25.2.08

A Sarjeta

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“É sempre assim. Calor e seca trazem falta de água, perda agrícola, incêndios de floresta e morte de animais. Por vezes, doenças. Chuva traz inundações, perda de casas e bens, pobreza, destruição de estradas e comércios. E ameaças para a saúde pública. Sem falar nas avarias de telefones e de água canalizada, nos cortes de gás, nas paragens de semáforos e nos colossais engarrafamentos de carros. Nuns e noutros casos, bombeiros, serviços de protecção e prevenção, socorros de emergência, soldados, polícias e centros de saúde desunham-se quanto podem, mas são sempre insuficientes, raramente chegam a tempo, não estão dimensionados e faltam-lhes meios e organização. Esta é a fragilidade de um país. Esta é a fraqueza de uma sociedade que se moderniza velozmente, de um modo brutal. As camadas modernas vão-se sobrepondo sobre a sociedade antiga, sem evolução ou ajustamento. Auto-estradas por cima das couves, cabos de alta tensão e antenas de telemóveis em cima dos telhados e prédios instantâneos rodeados de ribeiras e ribanceiras, de taludes e areia. Restos de obras escorrem nas enxurradas, areia e tijolo espalham-se pelas ruas e aterram nas baixas das cidades ou perto dos rios e praias. A lama natural mistura-se com os detritos de uma sociedade desorganizada e desmazelada, a que presidem autoridades sempre mais interessadas no que dá nas vistas, com enorme desprezo pelo que faz falta. Como tão bem adverte, há décadas, Ribeiro Telles, cortam-se as vias de água, tapam-se os sistemas de drenagem, desviam-se cursos, entopem-se as sarjetas e os esgotos e não se cuida do espaço público. Nem sequer se aprende com os desastres anteriores. Aposta-se no futuro e sai Casino, estádio de futebol ou Exposição. Choque tecnológico ou plataforma. Resort de luxo ou TGV. Mas a sarjeta, senhores, a sarjeta! Essa fica esquecida. Sem falar na drenagem, no abastecimento de água, nas linhas de telefone, nos esgotos ou na organização dos serviços de emergência.”
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[António Barreto no Público de ontem]

(foto roubada aqui)

22.2.08

Edições Nelson de Matos

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Em tempo de grandes grupos editoriais, em que a figura do editor é substituída pelo gestor, para quem o livro é um negócio como qualquer outro, é bom ver que há quem não se resigne.
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Nelson de Matos, um verdadeiro editor daqueles que gostam de livros e conhecem os escritores (e nem por isso pior gestor, pelo contrário), lançou agora uma pequena editora com o seu próprio nome. Começa em grande, com um inédito de Cardoso Pires.

21.2.08

FANTASMA
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O que vamos nós coleccionar quando também
formos velhos? Um fantasma entrou pela porta,
a avaliar pela extensão dos danos.
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Escrupuloso em questões de segurança, examina
o cartão que lhe vai pagar a conta. É este.
Algumas tentativas de humor sádico:
sem sucesso. Compra-se o tempo, aos oitenta,
trata-se da vida de outro modo, espera-se
que todos os dias sejam uma descoberta:
pára-quedas que não abrem, muros
que podem cair antes de darmos por isso.
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Diz-se que entramos neste mundo com o destino
já traçado. Bocados de um papel antigo.
Denúncias infundadas, por enquanto.
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[Vítor Nogueira, in Telhados de Vidro nº 9, Averno, 2008]

20.2.08

Telhados de Vidro

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Já saiu o número 9 da Telhados de Vidro, a revista da Averno.

15.2.08

Ler

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Depois de todas as esperanças perdidas, a Ler ressuscitou. A iniciativa é da Fundação Círculo de Leitores, voltando a revista à periodicidade mensal, que tinha perdido nos últimos anos. O seu director será Francisco José Viegas, pelo que se prevê um regresso aos bons velhos tempos da revista.
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Com os suplementos literários dos jornais cada vez mais pequenos, quase só resta o velhinho JL como publicação regular dedicada à literatura (a revista Os Meus Livros, insuportavelmente light, raramente tem alguma coisa de interesse), pelo que a chegada (ou regresso) de uma boa revista mensal é de saudar vivamente.
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O aspecto negativo da notícia é a situação da Casa Fernando Pessoa, que tinha levado uma volta de 180 graus com a chegada de Francisco José Viegas e fica agora em situação incerta. A nova directora será Inês Pedrosa, o que não augura nada de bom.

13.2.08

Ricardo Parreira (2)

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[Canto do Rio/Acção, Carlos Paredes]

Ricardo Parreira (1)

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[Variações em Lá Menor, José Nunes]

12.2.08

Música de 2007

Não tenho grande preocupação em estar atento às novidades e portanto a esmagadora maioria do que vi, li ou ouvi em 2007 não saiu em 2007 assim como muito do que me despertou interesse em 2007 hei-de ver, ler ou ouvir mais tarde.
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De qualquer forma gostava de chamar a atenção para três discos do ano que passou que, sobretudo dois deles, me parece que não foram objecto da atenção que mereciam e merecem não ficar esquecidos:
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O primeiro (e único que foi objecto de algum destaque) é este À Espera de Armandinho de Pedro Jóia. É um disco um pouco inesperado já que Pedro Jóia toca guitarra clássica e tem um percurso sobretudo ligado ao universo da música flamenca. É portanto alguém até agora totalmente exterior ao mundo do fado que resolve fazer uma homenagem àquele que é considerado o pai da guitarra portuguesa, o lendário Armandinho – Armando Augusto Freire (1891-1946) – num disco inteiramente gravado a solo. O resultado é impressionante.
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O segundo é Nas Veias de uma Guitarra – Tributo a Fernando Alvim de Ricardo Parreira e do próprio Fernando Alvim. Ricardo Parreira é um jovem e muito promissor guitarrista com apenas 20 anos que se junta aqui ao veterano Fernando Alvim, célebre violista que acompanhou, entre muitos outros, Carlos Paredes (durante 25 anos).
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Os temas escolhidos foram em parte de guitarra de Coimbra (Artur Paredes e sobretudo Carlos Paredes, com cinco temas) e outra parte de guitarra de Lisboa (Afonso Correia Leite, Armandinho e José Nunes). Foi ainda incluído um tema de Fernando Alvim.
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É um disco de grande qualidade que merece ser ouvido com atenção.
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O terceiro é a colectânea Lisboa, de que já falei aqui, um tributo musical a esta cidade, reunindo nomes muito diversos: A Naifa, Rodrigo Leão, Rui Reininho, Danças Ocultas, Rogério Samora e muitos outros.
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O disco é muito bom, sendo de destacar os três poemas de Mário Cesariny aqui presentes: Passagem a Limpo, intrepretado pel’A Naifa; Poema, dito por Rogério Samora com música de Rodrigo Leão; e You are Welcome to Elsinore, dito pelo próprio Cesariny (a mesma gravação que está no álbum Poetas) com música dos BCN.

