1.10.09

Miguel Sousa Tavares: o elogio de Campo de Ourique

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"Um bairro para viver tem de começar assim: com um mercado que é uma festa para os sentidos, um regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram. Campo de Ourique começa assim e continua depois, com tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados no intervalo do almoço; comércio tradicional e personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas pelo nome dos donos - a florista, o cabeleireiro, a loja de comida feita, o electricista, o oculista, a loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com esplanadas conquistadas ao passeio e ao Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem sequer começariam sem o bom-dia deles. Campo de Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os seus pequenos restaurantes de culto, os seus excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma auto-regulação da via pública, com um sentido natural de comunidade, em que ninguém se mete com os outros e toda a autoridade se torna dispicienda graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um.
[...]
Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora se vive à roda das cidades francesas, naquelas comunidades inteiras de populações imigrantes que não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta até que ponto Campo de Ourique (não sei se por gestação espontânea, se porque alguém planeou e previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos de integração social interclassista e intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre espaços públicos e privados. E, afinal, este tão raro exemplo de harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de nenhuma grande construção de referência, nenhuma urbanização de encher o olho, nenhum centro comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e proporção humana. Depois, as pessoas fazem o resto: andam na rua sem pressa nem atropelos, param para conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas, passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride: conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é coisa tão rara e tão preciosa numa cidade, como o são o peixe, a fruta e os legumes do mercado de Campo de Ourique.
Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo, no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas trata-se de uma dívida de gratidão para com o "meu" bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também, já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se igualmente de um apelo que faço a quem manda e a quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique! Não é preciso muito: basta não fazerem nada."
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[Miguel Sousa Tavares, Público, 11-11-2005]

30.9.09

José Vitor Malheiros: os passeios de Lisboa

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"Não sei exactamente há quanto tempo, mas já foi há anos a primeira vez que um automobilista me buzinou, a mim, peão, para que eu me afastasse do lugar onde estava (de pé no passeio, na Praça do Areeiro, em Lisboa) porque ele, automobilista, queria estacionar o seu carro ali, onde eu estava parado, no passeio. Eu estava no caminho, a atrapalhar, e ele deu um toquezinho de buzina, só para me avisar que ele queria ir para ali, precisamente para aquele sítio onde eu, peão, estava, no passeio, a atrapalhar.
A partir daí, as coisas não pararam de... como dizer?... de "evoluir"?
Os carros foram invadindo os nossos passeios, em geral estreitos, em geral esburacados, já ocupados selvaticamente por sinais de trânsito, caixas da EDP, semáforos, postes de electricidade, candeeiros públicos, sinalizações diversas, caixotes de lixo, parquímetros, etc.
A esmagadora maioria dos nossos políticos nunca deu por isto - incluindo os presidentes das câmaras - porque há muitos anos que não anda a pé. Têm motoristas com ordens para não respeitar os limites de velocidade porque eles estão a tratar de coisas importantes que não podem esperar. Andar a pé é para os pobres e eles, graças a Deus, não são pobres. Ou já não são - graças a Deus. Fica bem dizer na televisão que vão "devolver os passeios aos peões" mas no fundo nem sequer percebem qual a necessidade, porque afinal os peões conseguem contornar os carros ou ir para a estrada se for preciso, não é? É verdade que os velhos têm menos mobilidade, mas mesmo esses até ficam mais bem servidos (os políticos dizem "melhor servidos" porque já não são pobres mas a educação nem sempre fica muito bem colada às meninges) se andarem na estrada pois toda a gente sabe que a calçada "portuguesa" se gasta e fica escorregadia.
[...]
A "evolução" dos carros no passeio levou a que, há dias, um amigo meu tenha sido atropelado. Atropelado por uma camioneta quando estava... no passeio.
A camioneta estava estacionada no passeio (parece que era um sítio mesmo bom, à sombra e tudo), decidiu fazer uma manobra e zás, atropelou o meu amigo, que teve de receber tratamento no hospital.
Há vários pormenores picantes: um deles foi o comentário de um dos ocupantes do camião, que disse ao atropelado que a culpa tinha sido dele porque estava distraído no passeio (de facto, estava a tirar uma fotografia). O outro é o facto de a camioneta, de uma empresa privada, estar ao serviço da Câmara Municipal de Lisboa quando teve lugar o acidente."
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[José Vitor Malheiros, Público, 28-10-2008]
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foto do Cidadania Lx

29.9.09

Casa da Achada

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Começa hoje a semana de abertura da Casa da Achada - Centro Mário Dionísio. Programa completo aqui.

28.9.09

Está a chegar

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Dobra, a poesia reunida de Adília Lopes, na Assírio & Alvim.

25.9.09

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[Raúl Perez, sem título, 1988]

23.9.09

Quando um pobre nos quer lamber as botas, devemos ou não untá-las previamente?

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“A coisa passou-se num ponto de Hábitos Suíços. O Doutor escreveu no quadro os dados do problema:
«Quando um pobre nos quer lamber as botas, devemos ou não untá-las previamente?
Em caso afirmativo, justifique a resposta.»

