21.8.10

Manuel Hermínio Monteiro: a entrevista ao DNA em 2001

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O DNA (suplemento do Diário de Notícias) de 12-05-2001 publicou aquela que penso ter sido a última entrevista dada por Manuel Hermínio Monteiro, o editor da Assírio & Alvim, que viria a morrer em Junho desse ano. Foi uma longa entrevista, conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Deixo-a aqui:
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MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO
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A conversa seguinte aconteceu numa destas tardes de sol. Do sol radioso que encharca de esperança os primeiros dias da Primavera. Manuel Hermínio Monteiro, o mítico editor da Assírio & Alvim, refastelou-se no sofá para desfiar o novelo da sua vida cheia. Como ele diz, logo no começo, a ponta pode ser a que nos aprouver que há-de sempre dar no mesmo.
Decidi começar por um lugar que cruzava as palavras e as memórias, umas e outras em catadupa. Um lugar que é talvez o mais belo recanto do Douro. E por isso de Portugal. E por isso do mundo. Conheço esse sítio há muito porque me fiz, também, em terras transmontanas. O que, como perceberão, tem a sua importância. A marca da terra, espessa, fez-me assim, fê-lo assim.
Esta é a vida de um transmontano, um transmontano de boa cepa. Calha de haver uma flor maligna que lhe traga a carne. Até ver. Como ele dizia, quando pela primeira vez o vi depois de saber, «Estou bem», embrutecendo o tronco, referindo-se à força, à robusteza.
A seguir, que é para isso que servem as introduções, têm a vida deste homem. E dentro dela a vida toda.

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Começamos por onde?
- Sei lá. Como a vida anda às voltas, pode ser por qualquer lado.
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A vida anda às voltas?
- Muitas. A minha é uma vida muito cheia.
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Podemos começar por S. Leonardo de Galafura, o recanto do Douro escolhido por Torga, que, presumo, conheça.
- Conheço. Dizem-me agora que na encosta contrária ainda há outro miradouro mais bonito, S. Salvador.
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O seu lado do Douro é o do Pinhão.
- A minha terra é mais para o interior, perto de Murça. Alijó. Do meu lado vejo Favaios, Sanfins, Vilar de Maçada.
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Nasceu na aldeia, em Parada do Pinhão. Viveu lá até que idade?
- Fiz lá a Primária. Vivi no século passado, posso dizê-lo. Vi chegar a electricidade, a rádio, a televisão.
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Era um outro tempo para o país, e sobretudo para o interior.
- A escola era uma mesa muito grande numa sala; em bancos corridos estavam numa pontinha os meninos da primeira classe e na outra ponta os da quarta, alguns já com 17/18 anos.
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Passavam directamente do campo para a escola?
- Andavam ali a arrastar. Uma vez um contou que a professora lhe tinha dito: «Se fizeres os deveres, vais amanhã dormir comigo». Ele chegou ao pé da mãe e disse: «Ó mãe, dá-me umas cuecas novas que amanhã vou dormir com a professora!» Ainda levou nas orelhas.
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A professora era quem? Uma moça da aldeia?
- Comecei com uma professora que levei até ao fim. Marcou-me muito e ainda hoje a recordo com muita saudade. Vive agora em Cascais, chama-se Lúcia. A minha professora deve ter sido das primeiras do Magistério; as outras tinham a quarta classe. Logo a seguir inaugurámos uma escola nova. Excelente, a escola, com entrada em arco, azulejos à volta, e tal.
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A professora Lúcia acompanhou a sua escolaridade primária. Onde eu queria chegar era à sua primeira relação com as palavras.
- Deve-se muito a ela. Uma relação de encantamento. O que é extraordinário é que andamos sempre à procura. Do Graal, às tantas. Antes de irmos para a escola estamos num estado absolutamente delirante. Eu já sabia os reflexivos, os pronomes, as preposições…
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Como é que já sabia?
- Era uma música. Ouvia os mais velhos e decorava.
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Ouvia-os do recreio?
- A escola era mesmo no meio da aldeia, ouvia cá de fora e depois perguntava aos mais velhos. Quando vamos para a escola, imaginamos que vamos aprender coisas. Uma ansiedade. Como depois temos quando vamos para o Liceu; julgamos que ali é que vai ser a sério. Depois, a Universidade é que vai ser a sério. Para chegar à conclusão que andamos permanentemente à procura de qualquer coisa que não existe. Tal e qual como a felicidade.
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A felicidade não existe?
- Com a idade vamos percebendo que a felicidade é uma aquisição muito delicada, muito trabalhosa. Esgaravatar uma mina, mexer muita terra, muita pedra, e depois, de vez em quando, lá aparece um bocadinho de minério. A felicidade também é assim. São momentos fulgurantes, extraordinários, mas não existe em estado puro. Nada existe nesta vida em estado puro.
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O que é que se pode retirar dessa lida diária?
- Mas é isso, é o trabalho diário, é a busca. E talvez sim, talvez se consiga. A consciência disso leva-nos a valorizar cada vez mais esses momentos, esses pedaços de cintilância. Isto vem a propósito?
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Da aldeia, dos parcos recursos.
- Como é que com pouquíssimos livros… raramente víamos um livro, uma imagem.
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Não tinham livros em casa?
- Não. E não tínhamos ainda televisão, éramos muito virgens em termos de imagens. A cultura era muito interessante; desde cantares, guitarras, uma forte tradição do teatro, festa feitas conjuntamente – havia laivos de comunitarismo permanentes. Ao mesmo tempo a aldeia fechava-se, como se um medo a rodeasse, «Fulano de tal ainda não chegou à terra?». Imaginavam-se coisas completamente loucas, derivadas também das casas onde o vento soprava pelas frestas, o soalho rangia, a luz da lareira era móvel, parecia que estávamos em empurrões de barcos. Isto a juntar àquela imaginação alucinante, como ainda é lá em cima, do maravilhoso celta; ou, para não sermos tão caros, a imaginação do próprio meio que fermenta coisas – uma vez que ainda não havia esta dispersão que há hoje.
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Qual era o seu ponto de observação e participação nesta vivência comunitária?
- Tinha uma experiência muito colectivizada porque a minha avó tinha um forno onde as pessoas iam fazer o pão e o meu avô tinha um grande alambique onde se juntava o pessoal todo, com a concertina, e mais não sei quê.
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O que representava a sua família na aldeia?
- Eram camponeses. O meu pai e a minha mãe casaram cedíssimo, a minha mãe com 16, o meu pai com 18, dois miúdos filhos de volframistas.
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Naquele tempo eram comum casarem tão cedo e terem filhos logo depois.
- Nasci um ano depois. Tive sempre os meus pais muito novos e uma família muito numerosa: muitas tias, muitas primas, em idade casadoira. Lembro-me bem dos vestidos delas, muito vaporosos, de se pentearem. A minha tia tinha raparigas que iam para lá aprender costura. Um gineceu fortíssimo, sempre a ser esmagado por abraços apertados.
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E gostava ou não?
- Às vezes apertavam-me demais, já fugia. Mas na verdade sentia-me um reizinho. São coisas que nunca mais se esquecem: a pressa para irem à missa, os dias de sol, a luz da Primavera.
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Num dia claro de Primavera, como é este, é isso que rememora?
