É mesmo o sítio no mundo onde deveria haver aulas de leitura comparada entre a Bíblia e o Corão. .
Paulo da Costa Domingos, editor da Frenesi, disse, quando nos encontrámos, que não quer problemas com o fisco, paga para não o chatearem, os seus problemas são com o mundo. Que problemas são esses?
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Ter uma editora com as características da Frenesi é ser soberano no negativo do mundo dando ao mesmo tempo dinheiro a ganhar ao adversário. Não existe nem atalho nem alternativa.

Pode a edição de livros ser uma arma de arremesso nos conflitos ou nos confrontos com o mundo? É isso que representam, embora de um modo particular, talvez, alguns títulos do vosso catálogo, como os dois volumes de Judicearias e Uma “Bardamerda” de Edição. Breve Comentário Sobre Um Dejecto Aparecido Nas Livrarias? (Já agora e perdoe-nos a ignorância, que “bardamerda” de edição era aquela?)
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Livros como Vaga, Judicearias – O Álbum das Górias, Corrida de Galgos com Lebre Mecânica – Incursões no Domínio da Mentira ou Uma “Bardamerda” de Edição. Breve Comentário Sobre Um Dejecto Aparecido Nas Livrarias surgiram como respostas locais a peões locais protagonistas de sacanadas locais. Não se inserem, pois, na nossa perspectiva alargada de enriquecimento das consciências; são meros actos de guerra. O primeiro expande, no contexto de um livro, um precedente de crítica radical por mim levada a cabo nas páginas do semanário Expresso, entre 1988 e 1989, altura em que a mesma ficou suspensa sob golpe sensório. Judicearias… e Corrida de Galgos… armam a rede de defesa de uma calúnia posta a circular contra mim. O Breve Comentário… põe cobro ao atrevimento desinformado do tal editor que vinha fazendo má vizinhança (vd. primeira resposta), explicando-lhe, apropriadamente em cifra, onde os nossos caminhos se apartaram, ao mesmo tempo que aí se reafirma o anonimato na autoria da nossa edição Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas.
Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas é, segundo o vosso catálogo, de autor anónimo. Quão anónimo é o autor desta obra? Trata-se de um tímido, ou encontraram o manuscrito na calçada?
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No essencial, para nós, o anonimato desse autor pressupunha pôr à prova a completa impotência de aferição crítica dos “profissionais” da leitura. As asneiras então vindas a lume (1998-2000) ainda hoje convulsionam de riso as araras do Jardim Zoológico.
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Lê-se numa cinta que envolve um dos livros do catálogo: «2ª tiragem». Trata-se de uma subtil insinuação da diferença ou de mera honestidade semântica?
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Há uma cadeira universitária, Metodologia nas Humanidades, onde se aprende a diferença entre “tiragem” e “edição”. Afinal por andam esses doutores-da-mula-ruça que dirigem os destinos das actuais fábricas editoras?
12.6.09
A imitação da cidade
Os ditos «shoppings», depois de se posicionarem onde os compradores possam rapidamente chegar de carro para confortavelmente transportarem, eles próprios, o sem-número de inutilidades a que não saberão resistir, tentam estabelecer, depois, no seu interior, uma falsa e pouco contrastada imitação de uma «cidade-ideal».
A «cidade-ideal», para os cérebros inventores destas «máquinas de consumo», cuja imaginação não vai mais longe do que um passeio à Disneylândia ou aos parques temáticos dos arredores de Barcelona, é uma cidade já só de peões (primeira contradição), com corredores a fazerem de ruas, à volta dos quais se posicionam as lojas da globalização, por dentro de um enorme contentor ou barracão mais ou menos «festivo», de clima condicionado e permanentemente vigiado.
