17.3.10

A perversão do mercado

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“O que causou escândalo na lista divulgada por Cruz Santos foi o facto de se tratar de autores portugueses consagrados ou já canónicos. Para percebermos bem que o problema é muito mais fundo do que parece, é útil saber que há algo muito mais grave do que a Leya decidir abater, por exemplo, uma antologias feitas por Eugénio de Andrade: o facto de a obra deste poeta nem sequer estar hoje nas livrarias. […]
O mesmo acontece, aliás, com Jorge de Sena. Abater um dos seus textos camonianos, como aconteceu agora, é uma questão menor quando comparada com o facto de que a sua obra poética está por reeditar à longos anos. […]
Alguém imagina que não havia o René Char nas livrarias francesas, o T.S. Eliot nas livrarias inglesas, o Rilke nas livrarias alemãs? Ora, o abate de livros de escritores consagrados é sintoma de uma situação em que o património literário e intelectual, do século XII ao século XX, está abrangido por aquilo que a direcção da Leya chama “desinteresse do mercado”, mas que é uma estrutura de perversão do mercado.”
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[António Guerreiro, Actual (suplemento do Expresso), 13-03-2010]

16.3.10

Desejo sinceramente que a Leya se foda

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"Tenho ligações sentimentais ao grupo Leya (por causa d’O Independente) e ainda esta semana recebi uma proposta simpática e tentadora da Dom Quixote, que agora faz parte da Leya. Mas que posso fazer quando uma grande editora, recém-formada e sem qualquer tradição literária, transforma um livro que era caro de mais para eu comprar em pasta de papel? É de vomitar. Não podemos dar dinheiro a quem só pensa em dinheiro. José Saramago – mau escritor mas boa pessoa, na minha miserável opinião – foi enganado. Eugénio de Andrade e Jorge de Sena – um grande poeta e um génio – foram ultrajados.
Desejo sinceramente que a Leya se foda."
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[Miguel Esteves Cardoso, Público, 04/03/2010]
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Crónica completa aqui.

15.3.10

Manifesto Pelo Cinema Português

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"Nunca como nos últimos vinte anos teve o cinema português uma tão grande circulação internacional e uma tão grande vitalidade criativa. E nunca como hoje ele esteve tão ameaçado.
No mesmo ano em que um filme português ganhou em Cannes a Palma de Ouro da curta-metragem e tantos e tantos filmes portugueses foram vistos e premiados um pouco por todo o mundo, o cinema português continua a viver sob a ameaça de paralisação e asfixia financeira.
Desde há dez anos que os fundos investidos no cinema não cessaram de diminuir: a produção e a divulgação do cinema português vivem tempos cada vez mais difíceis. E a criação de um Fundo de Investimento (e a promessa de um grande aumento de financiamentos), revelou-se uma enorme encenação que na generalidade só serviu para legitimar o oportunismo de uns tantos.
O cinema português vive hoje uma situação de catástrofe iminente e necessita de uma intervenção de emergência por parte dos poderes públicos e em particular da senhora Ministra da Cultura." [...]

"O cinema português, que vale a pena, tem hoje em dia, apesar da paralisia, quando não da hostilidade, dos poderes públicos, um indiscutível prestígio internacional. Os seus realizadores, actores, técnicos, produtores, não deixaram de trabalhar apesar de tudo o que se tem vindo a passar. Está na altura de os poderes públicos assumirem as suas responsabilidades. É necessária uma nova Lei do Cinema, mas é urgente uma intervenção de emergência no cinema português."

Pode ser assinado aqui um manifesto pelo cinema português, que procura inverter a situação miserável em que este se encontra. Entre os autores do manifesto estão quase todos os principais realizadores e produtores de cinema português da actualidades: Fernando Lopes, Paulo Rocha, João Canijo, Pedro Costa, Jorge Silva Melo e muitos outros.