- Lembro-me muito da minha infância. É uma espécie de película impressionável: o que fica ali registado, marca muito, muito mesmo. Tive a felicidade de ter uma infância completamente rural. O meu avô ia podar, levava-me com ele, deitava-me no casaco dele. Nessa altura, que é das primeiras ervinhas e flores, enquanto ele cantava aquelas canções, o Pinhão vinha com fragor por ali abaixo, e sentia os lampejos do sol nos açudes. Para um miúdo de sete anos, isto era uma coisa fabulosa. Acordar num casaco a cheirar a tabaco – o meu avô fumava onça – e ficar a olhar. Ficar com as florzinhas em primeiro plano, ver o mundo mais rasteirinho. Nunca mais esqueci. De tal maneira que ainda hoje a maior parte dos meus sonhos são: águas límpidas, rosas, pereiras floridas, o meu pai a mostrar-me sítios por onde passávamos quando íamos à feira.
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Respira, assim, um tempo que já não existe. Como é que sai da aldeia?
- Apareceu a hipótese de ir para um colégio de Salesianos, com as duas vertentes, para padre ou não. Ficava em Arouca, num antigo convento, sinistro. Fui logo a seguir à quarta classe, com dez anos. Nunca tinha saído lá de cima, nunca tinha visto o mar.
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O seu mundo era a aldeia, e os campos à volta.
- E as romarias, e as feiras: a Sra. da Pena, a Sra. da Saudade, a Sra. Da Piedade. Adorava, adorava aquilo. Conhecia outras aldeias. Mas, naquele tempo, íamos a outra aldeia sempre com o risco de levar uma pedrada. Para irmos a Justes – as terras ali mais perto eram Justes e Vilar de Maçada, que é a terra do [José] Sócrates – fazíamos uma aventura extraordinária, com um cuidado extremo.
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Onde lhe parece que radica essa incrível rivalidade?
- Talvez sejam reminiscências de castreja, não percebo de outra maneira. Agora está melhor, há mais circulação, carros vão e vêm.
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Há a televisão.
- E as comunidades dissolveram-se, com a emigração, por exemplo. Hoje, na minha aldeia, há uma geração jovem muito civilizada, educada, que estuda e circula. Organizam-se para o teatro, para o futebol, têm um grupo coral, até já gravaram um cd. Na altura, eram ódios terríveis. Isto é uma conversa de Antropologia que dava para irmos por aí fora.
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A aldeia era visitada por almocreves, ou havia uma venda onde coincidia o café, a mercearia, a farmácia, etc?
- Existia uma economia natural, de trocas directas. Nas feiras trocavam-se sacholas por feijão.
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Os seus pais trocavam o quê?
- O que tinham: milho. O meu pai tinha algum dinheiro, mas muito pouco, porque tinha explorações de resina. Está bem que o meu avô vendia aguardente e teve muito dinheiro no tempo do volfrâmio, tinha certa produção de vinhos, e o vinho sempre se vendia. Mas imperavam as trocas directas.
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A relação era muito mais desprendida com os objectos. Quer trocas eram as suas?
- Nós só jogávamos ao botão.
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A sua primeira namorada era da aldeia?
- Sim.
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Eu recordo os quilómetros que os namorados faziam para encontrar ao domingo a namorada, que vivia noutra aldeia, para, no fim, ficarem uma hora a falar na berma da estrada.
- Uma vez inventaram-me um namoro, que nem era verdade!, em Sanfins, os sacanas, já andava no colégio Almeida Garrett. Levaram-me à fonte e tive de pagar um garrafão de vinho ao pessoal! Mergulharam-me a cabeça para ser adoptado.
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Uma praxe. E nisto já estamos no Porto.
- Depois da Primária, estive dois anos nos Salesianos, em Arouca, e depois perto de três perto de Coimbra, onde completei o quinto ano.
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Quando foi para os Salesianos, era para ser padre?
- Digamos que tinha uma certa tendência. Por uma razão simples: numa aldeia, neste contexto de que lhe falo, o que produzia um fascínio, fascínio, fascínio, era a religiosidade.
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O que era tão fascinante?
- Para já, havia um delírio religioso, mesmo que não fosse ortodoxo. A presença da bruxaria, do sobrenatural, do Além. Antigamente vivia-se nesse mundo. E pessoas que não mentiam (homens de uma verticalidade, de uma palavra dada…) viam coisas.
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Também via coisas?
- Uma vez estendia a mão para tocar numa senhora que julgava que estava ao meu lado. Imagine o que eram aquelas eiras quando no Verão ficávamos a olhar para o céu, a imaginar o que era o mundo, a chegar lá apenas por intuição. Então, o mundo da igreja, os bastiadores dos altares…
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Chegou a ser acólito?
- Ajudar à missa? Montes de vezes.
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Não estou a vê-lo feito papinho de anjo…
- Nos Salesianos, onde cheguei todo sujo do carvão do comboio, nunca consegui ser dos bens comportados.
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Demorou quantas horas a chegar?
- A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para chegar ao Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à esoera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas de beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.
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Viu o «Rio do Ouro» do Paulo Rocha? É disso que está a falar?
- O ambiente era ainda mais denso. Entrava uma mulher com cerejas, ia de Godim à Régua: dava logo cerejas ao pessoal. Dava! Vender, vendiam bilhas de água, regueifas, todo um conjunto de coisas ao longo da linha. E um calor infernal.
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Como por lá se diz, «Nove meses de Inverno e três meses de Inferno». Para não perdermos o fio à meada, aterra no colégio sozinho. O normal era que os miúdos fizessem a quarta classe e ficassem por ali. Como é que se decidiu que continuaria os seus estudos?
- Conheciam um padre salesiano ali perto, o padre Álvaro, que perguntou ao meu pai, «Porque é que ele não vai?, tal tal tal..» Já estava decidido que ia estudar, tinha um jeitinho, portava-me bem nas aulas. Eu queria ir, e gostava, embora sofresse como um cão. Com saudades, chorava que era uma coisa doida.
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Cortou com o universo encantatório da infância.
- Diziam-me «Mas vai-te embora»; mas por outro lado cria-se uma relação com os amigos e há o orgulho, não se quer ir para trás. É um desafio. O meu avô dizia «Como é que o rapaz está lá naquela coisa dos padres?, sem lareira e sem vinho!» (sorriso).
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Davam-lhe sopas de vinho?
- Não, mas às escondidas o meu avô dava-me às vezes um bocadinho de aguardente, tinha a mania que já era um homenzinho.
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O que é que mais gostava no contacto com as palavras, de ler, de escrever?
- Ah, o que eu mais gostava era de contemplar. E ouvir os velhos.
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Pela sua professora, tinha uma paixão?
- Tem-se sempre. Ainda me lembro das saias dela!
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A sua memória é prodigiosa.
- Dessa coisas da infância, lembro-me bem, mais do que das coisas de agora. As saias, os gestos, o ir buscar as cartas do namorado ao correio.
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Os seus pais ajudavam-no nos trabalhos de casa?
- Sabiam ler e escrever, mas não me ajudavam. O meu pai adorava ensinar-me como cantavam os pássaros, a imitá-los a todos. Chegava a casa, saltava para cima dele com ramos de cerejas. A minha mãe é muito mais enérgica, ágil, nervosa, como as mulheres lá de cima.
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Há um momento, já em Lisboa, em que pensa voltar para casa, para os seus pais, depois de passar pela prisão de Caxias.
- Olhe que há muitas coisas para trás. Ainda nem passámos pelo Porto.
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Então vamos ao Porto.
- O Porto foi uma descoberta, o primeiro contacto com a cidade. Tinha muita malta cujos pais estavam em Hong Kong e que tinham motorista fardado, grandes carrões à porta.
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Impressionava-o de que maneira?
