14.6.07

Ler Devagar e Eterno Retorno - Inauguração

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Muito a propósito da crónica que deixei aqui em baixo, de Jorge Silva Melo, uma excelente notícia: é hoje inaugurado, às 22 horas o novo espaço das livrarias Ler Devagar e Eterno Retorno. Fica na antiga fábrica do Braço de Prata e terá, além de três salas para livros, mais duas para exposições, uma para teatro e uma para cinema. Será portanto muito mais do que uma simples livraria, assumindo uma vocação de centro cultural.



A Livraria Ler Devagar, que estava situada no Bairro Alto e teve de sair do seu espaço há já algum tempo, era uma livraria muito importante no fraco mercado livreiro lisboeta. Uma livraria claramente alternativa, que apostava em fundos de catálogo e pequenas editoras, nada dos best-sellers, livros com capas coloridas e siglas iniciáticas de que fala Jorge Silva Melo. Ainda por cima o espaço era agradabilíssimo, com uns corfortáveis sofás, não tinha a habitual músicata horrível aos berros e os funcionários eram muito interessados e competentes. Promovia também com regularidade debates e exposições.


A Eterno Retorno era uma pequena livraria-bar especializada em livros de filosofia que ficava mesmo ao lado da Ler Devagar.

Agora as duas juntaram-se e têm um novo espaço no Braço de Prata. Esperemos que o facto de estar muito afastada dos circuitos habituais dos seus potenciais clientes, ao invés de os assustar, sirva isso sim para criar um pólo de revitalização de uma zona da cidade profundamente degradada e abandonada.

Jorge Silva Melo: "foi um erro entrar naquela livraria"