12.3.10

João César Monteiro: as Folhas da Cinemateca

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Já estão disponíveis As Folhas da Cinemateca dedicadas a João César Monteiro, textos de João Bénard da Costa, Luís Miguel Oliveira, Manuel Cintra Ferreira e Maria João Madeira.
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"Meus filhos, são filmes destes que, pousando, vos trarão a nitidez às vidas. A todas as vidas."
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[João Bénard da Costa, na folha de Recordações da Casa Amarela]

11.3.10

Branca de Neve

“Não era isto que eu tinha inicialmente previsto. Houve uma noite de insónia e de manhã, no café, eu combinei com o director de fotografia fazer o filme assim, em cinzentos. Fez-se uma manhã de rodagem um bocado diplomática (porque estava toda a gente convocada) em que, contrariamente ao que se diz, eu me diverti imenso. Dediquei a manhã à leitura de dois textos, ia alternando de um para o outro. Um era Execración contra los judios. É um texto anti-semita que eu aconselho vivamente. É sobre as tropelias que os judeus portugueses fizeram na corte de Filipe IV, séc. XVII. Tropelias argentarias, bem entendido. O outro, também do Quevedo, é um texto mais satírico, são as Graças e desgraças do olho do cu. Eu achei interessante fazer-se um filme que tomasse o ponto de vista do olho cego, do olho que não vê, do olho discreto, oculto geralmente em duas belas rotundidades.”
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[João César Monteiro em entrevista a Diogo Lopes a propósito de Branca de Neve (2000), in João César Monteiro, Cinemateca Portuguesa, 2005]

10.3.10

A Comédia de Deus

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[João César Monteiro, excerto de A Comédia de Deus (1995)]

9.3.10

João César Monteiro por Vítor Silva Tavares

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NOTAS PARA A RECORDAÇÃO DO MEU AMIGO JOÃO
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No arrazoado que acompanha os DVD da Integral João César Monteiro quase arrisquei opinião: “Apetece dizer que os filmes do César são mais “escritos” (ou “escritas”) do que as suas representações, ou ilustrações, audiovisuais.”
Valha isto o que valer, não enfatizo: afinal também eu, qual César pouco augusto, “não percebo nada de cinema” (piada dele aos especialistas?), isto apesar de ir às fitas desde a idade de chucha na boca – o que não dá direito a borla e capelo.
Gaguejei não muito afastado das vozes mais abalizadas de gente que faz cinema ou que, diminuindo, trabalha a fabricá-lo, coisa que remete para questões de finança e técnicas de fabrico. O resto são flores – nas entrevistas.
Segundo os profissionais, “o César escreve muito bem, só é pena que seja ele a realizar os filmes”. Pois: quando foi ele a dizer o mesmo sobre os seus charmes plumitivos, ressabiado prometeu logo ali assassinar o escrevente. Hossana!, não conseguiu.


Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de LE BASSIN DE J. W. e de AS BODAS DE DEUS): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de – e para – cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já quase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras – comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.
Logo aqui se vê que não estamos perante linguagem crítica, seja esta o que for. Não ousa o exegeta quejandas subjectividades impressivas, antes parte em romaria aos “Cahiers”, ou aos “Inrockuptibles”, petiscar ideia e jargão formatado. Ai de mim, que “também eu escrevi cartas de amor, como as outras, ridículas”. Já é azar.
Admirarei menos os filmes do César? – Nem vale, para o caso. Desconfio sempre de dicotomias com água (forte) no bico. E já o disse, assinado, que um só plano do bijagós (exemplo: “uma laranja sobre a mesa”), pela sua carga, pela sua densidade, pesa mais em mim que quanta estrelada filmografia: é que os instantes de graça (“instantes de Camões”, pressentia-os o Manuel Maria Barbosa du Bocage) só faíscam, só fulguram, em receptores sintonizados. A questão das agulhas magnéticas não é aqui despicienda.
Tem mais que idade para ter juízo, posto o não tenha, a minha queda pela escrita do César. E julgo saber, ou tão-só intuir (não vai dar ao mesmo?) de onde ela venha (aparte o pendor congénito), com seus recortes vicentinos, sem requebros barrocos, sem colagens “esquisitas”. Leituras dele, pois mais que muitas – e aí está a biblioteca, feita e refeita ao sabor de tempestades, a atestá-lo. Para não gastar papel, que está caro, aponte-se ao acaso os românticos franceses e alemães, os surrealistas e demais grandes transparentes, todo o Sade, meu caro Watson, todo o Nietzsche (esse que inundou de luz negra o script original de VAI E VEM), mais os modernistas portuguesas e seus egrégios avós, Nobre, Pessanha, Cesário, mais Dante, Molière, Shakespeare, Dostoievski, chega? Tivera ele mais uns meses de vida e arriscaria ter de sair de casa expulso pela cubicagem de livros e cêdês – mas esta é outra música.
Lá por onde rompemos solas e puímos fundilhos, canoras vozes a ambos excitaram as ávidas orelhinhas (sentenciou Mestre Aquilino que para se ser escritor “é prechijo orelha”). No palco sonoroso – pleno olho da rua ou suspeitos cafés tristes – era um rol de tenores: do grave, e probo, Carlos de Oliveira, sotto-voce alquimicado em cristal na Micropaisagem e em Finisterra, ao “corpo escrevente” Luiza Neto Jorge, passando – pare, escute e olhe – pelo Cesariny de Pena Capital e Nobilíssima Visão (ele que já louvara, simplificando, o Álvaro de Campos e dera o pontapé definitivo no “realismo socialista” com seus trolhas e suas couves, pelo picaresco Cardoso Pires, pelo atómico Herberto das viscerais magias, e pelas verrinas, pelos vitríolos, pelo negro humor sacana de um batalhão de pelintras alcoólicos (ou românticos inveterados, como queiram) tais o Virgílio Martinho, o Forte da faca nos dentes, o Sebag planeta precário, o Pacheco da crítica de circunstância, o Ernesto Sampaio da luz central, o Pedro Oom sonhador espacializado, o Manuel de Castro crocodilo, gente que oriunda ou nem por isso de idealismos igualitários e até, alguns, de militâncias ao jeito moscovita (tentação ditada pelo sufoco da ditadura que não por rigores ideológicos, sempre de pôr entre aspas em tão incorrigíveis egocêntricos), será o berro libertador, ou libertário, e se pusera cá fora, entre rancores que remédio literários, a “rir de tudo”.
César à coca. E a buscar contrapeso e medida na ática Sophia como nos labirintos caligráficos da Velho da Costa, com quem forjou cumplicidades digamos “dialéticas”.
Salgaram todos a língua já de si agilíssima daquele que em suas primícias de bardo (Corpo Submerso, ed, Do Autor, 1959), a par de um tocante, por ingénuo, lirismo amoroso e existencial à la Daniel Filipe ou Zé Gomes Ferreira do Eléctrico (mas lá está ela, a pulsão lírica, a assomar nos filmes, contrapontando bojardas), afirmara ter, como brincadeira preferida, “atirar merda à cara das pessoas” e , como religião, o Urinismo – O ritual de carácter absolutamente erético consistia em Mijar em igrejas e conventos: auspiciosas liberdades poéticas a configurar o “Surreal-abjeccionismo” proposto por Pedro Oom como saída, “para sobreviver livre”, a um surrealismo por cá agrilhoado (na ignomínia salazarenta, “que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos?”) e que lhe hão-de enfarpelar uma imagem de marca não mais descartável.