Como eu estava sentado ao lado do melhor aluno, decidi aproveitar esse acaso para lhe perscrutar as qualidades racionais: fingindo escrever, olhava de soslaio o ponto dele. Não tardei a ficar completamente absorvido pelo que aquele fedelho magro ia transportando dos miolos para o papel. Lembro-me perfeitamente, era assim:
1.1 Se o pobre me lambe as botas, espera que eu espere isso.
1.2 Se eu untar as botas com nada, o pobre pode pensar que eu sou ou
distraído ou
desconhecedor dos costumes ou
desprezador da miséria.
1.3 Qualquer destes três pensamentos pode fazer zangar o pobre, ou seja, levá-lo a cometer algum pecado.
1.4 Para impedir o pobre de pecar é pois necessário untar as botas que ele vai lamber.
2.1 Se eu untar as botas com qualquer dos produtos com que habitualmente elas se untam, o resultado pode ser idêntico ao de 1.2, com as nefastas consequências de 1.3.
2.2 Visto que devo untar as botas com um produto que me atrevo a chamar
não-botoso, há que saber se este deve ser salubre ou insalubre.
2.3 Se o produto foi insalubre, o pobre pode apanhar uma doença e morrer. Ora, não se deve matar pobres, porque cada um deles representa esmolas possíveis, quer dizer Boas Acções. Como dizia o Poeta, «os pobres são os degraus da escada que conduz os ricos ao Céu.»
2.4 O produto deve, portanto, ser salubre, a fim de preservar a saúde dos pobres, a qual é a garantia físico-química da salvação dos ricos.
3.1 Se o produto foi muito salubre, isso pode ter as seguintes consequências:
3.1.1 robustecer demasiadamente o pobre;
3.1.2 atrair um numero excessivo de pobres à lambedela.
3.2 A consequência 3.1.1 é de evitar, porque um pobre muito robusto decide-se a deixar de ser pobre, o que é um mal pela razão apontada em 2.3
A consequência 3.1.2 também é de evitar, pelo mesmo motivo e ainda porque, quando o número de pobres lambedores aumenta muito, a paciência do rico lambido diminui bastante.
3.3 O produto deve, pois, ser moderadamente salubre, até porque a moderação é a principal qualidade a exigir a um pobre.”

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[Nuno Bragança, in A Noite e o Riso, 4ª ed., Dom Quixote, 1995]