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Talvez seja verdade

O erro foi meu, entrei numa livraria. Parecia-me ter entrevisto na montra o novo livro de Antonio Tabucchi, entrei. Para chegar ao fundo, ao lugar onde há livros (numa livraria, não devia ser o lugar principal?), atravessei várias bancas de bugigangas, revistas que oferecem chinelos e cafeteiras Bodum, agendas, os omnipresentes Moleskine. E as primeiras bancas eram de "best-sellers" e "novidades" com capas picantes, pernas de mulher por todo o lado, um rabo ou outro, siglas iniciáticas.
Fiquei, parvo, a olhar para aqueles livros todos, quilos de papel. Aquilo não era para mim, fora um erro entrar ali, aquele negócio é para outras pessoas (sexodependentes? e compram livros?), as editoras e os livreiros tentam desviar para dentro daquelas casas sombrias a senhora talvez licenciada que a essas mesmas horas há-de mas é estar no cabeleireiro, talvez mesmo no café ao lado a comer uma sande de queijo fresco sem manteiga. Foi a primeira vez que me senti a mais numa livraria, tantas foram as que me foram familiares desde a adolescência.
Definitivamente: não sou "público-alvo". Com quase 60 anos, boas notas na universidade, conhecimento de algumas línguas estrangeiras, não é para mim que agora se produzem livros, passei ao "quadro dos excedentes" da clientela. Aliás, não encontrei o Tabucchi que, sereia falaciosa, me atraíra lá para dentro, para onde só vi um mundo de conselhos práticos ou fantasias erótico-medievais-político-iniciáticas que, de todo, não é para a minha idade e condição cardíaca.
Já na rua, horrorizado, "snob", e com a Primavera a trazer-me saudades de Saint-Germain des-Prés (tantos livros a descobrir confiando na tenacidade dos editores a defender o seu bom nome), pus-me a fazer contas. E posso apostar em que não haveria, naquela loja moderna e central, mais de 8 por cento "de literatura". Estranho que a literatura seja agora minoritária precisamente no negócio dos livros, ou não será? Aqueles "produtos" eram o que se chama "entretenimento" (mas quem se entretem com aquilo tudo?), ou livros de conselhos (mas as pessoas lerão estes milhares de conselhos para emagrecer, fazer saladas, engordar, amar, falar com o chefe, arranjar emprego?), romances históricos (desde "O Monge de Cister" de Herculano que não os quero ver à frente), fábulas, livros de engate ou paródia.
Está bem, nem há literatura nas livrarias nem eu sou o cliente pretendido, eis-me reformado. E lá fui à tabacaria em frente onde aí sim, se encontram agora Bulgakov, Calvino, Pavese, Hamsun, Andric, Tolstoi, Miguéis, Cervantes, e até Teixeira-Gomes, literatura, coisa para velhotes, imagino, entre dois registos para a Santa Casa.
E eu que queria tanto ser "público-alvo", que se me dedicassem edições, programações, que ainda se dirigissem a mim. É que ainda gastava algum dinheiro, juro... Quando leio por todo o lado que o desígnio das políticas é a "formação dos públicos" (para comprarem livros com pernas abertas de rapariga elegante?), entro na melancolia, sinto-me folha morta. O que farão comigo, público já formado? Lixo comigo? Ou terei de passar por educando, iletrado, ignorante para poder entrar num teatro?
A pouco e pouco, o "meio" (político, cultural, editorial, curatorial, programatorial...) descobriu outro destinatário, senhoras ginasticadas, moçoilas aprendizas do amor e os jovens, esses jovens que lhes enxameiam os discursos. E que é deles, que não os vejo nas livrarias, a nenhum desses "alvos"? E não é só com livros, não, é filmes, é teatros, nada disso será doravante para mim. Lembrem-se das recentes declarações da ministra segundo a qual o Teatro Nacional terá como público-alvo os jovens ( e eu, que nunca o quis ser?, não tenho direito a ir ver um teatrinho normalmente para adultos ou mesmo velhos?), a ver ( mais ou menos sic) se eles ficam "mais tolerantes". E percebo que, para existirem, as artes (???) terão de se portar muito bem à mesa, não citar os intolerantes, serão bem comportadas, iogurtes de frutos vermelhos com bifidus, artes limpinhas, para poderem ser propagandeadas como calmantes sociais, gerando boas maneiras políticas.
(Saudades ao Vítor Silva Tavares, casquinemos!)
Ou também a mim me reciclam, "laranja mecânica", a ver se fico "tolerante"?
Foi um erro entrar naquela livraria, vi-me dispensado da vida. Mas talvez seja essa a verdade.
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[Jorge Silva Melo, Mil Folhas (suplemento do Público), 08-04-2006]

11.6.07

PASSAGEM DAS HORAS
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Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço.
Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.
Sou mais variado que uma multidão de acaso,
Sou mais diverso que o universo espontâneo,
Todas as épocas me pertencem um momento,
Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.
Fluido de intuições, rio de supor – mas,
Sempre ondas sucessivas,
Sempre o mar – agora desconhecendo-se
Sempre separando-se de mim, indefinidamente.
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Ó cais onde eu embarque definitivamente para a Verdade,
Ó barco, com capitão e marinheiros, visível no símbolo,
Ó águas plácidas, como as de um rio que há, no crepúsculo
Em que me sonho possível –
Onde estais que seja um lugar, quando sois que seja uma hora?
Quero partir e encontrar-me,
Quero voltar a saber de onde,
Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social,
Como quem ainda é amado na aldeia antiga,
Como quem roça pela infância morta em cada pedra de muro,
E vê abertos em frente os eternos campos de outrora
E a saudade como uma canção de mãe a embalar flutua
Na tragedia de já ter passado,
Ó terras ao sul, conterrâneas, locais e vizinhas!
Ó linha dos horizontes, parada nos meus olhos,
Que tumulto de vento próximo me é ainda distante,
E como oscilas no que eu vejo, de aqui!
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Merda p'rá vida!
Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago,
Ter deveres estagna,
Ter moral apaga,
Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral,
Vive na rua sem siso.
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14/4/1923
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[Álvaro de Campos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2002]