10.2.08



[Nan Goldin, Red Sky From My Window, NYC, 2000]

8.2.08

O Crocodilo que Voa

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Saiu finalmente o tão aguardado O Crocodilo que Voa, livro em que João Pedro George reune entrevistas dadas por Luiz Pacheco de 1992 para cá, três das quais eu já deixei aqui no blog: a da Kapa (1992), a do JL (a Rodrigues da Silva, em 2005) e a última, do Sol.
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A edição é da Tinta da China, que no seu site até permite dar uma espreitadela no interior do livro.
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No Público de hoje, Pedro Mexia faz a sua crítica:
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A LÍNGUA SOLTA
Confissões e provocações numa antologia de entrevistas a Luiz Pacheco
(Três estrelas e meia)
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Luiz Pacheco (1925-2008) explicou assim a má fama que o perseguia: "É para desvalorizarem o meu critério. Para que se diga: aquele gajo diz mal de tudo, não tem discernimento, é um invejoso. Assim, quando eu digo mal deles já ninguém liga. Quando afinal os outros gajos dizem a mesma coisa que eu, só que não têm lata de o escrever. Parece que se esquecem de que eu editei o Cesariny, o Herberto Helder, a Natália Correia, o Vergílio Ferreira. Aí não estava a dizer mal deles" (pág. 156). Infelizmente, o mais comum é que as pessoas esqueçam a "Comunidade", "O Libertino" e "O Teodolito", esqueçam que Pacheco editou o "Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano" ou "O Amor em Visita". Mas ninguém esquece aquilo a que ele mesmo chamou "o folclore".
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A mitologia pachecal foi alimentada pelas entrevistas truculentas e desbocadas, frequentes na última década e meia. A moda começou na "Kapa" de Julho de 1992 e terminou no semanário "Sol" de 12 de Janeiro de 2008, uma semana depois da morte do escritor. A antologia "O Crocodilo que Voa" tem como balizas esses dois textos. Conscienciosamente editado por João Pedro George, o volume inclui um prefácio perspicaz e muitos dados bio-bibliográficos [há dois ou três lapsos, um deles grave: "a fase sangrenta" é na verdade o livro de Vergílio Ferreira "A Face Sangrenta"].
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Luiz Pacheco confessou várias vezes que não tinha imaginação, e que muitos dos seus textos mais conseguidos são autobiográficos. As entrevistas vivem essencialmente dessa componente memorialística. Temos o Pacheco literato, mergulhado nos clássicos na biblioteca do liceu, aluno de 18 com Nemésio, conspirando no Café Gelo, cansado do neo-realismo, editando autores catitas na Contraponto, escrevendo artigalhadas para jornais, mandando os seus livros à cobrança, reeditando textos para ganhar algum. Temos o Pacheco que lembra o avô capitão-de-mar-e-guerra, que regressa ao bairro onde nasceu e não reconhece quase nada, que enumera as suas muitas casas e os seus muitos filhos. Temos o Pacheco preso no Limoeiro por estupro, internado no Júlio de Matos por causa da demência alcoólica, o Pacheco que conta maluquices de cama e que assiste à Revolução de pijama. Temos o Pacheco dos quartos alugados e dos lares tristes, verdadeira "parada de monstros", o Pacheco das calças curtas, com asma, sem dentes, quase cego, dependente de remédios, afogado em fãs mas numa grande solidão, vendo novelas e folheando álbuns de nus "para me lembrar como é um corpo de mulher".
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Acontece que as entrevistas geraram um sistema autónomo, criando uma personagem que já não dependia dos textos. O próprio escritor se queixou de que alguns entrevistadores não conheciam os livros que ele tinha escrito e apenas liam entrevistas anteriores. Assim se perpetuou um circo com resultados garantidos. Os jornalistas procuravam Pacheco porque esperavam confissões picantes: "eu não fodo desde 1975". Anedotas: "só entrei para o partido [comunista] quando me apareceu uma hérnia". Ou asneirame, como a "mensagem para as novas gerações" que é um singelo: "puta que os pariu". Esperavam sobretudo aqueles ataques sem paninhos quentes que apenas se admitem a um excêntrico. Como refere George, em muitos casos percebe-se que os entrevistadores querem fazer ajustes de contas com palavras alheias, e Pacheco está quase sempre disposto a esse jogo. Quem procura este livro para umas risadas e umas descargas de bílis, tem satisfação garantida. Namora era "abaixo de cão", Cardoso Pires um "aldrabão", Torga "um chato do caneco", e assim por diante Urbano, Eugénio, Dacosta e os novos, às vezes com uso copioso de vernáculo. Pacheco também é capaz de elogios (Cesariny e Saramago, Hélia Correia e, para espanto de muitos, Pedro Paixão), mas não é isso que interessa às gentes. Baptista-Bastos, numa entrevista de 1994, pede sem rodeios: "Nomeia cinco prosadores que detestes".
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A maledicência é no entanto menos interessante que a lucidez. Além das muitas críticas individualizadas (algumas impagáveis), Pacheco tinha uma noção de conjunto essencial: o "meio literário". Ao seu discípulo sociólogo, explica: "Eu não te vou ensinar, eu ensino-te é a combater o meio... Ó pá, um tipo que quer fazer carreira, se não for parvo de todo e for um bocadinho filho da puta... é facílimo... O meio literário é de cortar à faca, é muito fácil de penetrar (...) Agora combater o meio, isso é que é difícil, é o mais difícil. A questão é esta, estúpidos, conformistas, cobardes, é a maioria da malta... (pág. 222). Mais que os compadrios e cunhas, que tanto obcecam George, o que conta aqui é o reflexo do "meio" nos livros em concreto. Em grande medida, a crítica literária de Pacheco vive da denúncia das fórmulas: a grafomania da "literatura por avença", a "literatura de casino" feita para os prémios e o "romance internacional" como género único de quem quer traduções.
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Estas entrevistas a Luiz Pacheco valem, cito J.P. George: " (...) pela agilidade mental ou pelo implacável sentido da lógica, pela sinceridade desarmante ou pelo desapego de quem não quer ser correcto ou bem-comportado; (...) pelas intervenções cómicas, o humor negro, o absurdo, o sarcasmo, a picardia, o cepticismo de quem viu e viveu muito (...) (pág. 11). Como é inevitável, há aqui bastantes repetições, cansativas numa leitura seguida, mas também surpreendentes desmontagens das categorias de "maldito" e "libertino" (ambas próprias de outras épocas e outros costumes) e uma ausência de auto-complacência que leva o escritor a reconhecer que a sua Obra se reduz a uns "textos soltos". Que no entanto contam muito mais que o espectáculo (reconhecidamente divertido) da língua solta.