17.9.09

Alexandre O'Neill: a entrevista ao Jornal de Letras em 1982

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Fernando Assis Pacheco entrevistou Alexandre O'Neill para o Jornal de Letras em 1982 (nº 36, 06-07-1982). Aqui fica:
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ALEXANDRE O’NEILL: “SEMPRE ‘SOFRI’ PORTUGAL”
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«Portugal / meu remorso» – é ele a falar do País. «Eu queria um jàzinho que fosse / aquijá / tuoje aquijá» – é também ele. Alexandre O’Neill, 57 anos, diante do seu fantasma, o tempo. Trinta anos de versos estão reunidos em volume e o «JL» quis ouvir este lisboeta com nome de aristocrata irlandês, recuperado de uma «panne» onde todas estas coisas mais doem, que é no coração.
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«Sempre ‘sofri’ Portugal», diz Alexandre O’Neill ao «JL» nesta breve – porém laboriosa: já lá vamos – entrevista com o pretexto na publicação das suas Poesias Completas. O sofrimento deve entender-se, acrescenta o autor de Feira Cabisbaixa, «tanto no sentido de não o suportar como no de o amar-sem-esperança», fórmula onde se descobriria, arrisca o poeta ecoando velhos versos parnasianos, um intenso, verdadeiro amor.
Foi Vasco Graça Moura que o convenceu a reunir a obra poética. Trinta anos de escrita, do Tempo de Fantasmas a As horas já de número vestidas, com exclusão apenas daquilo que O’Neill arruma formalmente sob a designação de ‘crónicas’. Mas dá-se o caso de as Poesias Completas incluírem precisamente alguns textos elaborados de raiz para jornais e que ao entrevistador pareciam resolver-se como prosa. Também sobre isso fala Alexandre O’Neill. Que entretanto, anfitrião simpático, irá buscar ao frigorífico uma garrafa de água mineral sem gás – ele não bebe bebidas alcoólicas – e pedirá a Laurinda, na hora de esta chegar a casa, «ora arranja lá um chá para nós três».
A casa é na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, a curta distância desse Jardim do Príncipe Real que entrou por direito próprio na poesia de O’Neill. Paredes recamadas de estantes, e estas ajoujadas ao peso de livros: a poesia em força, mas também artes visuais, antropologia, política, religião, enciclopédias. Uma aparelhagem de alta fidelidade do lado esquerdo do estirador-secretária. Máquina de escrever «HCESAR». Cinzeiros. Luz sem excesso.
Entro às 10 da noite e saio quatro horas depois. A última hora, porém, gastamo-la a ouvir Laurinda contar como foi um ‘show’ de José Afonso em Oeiras e a comentar a ‘gaffe’ de dois jornais brasileiros que aqui há semanas deram Octávio Paz por morto.
A entrevista fez-se com duas máquinas de escrever: o repórter do «JL» batia a pergunta, tirava a folha, estendia-a ao entrevistado, este batia a resposta, perguntava «está bem?», o repórter respondia «está, claro», e assim por diante.
Para a ficha do poeta: 57 anos de idade, lisboeta, redivorciado, dois filhos, um matulão, Alexandre, outro pequeno, Afonso; trabalha na Lápis – Estudos Promocionais, Lda., à Travessa da Condessa do Rio; andou pela TV como ‘pivot’ de vários programas e jurado da infausta Prata da Casa, que deu mosquitos por cordas; é tão bom conversador como sovina nas respostas dactilografadas, o que se perceberá lendo a continuação; sempre ‘sofreu’ Portugal, e sempre se gastou à velocidade de um fósforo, e sempre foi vítima de nervosos miudinhos; tudo junto, (en)fartou-se e poisou o canastro na UTIC de Santa Maria, a reparar avarias cardíacas; recuperado, ri com os dentes todos.
Começámos assim:
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«Surrealismo? Está tudo contado»
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«JL» – reunir trinta anos de poesia tem algum significado especial para si? Digamos, sente-se etiquetado, arrumado, com um bilhetinho por cima a dizer «trinta anos»?
Alexandre O’Neill
– De modo nenhum! Trinta anos é apenas para passar para outra coisa. Para dizer a verdade, estava farto de tudo o que tinha escrito até à publicação destas Poesias Completas. Você sabe o que é conviver demasiado com o que se vai fazendo, não sabe?
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P. – Calculo o que seja. Agora falando de biografia: você é de Lisboa, é um O’Neill Vahia de Bulhões (cheira-me a Santo António, desculpará) e no dizer do Cesariny em 1945, «no Café ‘A Cubana’, da Avenida da República», travou conhecimento com ele ou ele consigo. Essas aventuras surrealistas ainda têm alguma coisa que valha a pena contar? Dá-me a impressão de que vários surrealistas portugueses quiseram rasurar, a partir de certa altura, o nome «Alexandre O’Neill». Responde a esta longa pergunta?
R.
– Houve um especialista em hagiografia e, particularmente em Santo António, que me disse, para grande desgosto meu, que essa de o Santo se chamar Fernando de Bulhões era uma grande lenda. Claro que não me revelou o verdadeiro nome, de modo que eu continuo a aguentar a lenda e a dizer que sou… parente do Santinho, o que me dá uma certa audiência junto das devotas que conseguem uma especial atenção do referido (e simpático!) milagreiro… Quanto às aventuras surrealistas está tudo contado, precisamente pelo Cesariny, que deve ter um baú quase tão grande como o do Pessoa. A rasura deveu-se à circunstância de eu ter abandonado a actividade grupal do surrealismo para me dedicar à política, calcule você! À política, mas naquele sentido estrito da militância nos movimentos juvenis por onde já o Cesariny tinha andado. Depois, ao publicar o primeiro livro, introduzi-lhe uma nota proeminal que demonstrava o fervor ridículo de todos os neoconvertidos e que dava pancada nos surrealistas ficantes chamando-lhes aventureiros, o que era perfeitamente desnecessário…
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P. – Exacto, e os que você apelida de «ficantes» mandaram cá para fora um papel basto feroz intitulado Do Capítulo da Probidade. Parecia tudo, pois, uma família com as partilhas feitas. Mas em 1961 na Antologia surrealista do cadáver esquisito, para espanto dos observadores, o Cesariny não esteve com mais aquelas e antologiou-o mesmo. Dá para entender?
R.
– Dá, dá! O Cesariny não me cita uma única vez no Surreal-Abjeccionismo, que é de 1963, mas já me inclui na Antologia, que você refere porque eu ajudei muito (e com muita honra!) a fazer cadáver.
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O advogado falhado
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P. – Passemos a outra família, a sua. Nos Poemas com endereço o O’Neill escreve: «Estou no murmúrio de desgosto da minha família / da minha família imóvel diante de mim / (…) / da minha família espiando amorosamente ferozmente os meus mínimos gestos / pronta a saltar-me em cima a reduzir-me / a mais um da família.» O jovem poeta foi mal aceite? Ou foi aceite, mas em transe pejorativo?
R.