[Setembro de 2003 (ver “Diário de Notícias”), meses depois da sua morte, ainda um tal Mexia, Pedro, o associava a Luiz Pacheco, ao Manuel João Vieira dos “Ena Pá 2000”, ao humorista José Vilhena e cá ao rapaz como fazendo parte de “uma sub-cultura lisboeta mais ou menos escabrosa” própria, logo concomitante, de “uma família devassa”. Em sacristia, muito educativo.]
Os tempos então vividos (décadas de 60-70, com a erupção académica de 61, a guerra colonial e, sobretudo, com o Maio de 68 a disparar formidáveis anarqueiradas e ardentes esquentações românticas sem virgens ao luar) jogaram de feição com o alto-contraste de um César em condição ontológica de vadio e pedinte, não raro roído de fomeca, mas senhor – alto lá! – de “todos os sonhos do mundo”, incluindo o de cinema, contrariado que fora em pequenino ao ver recusada pela progenitora a sua “visão cinematográfica de OS TAMBORES DE FU-MANCHU”: cineasta à vista?
Ora sonhar é fácil – posto que nem sempre sustente a vida, isto é, o estômago. Escrever poemas ou cartas de amor loucas loucas, encher granéis a exprimir amores e desamores sobre matéria de arte, a 7ª (o sublinhado anula o seu uso mercantil), sempre sai mais barato (basta papel, bic, bica e beata no beiço), pode render um que outro maravedi (perguntem ao Bénard de “O Tempo e o Modo”) e, hélas!, desde logo orientar azimutes para a poética (visceral, vivencial) da criação cinematográfica que havia de vir, desse lá por onde desse e custasse, a quem estas coisas custam, o que custasse. Saltando da literatura, pois que dela partindo, o verbo queria-se iluminado, refulgente, um dia animado na alvura da pantalha como violação, exorcismo, e sublimação. A cabeça fervia-lhe (autopsicografava-se já então o “esquizoide”), sendo que o sopro da combustão advinha, não por menos, do compulsivo ódio à burguesia (por uma vez, sem aspas) como do mais intenso, do mais radical fundamentalismo poético – Poesia e Revolução num corpo único e à prova de ara sacrificial. “Je est un autre”. O outro, obviamente, precatava-se: tem a bondade de me auxiliar?
Salivas trocadas, raivas, zangas, risos, no ir descendo nocturnamente a Fontes Pereira de Melo, e porque o abaixo assinado então em funções editoriais no “Literário” do “Diário de Lisboa”, vá de pôr o génio ao trabalho – e de facto ao tostão, fiéis seguidores ambos do preceito cesarínico “ganhar sim, mas pouco”, que era e é, nos sem jeito para o negócio, o que se paga pelo suplemento de oxigénio a que se pode chamar “liberdade”, dessa que abomina, e portanto dispensa, genuflexões de colete e respeitinho.
Vem daí o “pas de deux”, nunca mais abandonado. E quando irrompe (em 73) a revista & etc (aquela que se quis cultural q.b. porque ele há mais vidas e outros modos de se estar nas ditas) foi um fartar vilanagem: prosa de Joãozinho arrancada a ferros dos castos lápis censórios, e logo pois sob cobertura “das mais amplas liberdades” consentidas e fomentadas pela folheca – vá de ameaças de murro e pontapé ou, em alternativa, de processos judiciários. De pronto, a interrogação do energúmeno ao editor responsável: “Dá prisa?”. E logo a resposta do amigo da onça: “Que tabaco fumas?”
Porque ninguém, muito menos eu (se de um lado chove, do outro troveja), lhe travava a gana, lhe amaciava a pena, lhe comovia o músculo cardíaco, sequer por mor de amizades corporativas ou conveniências alimentícias. Vista a esta distância, e mesmo somando as “liberdades democráticas” prodigalizadas pelos poderes dominantes ajaezados de abrilistas, é ainda de espanto graúdo o destempero, o furor interventivo, a causticidade, a própria e sempre tão cuidada acutilância estilística do nosso homem em Lisboa – voz subterrânea alcandorada à polémica do tempo a partir de um subterrâneo da Rua da Emenda.
Cá entre nós, era um festim. E já o cinema por um binóculo, a vozearia (ainda que de papel, ou no papel) a percutir nos tímpanos dos decisores. Aqui, uma mútua conspiração, muda, inominável. E uma relação ao abrigo de transacções: nunca por nunca, quer na revista quer nos livros publicados, recebeu César um chavo da chafarica, nunca por nunca arrecadou esta (cá, “só amor gratuito”, como o Régio) um chavo pelo trabalho do César.