29.1.08

Exercícios de Estilo: a crítica de Pedro Mexia

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Quando saiu a 3ª edição de Exercícios de Estilo, na Estampa (edição que ainda se consegue encontrar nalgumas livrarias), Pedro Mexia escreveu este texto no DNA (suplemento do Diário de Notícias) em 12 de Dezembro de 1998:
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TOMAI LÁ DO PACHECO
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Luiz Pacheco, prosador, panfletário, maldito e tudo, não é apenas uma mascote da má-língua nacional. Na Contraponto editou, com pouco dinheiro, literatura da sua, incluindo a sua. Agora a Estampa republica «Exercícios de Estilo», acrescentado-lhe uma selecção de outros textos. É uma antologia indispensável de um grande escritor português
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Ora bem: o Pacheco. Não sei se já repararam (já repararam) que para falar do Pacheco o escriba de serviço arranca um português assim estiloso, malandro, rápido e ao mesmo tempo trabalhado. É que não há dúvida: o Pacheco é um ás da prosa, um tipo vivido, sabido, com mais leitura do que a pose revela, com um faro para os escritores que valem a pena e um desdém para com os barretes literários do nosso tempo. Essa é a primeira precaução a ter: a criatura é muito mais que a mascote mal comportada da nossa literatura, o elefante na loja de porcelana que os jornalistas querem ouvir quando necessitam de vozes discordantes, ácidas ou escandalosas. Porque se o Pacheco é o mestre da má-língua ele é também um conhecedor a sério do que se chama a «vida literária». Ele cruzou-se com os escritores famosos, os escritores esquecidos e os pretendentes a escritores, com os jornalistas e os directores de jornais, com os editores e os políticos e com gente ainda menos recomendável. Nesse sentido, e paradoxalmente, o Pacheco é uma instituição da nossa literatura, pelo menos da literatura boémia e lísbia.
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Mas atenção, porque o Pacheco não é só uma testemunha do meio-século literário. Nem por sombras: o Pacheco é ouro de lei, um escritor como mandam as regras, um valente prosador. Hoje há muitos romancistas, mas quase não há prosadores. O Pacheco, esse, nunca cometeu um romance, nem é preciso. O seu género é a crítica panfletária e o conto autobiográfico ou, como ele diz, as «artigalhadas» e os «textículos». Na crítica ele pratica o memorialismo clínico e mordaz, a autobiografia irónica, o ataque gratuito ou documentado, a admiração que nunca é sem reservas, e sobretudo a polémica. Ora a tradição polémica portuguesa é caceteira, mas com caceteiros do melhorio: José Agostinho de Macedo e Camilo. Tal como eles, Luiz Pacheco nem sempre tem razão, mas também não é preciso. A polémica empresta graça e vivacidade à literatura, mesmo porque em muitos casos é ela mesma literatura: quantos são os panfletos que ainda lemos com gosto mesmo quando as questões estão ultrapassadas e esquecidas? As artigalhadas do Pacheco são por isso mesmo um retrato impressionista, uma intervenção frontal e desbocada e uma forma (nobre) de «literatura comestível».
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É importante pensar que o Pacheco andou sempre metido com dói bandos de peso: os surrealistas e a malta dos jornais. O surrealismo português chegou com vinte cinco anos de atraso, mas valeu a espera: não produziu nenhum «ortodoxo» de primeira água para além de Cesariny (o Lisboa é ilegível, valha-me Deus), mas, como sempre, influenciou decisivamente alguns dos melhores escritores e poetas. Ser surrealista-surrealista não é muito interessante, mas ter uma costela surrealista dá sempre jeito. E então chega a outra família, a dos jornalistas da boémia lisboeta e gente afim, dada aos copos mas também ao trabalho maníaco da prosa: o outro Pacheco (o Assis), Dinis Machado, Cardoso Pires, Nuno Bragança, B. B. (às vezes), chegando a José Amaro Dionísio ou mesmo a Pulido Valente. Gente variada, pois, mas gente muito letrada e nada literata, homens de prosa e barba rija, a pedir uma antologia bem feita. São alguns dos melhores prosadores portugueses.
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Mas o Pacheco não é só um surrealista dissidente e um jornalista dos copos e do estilo. Os seus textículos, contos autobiográficos geralmente curtos e muitas vezes líricos, são do melhor que se tem escrito por cá. Não podemos ignorar prosas como «O Teodolito», «Os Namorados» e sobretudo os fabulosos «Comunidade» e «O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor», textos cheios de ternura e desespero, de memórias e sarcasmos. «Comunidade» mostra como o abjeccionismo de Pacheco pode não ser uma coisa apenas abjecta mas também poética, assim um mundo à João César Monteiro. Nesse relato, uma família dorme numa só cama em condições miseráveis, numa cama-jangada onde se revelam as misérias e esplendores da condição humana. A família, nem é preciso dizer, é a do Pacheco, dado a lolitas e à procriação. «O Libertino…» é uma tragicomédia sexual na cidade dos Arcebispos, em que um libertino frustrado (o Pacheco, está-se mesmo a ver) persegue em vão uma adolescente, não tem dinheiro para ir a um bordel, tem um encontro interrompido com um magala e acaba numa pensão rasca condenado ao sexo solitário; neste texto fica bem demonstrado como a libertinagem do Pacheco não é a libertinagem sofisticada dos aristocratas racionalistas e decadentes – embora o Pacheco não seja um filho das ervas – mas uma cedência sem culpa nem alegria às pulsões e às oportunidades da vida (v. Cardoso Pires na «Cartilha do Marialva»). Em relação a estes textos o Pacheco sente-se um pouco como os cantores que vêem o público pedir sempre os mesmos velhos sucessos: já está farto deles. Mas, o que é que se há-de fazer, são mesmo do melhor que escreveu?
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Existe em Portugal uma certa corrente surrealista-abjeccionista que tem no Pacheco o seu patriarca, mas o certo é que a descendência não vale nada ao pé dele. Porque o Pacheco, apesar dos processos, das prisões, das adolescentes e dos rapazes, das pensões, dos sanatórios, do alcoolismo, da mendicidade, do «viver de amigos», vê esse ofício de «escritor maldito» como uma condição apesar de tudo útil mas não como um destino voluntário. Muita gente gosta de Pacheco por má razões, mas isso é o que acontece com todos os «malditos». Porque o Pacheco, ó dadaístas, faz literatura, escreve prosa da melhor, faz estilo sem exercícios, é um panfletário sem ser um energúmeno, é terrivelmente sincero mesmo quando finge. Não é um velho dos Marretas ou o «marginal» de serviço, mesmo que queiram vê-lo assim. Na Contraponto deu-nos Cesariny e Herberto, e também Kleist, Dostoievsky, Pirandello, Tchekov e Apollinaire. O Pacheco, enfim (mas é preciso dizê-lo baixo) é um escritor. Depois de sucessivas mas obscuras edições e reedições, já se tornava necessária a reunião de vários textos num só volume. A edição da Estampa não é brilhante, mas é mesmo assim preciosa e tem uma bibliografia patusca. A seguir o que falta mesmo é a obra completa. Em papel-bíblia, claro.

25.1.08

Câmara Clara sobre Luiz Pacheco

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O Câmara Clara do último Domingo teve como convidados Alberto Pimenta e Vítor Silva Tavares e foi dedicado a Luiz Pacheco, tendo-se falado também de escritores e editores marginais (termo que ambos rejeitam) e tendo sido tentada uma ligação ao universo de João César Monteiro (também rejeitado pelos convidados). Foi uma conversa deliciosa, que pode ser vista na íntegra aqui.
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Para abrir o apetite (e não apenas literário) aqui fica este pequeno excerto:

21.1.08

A noite em que conheci o escritor Luiz Pacheco

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“Eu estava encostado ao balcão com o Zé Manel, a ouvi-lo falar da tristeza, da solidão, da perplexidade da sua vida, no interior daquela enorme piscina de azulejos povoada de vozes, de tilintar de copos, de roçar de tecidos, era em março e as pessoas mergulhavam o nariz na espuma da cerveja como os cavalos na praia, uma nuvem de fumo pairava sobre as nucas de cera, demasiado brancas, das pessoas, as feições de estearina e os cabelos suados das pessoas, e vai na volta o escritor Luiz Pacheco entrou, com dois sacos de plástico repletos de jornais nos punhos, um boné à Lénine na cabeça, os olhos protuberantes de tartaruga magra atrás dos óculos que os impediam de tombar no chão num ruidozinho de louça. Vinha perdido de bêbado e as mulheres e os homens frustrados da Cervejaria Trindade, as mulheres e os homens sem talento da Cervejaria Trindade troçavam dele, remexiam-lhe nos sacos, tiravam-lhe o boné, puxavam-lhe as abas da gabardina enodoada, riam-se-lhe nas costas o azedume do leite podre da inveja ou apertavam-lhe a mão como se aperta a mão aos augustos no circo, num misto estranho de condescendência e de desprezo.
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– Caralho – pedi eu ao Zé Manel –, pela tua saúde tira o velho das unhas destes cornos. São os netos dos cabrões que jogavam pedras no Rato ao Gomes Leal, são os impotentes que se queixam que neste país só se faz merda e que quando aparece alguém que não faz merda desatam a rosnar de fúria e de ciúme diante da tesão alheia por sentirem o trapo murcho nas ceroulas, por não serem capazes, por não serem definitivamente capazes de enconar a vida.
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– Este é o António Lobo Antunes – disse o Zé Manel na sua voz afectuosa e doce que transformava as palavras em ternos bichos de feltro. Trazia Le Monde consigo como os tipos do século XIX as bengalas de castão de prata, e eu pensava Le Monde é a gravata dele ao olhar-lhe a roupa lançada com descuido sobre o corpo pequeno, a pulseira de cabedal, o cabelo escorrido sobre a gola da camisa.
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O escritor Luiz Pacheco oscilou ligeiramente nas pernas inseguras: o seu orgulho pungente, a sua insuportável ironia, reduziam os pénis dos impotentes a engelhadas coisinhas moles de mijar, enroladas nas calças numa vergonha de lombrigas. Uma farripa descolorida oscilava como uma pluma contra os azulejos da parede. Deitou a gabardine para trás, desembaraçou-se dos sacos e esbofeteou-me a cara, com ambas as palmas, num júbilo divertido:
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– Ah rapazinho.
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E éramos os três os únicos sujeitos vivos naquele cemitério de tremoços.”
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[António Lobo Antunes, de Conhecimento do Inferno, 1980]