- Pela bizarria. Fascínio?, nenhum. Ao mesmo tempo era injusto: metia-me no Cabanelas e via aquela gente toda, pobre, a subir a Serra do Marão. Pobres mas muito alegres, diga-se de passagem. Não sei o que aconteceu ao povo português. Acho que foram os primeiros rádios, sabe? Até para trabalharem nas vinhas levam rádio, em vez de cantarem. Agora já nem usam rádio. No princípio a música era fundamental. Sempre fui sensível às injustiças. O Porto, o Porto ajudou-me a abrir. Era o período da Guerra Colonial, quase não havia homens nem rapazes. Os bailes eram só com raparigas.
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Como é que entra nessa roda dos bailes?
- Bailes que havia em qualquer associação, e também bailes privados. Arranjavam-se namoradas muito facilmente – estava tudo lá fora. Na minha aldeia, havia o sol de Inverno, os cães, um e outro sentados, não se via mais ninguém. A partir dos 18 anos, iam para a Guerra. Mas devo ao Porto ter-me desmamado em relação a uma série de coisas. Fiz também um esforço para sair de um certo maniqueísmo religioso em que tinha sido formado. Comecei a frequentar igrejas protestantes para ver como é que os outros pensavam.
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Era profundamente crente?
- Sim, sim. Já não muito de missas. Isso ajudou a libertar-me do que era o bem e o Mal. É um percurso que tem de se fazer sozinho. Os amigos estavam noutra. Provavelmente não tinham as mesmas inquietações que eu tinha. Reflectia muito sobre mim próprio, escrevia já bastante, e tentava perceber o que se estava a passar. E havia outra coisa: para aquela malta do Porto, não ir às putas era o mesmo que ser maricas. Fazia-lhes uma confusão do caraças. E era uma coisa que também não percebia: como é que com tanta rapariga lindíssima… Tinha essa estranha relação homem-mulher facilitada, apesar de ter passado por um colégio interno, pelo facto de ter tido uma infância de gineceu. A malta nova ia toda para a Rua do Bonjardim, para as Candeias.
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Frequentavam bordéis ou putas de rua?
- Casas, o Porto estava cheio disso. Bastava descer a Rua dos Caldeireiros a passear… O meu avô, no tempo do volfrâmio, às vezes até trazia os trabalhadores para os Caldeireiros.
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Escrevia para as raparigas?
- Ah sim, escrevia. Aconteciam-me coisas extraordinárias: entrava num comboio e apaixonava-me, entrava numa camioneta e apaixonava-me.
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Pela beleza, por aquilo que a pessoa emanava?
- Não sei. Uma vez estava a contar ao José Agostinho Baptista e ele dizia-me «Tens uma imaginação maluca». As coisas estavam num estado de pureza… Eu tinha uma felicidade interior, uma tal transparência, que isso contagiava a outra pessoa.
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Essa «imaginação» deixou de o acompanhar no amadurecimento dos anos?
- Com o passar do tempo as pessoas deixam de ter disponibilidade para viver em estado de paixão. A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder…; outra coisa era o amor, isso sim, movia-me para o cu do mundo. O resto? Brrr…
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Fala de uma relação de afecto que me parece tremendamente panteísta.
- Tinha sempre a casa com flores, mesmo quando estava a estudar e tinha pouquíssimo dinheiro: 18 escudos iam para as sécias, comprava meia-dúzia todas as semanas. Já trabalhava na Assírio, metia-me sozinho, com o saco a tira-colo e um caderninho para escrever, primeiro no barco, depois na camioneta: Costa da Caparica, quilómetros por ali fora, ficava a olhar para o mar. Fazia isto com uma regularidade extrema. A partir de determinada altura, o tempo não chegava para nada, nada!
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Responsabiliza sobretudo o tempo? Estava a pensar que naturalmente há uma inocência que se perde. As pessoas deixam de ser puras.
- Chega a uma altura em que nem damos conta de como tudo se passa. Ficamos absorvidos, e depois queremos mais, cada vez mais, e já não conseguimos parar, a não ser que aconteça qualquer coisa de muito…
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Esteve ainda um ano em Direito.
- Quando vim para Lisboa foi para fazer Direito, mas praticamente não fiz nada. Direito estava ocupado, era o tempo do Martinez.
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Porque é que vai para Direito? Ainda por cima já escrevia, já sabia que lhe interessavam as palavras.
- O que queria era ser poeta. Os poetas que lia mais, o Pascoaes, o António Patrício, alguns simbolistas, eram todos licenciados em Direito. Julgava que o Direito… Uma ingenuidade!, como aliás tinha muitas. O mundo era assim, não precisava que fosse mais complexo. Fica-me mal dizer o eu, mas há uma água límpida que ainda mantenho.
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É o seu lado aldeão.
- Não tenho ninguém a quem desejo mal, acredita? Posso não simpatizar, mas não consigo atirar uma pedra a ninguém. Nem aos de Justes! (riso)
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Os seus pais acompanhavam o seu projecto?
- Cresci sozinho, praticamente sobrevivi sozinho. No Porto, tinha muito pouco dinheiro, os meus pais também tinham muito pouco dinheiro. Tive a minha fase freak, como todos. Quer ver como é que eu era?
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Quero.
- [Mostra uma fotografia com a mulher, Manuela, em Marrocos]. Isto é nos anos imediatamente anteriores à Revolução. Tínhamos a sensação de que o mundo ia mudar e que estava ali, ao alcance da nossa mão. Estamos a dispersar-nos muito, não?
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Vamos recentrar em Lisboa, no primeiro ano de Direito.
- Não, Direito é de ignorar, é só matrícula e mais nada.
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Lisboa, depois do Porto, é um novo mundo. Ainda se identificava como um rapaz da aldeia? Pelo facto de ter estudado, a sua vida passou a ser completamente diferente da vida dos rapazes da terra.
- Na aldeia só estive dez anos, nesta altura já tinha outro tanto fora. Mas mantive uma relação muito forte com aquilo. Em Lisboa, numa primeira fase, toda a malta de Trás-os-Montes se encontrava. Desde cirurgiões a tipos do PC, a tipos da PIDE. Desde malta de Montalegre a malta de Vila Real. Juntava-se o pessoal todo ao pé do [café] Gelo.
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Discutindo a situação do país?
- Não. Era talvez puro instinto, pura defesa. Dos que não conheciam isto, dos que conheciam bem. E depois rapidamente se passou a uma fase, por que passei também, de repulsa por tudo o que era rural. Aquilo parecia-me uma piroseira do caraças, as músicas e tudo. Estive muito tempo sem lá ir.
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Porque se fascinou com uma Lisboa sofisticada?
- Julgo que foi um processo mais cultural, que começa nos livros e no que se aprende. Há coisas que irritam!, que, aliás, ainda hoje me irritam: um atavismo, um não querer saber, uma preguiça natural.
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Foi tudo hiperbolizado.
- Parecia-me atávico, justamente. E ridículo: os rapazes chegavam de bicicleta aos bailes, com óculos espelhados comprados na feira! Vinham juntos, mas depois, à frente das raparigas, atravessavam o baile para se cumprimentar. Hoje tudo isso me encanta, mas na altura achava hipócrita.
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Tinha algum amigo da escola primária?
- Sim. Que estudassem só uma rapariga e um rapaz; ela é hoje professora, e foi o único caso de chegar ao fim do curso como eu.
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Estava a tentar perceber se ter tido acesso a outros universos o demarcou das pessoas que conhecia.