– A minha mãe (que já lá está, coitada!), quando apanhava um poema meu – melhor seria dizer versinhos – rasgava-o logo. Provavelmente com a intenção caritativa de fazer de mim o oitavo advogado da família dela, de me transformar num causídico, como se dizia lá por casa (casa onde estive só até aos 16 anos). No fim da vida, já sentia um certo prazer em ser a mãe do poeta O’Neill, mas eu fingia que não a percebia, quando a questão era abordada…
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«Vá de metro, Satanás!»
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P. – Profissionalmente você está – para mim, que o conheço há uma dúzia de anos, sempre esteve – metido nas publicidades, sendo considerado inclusive um óptimo «copy-writer». Passe por cima do adjectivo «óptimo» e diga-me rapidamente o que é isso do «copy-writer», pode ser?
R.
– Pode. Ser «copy-writer» é uma actividade engraçada pelo lado da invenção de «slogans», por exemplo. Só é chata quando o cliente não percebe as nossas intenções e acha que está tudo mal. O jeito para o jogo de palavras, trocadilhos, etc., vive comigo há muito tempo e tem-me prejudicado razoavelmente na poesia, embora agora já esteja melhorzinho. Eu descobri a publicidade através do cinema publicitário. Propus uma vez a alguém (por brincadeira, claro) que oferecesse um «slogan» ao Metropolitano de Lisboa. O «slogan» era: «Vá de metro, Satanás!» Esta brincadeira ia-me custando o emprego. Mas também fiz um, a sério, que foi muito conhecido e ainda hoje é usado (que pena não o ter registado!): «Há mar e mar / há ir e voltar.» Os bêbados pegaram logo nele, o que é uma verdadeira consagração: «Há bar e bar / Há ir e voltar…»
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«Quandonde foi?»
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P. – De vez em quando o O’Neill aparece a colaborar em jornais. Para mim é uma complicação, porque eu tendo, numa primeira leitura, a ler «crónicas» onde não havia nada disso, mas poemas. Por outras palavras, dessas pretensas crónicas há algumas lançadas nas próprias Poesias Completas, como poemas em prosa. Ajuda-me a descalçar este escarpim?
R.
– Dê cá o pé! O que acontece é que eu não sou, a bem dizer, um cronista. Escrevo (ou escrevia, melhor) textos para os jornais que, depois, reconheço, muito naturalmente, como textos poéticos. Então incluo-os nos livros. Nem todos, claro. Há uns que não ultrapassam o efémero da crónica. Outros, que lhe podem parecer prosaicos, são (ou melhor, serão) poemas em prosa, digamos, que é muito diferente da prosa-prosa. E também me posso enganar ou apressar, e tomar por poema o que não é…
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P. – Eu diria, socorrendo-me aliás de leitores mais atentos do que eu, que você tem um tema dominante, Portugal (a Feira cabisbaixa aparece em italiano, na versão de Joyce Lussu, como Portogallo, mio rimorso, e muito bem), e um fantasma omnipresente, o tempo (cá vai uma de O’Neill entre aspas «Quandonde foi? / quandonde será? / / eu queria um jàzinho que fosse / aquijá / tuoje aquijá»). Concorda?
R. –
É verdade. Sem pieguice, digo-lhe que sempre sofri Portugal, tanto no sentido de não o suportar (como todos nós, aliás), como no sentido de o amar-sem-esperança (como disse um parnasiano qualquer: amar sem esperança é o verdadeiro amor…). Eu tive a grande alegria de ver poemas meus completamente desactualizados depois do 25 de Abril. Mas afinal não estavam nada desactualizados, não. Como se pode ver. Quer dizer – o que é um péssimo sinal relativamente à minha capacidade para vaticinar – que a realidade fez de mim, novamente, um poeta actual. Até no fantasma do tempo a que você se refere. Espero que isto um dia acabe e eu fique bem desactualizado e para todo o sempre.
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Herdeiro de…?
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P. – Quando se começa com o jogo do acerta é fatal: O’Neill herdeiro de Nicolau Tolentino e do abade de Jazente (quando não de Junqueiro, mas essa já eu não levo a sério). Em 1982, repetido o dito até à exaustão, que pensa você? Um tolentinista, um jazentista?
R.
– Nem herdeiro de um, nem de outro. A minha excelente prefaciadora diz que tanto o Tolentino como eu temos em comum fazermos uma poesia do feio. Mas se tudo é feio à nossa volta, por que havia precisamente de ser o Tolentino a inculcar-me o feio? Quanto ao Jazente, há uma coisa que pouca gente sabe: eu conheço perfeitamente Padornelo, o Marão (o do lado de cá) e aquela paisagem é-me bem familiar. Familiar no sentido exacto: a minha família materna é de Amarante, o concelho de que Padornelo é freguesia (ou era).
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P. – Eu por acaso, ao ler agora as Poesias Completas, fui outrossim sensível à insistência com que você refere os espanhóis, do Século de Ouro (Lope, Góngora) ou contemporâneos (António Machado). E também vi claramente visto como o O’Neill se entusiasma – exagero meu? – com brasileiros com o Manuel Bandeira ou o João Cabral de Mello Neto. Resultado: a sua família poética é um bocado mais complexa do que se tem escrito. Estou a sair dos carris?
R.
– De modo algum. Lope e Góngora sempre gostaram um do outro através de mim… Machado é um poeta que releio constantemente, tanto na poesia como na prosa. É um universo. E gosto dele em boa parte pelo que tem de «velho» (isto demoraria muito tempo a explicar, mas um dia sempre explicarei). Bandeira só é grande poeta menor, como disse a minha amiga Luciana Stegagno Picchio, para quem estiver distraído. Mello Neto é um velho amigo e um altíssimo poeta (sem saída aparente, diga-se). Não se esqueça que eu fui o curador da edição da «Quaderna» em Portugal, que se não foi a 1ª foi a 2ª do livro.
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A morte, essa trivialidade
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P. – Morreu agora um dos seus «amigos pensados», o Belarmino Fragoso. Boxeou com ele? Hm… Conheceu-o bem, suponho. Como era?
R. –
Não conheci. Foi o Fernando Lopes que me pediu um poema para o programa de lançamento do filme «Belarmino». Sei que o Belarmino leu o poema e achou que eu era maluco…
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P. – E eu à espera de um perfil com luvas! Essa, O’Neill, é um «uppercut» na barbela! Bom, não o maçando mais, sempre queria saber como reagiu você quando o levaram, faz anos (poucos, creio), à UTIC do Hospital de Santa Maria com uma «panne» cardíaca. «É trivial a morte»? (in Abandono vigiado)
R.
– Quando se está com «panne» cardíaca o universo mingua e um sujeito «desliga». Passa para a categoria de «bom doente» para ver se salva o canastro, mas não tem propriamente medo. Só tem medo que se enganem nos remédios e lhe enfiem os que são para algum vizinho… De resto, nada mais, a não ser que, quando se volta a casa, se sente tudo fora do sítio e não se acredita que o canastro volte à normalidade. Nem com um jornal na mão se pode andar. Nem se pode caminhar contra o vento. Nem… Nem… Nem… Até que um dia um sujeito se sente de repente melhor que novo e recomeça a fazer asneiras…