A Feira do Livro por Daniel Melo

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"O domingo passado foi o último dia da 77.ª Feira do Livro de Lisboa. Ficam na retina os jacarandás no seu esplêndido espectáculo lilaz.
O bolso mais leve. Mais fólios em casa.
Agradáveis passeatas e encontros ao sol. E a vista do Tejo, claro.
Portanto, o local é excelente, não dá para 'inventar' outro.
Agora, dá para melhorar o que há, lá isso dá.
Aqui ficam umas dicas desgarradas. É de graça, e nunca se sabe. E se fizessem sentido, queres lá ver?
Primeiro que tudo, dar nexo àquilo, meu santo Olegário! Todos os anos muda a ordem. Porque não deixarmo-nos do preguiçoso sorteio e trabalharmos para os visitantes? O espaço dos alfarrabistas já existe, mas é modesto, não vem sinalizado no mapa e em lado nenhum, portanto, sinalizar os espaços sectoriais; haver um só espçao para editoras institucionais; outro só para o ensaio; outro só para a ficção (no caso de editoras híbridas, dividiam a produção); um para pequenas editoras (que deviam ter descontos), etc.. Faz sentido haver um grande espaço infanto-juvenil, sim, mas todo concentrado num dos lados.
Depois, espaços para descansar no meio dos estaminés, dos próprios organizadores, onde se pudessem folhear catálogos, jornais, etc..
Mais programação cultural avulsa. A CML devia concentrar aí o arsenal cultural neste período.
Em certos fins-de-semana valeria a pena abrir mais cedo do que as 15h costumeiras."
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[Daniel Melo, em post do Peão]

10.6.07

Feira Do Livro - Último Dia

Últimas sugestões a preços irresistíveis:


Os Vagabundos do Dharma e Big Sur, ambos de Jack Kerouac, estão a 5 euros cada na Relógio d'Água.



Também na Relógio d'Água, Canções Volume 1 (1962-1973), de Bob Dylan, está a 7,5 euros.



A Bertrand tem o Complexo de Portnoy, de Philip Roth, a 2,95 euros.

8.6.07

Os Livros no Parque: Hélia Correia

Temo às vezes que as árvores não pensem bem dos livros, que neles se vejam mortas. Depois lembro que os próprios seres humanos se consolam, prevendo as flores que hão-de nascer das suas cinzas. Posso então concluir tranquilamente que, quando as duas criações, plantas e escrita, ocupam um só espaço, isso se faz em pleno assentimento e harmonia.
Mesmo a palavra «feira» retoma o seu encanto de coisa medieval, desprotegida. Com mais um bocadinho de liberdade, existiriam cestos e pregões. As pessoas retomam os passeios do fim de tarde, como os há nos livros de Eça. E parece que saem desses livros. Se não ouvimos já o roçagar das vestes femininas pelo chão, podemos, no entanto, conhecer, por uma vez, esse rumor de gente, a exclamação de encontros inesperados. Será mesmo provável que as crianças se sujem ao rolarem sobre as ervas o que, para os lisboetas, começou a tornar-se difícil e precioso. O calor puxa os cheiros vegetais. E até a minha chuva, a mal amada, desce para criar simulacros de perigo, e as pessoas defendem as cabeças com os sacos das compras que fizeram. Deve-se isto à feliz inexistência de tectos e paredes. E não é uma dívida pequena.
A argumentação que mão me interessa, a da centralidade do lugar e do maior sucesso nos negócios, que a façam os peritos, os que vendem. Tendo eu, como a Lou Andreas-Salomé, dificuldade em distinguir livros de flores, sinto-me bem nesse lugar comum. O que vai ler caminha no jardim, o que vai caminhar passa entre livros.
Há uma ausência de especialização que vive aqui os últimos momentos e que queria durar um pouco mais.
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