- Não muito. Nunca julguei as pessoas pelo que sabiam. Nunca fiz qualquer discriminação pela pessoa ter o curso ou não ter, ser assim ou assado, ser pobre ou rico. Quer dizer, é uma coisa tão natural que o simples facto de falar nisso mete-me impressão. E nunca tive mitos, nem Marilyn Monroe, nem Jim Morrison; a única coisinha que talvez tenha tido foi pelo Che Guevara. As pessoas fascinam-me sempre muito mais. Na hora da sesta, enquanto os outros iam dormir, passava o tempo a ouvir os velhotes. Horas e horas e horas. E depois continuou, com o agostinho da Silva, que ia ouvir de vez em quando.
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Quando é que encontra o Agostinho da Silva?
- Anos 70, pouco depois de vir para cá. Um amigo disse-me «Tens de conhecer o Agostinho». Só não ia mais vezes visitá-lo por causa do cheiro dos gatos (com o cio, o cheiro é insuportável).
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A sua gata, Gueixa, cheira?
- Não, os machos é que é uma coisa terrível. Ele vivia no terceiro andar e sentia-se no fundo das escadas.
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Então, é um rapaz universitário que vai parar a Caxias. Conte lá a história, antes de aprofundarmos a relação com as letras e com a Assírio.
- No Porto já participava numas coisas pró-social. Com o Bispo do Porto e uma certa igreja mais prá-frentex, com um grupo de jovens. Havia uma espécie de reflexão, um centro na Rua do Rosário, com a Irmã Humberta; cantava umas baladas do Fanhais e do Zeca Afonso.
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Estavam ligadas para si essas duas componentes, a religiosa e a política?
- Por acaso nunca tive grande sentido político. Na faculdade deixei-me motivar pela luta anti-Guerra Colonial, mandei umas bocas e pronto. Mais nada. Fui parar a Caxias basicamente porque estava a ouvir o Zeca Afonso no Centro Nacional de Cultura. Deram-me enxertos de porrada inacreditável. Com a minha ingenuidade perguntava: «Por que é que me está a bater?»
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A sensação mais forte é o medo?
- É a de que se está nas mãos da mais completa arbitrariedade; podem-nos dar um tiro, podem fazer o que quiserem. Mas agora, estar a contar isto tudo…
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Custa-lhe?
- Não. Mas foi a primeira machadada na minha vida. Até essa altura tinha sido como um pássaro, à solta. Cortaram-me o cabelo todo, que era enorme, implicaram com as coisinhas que trazia no saco: um caderninho, umas almofadinhas bordadas que as minhas amigas me davam. Meteram-me numa cela sem um papel, sem um livro, nada nada. Um dia parecia uma eternidade. Sabe o que me fez cair na situação? Perceber que já não mandava em mim: «Tens a mania que andas aí como um pássaro?».
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Quanto tempo esteve?
- Para aí uma semana. Lá dentro apercebi-me que havia luta; nos pratos, no alumínio, escreviam coisas como «Coragem, estamos contigo», «Resiste»; na enfermaria havia coisas escritas com sangue; e havia gajos que cantavam, cantigas alentejanas.
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Quando sai quer voltar à terra. Formulou seriamente o desejo de voltar para a aldeia? Ainda se reconhecia nessa vida?
- Estava farto. Essa coisa da Aura Mediócritas, como dizia o Sá de Miranda, é uma coisa que existe muito dentro de nós. Às vezes vejo colegas meus lá em cima, a tranquilidade com que estão com os seus filhos. A felicidade é aquela coisa projectada nos outros, felizmente estamos já avisados, sabemos que não existe. Mas nos poetas acontece muito, o Pessoa então, «Ai se eu pudesse casar com a filha da minha mulher a dias». Sempre o outro como representação, encenação da felicidade. Essa busca de uma vida calma, contemplativa, às vezes assalta-me. Na altura era insólito, por ser muito novo e ter o mundo à minha disposição.
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Aos 22/23 anos vai para a Assírio como vendedor.
- É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar, mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá um escritório e deu uma mão, mais duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição do que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.
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Já tinha acabado o curso?
- Já me tinha matriculado em Sociologia em Évora!, para ver as voltas da minha vida. Fui para a Assírio para a parte de vendas, mas ali todos faziam tudo. Sabe como é que se sobrevivia? Quantas vezes fazendo bancas, para sacar algum dinheiro. Estava mesmo na penúria, penúria. Fui-me mantendo por lá, acabei o curso de História.
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Vivia desse pequeno trabalho?
- Já tinha um outro numa agência que contratava artistas: os Genesis, os Procul Harum.
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Conheceu essa malta?
- Alguma, e outra que vinha para o Casino do Estoril, de românticos a stripers. Foi o meu primeiro trabalho, quem mo arranjou foi a Maria Leonor, da rádio.
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Na Assírio assume, em 78, a coordenação editorial. Imagino que tenha correspondido a um desejo de estabilidade que grassou por todo o país, passada a agitação política.
- E a tropa. Fui para a tropa depois de completar o curso. Tinha sido já refractário, devia ter ido para os Fuzileiros antes do 25 de Abril. Não fui e andei a monte.
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Em 78 assentou arraiais na Assírio. Deixou de ser o rapaz à descoberta do mundo?
- Continuei à descoberta. Ainda fui fazer vindimas a França. Andei sempre muito à solta, parecia que o mundo todo me sorria. Nestas viagens, sozinho, amadurecia muito, fermentava.
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Na base da mochila às costas?
- Era assim mesmo, sem saber onde ia ficar. Nunca fiquei na rua.
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O que é que queria da vida? Ou tratava-se de a ir descobrindo?
- Descobrindo. Mas sempre à espera, com a sensação de que a seguir é que era. A seguir, a seguir.
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Tinha desistido do sonho de ser poeta?
- Fartei-me de escrever. Tenho ali cadernos que nunca mais acabam. Depois começa-se a publicar tanta poesia tão boa… Não sei se é muito importante.
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Realmente?
- Ah, a vaidadezinha, não tenho muito essa vaidadezinha. A vaidadezinha que tenho é colectiva, por amigos. Às vezes apetece-me escrever, é uma necessidade interior, um imperativo. Na verdade, posso não escrever poesia, mas vivência poética acho que a tenho. Escrevo coisas incríveis. Só que não as escrevo. É como se as escrevesse, andam assim por dentro. Poemas feitos. Metê-los no papel? Brrr…
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O seu olhar é eminentemente poético, marcado pela vivência rural.
- E a visão desde a infância. Ver tudo, com muita atenção. Podia escrever um livro de memórias, relatando a vivência com uma gente de que pouco se sabe, das histórias que lhes ouvi.
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Portugal não tem tradição de livros de memórias. As biografias, noutros países, vendem-se como pão quente.
- Em Portugal as biografias não pegam, não sei dizer porquê. Eu gostava de fazer, sobretudo pela vivência forte que aí tive, humanamente. É quase uma dívida que queria saldar. Podia juntar a minha experiência no Alentejo. E a minha experiência enquanto editor; podia fazer um livro extraordinário sobre os poetas que conheci, não só os poetas que publiquei, mas todos os outros: o Manuel da Fonseca que ia tanta vez à Assírio, o Rui Cinati que ia diariamente à Assírio…
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As relações que a editora mantém com alguns poetas é mítica. É verdade que vão levar o almoço diariamente a casa do Cesariny?
- É. Mas não é preciso contar isso.
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O que me interessa é perceber a relação familiar que se estabelece entre si e alguns destes autores.
- Sim, são a minha família, não há nenhuma dúvida. Mas há outros, que nem sequer são da Assírio, com os quais tenho uma relação igualmente profunda. Caso do Eugénio de Andrade: falamos dia sim, dia não.
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Pensou muito neste projecto no último ano, desde que sabe da sua doença? Mesmo que trabalhe a partir de casa e vá à Assírio ocasionalmente, imagino que esteja mais recolhido em si e nas suas memórias.