15.9.09

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INTERVENÇÃO

Antigamente, tinha demasiado respeito pela natureza. Punha-me à frente das coisas e das paisagens e deixava-as estar.
Acabou-se, a partir de agora intervirei.
Estava em Honfleur e aborrecia-me. Então, decididamente, pus lá camelos. Pode não parecer o mais apropriado. Não interessa, era essa a minha ideia. De resto, executei-a com a maior das prudências. Comecei por introduzi-los nos dias de grande afluência, ao Sábado, na praça do Mercado. O engarrafamento tornou-se indescritível e os turistas diziam: «Ah! Fede que tresanda! Que porcas são as pessoas aqui!» O cheiro chegou ao porto e começou a competir com o dos camarões. Saía-se da multidão cheio de pó e de pêlos e não se sabia de quê.
E, à noite, só queria que ouvissem o som das patas dos camelos quando eles tentavam passar pelas comportas, gong! gong! gong! no metal e nas tábuas!
A invasão dos camelos fez-se com continuidade e determinação.
Já se começava a ver os Honfleurenses a semicerrarem os olhos a toda a hora com aquele olhar desconfiado tão característico dos cameleiros quando inspeccionam a caravana para ver se não falta nada e se podem seguir caminho; mas tive de sair de Honfleur ao quarto dia.
Lancei também um comboio de passageiros. Partia a toda a velocidade da Grand’Place, e avançava decididamente para o mar sem se importar com o peso do material; deslizava em frente, salvo pela fé.
Foi uma pena ter de me ir embora, mas duvido muito que a calma volte rapidamente àquela pequena cidade de pescadores de camarões e mexilhões.
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[Henri Michaux, in Antologia, Relógio D’Água, 1999]

10.9.09

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[Giorgio de Chirico, Ariadne, 1913]

7.9.09

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A minha Preguiça
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… Seja o que oxalá quiser.
Da última vez que esbocei parir umas palavritas sobre a preguiça – não o geral da preguiça mas o particular da minha – foi-se-me o instante de graça, risquei, amachuquei o papel, arremessei-o, fumisquei cigarro, levantei-me, saí à rua, virei à esquerda e depois outra vez à esquerda, segui em frente e às tantas cá estava eu num banco do Alto de Santa Catarina a contemplar os barcos no Tejo singrando com tempo e sem pressa rumo ao cherne da Ode Marítima. Fica para depois. E se depois vazio no besunto, ou lá onde seja, também não há morte de homem. Esta vida são dois dias e este já ninguém mo tira. Deixo pois para amanhã o que não me apetece, ou não posso, ou desisto fazer hoje. E se amanhã continuar a não me apetecer, não bater o oxalá à porta para entrar, paciência. Não me forço a formiguinha ladina – até vai contra os meus princípios, se é que os tenho assim, tão exclusivos. É quase de letargia o meu estado natural, este pulsar do sangue como o fluxo das águas do Tejo. São pausadas, beatíficas, voluptuosas as minhas preguiças. O tempo fica meu amigo. Então não o pressiono, ele não me pressiona, damo-nos como deus com os anjos.
Se há coisa que aprendi (sem esforço – será preciso dizê-lo?) nas minhas deambulações africanas, foi justamente o modo como me relacionar com o tempo. Tive primeiro que descobri-lo – cá pelas exauridas, decadentes europas, a noção de tempo é pautada pelo ditame “time is money”, ou seja, pela neurótica imposição do económico –, depois, pouco a pouco, vi-me a desacelerar até que me encontrei sintonizado com o seu esplêndido fluir, eu dentro dele, ele dentro de mim, ali, naquele espaço que apeteceria chamar de “coração do mundo”, ancho, generoso, pulquérrimo, não fora a incomensurável ganância dos predadores humanos. De tudo o que por lá vivenciei, não recordo um único momento de frenesi ditado pelo relógio. Por mais de uma vez, e sem literaturas a baralhar-me o espírito, deparei com a morte a olhar para mim, face a face – e achei natural que tivesse chegado o tempo de desocupar o espaço do meu corpo e dissolver-me no tempo já não meu. Aprende-se muito com momentos assim.
Regressado ao berço, fechado o ciclo, permaneço resguardado das pressas – até daquelas em que, ai de mim!, por vezes me vejo envolvido.
Como na conhecida anedota, até gostarei de trabalhar – mas domino-me. Ele há preguiças bem mais criativas que a língua de fora do trabalho atlético.
Quanto tempo demorei a esgalhar isto? – Sorte a minha, nem dei por ele. Sou mesmo um preguiçoso a tempo inteiro, Uau!
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[Vítor Silva Tavares, in P.R.E.C. (Pensa, Rosna, Estica, Corta) nº1, 2006]