É o que Paul Goldberger (num artigo de 1996, intitulado «The Rise of the Private City») chama «ambientes urbanóides»: ambientes controlados, fechados e fortemente privados que pretendem fazer passar-se por espaços públicos. A cidade verdadeira, o verdadeiro «espaço público», é um território de grande liberdade e de imprevisto, de alguma dureza às vezes, de contrastes (de clima e de cheiros), de confrontos entre raças e classes, géneros e idades.
A cidade do consumo não. O «shopping» começa por controlar os indesejáveis. Jamais veremos, num centro comercial, grupos de garotos pretos ranhosos em correrias, por exemplo, ou ciganas a vender atoalhados, um carrinho de castanhas a sério, os gritos dos feirantes. O sol que entra pelas clarabóias pouco nos aquece, não bafejamos o ar frio em frente no Inverno, não fugimos à chuva em busca de um café. Não fotografamos nunca alguma coisa que nos agrade (primeiro, porque nada nos agradará e, depois, porque são proibidas (!) as fotografias num «centro comercial»). A própria alegria é formatada, entre os filmes americanos a cheirar a pipocas e as tecnológicas «máquinas de diversão» de inspiração belicista, entre os brinquedos convencionados («barbies» e consolas) e as sucessivas invenções dos vendedores, sem nenhuma espécie de ligação ao conjunto das festividades mais ou menos tradicionais (Dias dos Pais e das Mães, de São Valentim, de Bruxas e Halloweens, de Reis). A cidade do consumo é também higiénica: batalhões de limpeza mantêm irrepreensíveis os mármores em mosaicos dos seus pavimentos, os vidros transparentes das suas montras. Lá dentro, o tempo não passa; não se envelhece, não se adoece, não se espirra, não se cresce, não existem crises. Vigiados, protegidos, afastados dos pobres, dos drogados e dos delinquentes, poderemos viver o sonho de sermos ricos, de consumirmos, de sermos materialmente muito felizes. A «cidade dentro da cidade», os seus vigilantes, as suas câmaras tomam conta de nós.”
[…]
“Mas existem outras coisas. Existem ruas (centros) comerciais a sério, com céu verdadeiro, com ar verdadeiro, com chuva ou neve verdadeira. E existem tendas e becos e mercados e explosões de fogo-de-artifício e vendedores ambulantes e produtos frescos e flores ou roupa directamente da fábrica, com defeito. E eléctricos e barcos e carros e passeios e árvores e escadarias a unir isto tudo.
A cidade (verdadeira) é complexa, multifuncional, colorida, vária, arriscada, surpreendente. A imitação comercial, que tanto fascina a classe média, é só um sufoco «seguro».”
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[Manuel Graça Dias, Actual (suplemento do Expresso), 15-01-2005]
5.6.09
4.6.09
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Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta
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Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas
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Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia
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Eu na noite com um objecto estranho na algibeira
– trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo
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[António Maria Lisboa, in Poesia, Assírio & Alvim, 1995]
3.6.09
Relógio D'Água
2.6.09
Rossio ou WC?
A publicidade continua a forrar as nossas cidades, sem que ninguém o consiga ou queira impedir. Agora foi o papel higiénico, que chegou ao Rossio cobrindo integralmente uma fachada pombalina, com o resultado que se vê.
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Foto do Cidadania LX.
1.6.09
A Montanha Mágica
29.5.09
João Bénard da Costa: a entrevista à Vida Mundial em 1999
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Meio século após a primeira referência legislativa, quatro décadas depois da entrada em actividade e dezoito anos passados sobre a instalação em sede própria, a Cinemateca Portuguesa tem à sua frente um homem entusiasmado. João Bénard da Costa acredita no cinema português. Na conservação do seu passado e na produção que aí virá. E com alguém que pensa serem cinematográficas as melhores imagens que reflectem este país, esta não podia deixar de ser uma conversa, também, sobre Portugal.
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Em 58 dá-se o fenómeno Delgado, e o cineclubismo está no auge. Que expectativas tinham os cinéfilos em relação ao nascimento da Cinemateca?