- É verdade. Mas tanto penso em fazer isso, como logo a seguir penso em não fazer. Sou muito assim. Na minha vida as coisas quando têm de acontecer, acontecem. Não falo de um deixar-se reger, de um determinismo exterior à minha vontade; mas fui ganhando alguma sabedoria, percebendo que as coisas impõem-se.
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Prefere que as coisas lhe aconteçam?
- Sim. A minha vida é feita de acasos, de circunstâncias. Nunca forcei muito as coisas, nem as relações amorosas. Suponhamos que as coisas andam num caos e que tendem para uma harmonia. Se não as precipitarmos, elas tendem para uma pacificação. Tudo, tudo o que está no universo é assim. Se calhar é a lógica da vida toda.
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Poucas foram, então, as opções de vida tomadas de forma categórica.
- Sim. No trabalho, claro, é diferente.
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A propósito dessa vida que lhe acontece, como ficou, a páginas tantas, a relação com o divino?
- É uma relação harmoniosa, sempre foi. Tenho fé, tenho. Há a perplexidade que algumas coisas inevitavelmente nos suscitam; por outro lado, há ainda tanta coisa por conhecer que é uma arrogância julgar que já estamos no fim do processo. Só posso falar da experiência própria. Não posso falar a alguém do encantamento que me dá ver um melro ali à frente no ramo, ou de uma pequena flor que me enche completamente de vida. Então neste momento actual enche a sério. Como não podia, quando era mais novo, ler um poema às pessoas que me respondiam «Lá vem este com o poema, agora com esta merda».
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Harmoniosamente foi fazendo a síntese entre a sabedoria das pessoas e da terra.
- É a mais importante.
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E o saber livresco e o que deriva do contacto com outras pessoas. Foi este o seu labor.
- Aprendi muito vendo, vendo a natureza. Isto é uma escola permanente, é uma escola permanente. O grande problema é que está a morrer a nossa sensibilidade, a nossa disponibilidade. A relação com os outros está terrível. Esta coisa do novo-riquismo, esta ansiedade desenfreada que não leva absolutamente a nada. Um punhetaço, como dizem os espanhóis. Há uma coisa infernal que retira às pessoas a sua tranquilidade, a sua liberdade. E estamos a matar aquilo que, em putos, no tempo da festividade, do amor e tal, tínhamos como capital incrível, e que era o afecto.
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Na altura já sabia disso?
- «O nosso grande capital é o amor». Era a nossa grande riqueza, o que queríamos. Depois logo nos safávamos, íamos a França, enfim. Agora precisam de não sei quantos contos para ir para a estância de neve, mais não sei quê que só vai com determinadas condições. Estamos a perder a liberdade. Mais: a perdê-la sem ter consciência disso.
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Esse conforto material em que vive agora, esta sua casa tão simpática, a casa da aldeia…
- Mas eu posso viver em qualquer sítio. Se não fosse a Manuela a arranjar a casa, algum dia tinha isto? Não, não me mexe muito. Seria uma estupidez dizer que não gosto de ter um bom carro, em vez de ter um carro a abanar por todos os lados. Agora, que não signifique hipotecar a liberdade da pessoa. Se não puder ter, não há problema, até não há problema absolutamente nenhum.
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Estas coisas ficaram mais flagrantes para si porque as pessoas ficam sacudidas quando estão doentes?
- Não, absolutamente nada. Tinha consciência delas, mas andava tão alienado que me apetecia chegar aí, ligar a televisão e ver a bonecada porque me dava o sono. Neste momento sinto-me melhor fisicamente, por incrível que pareça. A minha cabeça parece que estourava, com milhões de preocupações, permanentemente tau-tau-tau. Não tinha paz. E sinto-me tranquilo.
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Sente? Não o invade uma angústia quanto ao futuro?
- Se morrer quero ir para a minha terra.
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Foi nisso que imediatamente pensou?
- Foi. Logo. E disse-o à Manuela. Às vezes, depois das quimios, vou-me um bocadinho mais abaixo, fico mais mole e psicologicamente fico mais afectado. Agora, como hoje me sinto… Fico aqui sentado a ver os melros, de que gosto muito, os pequenos rebentos das folhas.
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Porquê os melros?
- É um pássaro muito bonito, canta extraordinariamente bem. Quando tinha seis anos, havia uma japoneira ao pé da casa dos meus avós e cantava lá um melro ao amanhecer; contam que dizia: «Ó Vó, olha o que o melro está a dizer!, o que é que está a dizer?, queres comer, queres comida?». Era eu que estava com fome.
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Teve um encontro, com um livro ou poema, que tivesse sido determinante na sua relação com a literatura?
- Quando comecei a sentir a poesia a sério, assim poesia de estremeção, foi nos Simbolistas, Gomes Leal e Camilo Pessanha. Sobretudo Pessanha, a gente dizia: «O que é isto?»
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Que verso ou poema traduziria a essência de si e que escolheria para seu epitáfio?
- Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas sobre mim, não pense que não. Muitas convulsões, muitas dúvidas. Sou um toiro. Agora estou partido. Quem é que me domava? Nem eu. Energia. Alegria. Era capaz de levar uma multidão. Era uma coisa genésica e telúrica. Ao mesmo tempo, tenho uma dose de feminilidade forte, que não enjeito. A mulher herdou uma sabedoria de muitos séculos, de velha aranha que sabe esperar, perceber o silêncio. Os homens são tipos de uma ingenuidade total, de uma generosidade inexcedível, só qualidades; e depois há qualquer coisa de bruto, de guerreiro, de incapacidade de crescimento.
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Que conversas tem com o seu pai e com a sua mãe?
- Ao meu pai gosto muito de o abraçar, estamos sempre agarrados um ao outro, «Então a poda já está feita?», «Está quase», e tal. Com a minha mãe falo das coisas da casa, das minhas irmãs, deito água na fervura. E é assim.
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As partes mais íntimas de si ficam para quem?
- São coisas que a gente digere em nós, não é? Nunca matei ninguém, não tenho nada que me atormente. (pausa) Precisávamos de ter várias vidas, não é?, para acertar com uma. Esta é muito pequena. Mesmo que a tenha vivido intensamente. Morrendo brevemente, já ganhei muita coisa. Claro que gostava de mais, de fazer isto e aquilo; mas por outro lado, mesmo 100 anos não é nada, 200 também não. Estou habituado a ver a biografia de escritores… Isso passa tudo. É uma lucidez que convém ter afinada. Sempre a tive, não é de agora. Pelo contrário, agora tenho mais ganas de viver. Mas sempre percebi o quão relativo isto era: 90 anos, 100 anos, 200 anos. Não se dá conta; julga-se que quando se for mais velho se vai saber mais e também não se sabe nada.
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Que idade tem?
- 48.

13.8.10

“Foi justamente nesses dias que Drogo se apercebeu de como os homens, por muito que se estimem, permanecem sempre distantes; de que se alguém sofre, o sofrimento é unicamente seu, ninguém pode chamar a si uma pequena parte dele; de que se alguém sofre, lá por causa disso os outros não sentem nenhuma dor, mesmo que o amor que os une seja grande; e isso é a causa da solidão da vida.”
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[Dino Buzzati, in O Deserto dos Tártaros, Cavalo de Ferro, 2005]

6.8.10

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Abel Pereira da Fonseca, 1929
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Passa depressa, pequena,
com as bordas da boca sujas de chocolate
e com um pouco de esperma
nas outras que à cona pertencem.