4.9.09

Bairro do Arco do Cego

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Foi lançada uma petição que pretende a reabertura do processo de classificação do Bairro do Arco do Cego, que o IGESPAR arquivou, deixando em risco este importantíssimo conjunto arquitectónico dos anos 20 e 30.
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É este o texto da petição:
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O Bairro Social do Arco do Cego, construído entre 1919 e 1935 à base de alvenaria mista, reboco pintado, cantaria de calcário, estuque, ferro forjado e madeira, e gizado pelos Arquitectos Edmundo Tavares, Adães Bermudes e Caetano de Carvalho em 45 quarteirões rectangulares segundo eixo ortogonais, é um dos exemplos mais bem conservados da construção social em Lisboa, denotando uma certa arquitectura de cariz ecléctico, de que relevam, arquitectónica e funcionalmente, o antigo Liceu D. Filipa de Lencastre, da autoria do Arq. Jorge Segurado, e as escolas primárias que o ladeiam -centro nevrálgico do Bairro -bem como as praças fronteiras à alameda central da Av. Magalhães Lima, bem arborizadas, e respectivo mobiliário urbano, de que se destacam as elegantes colunas de iluminação, típicas das Avenidas Novas.
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Estas características, aliadas ao facto da esmagadora maioria do edificado, embora apresentando algumas alterações de pormenor, mantinham, e mantêm, as características arquitectónicas, volumétricas e estéticas, ao tempo da construção do Bairro, levaram a que fosse aberto no IGESPAR um processo de classificação do Bairro Social do Arco do Cego, processo que teve despacho de abertura em 27 de Março de 2007 e que decorreria conjuntamente com a classificação individual do antigo Liceu D. Filipa de Lencastre.
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Tal facto pressupunha uma mais-valia para o Bairro: todo o projecto de alterações, ampliação e/ou demolição que fosse submetido à CML só poderia ser aprovado se tivesse como propósito a conservação do edificado e/ou a reposição de materiais e morfologia do mesmo, para os casos em que, pontualmente, tivesse já havido alterações significativas.
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E assim foi até 18 de Junho de 2009, altura em que o Conselho Consultivo e a Presidência do IGESPAR acordaram no arquivamento do processo de classificação, alegando «banalização» das classificações e impotência perante a instalação de empresas nas vivendas «periféricas» da Av. México e Av. António José de Almeida, facto que acarretou alterações significativas na morfologia das mesmas. Pelo facto, o IGESPAR deixa aberta a possibilidade da CML proceder, ou não, à classificação do Bairro como Imóvel de Interesse Municipal.
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Por acharmos que as justificações apresentadas pelo IGESPAR não colhem, e porque recearmos que o arquivamento agora decidido corresponde, a breve trecho, à delapidação efectiva de um importante legado arquitectónico e social da cidade de Lisboa, pela “via verde” que o mesmo possibilita aos promotores imobiliários, e aos proprietários menos esclarecidos, para desenvolverem projectos de alterações profundas e demolições no edificado, solicitamos:
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1. Ao IGESPAR, a REABERTURA do processo de classificação do Bairro Social do Arco do Cego como Imóvel de Interesse Público.
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2. À CML, à semelhança do que foi feito para o Bairro Azul, a ABERTURA, com carácter de urgência, do processo de classificação do Bairro Social do Arco do Cego como Imóvel de Interesse Municipal.

2.9.09

Henry Miller e Anaïs Nin

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Sucedem-se este ano as (re)edições de Henry Miller: depois de Trópico de Câncer, Trópico de Capricórnio, Dias Tranquilos em Clichy (todos na Presença) e Sexus (Asa) chega agora a correspondência entre Henry Miller e Anaïs Nin, com o título Cartas de Amor, numa editora que desconhecia, a Caleidoscópio, e uma nova tradução, de Tiago Marques. No entanto penso que ainda é possível encontrar a edição do mesmo livro (com o título Cartas a Anaïs Nin), da Difel, também com a introdução de Gunther Stuhlmann, mas com tradução de Manuel João Gomes.
É bom ver Miller a regressar às livrarias, mas é pena que não seja de forma mais cuidada (as capas destes 5 livros são, sem excepção, pavorosas) e em editoras mais interessantes...

1.9.09

Os filmes de João Bénard da Costa

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Durante os meses de Setembro e Outubro, a Cinemateca vai homenagear João Bénard da Costa, passando cerca de 30 dos seus filmes preferidos. Os filmes de Setembro podem ser consultados aqui.