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[Citando João de Deus, o outro, o de Campo de Flores mas também de Criptinas, “vou-vos contar uma história / em prova desta asserção”: estava pronto em chumbo na tipografia o livro Morituri quando a & etc dá o badagaio – nem um tuste para gastos. Que fazer, Vladimir Ilitch? Posto o autor ao corrente, das duas uma: ou chumbo para a caldeira, execução sumária, ou, bóia de salvação, propor a obra, sem despesas, ao editor Nelson de Matos, então na Arcádia.
César opta pela hipótese salvadora, corro ao Nelson, aceita este pagar à tipografia a impressão em troca de ficar a Arcádia com os exemplares da tiragem. Vivas e olés! Publicado o livro (todo & etc, capinha de João Vieira, extra-texto do João Rodrigues, sobrecapa kraft, anilina preta a dar patine às margens das folhas), recebe o autor por copygaitas 20 ou 25 exemplares e eu uns 5 ou 6 pelo trabalho.
Que de euforia! O livro estava cá fora, são e salvo.
… E mais ficou quando, por sua vez falida a Arcádia na enxurrada do 25 de Abril, foi parar a padiolas de venda na rua, contribuindo assim para almoços & jantares de uns tantos trabalhadores desempregados. Anos volvidos, ainda eu comprava, para o desvalido autor, qualquer exemplar que se encontrasse aí perdido.
Desse avantajado sucesso popular retenho um livro na estante. Creio que à altura da morte, o César nem um para amostra.]
Virá a talhe de foice (já que não pode vir a sabre ou a canhão: as letras têm destas limitações) relembrar a miserável campanha difamatória que almejou conspurcar o autor da BRANCA DE NEVE: os pipolares altifalantes da piolheira denominada de pagadora de impostos, no nítido nulo do pensamento crítico, vá de estrondearem o César como salteador de carteiras, burlão que saca o seu do bolso da maralha contribuinte para, costas ao alto quanto a trabalhinho que se visse, ter a lata de pôr em circulação um filme “todo negro”. O “puta que os pariu”, como o “quer que o público se foda” – léxico de Monteiro quando fera acossada –, ao invés de sublinhar a dramática condição do artista face à mais boçal ignorância mesclada de malvadez, cavou de vez o fosso entre uma súcia devoradora de lixos e um homem que sempre recusou submeter o seu trabalho à lógica mentecapta, e aos imperativos, do capital. De muito poucos se pode dizer o mesmo.
Por cá andou, devassado de sonhos de grandeza. Nesta feita cabisbaixa “revisited”, alguns palpitam, ou fosforescem, em forma de filmes. Outros ressaltam nos textos que escapou, espelhando. De costas viradas a uma contemporaneidade lorpa, promotora descarada de equívocos e embustes celofanizados pelo marketing, negou o oportunismo jornaleiro, dito “sociológico”, e avançou com seus próprios pés por um território dificultoso, em parte por desbravar, mas que livra o cinema do espartilho de “espectáculo” – no que este tem de pronto-a-comer & amanhã há mais – para o inscrever de pleno direito no plano superior do espírito, que é aquele a que o artista se obriga.
Este “Lord das Escócias d’outras eras” nosso contemporâneo, forçado a Nosferatu pela pestilência do tempo e do lugar, tornou público um ser endemoinhado, sarcástico, inconveniente até à insuportabilidade. Não poucos foram “vítimas” das suas fúrias incontroladas, das suas telhudas exigências, da violência das suas objurgatórias. Assim fardado (ocultando pois o Pierrot lunar), não é de admirar que o João César Monteiro fosse temido e, pior, odiado. Ele, que em tempos se diagnosticava “não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário” (in “A Minha Certidão”), apesar de ter pretendido estilhaçar uma garrafa de tinto na moleirinha do Cunha Telles por este o ter chamado oportunista, ressentia-se fundo – e devolvia a parada, com juros. A quem o julgou derrotado, ou afim domesticado, após o som e a fúria da borrasca BRANCA DE NEVE, respondeu com o script mais soberbo, mais feroz, de toda a lusa cinematografia – VAI E VEM – e, como num imenso adeus quiçá premonitório, com o seu filme mais hierático, mais conciso e contido, mais cristalino do seu cânone de rigor obstinado.
Com distanciamento irónico ou sem ele, confessou-se aos 20 anos “sempre heróico” e “de peito exposto às feras. Certo é que, algo zurzido por acidentes e disparates da vidinha, nunca lançou a toalha ao tapete nem se acomodou ao repouso do guerreiro. Não é que o percurso biográfico de razão ao promitente herói da Figueira da Foz?
Não sei se “o cinema” perdeu alguma coisa com a sua morte. Eu perdi – mas quem sou eu senão o que gostaria de afirmar que a Cidade também, aquela Cidade onde “tout homme rêve d’être dieu” (citação de André Malraux no pórtico de Corpo Submerso)?
Sabemos que a alturas tantas da sua vida, num desdobramento heteronímico, o César Monteiro passou a denominar-se João de Deus.
Em tal Diabo, foi e é para levar a sério, diz-me aqui a caneta.
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[Vítor Silva Tavares, in João César Monteiro, Cinemateca Portuguesa, 2005]

8.3.10

João César Monteiro na Cinemateca

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Inserida na iniciativa João César Monteiro, Assim e não Assado, a Cinemateca vai passar esta semana, sempre às 22h, vários filmes do realizador, comentados por personalidades próximas do seu cinema:

Seg, dia 8 - Sophia de Mello Breyner Andresen (1969) e Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1971), com a presença de João Fernandes, Maria Velho da Costa e Jorge Silva Melo

Ter, dia 9 - Recordações da Casa Amarela (1989), com a presença de Ramiro Guerreiro e João Nicolau

Qua, dia 10 - A Comédia de Deus (1995), com a presença de Francisco Vidal, Maria Andresen e Paulo Filipe Monteiro