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Eu sei agora o que é ter nas mãos
um corpo de noventa e um anos,
desnudo, flácido e incapaz. É o corpo
que hás-de ter, moça luxuriante
- se não morreres entretanto, que é como sabes
Uma das inúteis hipóteses do teu destino absurdo,
Embora comas chocolates que te adoçam a boca
Mas menos a vida. O teu prezado clítoris
há-de um dia causar repúdio até a esses cães
que com tanto nojo afastaste.
O amor não interessa – porque passa.
E assim todas as coisas. Repara
como são incisivos os tonéis, pedindo-nos
o desespero, a lamúria fácil, o gesto
imperfeito (eu bebo dos tintos, se alguém
se vier a interessar pela minha biografia).
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Acabemo-nos já, como findam solenes
e contudo grosseiros o chocolate e o esperma
que em breve esqueceremos. É como te digo,
possuído por este vinho cruel que nenhum deus
me obrigou a beber e que por isso bebo:
passa depressa, pequena, e não cuides
que o amor é o nome de um bálsamo
ou uma flor para ti. E porquê para ti?
O teu destino foi corrompido
antes mesmo de nasceres, ainda que não o saibas.
Acautela-te da hérnia que te há-se ternamente
explodir, bem como do fluxo hemorroidal
que tanto te desfeará a rósea carne possessa.
Um cancro do pâncreas vale mais do que qualquer
axioma, mas não deixes de viver por causa disso.
A própria metafísica serve quando muito
para nela limparmos o cu.
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Passa apenas, minha pobre pequena
- e ensina-me se puderes
a passar eu também
ao encontro da minha morte.
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[Manuel de Freitas, in Os Infernos Artificiais, frenesi, 2001]

5.8.10

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[Brassaï, Arbres sur les quais, 1935]

30.7.10

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Imagine que era, por 24 horas, responsável pela programação de um canal nacional de televisão. Usando os seus plenos poderes, programe uma emissão a seu gosto do meio-dia às duas da madrugada.
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O esforço sobre-humano que é preciso fazer para imaginar uma coisa dessas! Bom, mas fazendo-o, e conseguindo, primeiro é preciso definir o dia da semana. Suponhamos que é domingo (talvez de Agosto, talvez escaldante):
12h00, Televendas
Em directo dos “stands” da Feira Popular de Lisboa
12h40, Carros, Detergentes, Tampões e Salsichas
Programa de valor acrescentado
13h00, Noticiário
Com as frentes de guerra onde paira a ameaça da paz, e as frentes de paz onde há esperança de guerra
13h50, Detergentes, Tampões, Carros e Salsichas
Programa de valor acrescentado
14h00, Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos
O conhecido “western” de P. Almodovar
16h00, Detergentes, Salsichas, Carros e Tampões
Programa de valor acrescentado
16h10, A Entrevista da Semana
Entrevista política com um dirigente desportivo
17h00, Tampões, Salsichas, Carros e Detergentes
Programa de valor acrescentado
17h10, Desporto
19h50, Salsichas, Tampões, Carros e Detergentes
Programa de valor acrescentado
20h00, Notícias
Com uma entrevista ao ministro da Administração Interna sobre os resultados desportivos do dia
20h50, Carros, Tampões, Salsichas e Detergentes
Programa de valor acrescentado
21h00, FFF
As flutuações das taxas de desconto, das taxas de referência e das taxas de mercado, por três analistas financeiros
21h50, Salsichas, Carros, Detergentes e Tampões
Programa de valor acrescentado
22h00, Dinheiro não Faz Felicidade
247º episódio
22h50, Tampões, Carros, Salsichas e Detergentes
Programa de valor acrescentado
23h00, Ganhe Um Coelhão com a Coelhinha
Concurso dominical
23h50, Carros, Salsichas, Tampões e Detergentes
Programa de valor acrescentado
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[Alberto Pimenta, entrevista de férias do Público (23-07-1995), in Que Lareiras na Floresta, 7 Nós, 2010]

22.7.10

Alberto Pimenta: a entrevista ao DNA em 2000

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José Mário Silva entrevistou Alberto Pimenta para o DNA (suplemento do Diário de Notícias) de 18/11/2000. Aqui fica:
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ALBERTO PIMENTA
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«Às vezes sinto-me sozinho, mas tenho a impressão de que não é exactamente em termos de pensamento, porque eu sei que há muitas pessoas a pensar como eu. O mundo é talvez já tão grande e tão disperso que deve ser muito difícil às pessoas que pensam assim, juntarem-se. Estamos todos separados e o problema é que não sabemos uns dos outros. Essa é a solidão»
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Este homem não tem medo das palavras. O que pensa, diz. Em voz alta, se for preciso. Contra a corrente, quase sempre. Como se fosse uma espécie de consciência (i)moral da nação. Alberto Pimenta, aos 62 anos, já não precisa de provar nada a ninguém. Sem espalhafato, vai construindo a sua obra, cada vez menos incompleta. Numa tarde de Novembro que ameaçava chuva, começou a falar-nos da infância e foi por aí fora.
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O encontro ficou combinado para o Centro Comercial da Mouraria, essa babel onde se cruzam todas as raças de Lisboa, entre tapetes vindos do Oriente, relógios de imitação e cheiro a caril. Junto a uma mercearia indiana, Alberto Pimenta escolhia a dedo três beringelas. Três reluzentes beringelas que depois transportou dentro de um saco de plástico, pelas ruas escorregadias e labirínticas do seu bairro.
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A casa é uma mansarda não muito grande, um refúgio que fica no topo de cinco lances de escada muito íngremes, onde se consegue sentir a força da gravidade a puxar-nos pelo pescoço. Lá dentro, há uma sala de estar, com o tecto de madeira assimétrico, um biombo escuro e um armário de espelhos. Há uma «alcova» onde só cabe uma cama. E há a sala de trabalho, com várias estantes cheias de livros, um quadro com a figura de Baco, outro com uma mulher despida, duas janelas que dão para o castelo de São Jorge (à noite fica iluminado) e a mesa, o lugar central da casa, sempre cheia de papéis, a mesa onde está pousada a máquina de escrever Olympia – amiga fiel e cúmplice, que o acompanha há 35 anos e viu nascer toda a sua obra. Há ainda, mesmo junto à mesa, uma «chaise longue». É nela que Alberto Pimenta se deita em certas noites de verão, a olhar as estrelas no céu de Lisboa. E a pensar na vida.
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Nascido em 1937, no Porto, Alberto Pimenta é professor universitário e autor de trinta livros, muitos dos quais reunidos no volume «Obra Quase Incompleta». As suas «performances» e «happenings» foram autênticas pedradas no charco da cultura nacional. Conhecido pela sua escrita desassombrada, foi autor de dois programas de TV («A Arte de Ser Português», «6 Áreas para Cesário») e teve uma passagem muito breve pela «Noite da Má Língua». Colecciona pedras como forma de recordar os lugares onde esteve (entre outras pequenas preciosidades, mostrou-nos uma rosa-do-deserto). Não tem televisão nem computador. Não quer saber da Internet. Diz que não lhe fazem falta.
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Começamos por onde?
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Olhe, podemos começar por ver se este aparelhinho [o gravador] está a trabalhar.
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Deixe-me ver. A luz vermelha pisca, parece-me tudo ok.
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Ainda bem, ainda bem.
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Comecemos então pelo princípio. Ou seja, pela infância, um tema que não costuma abordar.