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Muitíssimas. Durante os anos 50 apareceram dezenas de cineclubes muito politizados. O cinema é usado como uma arma na batalha de ideias. Participar nas sessões do cineclube era um acto de resistência contra o regime. Ora bom, os cineclubes tinham muito poucos filmes para escolher, para ilustrar estas ideias. Daí, que, quando se começou a falar da criação de uma cinemateca, se pensasse ser a ocasião para que esses filmes pudessem ser vistos. A cinemateca seria para os cineclubes uma óptima fonte para se abastecerem com filmes. É claro que isto se opunha ao critério básico de qualquer cinemateca: uma cinemateca existe para conservar e não para emprestar. E daí uma certa delicadeza na questão, que se sente muito nos anos 50. Se vamos iniciar uma política desse género, não só nunca vai haver uma cinemateca, como, e agora entrava o raciocínio político, a cinemateca vai servir de instrumento
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Como é que se chega a 63 e ao Cinema Novo? Há alguma ligação entre o cineclubismo, a Cinemateca e o aparecimento de Cunha Telles, Fernando Lopes ou Paulo Rocha?
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Em relação ao cineclubismo há com certeza. Todos eles participaram neste movimento. Em relação à cinemateca, não. A relação que normalmente se estabelece, por exemplo, entre a cinemateca francesa e o início da nouvelle vague não pode aqui estabelecer-se. Não foram certamente os ciclos virados sobretudo para o passado do cinema português que alimentaram essa primeira geração. O que actuou sobre esses realizadores foi a sua entrada no movimento cineclubista, e, depois, no estrangeiro, graças a bolsas que lhes permitiram frequentar a Cinemateca Francesa ou o National Film Theatre, em Londres. Outra coisa é que para uma segunda geração do Cinema Novo Português, a que se desenvolve sobretudo entre 70 e 74, há uma atenção muito grande a alguns ciclos da cinemateca organizados nos anos 60, sobretudo um de 65 sobre o cinema mudo americano, dando a ver, ou a rever, filmes do Griffith, do Stronheim, do King Vidor. Alguns futuros realizadores, por exemplo o Alberto Seixas Santos e o António Pedro Vasconcelos, apoiam extraordinariamente essa manifestação. Chegaram a dizer: «este é o acontecimento cultural mais importante que se passa em Portugal desde o aparecimento do Orpheu.»
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Nos anos 60 vive-se uma abertura em termos culturais. O Cinema Novo foi importante para essa abertura?
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Eu não diria «vive-se uma abertura». A partir de meados dos anos 60, a partir do começo da guerra colonial, a censura aperta. Culturalmente, é uma década extraordinariamente repressiva. O que acontece é que, apesar de tudo, o País evoluiu em termos económicos. Isso trouxe muito mais gente alfabetizada, com preocupações culturais. E essas pessoas procuram formas novas. Por muito que se quisesse filtrar, tudo tinha aqui um eco evidente e imediato numa camada intelectual, crescentemente oposta ao regime, e que portanto identificava essa luta por uma libertação cultural com a luta contra o regime.
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Nesse momento aparecem novos escritores, uma nova poesia, e politicamente surge a extrema-esquerda. O novo cinema português integra-se nesse movimento?
É evidente. A vontade desses autores era semelhante àquela que se manifestava na literatura, na pintura, e em todas as outras artes. E há um outro ponto muito importante, que não podemos esquecer, a actuação da Fundação Gulbenkian. A Gulbenkian inicia actividades que começam a ter uma grande repercussão nos anos 60, sobretudo no domínio das artes plásticas e da música, e, portanto, a ter pela primeira vez meios de actualização que permitem um contacto directo, em Portugal, com o que de mais moderno se estava a fazer na Europa.
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Que dá também um empurrão ao Cinema Novo, com o Plano Gulbenkian.