15.1.08

Luiz Pacheco: o caso do sonâmbulo chupista

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]
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“Conheço Condeixa-a-Nova, vivi curtas temporadas em Alcabideque, lugarejo dali distante uma légua, vai-se bem a pé, estrada plana, várzea fecunda, muita água a correr, monumentos romanos, gente boa e franca. Travei amizade com pessoas que lidaram com o Fernandinho desde pequenino, me revelaram o grande mistério daquela alma. Aí pelos 8, 9 anitos, ele começou a manifestar sintomas de sonambulismo. Não se curou. Aquilo agravou-se com a idade. Estamos agora em 1960, ano da fabricação de Domingo à Tarde, a dar crédito ao que ele exara no final do livro: Lisboa, de 1959 a Outubro de 1960. Por então chamava-se Flores para o túmulo de Clarisse, aliás o título da versão catalã: Flors a la tomba de Clarisse. Labor intelectual intenso, calor na moleirinha, ânsia desenfreada de caçar o prémio, será que terão contribuído para que as crises de sonambulismo orientado, esse estado crepuscular da consciência, se agravassem? com manifestações mais frequentes e agudas? A coitada da Clarisse, o Lins, o dr. Óscar, as oitenta quiladas não lhe saíam da cachola, dia e noite, dia após noite e vice-versa, baralhando-se numa enorme barafunda? Devemos admiti-lo. Mais: só pode ter sido isso. O quadro é, então, o seguinte: Namora dorme, pesadamente. De súbito, num gesto brusco, atira as roupas cama fora, senta-se, hirto, estica os braços para a frente, salta pró chão sem que nada ou ninguém o possam impedir. Do balandrau cor-de-rosa como ele gosta, para se dar ares de esquerda e lhe fica a matar com o bronzeado da cútis, sempre com os braços esticados, vai em passo de ganso, tal um robô, à saleta onde trabalha. Puxa um livro da estante, começa a folhear (sempre a dormir), sublinhar, copiar frases inteiras. Vai escrevendo («o esboço é escrito à mão, a versão definitiva à máquina», revelou, numa entrevista). A páginas tantas, chateia-se (o seu subconsciente, tá visto), levanta-se, estica outra vez os braços muito esticados e regressa, a passo de ganso ou aos pulinhos, para a caminha. De manhã, quando repara nos escritos com a sua letra sobre a secretária, elogia-se: «ena! ontem fartei-me de trabalhar». Toca a pôr na versão definitiva, à máquina.
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Esta minha versão, repito: científica, esclarece todas as dúvidas, destrói interpretações levianas, silêncios escusos. Por exemplo: suponhamos que Vergílio Ferreira veio a saber – e há quantos anos? – das fraudes, dos surripianços, do seu querido amigo. Conhecendo a doença dele, aguentou e, piedosamente, carinhosamente, calou-se. Também o tosco das coincidências, a inocência de Namora no caso do Prémio e durante todos estes anos que passaram, ficam ilibados. Por outro lado, e é problema que aos investigadores futuros desde já se coloca, quantas e quantas páginas, quer em Domingo à Tarde, quer nos seus outros livros, não terão sido resultantes de chupanços parecidos, em transe de sonambulismo orientado? Fontes de Namora: um tema inesgotável. Ou, então, ele vai curar-se definitivamente e vai consagrar o resto dos seus dias a varejar dos seus volumes tudo aquilo que lá meteu como sonâmbulo chupista."
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[Luiz Pacheco, in O Caso do Sonâmbulo Chupista, 1980]