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A infância aparece como um lugar mitológico, um lugar mítico. E é. Enquanto a deixam estar no seu espaço, o que é hoje cada vez mais difícil, o espaço da criança é mítico. Ela brinca sozinha, ela conversa com entidades que nós não sabemos quem são, ela inventa. Mas é um inventar que tem, para ela, uma componente de realidade. Se não houver um trabalho qualquer exterior, de tipo psicanalítico, daqueles que tentam escavar-nos até ao fundo, acho que a infância é qualquer coisa de que nós nos vamos esquecendo e de que só guardamos episódios soltos, sem ligação. É diferente do que se passa, mais tarde, na idade adulta: tudo cheio de causas e consequências, opções e erros, etapas e planos.
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Ao fazer a pergunta, não me referia à infância como conceito geral, mas à sua infância em particular.
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Certo. Eu vejo a infância mais como aquele dia em que aconteceu isto ou a tarde em que aconteceu aquilo. Por exemplo, eu poderia falar agora – e estou a lembrar-me – daquela noite de Natal, teria eu cinco anos, em que acordei às quatro da manhã, não sei porquê, e cheguei à sala e vi um triciclo. E hoje lembro-me, não é bem do triciclo, mas de um qualquer deslumbramento interior, um deslumbramento de uma dimensão que hoje não posso compreender. Um deslumbramento que me deixou horas seguidas em êxtase. A mim, parece-me que a infância é esse momento feito de episódios que ainda estão um bocadinho fora do tempo. E até acima do tempo.
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Episódios felizes?
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Suponho que todos nós recordamos com mais ou menos prazer a juventude, porque é na juventude que temos maior energia, que estamos a descobrir a vida, que estamos cheios de força. Estão as portas todas abertas, ainda.
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Há quem tenha, apesar de tudo, uma memória muito negra ou martirizada da infância. Não é então o seu caso?
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Não, não, não. Foi uma infância e uma juventude numa família que não era rica, que era aquilo a que na altura se chamava remediada. Lembro-me disso, lembro-me de algumas limitações que as dificuldades económicas implicavam, mas nenhuma dessas limitações foi de tal ordem que me tirasse qualquer prazer de existir. Lembro-me da minha vida, na infância e na juventude, como uma vida onde o prazer de existir estava implícito, nem se pensava nisso.
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Ao lermos a sua obra, notamos que se refere mais vezes à figura do pai do que à da mãe.
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Sim, há um livro qualquer, ou dois, ou três, em que a figura do pai aparece várias vezes e a da mãe praticamente não aparece. Nunca pensei em ter que colocar essa questão. Mas, colocando-a agora, talvez o motivo determinante seja o facto de o pai ter morrido e a mãe não. Essas referências acontecem depois da morte dele e não recorri a nenhum efeito estilístico. Creio que foi uma catarse.
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Será que um escritor tem o direito de criar a sua própria biografia?
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O direito tem, claro. Como é que lhe podíamos tirar esse direito? Mas, em grande parte dos casos, nunca saberemos qual a percentagem de realidade e qual a percentagem de imaginação que contribuíram para um episódio que se narra; ou para a circunstância que dá origem ao poema. Nunca saberemos, acho eu, porque não deve existir obra nenhuma que seja só fantasia ou apenas reflexo da realidade. Em relação a essa ideia de que o escritor pode criar a sua própria biografia, eu penso que isso é verdade mas acontece com toda a gente. Todos fazemos a nossa própria biografia. A diferença está no grau de consciência que temos, ao fazê-la.
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Mas por maior que seja a margem de intervenção biográfica, há sempre factos incontornáveis. Como o ter nascido no Porto, onde passou toda a infância e uma parte da juventude.
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Sim, vivi lá até aos 16 anos, com uma pequena interrupção, de cerca de um ano, período em que vivi em Lisboa. Depois, fui estudar para Coimbra, porque naquela época não havia Faculdade de Letras no Porto.
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Essa ida para Coimbra foi um corte importante em relação à sua vida anterior?
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Foi, sem dúvida. A muitos níveis. Era outro ambiente humano, as duas cidades são muito diferentes. Passei a ter outro círculo de amigos, passei a ter outro tipo de interesses. Em Coimbra, por exemplo, comecei a fazer teatro. Houve de facto alterações bastante importantes. Não me parece que se possa impunemente mudar assim de um lugar para o outro, sobretudo quando se está em formação, sem que isso venha a mexer com as estruturas do indivíduo.
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Foi nessa altura que despertou o seu interesse pela literatura?
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Não, foi ainda antes, no período do liceu. Eu tive de resto um professor magistral: o Óscar Lopes, que dava aulas de Literatura Portuguesa. Ele deu-me acesso a certos conhecimentos e perspectivas que me permitiram, já por essa altura, conhecer o Fernando Pessoa. Conhecer e começar a gostar de Pessoa, numa altura em que isso era raríssimo. Estamos a falar de meados dos anos 50, quando o poeta, para todos os efeitos, ainda não existia.
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A arca estava fechada…
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Sim, claro. É a partir daí que a minha sensibilidade literária se desenvolve. Eu acredito que qualquer trabalho artístico se vai desdobrando, como um novelo. Há um novelo que começa, puxamos uma ponta e depois vem tudo atrás. Surge uma primeira manifestação, depois essa acabará por trazer outras, e outras, e outras. Isso se, de facto, o novelo existe. Nunca sabemos se ele existe, nunca sabemos quando ele acaba. Ao fim de uma vida passada a procurar formas de expressão do tipo criativo, claro que se ganha certas obsessões, claro que se quer encontrar o fio. O certo é que algum dia o novelo acaba, de uma maneira ou de outra!
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Como era o princípio do novelo? Aqueles versos típicos de um jovem que começa a escrever?
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Sim. Mas que outra coisa podia ser?
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São versos perdidos?
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Sim, são versos perdidos. Suponho que tenho ainda um manuscrito de um livro de poesia, que não chegou a ser publicado, mas que serviu para escrever a primeira obra. Isso porque esse primeiro livro é já uma ironização do tal que não foi publicado. É já uma forma de auto-ironia.
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Uma auto-ironia que está omnipresente na sua obra.
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Eu continuo a achar que a grande ironia é a auto-ironia. Aliás, não se consegue fazer ironia sem que haja uma certa dose de auto-ironia. As pessoas que se tomam muito a sério nunca fazem ironia. Em Portugal, a ironia não é muito apreciada porque toda a gente se toma muito a sério. É perante a fragilidade da nossa opinião que vem a ironia. A ironia é uma defesa dos que se sentem frágeis, não dos que se sentem seguros.
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Qual era o estilo desse livro que nunca saiu da gaveta?
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Tinha uma grande influência clássica, pagã. E era uma exaltação do corpo, da presença do corpo. Mas um corpo que tem um espírito. Quando se fala em exaltação do corpo, às vezes pensa-se que se está a fazer uma oposição ao espírito. Como é possível? Um corpo é algo que tem um espírito. O espírito é que faz daquele corpo o que ele é.
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Que idade tinha quando escreveu esses poemas?
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Teria uns 18, 19 anos.
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Mais tarde, quando acaba o curso em Coimbra, parte logo para a Alemanha. Foi de alguma maneira uma fuga ao Portugal cinzento e de horizontes fechados, ao Portugal salazarista?
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Na altura não foi. Ao concluir um curso de Línguas e Literaturas Germânicas, a oportunidade de preencher um lugar de leitor na Inglaterra, ou na Alemanha, funcionava como o melhor estágio possível. Eu acabei o curso e fui convidado para assistente. Quando surgiu a vaga para leitor na Alemanha, os professores acharam que era uma oportunidade excelente e eu fui. Com um plano de trabalho, uma expectativa de regresso, tudo muito ortodoxo.
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Deveria regressar quanto tempo depois?