24.8.09

Al Berto: a entrevista à Ler em 1989

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A propósito do lançamento de Lunário (Contexto, 1989, reeditado posteriormente pela Assírio & Alvim), Francisco José Viegas entrevistou Al Berto para a Ler nº 5 (Inverno de 1989). Deixo aqui a entrevista:
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Al Berto é um nome indispensável na poesia portuguesa contemporânea. Publicou recentemente Lunário, ficção (na Contexto). E fala da noite, da vida das gerações, da paixão.
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Alberto Pidwell Tavares nasceu há mais ou menos quarenta anos, o que não tem muita importância para o facto de o conhecermos por Al Berto – nome do autor que em 1988 recebeu o prémio do PEN Clube de poesia pelo conjunto da sua obra, publicada sob o título de O Medo (Contexto Editora). E nome, também, do autor de uma vasta obra poética onde encontramos títulos como À Procura do Vento num Jardim de Agosto (1977), Meu Fruto de Morder, Todas as Horas (1980), Trabalhos do Olhar (1982), Três Cartas da Memória das Índias (1985), Salsugem (1985) ou esse notável e belíssimo livro que é Uma Existência de Papel (1985), entre outros muitos textos publicados ou inéditos, em português ou em francês. Viveu fora do país entre 1967 e 1976. Por ele passam as referências de uma geração (e é tão estranho falar de geração a propósito de Al Berto) que não encontra neste reino as suas referências ou as usas circunstâncias. Eterna e crepuscular meditação sobre a amizade (de que nos falam alguns dos poemas de Uma Existência em Papel: «eis o retrato do meu único amigo / a quem tudo revelo / o que me cresceu no coração» ou a tentação de «nomear-te / para recomeçarmos juntos a vida toda»), sobre o desaparecimento, a fuga, a pureza, a impureza, o excesso e o ser tão rara e simples a vida, a obra de Al Berto confronta-se, também, com os lugares de um caminho por onde passam referências à Beat Generation, ao que resta de algumas das tradições dos anos sessenta, a um vago lugar mediterrânico onde existe a voz do conforto e da limpidez de tudo.
Polémica, controversa, a sua figura de escritor é agora chama à autoria de Lunário, sua primeira experiência no domínio da ficção, ou do romance, que também o leva a sair de Sines, onde habitualmente vive.
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Vamos começar por uma espécie de banalidade: este é um romance ou um texto sobre o desaparecimento ou a perda. De valores, de sentidos, de pessoas…
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– A ideia da perda é uma ideia vaga, que nos dá a certeza de estarmos vivos. Vamos criando uma memória, ao longo disto tudo, deste caminho. Ora, a memória é a prova dessa perda. Que é o que é a vida.
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A vida é só perda?
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– Não, claro que não é. Tanto não é, que as personagens do livro têm relações entre eles e com pessoas de fora do seu grupo. Nem eu próprio sei se é só perda. Se calhar é. Há uma coisa neste livro que, depois de o reler, me chamou a atenção: é que a memória deles, que os leva à nostalgia, a uma certa nostalgia sem arrependimento, é uma memória da mesma coisa, de um mesmo personagem…
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Como a imagem de um pai?
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– Provavelmente sim, mas sinto que tudo aquilo, todos os personagens, a sua vida nocturna e a saudade de uma vida onde não existe noite mas só manhãs claras, cheias de sol, de mar, de orvalho, são desdobramentos meus naquelas figuras. Como se eu fosse quase todos os personagens. A ideia é que toda aquela gente teve experiências (droga, sexo, álcool, de um lado, e aquele maravilhamento infantil ou adolescente, do outro lado) que eu próprio tive.
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É um romance autobiográfico?
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– Em parte, é. A primeira referência, para qualquer coisa que se escreve, é sempre uma referência autobiográfica. A Fernanda Botelho já o disse, de outra maneira, talvez melhor. Outra das razões reside no facto de que só foi possível escrevê-lo muitos anos depois de tudo ter acontecido, porque há coisas que nunca interiorizamos senão muitos anos depois. É a minha memória dos anos que vão entre 1967 e 1976. Regresso agora desses anos. Estou sentado, vejo com os olhos fechados o que se passou na altura.
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Mas não é outra coisa completamente diferente da poesia que conhecemos até agora…
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– Pois não. Creio que os sintomas disto já estão na forma como aparece O Medo.
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Mas de outro ângulo…
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– Sim. Mais directo e menos despojado. É evidente que só se escreve um livro, que esse livro inicial (inicial no sentido de profundo) se prolonga para quase sempre.
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Mas há diferenças entre a poesia e a prosa…
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– Entre a minha poesia e a minha prosa, talvez não haja. Os dois primeiros livros estão muito ligados à prosa. Sempre escrevi uma poesia muito narrativa. Pelo menos dizem isso. Como sou um tipo excessivo e maximal, os meus poemas andam à volta de histórias e é óbvio que não sinto que Lunário seja um romance. Um romance-romance. Essa referência nem aparece no livro.
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O que é um romance?
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– É aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…
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Há uma certa marca disso no fascínio, por exemplo, por Tahar Ben Jelloun…
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– Sim, sim… Porque o Tahar Ben Jelloun é um caso curioso, sobretudo o de La Reclusion Solitaire, é curiosíssimo, com aquela luz mediterrânica.
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Mas há mais referências na prosa, claro…
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– Muitas. Durante anos li Virgílio, sobretudo as Géorgicas, A minha ligação à terra e à natureza é feita assim. Pelo Virgílio. Mas, se me mandassem escolher os meus livros, não saberia ao certo o que levar comigo para a eternidade. Claro que o Malcolm Lowry. O Lowry de Debaixo do Vulcão. Bataille, Genet (todo), Loti (O Pescador da Islândia), Rimbaud, Baudelaire, R. L. Stevenson. Claro que o Melville. O Moby Dick, de Melville. É o meu livro de cabeceira. E Faulkner. Cada vez tenho mais prazer em ler Faulkner. E Herberto Helder, Cesariny, algumas coisas de Eugénio de Andrade, à mistura com Sinais de Fogo de Jorge de Sena, com esse grande livro que é o Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. E, sem dúvida absolutamente nenhuma, o Para Sempre de Vergílio Ferreira. Depois… Duras e Marguerite Yourcenar.
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Quando está em Sines e quando está em Lisboa? Por que razão se divide entre Sines e Lisboa?
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– A noite tem a ver com o Genet. A fuga, com Rimbaud. O lado místico com Bataille. Sade, com o imprevisto. O lado excessivo (as drogas, o álcool, embora esteja muito calmo desde há dez anos…), com Baudelaire. Um dia vou para um convento. Visto um hábito branco, muito branco, e entro para um convento. Vai ser o meu futuro: para um convento que tenha uma escola de canto gregoriano…
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Mas como é a sua vida em Sines?
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– Estou em Sines e sinto-me bem. E estou lá, também, porque não tenho outro sítio nenhum para ir. Cheguei a um ponto da minha vida em que não há sítio no mundo para onde se possa ir viver e ser feliz. Sines é um lugar onde tenho conforto, onde me protejo, onde ninguém me aborrece, onde posso ter uma vida diferente, sem ser autor… Sou pelo profissionalismo do escritor e da edição… mas preciso de recarregar baterias, de me proteger do mundo, também. E, lá, nada me interrompe a vida. Mas tanto se me dava viver em Sines como no deserto.