14.1.08

Luiz Pacheco: a última entrevista

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Na sexta-feira falei aqui de uma prometida entrevista de Luiz Pacheco ao Sol (a sua última entrevista, segundo o jornal). Afinal era escusado e até desejável não comprar o jornal: a entrevista surgiu na revista “Tabu” mesmo ao lado de uma reportagem sobre uma “família numerosa”, com uma bolinha vermelha e avisos por causa da “linguagem que pode chocar alguns leitores”. A entrevista acabou por ser cortada vários pontos e algumas palavras ficaram reduzidas à primeira letra. A versão integral só foi colocada no site, disponível gratuitamente.
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Já não é a primeira vez que isto acontece (por exemplo nesta entrevista ao Correio da Manhã colocavam uns m. e c. não escrevendo as palavras completas). Acho isto um insulto a Luiz Pacheco. Toda a gente sabia como ele falava e a linguagem que utilizava. Se estes jornais “para toda a família” acham que a linguagem de Luiz Pacheco não é apropriada para figurar ao lado de reportagens sobre famílias numerosas era preferível absterem-se de o entrevistar e deixar isso para publicações que não têm esses problemas.
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Quanto à entrevista, feita por Ricardo Nabais e Vladimiro Nunes, aqui fica a versão completa:
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‘NÃO ESTOU AQUI A FAZER POSES’
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Quando mostrámos a capa do Exercícios de Estilo à entrada, reconheceram-no logo: ‘Ah, é aquele senhor alto e magrinho’. Há quanto tempo está aqui no lar?
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Cheguei há uns oito ou dez dias.
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E já é reconhecido por toda a gente?
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Não sou nada. Isto hoje é que é um acontecimento, não é? Aqui só o senhor da biblioteca é que lê. Estive um ano e meio com o meu filho e tinha um serviço de apoio domiciliário. Iam lá a casa, lavavam-me os tomates, o rabo e a merda, mudavam-me a fralda… Como me fazem agora aqui.
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Tratamento de luxo.
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Qual luxo? Ó pá… Ainda nem conheço a casa…
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Mas, pelo que vimos, já faz sucesso entre as mulheres. Uma das auxiliares até nos disse que, no outro dia, tinha prometido escrever um livro para ela.
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Está aí, é essa merda [aponta para cima da cama, para um exemplar em serigrafia de Comunidade]. Não é um livro, é um poema objecto, um investimento para despachar coisas do [Cruzeiro] Seixas, e foram buscar um texto meu. Nem sei quanto é que me deram. É o meu filho Paulo que recebe os dinheiros na conta, é o meu depositário. Esse gajo que eu não conhecia, da galeria, da…
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… Perve.
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Perde?! Nunca lá fui…
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A galeria chama-se Perve. De ‘perversão’.
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Qual Perve! Não me lixes, pá! É um gajo muito metediço – chamo-lhe ‘o urubu’ – que anda atrás de mim, do Cruzeiro Seixas, [e já tinha andado atrás] do Cesariny e daquele gajo de Sines, o Al Berto… O que eles querem é sacar espólios.
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Já folheou o livro?
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O texto é mais velho que a merda e os desenhos, vi um que me meteu medo e não quis ver mais nenhum. Mas aquilo é giro, porque é um investimento grande, acho que a serigrafia é muito cara. E está tudo numerado e assinado, para dar o ar de coisa rara. É uma golpada. Com todas as letras. Mas haja alguém que faça golpes destes.
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O Luiz Pacheco também já deu algumas golpadas.
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Já dei algumas.
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Qual foi a pior?
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Isso não posso dizer. E também não se avalia assim.
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Qual a que lhe deu mais gozo?
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Deram-me todas muito gosto. Tive aí uma actividade durante 50 anos [como editor da Contraponto]. O gosto que tenho é nos livros que vendi a cinco ou a 20 paus e hoje valem contos de réis. Também assinados, com dedicatórias, numerados. Agora é uma senhora, cunhada do Manuel Alegre, uma jornalista, que está outra vez a fazer edições da Contraponto.
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Um dos últimos livros que o Pacheco editou foi Villa Celeste, de Hélia Correia, em 1999.
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Ela agora fez um romance.
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E tem publicado vários livros na Relógio D’Água.
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Está a ter mais nome, até ganhou um prémio, parece-me. Já não a vejo há muito tempo. Quando eu estava em Palmela, foi lá com o marido, aquele rapaz dramaturgo, do Público, que também foi premiado… o Jaime Rocha… Ela escrevia lá para as Azenhas do Mar, porque gosta de ambientes húmidos. É gira. E um bocado tosca, maluca…
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Mas era uma das escritoras novas de que o Luiz Pacheco mais gostava.
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Era sim senhor.
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Até porque entretanto já se tinha fartado do Pedro Paixão e do Miguel Esteves Cardoso.
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O Pedro Paixão ainda é vivo, esse gajo?
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É. E o Miguel Esteves Cardoso também.
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Esse é um estupor. Ele, a mãe e o pai. É o gajo da televisão, não é?
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Não. Esse é o Miguel Sousa Tavares.
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Pois é. Desculpem. Não, do Esteves Cardoso gostava muito. Era um gajo giro. Depois fez aquela laracha d’ O Amor é Fodido. Os livreiros até tapavam o título. Conheço dois que taparam. Ele está a fazer o quê? Engordou muito, não foi?
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Voltou a fazer crónicas para o Expresso, mas sem o mesmo sucesso de antigamente.
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Nunca gostei muito dele em crónicas. Nunca me convenceu muito. Já o topava desde o Independente. Depois esteve numa revista com graça, a Kapa.
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Como tem ocupado o tempo aqui no lar?
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No outro dia houve festa com dançarinas sevilhanas. Desviaram as mesas, arranjaram espaço. E eu fiquei cá para trás. Puseram um disco desse gajo, o Quim Barreiros, que é o que toda a gente gosta. Aqui há muito barulho, mas é por causa das TV. Mas como quase não oiço nada do ouvido esquerdo, viro-me para esse lado e à minha frente estão os telespectadores.
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Não tem seguido nada da televisão.
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Vi uma coisa que não sabia que existia, que é a RTP Memória. Como é que a gente pôde gramar coisas tão estúpidas? Eram tão idiotas, tão impossíveis de ver. Aparecia o José Hermano Saraiva – eu detestava aquele filho da puta – que é um artista da aldrabice… Mesmo o Agostinho da Silva também me parecia um bocado aldrabão. E os programas com o Isidro, que é um belíssimo profissional e descobriu uma gaja daqui [do Montijo], a Dulce Pontes… Ela tem um vozeirão! Com o Herman José já não me consigo rir.
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E os Gato Fedorento?
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Nunca vi. Isso é de um filho da puta, aquele gajo, o Ricardo Araújo Pereira.
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Que já o entrevistou para o Jornal de Letras…
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Com o Rodrigues da Silva, um gajo que já conheço há muitos anos. Foram os dois entrevistar-me. E eu aí descaí-me, porque não estou aqui a fazer poses. Digo as coisas e depois o que sai é com vocês. Quero lá saber! Mas fui dizer que uma gaja me tinha feito um broche de pino. E o gajo meteu isso.
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Mas de quem foi a culpa?
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Fui na conversa. Saiu-me.
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Era verdade ou não?
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Puseram ali o broche de pino! O que é uma coisa de meter medo…
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Por que ficou tão zangado se era verdade?
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Era verdade, era! Um gajo fica deitado na cama. E a gaja faz-lhe o broche. Até aí, é como o outro. É trivial. Mas de repente é de pino: a cama está encostada à parede, ela faz o pino, abocanha, apoia os pés na parede, está para ali a funcionar e um gajo à espera que ela de repente caia, porque tem uma mão apoiada na cama. Um gajo, se pensa, começa a ver o perigo que aquilo é. Se ela, de repente, se chateia, perde o equilíbrio, e lá vai… Mas isto são coisas que saem, porque um tipo não está a fazer pose.
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Não gosta que esse tipo de coisas saia nas entrevistas, é isso?
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Não é não gostar, é o espanto que provoca nas pessoas.
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Está para sair um livro com entrevistas suas.
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Esse livro é uma merda! Isso é de um gajo que publicou o diário na D. Quixote.
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O João Pedro George?
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Sim.
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É seu amigo, não é?