Os Livros no Parque: Jacinto Lucas Pires

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Não Tirem os Livros dos Dias de Sol do Parque Eduardo VII
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Nas folhas uma luz pequena misturada com um pequeno vento – anotarmos coisas pequenas nas margens, nas ruas caladas que ladeiam a avenida propriamente dita, antes de continuar. Desviarmo-nos também algumas vezes – dobrarmos aquela nossa esquina (como quem dobra uma página, só mesmo na ponta, um tudo-nada) para não nos esquecermos de amanhã retomar outro caminho. Nos espaços onde faltam prédios inteiros espreitarmos contracapas e badanas, por assim dizer. Escolhermos belas epígrafes para as ruelas, as travessas, escadinhas e becos sem saída. E, para a avenida (que nem precisa de nome, diz-se «a avenida» e toda a gente sabe que é esta), pensarmos no mínimo um prefácio – frases simples de assobiar, onde pousem vírgulas parecidas com melros e uma metáfora de céu azul. No fim, cá em cima, contornamos o marquês e entramos na feira, chegando ao ponto do assunto, três pontos de exclamação.
Aí, então, deixarmos apenas que o acaso funcione, de modo que um livro entre na nossa vida, e depois outro, e depois outro. Eles – que, na voz de Caetano, «são como a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo» - hão-de mostrar-nos tudo o que sempre soubemos mas nunca tivemos assim, fora de nós, na nossas mãos, posto em palavras – e isso atirar-nos-á para o fundo e para a frente, para sempre, para o sol.
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

Os Livros no Parque: José Ruy

Eu defendo a presença da Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII, pelo facto de achar que um acontecimento cultural desse teor se enquadra na natureza e nos amplos espaços livres, muito da minha predilecção, como se vê na obra que realizo em banda desenhada.
Apanharmos um pouco de sol, alguns respingos de chuva ou mesmo uma temperatura mais baixa durante a feira, não justifica, para mim, enclausurarmo-nos num hangar, defendidos desses inconvenientes mas despidos do ambiente natural.
Naturalmente que há sempre uma evolução, mas nem tudo ao mudar é para melhor.
A Feira é o ponto de encontro cultural para quem ama o livro, e o cenário do Parque faz parte já de uma tradição que vem do tempo em que era instalada na Avenida da Libertade.
Não enlatem a nossa Feira do Livro.
Por favor!
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

5.6.07

Os Livros no Parque: João Paulo Cotrim

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As Copas dos Livros
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O rio é o pano de fundo da cidade. Pinta-se plúmbeo na noite, reverberante com os raios da madrugada e azul, entre as esquinas, no fim das ruas pelo dia dentro. Por vezes é verde. Sobre o movimento das ondas, passam barcos e navios. Sobre o movimento das águas, passam livros. Subiram avenidas, experimentaram os ventos da praça, mas lançaram âncora no parque. É o lugar certo. Os livros são uma floresta de gente em gestos de vento, são montanhas movediças de palavras, paisagens mentais feitas de cheiros e memórias, são formas seguras e ideias soltas, são gritos e agressões, são incómodos, são matéria que as mãos levam aos olhos, carne que nos fazem mais corpo, mais transparente, mais voador. As árvores, como os prédios, dão-se bem com os livros. Contam cada tempo do tempo até chegar a altura em que essas aves de arribação regressam ao parque para nidificar por entre alamedas de copas exaltadas. É a única altura do ano em que brilha com as cores do rio a seiva de papel que lhe arde no tronco. Os livros acontecem inesperadamente como riscos de trânsito nocturno, portos de abrigo, sangue e oxigénio da cidade minha. Os livros são o pano de fundo verde da cidade.
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

Pacheco Pereira e a Feira do Livro

"São os editores que publicando quilómetros de lixo, que enchem as livrarias e os balcões da Feira, tornam o livro que se vende novo completamente desinteressante. Há excepções, claro, excelentes editoras, mas a regra é o livrinho de capa frívola e texto imbecil de qualquer autor secundário na moda este ano, desaparecido do mapa no seguinte. Cada vez mais reforço a minha moratória de só ler livros (de ficção) que resistam dez anos em qualquer memória viva.
Assim, é natural que acabem por ser os balcões dos alfarrabistas aqueles que mais gente tem à volta, e foi isso o que observei na Feira. Nos alfarrabistas, infelizmente poucos, encontram-se as verdadeiras "novidades", os velhos livros que nunca conhecera, os livros que sempre quisera ter e não tivera dinheiro para comprar, os livros que antes nunca pensei comprar e agora compro com gosto. Os livros é assim, sempre surpresas, sempre infinitos, cabem sempre mais."