Qui, dia 11 - Branca de Neve (2000), com a presença de Pedro Gomes e Manuel Gusmão

Sex, dia 12 - Vai e Vem (2003), com a presença de Rita Magalhães, Manuela de Freitas e Paulo Branco

4.3.10

"Nostalgia da vida dos outros. É que, vista do exterior, forma um todo. Enquanto a nossa, vista do interior, parece dispersa. Corremos ainda atrás de uma ilusão de unidade."
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[Albert Camus, in Primeiros Cadernos, Livros do Brasil]

3.3.10

"Edital na caserna: «o álcool extingue o homem para despertar a besta» - o que o faz compreender por que motivo gosta de álcool."
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[Albert Camus, in Primeiros Cadernos, Livros do Brasil]

2.3.10

Novamente nas livrarias

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O Outono em Pequim, de Boris Vian (trad. Luiza Neto Jorge)

23.2.10

“Mas será que Lisboa ainda tem centro? Ainda é uma cidade? Pois o que é o centro de uma cidade à noite se não forem os teatros – e os sons das palmas? E com teatros, os cafés, as cervejarias, os cinemas, as paragens de táxi, os passeios, os quiosques? Eu não conheço cidade onde a noite seja menos pública do que em Lisboa. Ir ao cinema é meter-se num buraco dentro de um centro comercial; ir ao teatro é quase sempre procurar uma sala nas margens da cidade, lá nos confins, onde ninguém mais passa. Ir à ópera já se sabe, é quando o rei faz anos e já não há reis. Quem chegue pela primeira vez a Santa Apolónia e suba a Baixa ficará com a impressão de que não há um único cinema em Lisboa (nem um cartaz, nem um néon, nem uma sala até ao São Jorge) e que teatro, há o D. Maria e acabou-se. Não conheço cidade mais deserta.”
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[Jorge Silva Melo, in Deixar a Vida, Cotovia, 2002]