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O cinema português não aparece com os mesmos títulos de nobreza da pintura ou da música, mas quando aparecem autores a afirmar a vontade de fazer um cinema em que essas mesmas preocupações tenham tradução, isso tem repercussões e leva a Gulbenkian a decidir apoiar o cinema e a fazer o plano de apoio que vigora sensivelmente entre 70 e 74.
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Como definiria até 74, essas temáticas?
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Todos têm uma consciência política, e todos são homens da oposição, mas eles sabem também que não podem nunca fazer aqui um cinema directamente político. Um filme mais político envolveria o fim da carreira ou a prisão. Nesse sentido não arriscaram. A mensagem política tinha de ser sempre elíptica. Além disso, todos esses homens participam da consciência, muito dos anos 60, de que «a arte é, não serve», e que, portanto, o pior que pode acontecer a um artista é colocar-se ao serviço de uma causa qualquer. O que os distingue é uma consciência estética elevada, uma preparação cultural muito diferente do que tinham tido os seus antecedentes, e a vontade de exprimir a sua visão de Portugal em filmes que dessem um pouco essa imagem de país cercado, sufocado. E daí, por exemplo, quando nós vemos filmes como Verdes Anos, Belarmino, Mudar de Vida, etc., vemos que a realidade que se mostra neles é qualquer coisa de completamente diferente do que se tinha visto até então no cinema português. O que se mostra é uma sociedade claustrofóbica, murada, de onde as pessoas se queriam evadir e não conseguiam.
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A revolução representa um retrocesso nesse movimento estético?
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Representa uma paragem. Há um grande entusiasmo no início dos anos 70. Esse entusiasmo é maior ainda quando em 73, nas vésperas da revolução, o Estado, sentindo que não podia alhear-se do movimento, transforma completamente a sua política: cria o Instituto Português de Cinema. É anunciado um plano de apoio que basicamente contemplava os mesmos nomes que tinham emergido nos anos 60 e nos chamados anos Gulbenkian. Parece um movimento que finalmente vai poder desenvolver-se com continuidade. O Plano estava a começar nesta altura, e quando os cineastas se preparavam para filmar, chega o 25 de Abril. E aí há uma mutação evidente, toda a gente vem para a rua filmar a revolução, têm-se ideias que correram muito aquele período revolucionário: o cinema directo, filmar na rua, filmar a realidade, filmar em 16 mm.
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Qual era o papel da cinemateca no contexto revolucionário?
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Era muito secundário. Todos falam em desenvolver a cinemateca, trazer para a cinemateca os grandes filmes para o povo. Ou seja, há uma vontade de transformar o organismo, mas essa vontade exprime-se e toma corpo na lei só em 1980, quando a Cinemateca Nacional é transformada em Cinemateca Portuguesa e pela primeira vez é dotada de autonomia administrativa e financeira, de uma sede e sala de cinema própria.
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Em 1980, há uma série de filmes, como o Oxalá!, o Kilas, a Manhã Submersa. Eles iniciam uma nova fase do cinema português?
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Bom, no final dos anos 70 e inícios de 80 assiste-se a um movimento de opinião importante que está ligado a dois factores: primeiro, um certo desencanto com a revolução e com o período revolucionário. Em segundo lugar, a ideia de que os filmes de intervenção não conquistavam público nenhum. Portanto, o que se queria era voltar a um cinema normal, que contasse histórias. E então começam a aparecer esses slogans que presidem à estreia do Kilas, «por que é que o cinema português é tão chato?». Vamos caminhar para uma produção mais corrente e conquistar de novo alguns êxitos de público.
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E criar uma indústria?
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Aí voltou-se a falar sobre se há ou não, em Portugal, condições para criar uma indústria cinematográfica. Curiosamente e ao longo de todos estes anos, o que temos assistido é a um cinema sempre maioritariamente apoiado no Estado, através dos organismos competentes, e que não poderia existir sem esse apoio oficial, porque não se concebe em Portugal um cinema que se pague a si próprio, na bilheteira.