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Mas como é essa vida de Sines?
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– Surpreendente e super-pacata. Não é nada do outro mundo. Tenho hábitos normais, ponho os pés junto da lareira, trabalho no Centro Cultural. Gosto de dançar (é a minha única ginástica), saio, bebo, ando por lá…
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E Lisboa?
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– Em Lisboa é terrível. O telefone não para de tocar, janto fora muitas vezes, a noite é cheia de «pecado» (há em todo o lado, mas em Sines é muito mais discreto). Lisboa é a inquietação, e, como já não tenho pruridos, perco-me sempre. E isso vai ao encontro do tema do livro.
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Lisboa é o lugar do livro?
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– Talvez. São cenas de amizade, de limpidez. E outras de estúrdia, de excesso. E isso tem a sua beleza. Uma espécie de beleza maldita.
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São essas cenas, essa dualidade, que fazem a memória do autor de Lunário? De que é que se lembra, sobre a vida?
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– Lembro-me de uma cena de caça, com o meu pai, de como ele estava vestido (um pouco antes de ele morrer), lembro-me de ver como apontou a arma, de como o pato caiu. Lembro-me da primeira vez que me chamaram maricas – foi a minha avó. Lembro-me de Barcelona, de estar num quarto e de, de repente, se abrir uma janela e de um rosto espreitar lá para dentro. Há muitas coisas que eu lembro, algumas quero perdê-las, outras conservo-as. Como uma vez em que eu estava muito apaixonado por um rapazinho que vendia cigarros na feira de Málaga e não conseguia vender nada… então eu fui ter com ele, descalcei-me e fui eu pela feira fora, a vender cigarros, com o tabuleiro de madeira.
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É necessário o lado sórdido das coisas?
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– Pode distinguir-se o que é muito belo, depois.
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Mas é necessário?
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– Para mim é. Não quero dizer que o seja para as outras pessoas.
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Mas magoa, a sordidez?
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– Claro que magoa. É óbvio que magoa. Só magoa. E, se calhar, tudo isso é inútil, a sordidez. Se calhar, essas experiências são completamente inúteis. Mas, será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive?...
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Provavelmente também há outras vias…
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– Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. Por isso é que no Lunário não há lugar para a criação de uma nova moral.
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Atrai, essa vertigem?
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– Sim. Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.
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Mas há perigos. Perigos graves, penso eu. Perigos de morrer. A mim, pessoalmente, desagrada-me a ideia de morrer já…
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– Claro que tudo isto é perigoso. Mas as pessoas aproveitam-se disso para serem pérfidas. A questão da SIDA, por exemplo, quando se procura moralizar a questão. Para quê moralizar o problema – só porque é uma epidemia incurável com origem no sexo?
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Mas não há um problema moral na SIDA?
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– É capaz de haver. Quem apanhar SIDA está estragado, claro. E de hepatite, de cancro, de atropelamento? Ninguém está a tirar o peso ao problema. Mas não moralizem. Não criem novos leprosos. Em vez de se avisar as pessoas, começaram a condenar grupos particulares, com o desejo de regressar aos bons costumes… As campanhas são mal feitas, quase terríveis. Espero que, se isso me acontecer alguma vez, eu tenha a coragem de desaparecer definitivamente. Como a Marilyn…
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Bom, mas a propósito do Lunário, se quisermos, não podemos pôr de parte o facto de existir uma moral do sexo.
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– Claro que há uma moral do sexo. Ou volta a haver. O facto de as pessoas terem a possibilidade de escolherem um parceiro sexual implica uma moral? Agora, mantêm-se com um apenas, e têm medo, mesmo assim… Que andámos a fazer durante anos? Eu trabalhei bem para isso (risos). Nunca fiz militância sexual, e acho isso deplorável, andar a defender causas sexuais. Não tem sentido nenhum, porque, por mim, nunca percebi bem as distinções todas que se fazem. Sou um homossexual que se sente mais homossexual que alguns heterossexuais a sentirem-se heterossexuais… Mas isso não tem sentido nenhum…
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O que é que tem sentido?
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– Não quero dizer isso… Quero é dizer que isso, sozinho, não tem sentido nenhum. Há outras coisas.
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Claro que há. Há o medo das coisas. Que importância tem o medo?
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– Não se pode viver sem medo. Há duas formas de conceber isso: o medo que nos faz estar de pé atrás, e o medo interior, que tem a ver com a escrita. Tenho medo de escrever. Cada vez mais, aliás. O acto de escrita passa por uma coisa assim, desse tipo, medo. Uma pergunta que aparece sempre: «o que é que lá vais pôr, na folha?»
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Isso tem a ver com o lado religioso da escrita?
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– Eu acho que isso está ligado com a descida aos infernos. Fui educado num colégio católico e acreditei nisso tudo durante muito tempo. De repente, por motivos vários, ou apenas um, não sei… passou a ser tudo falso. Perde-se Deus e é como se fosse o princípio do fim. Abre-se um buraco muito grande, tudo o que estava programado deixa de existir, de ter sentido. Tudo é posto em causa. O que é que se pode fazer a seguir para encontrar Deus? Descer aos infernos. Fazer o percurso ao contrário…
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É essa, de certo modo, a perda de que falávamos há pouco e que aparece no Lunário, sobretudo na forma como termina o livro, daquela forma reconciliada e feliz, terna. A imagem de um cardo que sobreviveu à geada, do azul do lírio… É isso que se perde, essa imagem que está no final do Lunário? E que também aparece como uma recordação, quando surge aquela frase que é mais ou menos assim: «devo ter visto o mar quando ele era criança, por isso lembro-me dele»
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– Tem a ver com isso, claro. E tem a ver com o redimensionar todas as questões que colocamos sobre a vida e o seu sentido. Qual é a nossa relação com isto tudo? É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.
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Que experiência?
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– Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.

13.8.09

"É um mundo. É um mundo essa obra [de João César Monteiro] como é um mundo a obra do Proust, a obra do Joyce, a obra do Mozart. E o que está nela é inesgotável e irá sendo apreendido com o tempo, e cada vez mais, e até quando outros tempos olharem para essa obra. Nós estamos ainda demasiado ligados ao facto de termos sido todos contemporâneos dele, de o ter conhecido melhor ou pior e de o poder meter no nosso pequeno anedotário ou nas pequenas histórias. Mas quando tudo isso se perder de vista, daqui a muitos anos, essa grandeza vai saltar, não tenho dúvida nenhuma disso, de uma maneira muito mais evidente e muito mais forte."
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[João Bénard da Costa, em entrevista para a edição em DVD da obra completa de João Cásar Monteiro]