[José Pacheco Pereira, em post no Abrupto]

O Subversivo

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(clicar na imagem para aumentar)

4.6.07

Os Livros no Parque: Mário de Carvalho

Gosto de melros, os espertotes, ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas de Lisboa, não sei se da concorrência de paradais fura-vidas e pombalhões abafa-espaços, se duma vontadae de saltitar ao de leve por outras bandas.
Ainda assim, aparecem uns tantos na feira do livro, a lavrar no parque. Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste Clément, ele é o Junqueiro…
Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo glauco a fechar as vistas.
Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa, este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar.
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

1.6.07

Os Livros no Parque: António Barreto

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A Feira no Parque
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Fui à Feira do Livro de Lisboa, pela primeira vez, em 1974. acabado de chegar do exílio suíço, desloquei-me, numa noite quente de Primavera, à Avenida, onde então se realizava. O local era acolhedor, mas apertado, ruidoso, atravessado por carros, excessivamente «urbano» para quem quer deambular, parar, passear, ler e escolher. Depois disso, vi-a no Parque e no terreiro do Paço. Esta última solução foi desastrada: o calor, a falta de sombra e de conforto, o barulho, o trânsito, tudo desaconselhava aquele sítio. Por mais que pense, a solução do Parque Eduardo VII é de longe a melhor de todas. Espaço, sombra, localização central na cidade, sítios para ler, namorar e repousar, levar crianças ou idosos… Nem quero imaginar que a Feira seja deportada para longínquas periferias, muito menos para centros comerciais transpirados!
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

Os Livros no Parque: José Salvador

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Os Livros em Liberdade
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Quem tem a paixão pelos livros nem sempre entende porque razão eles não fazem parte da vida de tantos portugueses. Pode aceitar-se que a casa é o rosto e a alma de uma pessoa. A minha está cheia de livros, diria mesmo atravancada. Às vezes dá-me vontade de libertá-los, mas receio perdê-los de vista, coisa que nenhuma paixão consente. O objecto de desejo tem de estar à vista e à mão.
Ora, a Feira do Livro n Parque Eduardo VII permite-me uma vez por ano concretizar esse desejo: olhar os livros em liberdade sem os perder de vista, tê-los ali à mão de semear, pelo que lá volto em peregrinação cada ano que passa. Mato dois coelhos de uma cajadada: vou ao parque, que nunca visito noutras ocasiões e que durante o dia me surge agradável; e descubro os livros em liberdade ao encontro de tanta gente que não entra em livrarias, não vai a bibliotecas e, quem sabe, nem sequer lê.
A feira no parque é uma festa, aberta, ao ar livre, que convida os passantes a espreitar esse objecto cada vez mais estranho em que se está a transformar o livro perante a concorrência de toda a oferta multimédia. Fechá-lo num grande armazém, mesmo que lhe chamem FIL, é aprisioná-lo de novo, é remetê-lo para um «ghetto», onde se vão movimentar quase exclusivamente os profissionais da indústria e comércio livreiros. Se este é o destino que lhe querem impor é mais um golpe no futuro do livro e menos razões para voltar ao Parque Eduardo VII. Um país sem livros é um país sem futuro.
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[in Os Livros no Parque, editoras Afrontamento, Antígona, Assírio & Alvim, Climepsi, Cotovia, Meribérica-Liber, Relógio D’Água e Teorema, 2004]

Pechinchas na feira



Retratos e Auto-Retratos e Às Avessas, ambos de Vasco Pulido Valente, a 5 euros cada na Assírio & Alvim.