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Acho que não.
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Mas vai escrever-lhe a biografia.
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Isso é uma aldrabice. Se ele está convencido de que eu acredito nisso, nunca acreditei. Um gajo, quando vai escrever uma biografia, tem de pedir logo um documento, que é a certidão de nascimento. Ele falou com muita gente. Mas anda a apalpar terreno. Agora, esse livro [de entrevistas, O Crocodilo que Voa, da Tinta-da-China] não saiu ainda. Saiu um no Porto, pequenino, que diz na badana ‘Luís Pacheco é asmático, bissexual, filho único, alcoólico, cadastrado’. Isto não é de um gajo que vai fazer uma biografia. É acintoso. Então eu tenho a culpa de ser asmático? Asmático, sim; bissexual, suponhamos; cadastrado? Ele nem sabe o que é um cadastrado. Matou 100 pessoas ou roubou um papo-seco, vai parar à prisão e é um cadastrado. Esse gajo tem uma moralidade muito duvidosa. É bom para andar por essas pequenas editoras.
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Convenhamos que a vida do Luiz Pacheco é apetecível para qualquer biógrafo.
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Assim como me desaparecem criancinhas, também me aparecem criancinhas. Apareceu-me no lar do Príncipe Real uma rapariga. Perguntei-lhe o que era: ‘Ah, eu vinha para lhe ler textos, como o senhor não vê…’. Disse-lhe para entrar e que não tinha dinheiro para lhe pagar. Ela respondeu que era tudo voluntário. Adeus! Um gajo pensa: ‘O que é que esta quer?’ Nem percebi.
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Mas ficou por aí a conversa?
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Não, ela foi lá várias vezes. Levou-me livros, levou-me discos. Um dia foi lá e apareceu este maluco, este João Pedro George.
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A quem dedica o Diário Remendado: ‘um colaborador impecável’ e ‘meu biógrafo improvável’.
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Está lá ‘improvável’? Nunca acreditei! Ele cortou, emendou… Nunca li isso. Li bocados e com muita dificuldade. São urubus. São parasitas, que vêm com uma golpada, biografias, isto, aquilo e aqueloutro. Adeus!
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Sempre aceitou ser operado à vista? Andou anos a dizer que ‘nem pensar’.
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E não queria. Mas fui. Fiquei melhor com a operação e agora vejo outra vez pior. Isto foi uma rapariga que me apareceu, para fazer uma entrevista, não me lembra para onde [para o Correio da Manhã]. Vocês são capazes de a conhecer, porque ela é um mulherão... Miriam Assor! Telefonou-me e eu disse ‘apareça’. Porque, assim de repente, qualquer visita é bem-vinda – se depois não for, põe-se na rua… Apareceu-me com um fotógrafo muito chato, assim como o vosso. Mas essa rapariga não tinha pretensões nenhumas e era muito simpática. Isto foi em Março e, às tantas, a conversa caiu na vista, nas cataratas, e ela disse-me ‘Tem de ser operado e tal. Venho cá buscá-lo no dia 26 de Abril’. Pensei que ela nunca mais se lembrasse daquilo, mas lá telefonou ao meu filho e veio. Achei-lhe graça e fui com ela. Até porque me faziam tudo de borla. E olhem, correu bem.
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Por falar em borla, tem conseguido equilibrar as suas finanças?
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Ainda estava no lar do Príncipe Real quando, com a história daquela Manuela Ferreira Leite e do défice dos três por cento, vi a coisa mal parada. Porque eles dão-me, há anos já, um subsídio. Foi até o Tio Patinhas, o Balsemão, que, quando foi primeiro-ministro – não foi muito tempo, mas foi – deixou lá um saco azul, um buraco que não tinha cobertura legal nenhuma. A certa altura, arranjou um decreto em que instituía o chamado ‘mérito cultural’. O Alçada Baptista tinha-me encontrado na Avenida da República e, como sabia que eu estava muito à rasca, a viver mal, tinha-me perguntado: ‘Ó Pacheco, não lhe convinha uma bolsa de sete contos?’. ‘Ó Doutor António, se você me falasse num conto de réis, eu ainda acreditava, agora sete contos não acredito; mas é claro que me fazia jeito’. Depois saiu o decreto do Balsemão e solicitei a bolsa. Primeiro foram dez contos, depois vinte, foi subindo.
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Até que Santana Lopes lhe atribuiu um valor mais razoável: 600 euros.
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Havia uma senhora, que ainda é viva, a Maria João Rolo Duarte, mãe do Pedro [Rolo Duarte]. Nunca a conheci, mas ela tinha uma página de espectáculos e televisão n’A Capital e começou a escrever uns textos: ‘Então o Luiz Pacheco não tem um subsídio capaz?’. Uma vez, encontrou o Santana Lopes, o Pedro… Bom rapaz, não lhe perdoam por ser um gajo das discotecas e por ter mulheres boas. E ele é bonitote, acho que até ganhou em Lisboa por causa disso, porque as mulheres são mais do que os homens e o voto não é assexuado. Bom, mas a Maria João encontrou-o numa recepção qualquer e disse-lhe: ‘Ó senhor doutor, então o Luiz Pacheco tem um subsídio tão baixinho?’. E tinha. Ele prometeu-lhe que me ia dar mais dinheiro. E deu. Ao fim de uns meses, recebi um aumento de 60 contos. Com retroactivos, foi uma abada bestial.
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E Sócrates, já lhe deu algum aumentozinho?
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O Sócrates não. Agora não sei quanto é que vai dar [de aumento].
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Mas já não vive como viveu em tempos, sempre à espera que alguém lhe trouxesse pão ou uns trocos.
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Não. Vivi este tempo todo, e não vivi do ar. E com filhos à roda.
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Muitos filhos.
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Em Setúbal, cheguei a ter dois de uma rapariga e dois da irmã: quatro. E a miúda, coitada, comia mal. Porque era assim: para pagar um copo de vinho, aparecia sempre um maluco qualquer, ‘Beba’. Mas para uma sandes já não era assim. Vocês conheceram o Cabeça de Vaca?
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Não.
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Era um crava excelentíssimo. Andava pelo cais, na zona onde as pessoas almoçavam e jantavam. Uma vez apareceu e disse a um: ‘Ó fulano, não me dás 50 paus para a dormida?’ E o outro gajo, ‘Ò pá, queres almoçar? Senta-te aí’. O outro encheu-se e, depois de almoçar muito bem, ‘Então e os meus 50 paus?’ Não perdoou. Esse Cabeça de Vaca não fazia absolutamente nada. Dizia-se escultor, mas nunca vi escultura nenhuma dele. Andava para aí a foder quem podia. E tinha, de facto, um treino… É claro que acabou completamente podre. Eu agora, com a reforma da Inspecção-Geral de Espectáculos e com o subsídio…
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… Já não tem medo que lho tirem?
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Creio que não. Porque 120 contos [600 euros] por mês, no orçamento do Estado, é uma merda. E, gajos com a minha idade, está tudo quebrado e há uns que desaparecem. De maneira que posso ter este pequeno luxo [o lar]. Mas o que me dão não chega para isto.
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Houve fases em que as prostitutas eram uma das suas grandes fontes de despesa. Conta-se que se estreou com uma certa ‘Arco Royal’. Quer contar essa história?
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Sim, era uma puta que metia medo, ali na Mouraria – não havia Martim Moniz. Havia umas fulanas a passear, com um ar muito chateado, e eram baratas, para aí a 20 paus – eu era um avarento maluco com as putas. Aquilo foi uma aventura, porque 20 paus era muito dinheiro para um estudante do Camões. Fui lá com um colega, também era a primeira vez dele.
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Não foi dessa vez que teve uma história qualquer com uma peça de fruta?
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Já viram o que é um gajo estar a dar uma foda e a gaja a comer uma maçã à dentada? Também, despachei-me logo…
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Que idade tinha?
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Teria aí 15 ou 16 anos. Nesse tempo, para se foder uma rapariga… Só aqui há poucos anos é que reparei nisso: gajos com automóvel ou com dinheiro fodiam o que queriam, mas um gajo que não tinha nada, nem era bonito sequer, para dar uma foda… Até fui preso cinco vezes por causa dessa merda: foder miúdas, que era o que se aproveitava. Era apanhar miúdas cheias de tesão e atacar.
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Muito antes disso, aí pelos 11 ou 12 anos, houve um poeta alentejano que foi ter consigo, o Acácio Gomes Guerra.
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Acho que fui enrabado.
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«Mas não muito», segundo esclareceu mais tarde. O que quis dizer com isso?
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Quer dizer que não fui enrabado todos os dias.
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Não foi uma violação de menor, como se diz agora.
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Isso é tudo conversa, porra! Aquela Casa Pia é um caso chapado de estupidez nacional! Os gajos que iam lá sabiam que havia uma boa feira de rabos de paneleirotes. Aquilo era prostituição de menores. Um gajo que engate um puto aí na rua, faz-lhe broches. Não vai enrabar o puto. Isso não é assim. Bom, mas eu estava a falar há bocado da dificuldade que os rapazes do meu tempo tinham para foder. Havia quem tivesse irmãs, primas e amigalhaças. Havia muito disso, até em casas que não eram do nível de dormirem todos na mesma cama, em casas já com dinheiro… o mais velho fodia aquela merda toda, as irmãs todas.
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Disse que teve problemas por se envolver com raparigas menores.