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Para os números de bilhetes vendidos que seriam necessários é um bocado ocioso estar-se sequer a falar nisso…
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É uma ideia completamente vã, irrealista. De qualquer ponto de vista que se considere o fenómeno, para haver uma indústria, ela precisa de encontrar um mercado de escoamento. Ora, mesmo num filme que faça em Portugal um grande sucesso de bilheteira, que chegue a números para Portugal espantosos de 300 mil, 400 mil espectadores, isso significa um terço do orçamento. Diz-se: e o estrangeiro? O estrangeiro pode interessar-se e tem-se interessado em determinados meios culturais, mais elitistas, por um cinema português chamado de autor, ou seja, um cinema que aparece como diferente, curioso, com uma especificidade muito própria. Esse cinema pode interessar em pequenos circuitos. Mas o estrangeiro interessa-se muito pouco por filmes que têm características medianas da indústria cinematográfica, menos meios, e que, portanto, são sempre secundarizados face às produções semelhantes de cada país. Daí que esses filmes normalmente, mesmo com grandes sucessos em Portugal, são filmes que no estrangeiro vão ter uma carreira muito fraca.
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Apesar dessa corrente, apareceram nos últimos 18 anos cineastas como João Mário Grilo, João Botelho, Jorge Silva Melo, mais tarde Pedro Costa. O que trouxeram de novo estes cineastas?
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Portugal tem uma continuidade, que vem desde os anos 60, em que se afirmam uma série de personalidades, autores de obras extremamente coerentes.
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Mas o João Mário Grilo, no final dos anos 70, princípio dos anos 80, participa num manifesto de ruptura.
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Sim, está bem. Isso corresponde a momentos geracionais diferentes, mas todos eles entram naquilo a que os seus adversários chamam pejorativamente um «cinema de autor», ou seja, todos eles procuram realizar obras sem transigências em relação aos chamados valores comerciais, e aí têm uma liberdade total para exprimir a sua visão do mundo.
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Num país que 30 anos depois do Cinema Novo está tão diferente, como explica que filmes como os de Pedro Costa ou de Teresa Villaverde sejam ainda tão cheios da tristeza que habita os filmes do cinema português dos anos 80?
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Isso não acontece só no cinema. Acontece na literatura, na pintura. Ou seja, isso continua a espelhar qualquer coisa que existe, que continua a existir e que é, digamos, um traço de um pequeno país, ainda bastante periférico em relação à Europa, embora crescentemente inserido nela, e atravessado por profundas transições e por uma cultura contrastante, onde esse traço de amargura é muito visível.
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Quais são, neste momento, os cineastas portugueses de quem mais espera?
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Espero de muitos. Espero do Manoel de Oliveira, que com 90 anos continua em plena forma, e espero muito do Paulo Rocha, do João César Monteiro, do João Botelho, do Jorge Silva Melo, do Alberto Seixas Santos, do João Mário Grilo, do Pedro Costa, entre muitos outros, cujas obras são extremamente interessantes, polémicas, estimulantes, e representam hoje, mais do que isso, num panorama cinematográfico muito cinzento e crescentemente marcado pelas suas características de consumo, qualquer coisa de diferente. Representam uma aposta no cinema como arte, na autonomia de uma arte cinematográfica, e são filmes que continuam a ser um grande desafio estético e ético.
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Regressemos ao princípio. Como é que a Cinemateca vai viver os próximos anos?
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A Cinemateca passou por grandes transformações desde 1980. A primeira foi a de ter autonomia, ter uma sala, etc. Aumentou muito a sua colecção, temos cerca de 10 mil filmes, e, sobretudo, foi dotada com uma estrutura nova, o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, onde pela primeira vez pudemos conservar filmes. Ou seja, as infra-estruturas estão lançadas para que a cinemateca seja o que uma cinemateca é ou deve ser: um museu de cinema.
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