19.2.10

Luiz Pacheco: a crítica de Osvaldo Manuel Silvestre

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Deixo aqui a crítica de Osvaldo Manuel Silvestre a 1 Homem Dividido Vale por 2 / Contraponto - Bibliografia, de Luiz Pacheco, que saiu no Ípsilon da semana passada:
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Mitologias maiores e menores
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Um imprescindível instrumento de trabalho para quem desejar aproximar-se do "Universo Pachequiano"
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De Luiz Pacheco (LP) dizia Ernesto Sampaio que era o exemplo acabado do literato: aquele que fala obsessivamente de um único tema, a literatura. Parece pois justo que a Literatura, enquanto dispositivo mitológico, se tenha apoderado de LP, fazendo dele um dos últimos mitos postos em circulação por uma máquina que hoje parece ter emperrado, num tempo em que o "marketing" editorial produz mais facilmente "stars" do que mitos. Porque há um "caso" Pacheco, desde logo patente no desequilíbrio flagrante entre a literatura comestível do autor - um punhado de textos curtos versando ocorrências pessoais, e mesmo íntimas, entre o doméstico e o sexualmente transgressivo, tendo este por vezes lugar no mesmo foro doméstico - e uma incontinente produção de incomestíveis (epistolário, diários inacabados, escritos agonísticos sempre fulanizados, entrevistas que se tornaram um "must" para fãs e para o currículo de jornalistas) que contudo alimentaram o mito tanto ou mais do que os seus textos "canónicos": "Comunidade", "Os Namorados", "O Teodolito", "O Libertino...", poucos mais.
Pacheco tinha uma notória dificuldade em descolar do caso pessoal - o seu ou o dos que visava - e tendia a fazer rebater a ideia de literatura sobre as incidências biográficas que elegia. O resultado é ambíguo, desigual e francamente cansativo quando enfrentado por extenso ("vide", por ex., as cartas a Aires Pereira recolhidas na secção "1 homem dividido vale por 2", deste volume). Mas confere uma profunda coerência àquilo a que, em vez de "Obra", será preferível chamar "Intervenção" ou "Actuação", na medida em que faz da indistinção entre "vida" e "escrita" o seu motor, mostrando, em acto, como a literatura se pode alimentar do irrisório - ou de como a decisão sobre o irrisório (ou não) não procede de uma ontologia mas de uma ética: a da escrita, a única que Pacheco reconhecia.
Da escrita e, seria caso para dizer, da sua transformação em impresso. Porque o caso Pacheco é também fascinante por uma patologia muito literária: a que consiste em fazer aceder ao impresso (mas não necessariamente ao livro, pois LP revitalizou a tradição do folheto e do panfleto) tudo o que, irrisório ou não, sai da mão do escritor. Este tropismo implica uma vampirização do privado, que parece não ser mais do que pretexto para a publicidade pela escrita; e um princípio de economia aberrante, aliás conatural à economia da literatura na época da industrialização da imprensa, segundo o qual tudo o que sai da mão (e, logo, da "vida") do escritor deve passar a impresso. Da mão à impressora, esta versão da literatura confia-se a um princípio de saturação do mercado que se diria uma antecipação irónica da mesma, e contudo muito outra, saturação actual do mercado literário por irrelevâncias impressas em papel colorido e brilhante. Não surpreende, pois, que LP tenha alargado a sua actuação, logo desde o início, à edição, com a Contraponto, na qual se construíram as bases do seu mito literário: proximidade às vanguardas locais (Cesariny, António Maria Lisboa, Herberto, um certo Manuel de Lima), culto não paradoxal dos clássicos, grafismo sóbrio mas sempre moderno, o destino artesanal da edição portuguesa mais literariamente empenhada, práticas comerciais de almocreve, inescrupuloso sempre que necessário.
O catálogo agora co-editado pela Biblioteca Nacional e por um dos selos da Leya - uma ironia ao nível daquela, involuntária, com que Mário Soares conclui o seu depoimento: "Trata-se do escritor-maldito mais interessante do século XX" - é, pois, a homenagem devida a uma personagem como LP. Comissariados por Luís Gomes, exposição e catálogo não primam pelo ineditismo dos ensaios, mas reúnem de forma rigorosa e exaustiva materiais informativos e bibliográficos que dele fazem um imprescindível instrumento de trabalho para quem a partir de agora desejar aproximar-se do "Universo Pachequiano", para citar Luís Gomes. Nesse sentido, o verdadeiro "curador" do catálogo é o "designer" Jorge Silva, que realiza aqui uma das suas mais belas peças, desde a opção por uma cartolina rugosa que lhe permite conquistar para a capa a sugestão "retro" das imperfeições macroscópicas dos tipos de chumbo, até à rejeição do papel "couché" da praxe nestas obras dadas ao novo-riquismo, à discreta combinatória de duas cores nos índices, nos textos e seus títulos ou nas bibliografias, ou, decisivamente, à opção por uma dupla entrada na obra, em função da escolha de "Luiz Pacheco" ou da "Contraponto", hemisférios de um mesmo planeta em espelho.
É um livro que dá gosto ler, folhear, contemplar, sentir nos dedos e cheirar: coisas anacrónicas, por certo deliberadamente. Por outras palavras, é o catálogo adequado a um literato que, como confessa num depoimento transcrito por Ana da Silva, sentia "o gosto de ver aquilo que se escreve em letra de forma... essa vaidade, esse gosto, esse orgulho de ver o livro na montra, quem disser que não, aldraba" (p. 35). Não surpreende, pois, que o núcleo mais forte dos textos inéditos pertença a dois editores-interventores, Vítor Silva Tavares e Manuel de Freitas, ambos empenhados em projectos que, nas palavras do primeiro, são "cometas tracejando luz no negrume editorial" (p. 12), "editores-editores... que apenas têm ou tiveram de prestar contas a si próprios" (p. 15), em palavras do segundo. Heroísmo e pose, a vida - quantas vezes, a "vida danificada" - redimida pelo estilo (no caso de Silva Tavares, esse estilo, à sua maneira muito castigado e castiço, forjado num certo contexto lisboeta ao longo de meio século, de O'Neill, Cardoso Pires e Pacheco a Dinis Machado & etc.), enfim, a Literatura como destino: mitologias maiores e menores de uma quase extinta civilização do impresso, para a qual este catálogo de Luiz Pacheco e da Contraponto é um dos mais belos epitáfios.
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[Osvaldo Manuel Silvestre, Ípsilon (suplemento do Público), 12/02/2010]

18.2.10

Nas livrarias

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Cossacos, de Lev Tolstói, na Relógio D'Água. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

14.2.10

Mão Morta: Lisboa e Budapeste




[do álbum Mutantes S. 21, 1992]