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Nessa altura, as raparigas tinham de manter o virgo para o casamento. Um tipo que topasse a miúda excitadíssima e cheia de comichões, ia-lhe para cima, e depois como era? Cadeia. Estive três vezes preso no Limoeiro e duas nas Caldas. A vida sexual deu um salto enorme. E não foi no 25 de Abril, foi antes, em 68 ou 69. Nessa altura, conheci muitas meninas universitárias que descobriram o sexo e o passaram umas às outras.
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O Luiz Pacheco sempre assumiu que era bissexual.
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Não assumi nada!
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Como não? Alguns dos seus textos são explícitos a esse respeito, já para não falar de quase todas as entrevistas que deu.
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Não, alto aí! Isso foi o meu filho que disse naquele documentário que passou na RTP 2.
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Disse numa entrevista ao Baptista Bastos, em 1994: «Desde que haja cumplicidade, ou vai com jeito ou com sabão, ou vai com mulher ou com homem, com um efebo; (…) desde que se goste de pessoas, raparigas, porque, na verdade, nunca tive paixões por nenhum gajo».
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Não, não. Isso… Ó pá, isso… Adeus! Vocês não fazem ideia do que é esta merda… Chega aqui o jornal e nunca mais me largam. Para um gajo que está aqui preso… E depois, isso não é importante.
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Mas está muito presente na sua escrita. Por exemplo, em O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor.
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No Libertino não se passa nada.
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É um trajecto de ‘negas’.
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Negas atrás de negas. Mas há um bocadinho de frustração nisso. Porque a questão de um gajo não ter dinheiro na algibeira é chata em todos os sentidos. Para ir às putas, 20 escudos. Para dar ao magala, 20 paus. Não tinha. O Libertino é um trajecto de frustração e de bebedeira. Eu vinha de Vieira do Minho, de uma almoçarada maluca, e andei atrás de uma miúda [de 14 anos] que era, de facto, muito gira. Já deve ter morrido. Agora, por ver aqui estas velhotas, ponho-me a pensar como não estarão as raparigas que conheci com 15 e 16 anos. Porque elas também envelhecem, coitadas.
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Por falar nisso, mantém contacto com as mulheres com quem viveu e com quem teve filhos?
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Não. Quando corto, corto. Com a minha primeira mulher, a Helena – casei com ela no Limoeiro [era menor] – a vida foi azedando. De repente, há uma espécie de ódio conjugal, de não se poder ver a pessoa nem à mesa, quanto mais na cama. Há um cansaço muito grande. Agora acho que há mais diversidade, as pessoas variam. Há mais mulheres casadas a darem as suas pinocadas, e fazem muito bem. Depois de já ter vivido com a Maria do Carmo e com a Irene [irmã menor desta – Pacheco engravida ambas], a Helena pediu o divórcio por ausência do lar. Ao fim de sete anos, aquilo é automático. A mulher arranja duas testemunhas que atestem que fulana e sicrano não vivem juntos há X anos e o juiz decreta o divórcio. Que também é chato, porque um casal que vive junto não sei quantos anos, que tem filhos, passou dificuldade mas também teve horas boas, de repente… Estava na Caldas, vim a Lisboa, e diz-me um amigo meu: ‘Lá fui ao tribunal.’ ‘Foste ao tribunal fazer o quê?’ ‘Fui ao teu divórcio’. ‘Ao meu divórcio?!’, ‘Ai não sabias que estavas divorciado?’
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Ela não o avisou de que ia pedir o divórcio?
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Para quê? Ela estava em Lisboa e eu nas Caldas. Não valia a pena, não era preciso para nada. Mas fiquei como quem leva um pontapé. Em 100 metros de passeio, aquilo passou-me. Essa arranjou outro gajo, teve uma filha que deu cabo da vida dela, morreu. Com a Maria do Carmo tive dois filhos. Ela levou-me à Macieira, à Sertã. Cheguei lá, conheci a irmã [a menor Maria Irene], ‘Espera aí que esta não escapa’. Não escapou. A Maria do Carmo veio-se embora para Lisboa com a nossa filha, deixou-me lá com o outro pequeno e eu forniquei a irmã, que ficou grávida. Vim para Lisboa e, mais tarde, vivi com as duas no mesmo quarto. Foi um caso sério.
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Não tinha descanso.
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Foder duas raparigas da Beira com 14 e 18 anos, cheias de tesão… E depois não é isso: é que a mais velha dormia comigo e a irmã dormia com um sobrinho num divã. Então, de noite, a outra [Maria do Carmo] fazia fodas de grande rebaldaria para incomodar a irmã, que estava grávida. É claro que assim que a mais velha saía para o emprego, a outra vinha para a cama e eu tinha de lhe dar outra foda. Também só aguentei assim oito dias.
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Como é que resolveu a situação? Foi-se embora?
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Não. Aquilo deu porrada: as duas irmãs, eu com a mais velha… Tive muita sorte, porque não houve mortes, e podia ter havido. Depois fui com a mais nova e com os meus filhos para Setúbal. Nessas coisas, não há como a ausência geográfica. Agora no mesmo quarto, porra! Em Setúbal, a Irene pôs-me os cornos – fez muito bem – com um rapaz da idade dela, ou mais novo, nem sei. E eu, ‘espera aí’, fiz o que um gajo naquela situação pode fazer: sacar a cona da mulher da pichota do amante. Arranquei com ela para as Caldas.
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Deu-lhe barbitúricos, segundo consta.
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Não dei nada.
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Isso está escrito algures, numa entrevista.
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O que um gajo escreve é sempre invenção.
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Embora o Luiz Pacheco diga que não tem grandes dotes de imaginação, que a sua fantasia é muito pobre.
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É verdade. Tenho a plena noção disso.
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O que não impede que, pelos vistos, haja muita coisa imaginada a seu respeito.
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Quero lá saber! Como é que posso evitar isso?
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A questão é essa: não evita, contribui alegremente.
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Deixa-os berrar! Quando falo em conter-me por estar aqui é por me sentir um bocado dependente.
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Não deixa de ser irónico vê-lo numa posição em que sente que é melhor não falar das coisas.
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Não, espera aí! Nunca tive vergonha nenhuma de ser preso nem de nada. Agora, aqui é diferente, porque estou num estado de muita fraqueza. Vim para aqui a cair para o chão.
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Quando se lê os seus textos percebe-se que, mesmo nas relações que manteve com menores, mais do que uma mera perversão sexual, havia um amor profundo por aquelas raparigas.
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Não é só isso. Estava numa fase de muito alcoolismo, embora à base de copos de tinto e cervejas, porque não aguentava bagaço, whisky e coisas do género. Mas era aquele alcoolismo muito chato de um gajo acordar de manhã e se não bebe, treme. Tive a coragem, ou a sabedoria, de fugir a isso. Mas não fugi sozinho. Foi uma luta de anos. Andei meses em ambulatório, estive duas vezes internado no Júlio de Matos e outras tantas em Coimbra. No internamento havia a vantagem de ter cama, casa e comida. Fui parar duas vezes ao Rego, porque tinha lá uma médica amiga que arranjava maneira de me internar. Diagnóstico: ‘diabetes descompensada’. Comia, era injectado com vitaminas e depois vinha-me embora. E também estive por cinco vezes no sanatório do Barro [perto de Torres Vedras]. Vocês não fazem ideia, por muita habilidade que haja, do que é um gajo viver sem emprego. Estive sem emprego anos e anos. Cheguei a viver em escadas, uma vez ou duas.
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Estava sempre no ‘prego’.
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Em Setúbal, havia um prego em que os pescadores empenhavam camisolas interiores, roupas beras. Uma vez deram-me um fato bom e eu não o vesti. Foi logo para o prego.
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Até a máquina de escrever chegou a ir.
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Essa ficou lá. Quando cheguei com a Irene às Caldas da Rainha, fui logo saber onde era a casa de prego. Levava um ferro eléctrico e uns talheres de prata – na minha casa comia-se com talheres de prata. Comia eu, porque o meu pai punha-os no prego – nos meus não tocava.
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A Irene e as outras mulheres que viveram consigo não ambicionavam outra vida?
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Piraram-se.
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Por isso?
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Eu também ajudei à festa. A minha primeira mulher ficou grávida pela terceira ou quarta vez – já tinha feito desmanchos – e eu queria ir-me embora. Ela disse-me: ‘Se sais de casa, faço um desmancho’. ‘Isso não podes, senão morres’ – ela tinha uma doença cardíaca. Fiquei, aluguei casa, mobilei-a, pus telefone e, quando o bebé nasceu, disse que o choro me incomodava de noite. Era mentira, nunca tive disso, porque um bebé só chora de noite por duas razões: ou porque tem fome, ou porque está mijado. Essa pediu o divórcio e ficou tudo acabado. A Maria do Carmo disparatou porque fugi com a irmã. Com a irmã, nas Caldas, tínhamos casa, dois filhos… A pergunta é: como é que este gajo se aguentou?
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Pois, como?
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Tive gente que me ajudou. Por ser bonito? Não. Foi gente que me apareceu, como o Mário Soares. Costumo repetir isto, porque acho que é bom que as pessoas saibam que esses gajos grandes também são capazes de coisas assim. Se calhar, não vos passava pela cabeça que o Santana Lopes, o putanheiro da 24 de Julho, tivesse actos desses. Mas também tem. Aliás, nunca vi o homem.
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Estava a falar de como conseguia aguentar-se com uma vida tão desregrada.
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Terra onde chegava, aparecia-me alguém.
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Há um texto em que fala de ter um emprego das nove às cinco ou viver como se quer. ‘Vou ter prazer na vida, fazer o que bem entendo’. Isso decide-se assim?
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[Risos]. Não, são coisas que aparecem. E depois houve o 25 de Abril, que deu dinheiro a muita gente, não só a mim. Não é escolha, é feitio, são acasos. A vida é muito variada.
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Mas parece uma opção, até porque saiu daquele emprego seguro na Direcção-Geral de Espectáculos.
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Adorava desempregar-me. O Nicolau Santos, que foi director do Diário Económico (DE) e que agora é vice-director do Expresso, pagou adiantado e convidou-me a ir para o DE. Havia uma página de regabofe, de crítica de cinema, uma coisa de artes. Durante meses escrevi para lá. Aquilo era pago, primeiro, a 30 contos. O que era muito bom na altura. Mais tarde passou para 35 contos. Depois disseram-me que fazia parte de uma grupo que ia ser saneado no jornal. O Nicolau perguntou-me se não queria ir para o Público e saí do DE. Quando lá cheguei, disseram-me que não podia escrever como escrevia. Era na revista, onde estavam o Lobo Antunes e um psiquiatra qualquer. Davam-me 50 contos por crónica.
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Quanto tempo durou essa colaboração?
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Trabalhei lá até o Nicolau sair. Houve qualquer merda lá no Público, gajos despedidos, e ele saiu. Estive no Público com outros novos colaboradores e era ‘escritor e polemista’. ‘Ai querem que eu vá para aí fazer sangue?’ Tinha jeito para a porrada, sim…
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Era uma espécie de Vasco Pulido Valente bolchevique.
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Era. Mas só dei porrada em dois gajos. No Esteves Cardoso, porque, de repente, tinha um nome muito acima do que vale. Não é mau rapaz, mas é um bocado pateta. E dei a outro, que não conheço pessoalmente, o José Eduardo Agualusa. Um gajo que lá havia, o [Torcato] Sepúlveda fez-lhe uma punheta, escreveu sobre o romance dele, Nação Crioula. E então pensei: ‘Este gajo, o Sepúlveda, não vê que o outro é um aldrabão?’. Vai daí, dei uma porrada ao Agualusa, mas a porrada era também para o outro. Isso deu-me gozo, fiz o gosto ao dedo.
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Mas foi-se embora outra vez.
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Depois saiu o Nicolau, e eu, nem é tarde nem é cedo, escrevi-lhe: ‘Não somos siameses mas você é que me meteu no Público. Você sai, eu também saio’. Agora, o gozo que dá um gajo abandonar o emprego…
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Esteve muito tempo na Direcção-Geral dos Espectáculos.
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Entrei em 1957 e estive lá 14 anos. Como é que se arranja empregos? É por conhecimentos. O meu pai era amigo de um chefe de secretaria e foi lá comigo. Iam abrir seis vagas em Janeiro. Fui logo a correr. Tinha a vantagem do cartão da Inspecção, que permitia chegar a um cinema, a um teatro, ou a uma praça de touros, e entrar.
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E a saída, como foi?
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Outra grande alegria. Fui lá uma manhã e escrevi um requerimento ao ministro a pedir a demissão.
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Porquê?
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Já não podia ver aquela merda. O chefe de serviço até me perguntou: ‘Então o senhor Pacheco está a fazer mais um livro?’ De repente, ganha-se asco aos ambientes.
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E depois andou sempre desempregado?
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Não, tive vários empregos. Uma pequena crónica, a 30 paus, no Notícias de Teatro. ‘O Solnado vai deixar o Maria Vitória e vai para a revista tal’. Também escrevi para o Norte Desportivo, um jornal de desportos. E estive no Volante, de onde até saí duas vezes. Ganhava pouco, eram empregos foleiros. Nunca tive um emprego como o do DE. Aí pagavam mesmo. E havia as editoras. A D. Quixote pagou-me durante dois anos 60 contos por mês. Mas algumas editoras pagavam, outras não. Por exemplo, a Estampa, que editou esse livro [aponta para um exemplar de Exercícios de Estilo], acho que não pagou a terceira edição.
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Mas a literatura deu-lhe fama. Ainda é muito procurado?
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Ligou-me uma rapariga, a Ana Almeida, lá para o lar onde eu estava, no Príncipe Real, a dizer ‘queremos fazer um filme sobre a sua vida’. Respondi-lhe ‘não me chateie! Com licença. Pumba!’ [gesto de desligar o telefone]. E apareceu-me uma de vocês que anda aí, com um nome grego [Sarah Adamapoulos], que tem um livro e escrevia para O Independente. Apareceu-me lá e disse ‘Ó Luiz Pacheco, aquela coisa da TV vem depois do negócio’. E eu ‘do negócio? O que é o negócio?’ ‘É que aquilo é pago’. ‘Ah, não me falaram nisso! Então quanto é que pagam? Sou um autor muito barato’ [risos]. ‘Pagam dois mil euros’, disse ela. Era um bocadinho de massa… ‘Então o que é que é?’. ‘Ah, eles vêm cá filmar’. Lá vieram duas manhãs ou duas tardes filmar-me como quiseram. Foram como este gajo [o fotógrafo do SOL]. Foi simpático. O que é que se pode dizer? Esses gajos fizeram um programa com o Ramos Rosa, comigo, vários documentários. Têm outro sobre o Vitorino Nemésio que já está pronto. O Vitorino Nemésio foi meu professor…
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Deu-lhe 18 valores.
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Deu-me 18, mas eu não percebi um texto [risos]. Tinha era capacidade de escrita. E tive 15 a Latim. Fui o melhor aluno e, no acesso à universidade, era o gajo mais bem classificado.
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Não pagou propinas durante um ano inteiro e esteve a assistir a aulas…
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Na altura, eu tinha uma bagagem… Quando acabei o liceu – não era um aluno muito especial – foi meu professor o avô deste que morreu agora, o Eduardo Prado Coelho, chamado A. do Prado Coelho. Nunca soube o que era o ‘A’. Dizia ele: ‘recomenda-se o máximo silêncio’. E depois punha a gente, no 3º período, no liceu Camões, na Primavera, a recitar ‘A Balada da Neve’. Tínhamos de gramar aquela merda todas as aulas! E eu, como era o melhor aluno da turma – a Português, não era a tudo – um dia comecei a recitar: ‘Batem Leve, levemente/Como quem chama por mim’… As janelas estavam abertas – davam para o jardim, muito sol, Primavera – e, de repente, esqueci-me da continuação. Parei. Ele olhou para mim e eu disse ‘Sotôr, esqueci-me, desculpe’. Fui para o lugar.
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Naquela fase em que largou os empregos, quando escreve a Comunidade estava mesmo convencido de que era possível viver assim?
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Às vezes espanto-me. Mas em Setúbal tive muitos apoios. O [jornal] Setubalense empregava na altura. Ganhava por semana, como revisor tipográfico, 90 paus mais seis por cento para o desemprego. Na altura, em 1963, 90 paus já era dinheiro. Depois, o Manuel Vinhas pagou-me 500 escudos durante seis meses. A renda da casa eram 300 paus e ainda ficavam 200 para qualquer coisa. Não há milagres. Nunca conheci o Vinhas. Escrevia-lhe uma carta e vinham dois contos, era dinheiro.
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Mas teve outros ‘mecenas’.
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Havia o António, das Caldas da Rainha, que me ajudou muito.
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Quando é que deixou de acreditar na possibilidade daquele modo de vida, naquele ideal romântico?
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Não… Ideal, o caneco!
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A Comunidade é um texto muito sentimental.
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Mas não é piegas.
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Demonstra um grande amor pelas pessoas que estavam à sua volta. Diz que se pode viver à base do amor, que é a ideia mais romântica que pode haver.
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Vocês não têm noção disso, mas há ali pequenas insinuações, pequenas reticências: o que pensa uma mulher, uma mãe, a dar leite ao filho? Quem é que pode adivinhar?
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A quem acha graça hoje em dia?
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Agora acho muito pouca graça. E aqui então não se pode. Já mandei uma gaja aí à merda. Porque isto é um ambiente deprimente. Sexualmente isto é um desgosto. Mas aqui há namoros! É claro que vocês estão cá meia hora e depois arejam. Mas para a pessoa que cá fica… o que vale é que estou isolado... Também é muito cedo para dizer que estou mal. Ainda estou a experimentar. Em oito dias, só hoje é que fui conhecer o andar de cima. Ainda me desnorteia, não sei onde é o elevador. De resto, isto parece-me muito bom. É melhor do que eu supunha. Mas é difícil achar graça a alguma coisa com esta idade. Tenho 82 anos, porra! Há aquela coisa que é a PDI, a Puta Da Idade, o caruncho...E o velho, geralmente, é egoísta. Ou é mais egoísta do que o novo. Mas estou a falar de coisas muito tristes…
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Convenhamos que, ao longo da vida, o Luiz Pacheco também não se tratou muito bem.
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Não, tratei-me! Fui conservado em álcool. A questão é que não havia dinheiro para grandes rambóias. Não estou taralhoco de todo. Estou é um bocadinho desmemoriado e tomo muitos medicamentos.