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Passados três ou quatro anos, mais ou menos. Naquela época havia uma lei que permitia a quem, chegando aos 26 anos de idade, estivesse ao serviço da nação em cargos desses, a isenção automática do serviço militar. E vários colegas meus ficaram de facto isentos. Só que aconteceu, no final de 1961, a invasão de Goa. Como de costume, na maioria dos leitorados portugueses fizeram-se acções de desagravo em nome dos interesses da pátria. Eu não fiz nenhuma. Não senti que fosse o meu papel. Essa atitude e mais três ou quatro coisas pesaram contra mim. De tal maneira que um ano antes de me poder ser aplicada a tal lei, em 1963, fui demitido com o objectivo de me obrigar a cumprir o serviço militar.
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Foi uma represália.
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Sim, pelo menos em parte. E eu hesitei. Hesitei muito. Hesitei tanto que cheguei a vir a Portugal para me apresentar ao serviço militar. Mas depois de chegar cá e ver o ambiente durante 15 dias, depois de ver aqueles soldados a marchar pela rua gritando «Angola é Nossa», «Angola é Nossa», decidi voltar para a Universidade de Heidelberg, que me tinha garantido: se você quiser, oferecemos-lhe um contrato. Eu aceitei a proposta e regressei à Alemanha. No ano seguinte, estava lá um representante do Instituto de Alta Cultura português a convidar a universidade alemã a despedir-me. Caso não o fizessem, ameaçavam cortar bolsas de estudo e coisas desse género. Mas os alemães não cederam a esse tipo de pressão, ainda por cima muito mal feita, muito violenta, a pressão de quem chega, quer e manda. Chegou lá o doutor não sei quantos e disse: «Vocês não podem ter aqui este homem, que é um traidor à pátria». Os alemães acharam que podiam. E eu lá fiquei. Só regressei em 1977.
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Em 1977, três anos depois do 25 de Abril. Por que é que não veio logo depois da revolução?
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Em primeiro lugar, não se pode vir assim, imediatamente a seguir a uma revolução. Sobretudo para quem não tem relações, como eu não tinha, nem a forças políticas, nem a grupos, nem a ninguém, nada, absolutamente nada. A verdade é que às tantas, ainda antes do 25 de Abril, retiraram-me o passaporte português. O consulado não me renovou o passaporte. Fiquei sem ele. Portanto não tinha alternativa senão voltar a Portugal ou pedir a naturalização. O asilo político era impossível, só se podia fazer vido de fora e eu estava lá dentro. A naturalização não é fácil mas eu tinha as condições todas: os anos de permanência, a integração profissional, o conhecimento da cultura e da língua, essas coisas. Fiz o pedido e um belo dia chegou a carta que me concedia a naturalização. Era o dia 23 de Abril de 1974. Assim que se dá a revolução, agradeci às autoridades alemãs e pedi um período de reflexão, em face do que se passava. Eles deram-me esse tempo de reflexão, seis meses, e eu declinei, por razões óbvias, a naturalização que tinha pedido. Com isto, estávamos em finais de 74. Nessa altura, vim a Portugal para regularizar a minha situação. Apresentei-me a uma inspecção militar, tinha 37 anos, não estava nada bem de saúde e deram-me a entender que iria ser considerado inapto. Mas não, fui considerado apto e deram-me uma guia para me apresentar, dali a 15 dias, nas Caldas da Raínha. Claro que não me apresentei, claro que voltei para a Alemanha e claro que fiquei pela segunda vez refractário. Ou seja, fui refractário antes e depois do 25 de Abril. Com estas coisas todas, a relação com a pátria foi ficando um pouco abalada. Às vezes, sabe, as coisas tomam um caminho que é feito de acasos e de circunstâncias, mas todos os caminhos são assim.
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Foi um desses acasos que o trouxe de vez, em 1977?
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Bom, quando voltei em 77 foi por razões pessoais, não foram outras.
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O país que encontrou era muito diferente daquele que tinha deixado?
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Um país é feito pelas pessoas. Eu não esperava encontrar diferenças arquitectónicas ou paisagísticas, mas contava descobrir mudanças no comportamento das pessoas. E de facto, nessa altura, confesso-lhe que havia ainda uns restos, depois é que me explicaram os que tinham assistido a tudo, uns restos de uma solidariedade, de uma certa camaradagem. Isso notava-se. Havia aquela facilidade com que os portugueses se entregam à utopia. Não havia praticamente peça de teatro, ciclo de conferências ou publicação que não tivesse como base a ideia de um progresso social, de uma justiça social. Isso embora já começassem a regressar do Brasil certas sombras antigas. E a pouco e pouco, muito devagarinho, havia já o crescimento de um certo peso económico, da macroeconomia, dos consórcios, disso que não se vê e que é o dono de tudo. Depois, uma das faltas graves entre os portugueses era, e continua a ser, a capacidade de entusiasmo. Talvez as pessoas estejam sujeitas a um tal aperto, talvez lhes roubem o tempo de uma tal maneira, talvez estejam numa tal angústia, que têm sempre um ar tristonho, pesado. Não sei o que será preciso para entusiasmar um português. Talvez um jogo de futebol, deve ser a única coisa.
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Depois do regresso, sentiu-se um estrangeirado?
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Não quero de forma alguma colocar-me nesse rol, onde aliás estaria muito bem acompanhado. O que posso dizer é que esse regresso não foi pacífico. Em termos de convivência. Levei muito tempo a adaptar-me à melancolia portuguesa, ao ficar triste sem saber porquê, à lamúria, à queixa, ao lamento. Agora estou habituado, como alguém que pode dizer, após 15 anos na prisão: «Estou habituado, já não dou murros nas portas». É mais ou menos isto.
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Ao ouvir essa amargura em relação ao país, nascida certamente de uma relação de omor-ódio, lembro-me que ela tem muitos antecedentes na literatura portuguesa. Penso em Alexandre O’Neill, por exemplo.
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Ah, sim, o O’Neill, claro. Mas já podemos ver isso no Camões. Se lermos «Os Lusíadas» com atenção, encontramos verdadeiras diatribes contra o país. Não tenho a certeza mas creio que é no final do canto VI, na última estância, que ele diz qualquer coisa como isto: «Nunca no mundo vi país, nação, nem bárbara, que prezasse tão pouco as artes como Portugal». E depois há o Garrett, o Eça, tantos outros. Isso não surge do nada, não são meia dúzia de tipos com a mania da perseguição.
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Mais de vinte anos depois do seu famoso «happening» no Jardim Zoológico, durante o qual ficou fechado numa jaula com uma placa que dizia «Homo sapiens», como é que olha para aquela intervenção artística?
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Eu tive essa ideia já na Alemanha, muito tempo antes. Mas nem sequer pensei em fazê-la, porque passaria a ter, imediatamente, uma outra conotação. Eu seria logo o estrangeiro, o imigrante. E isso não me interessava. Em Lisboa apareceu a oportunidade e eu aproveitei-a, com aquela euforia que nasce apenas do acto de fazer. Fazer e esperar uma reacção. Essa reacção está publicada em livro, com tudo o que foi dito por quem passou em frente à jaula do Jardim Zoológico. É extraordinário imaginar o que passa pela cabeça de alguém para dizer certas coisas que ali se disseram. È curioso verificar que a atitude recorrente foi uma certa forma de distanciamento. Diziam que eu era maluco, ou que tinha feito alguma coisa para merecer aquilo, ou que estava a fazer publicidade. Só houve duas ou três pessoas que deram ao «happening» uma dimensão humana geral. Houve mesmo uma que disse: «Isto é para mostrar que estamos todos presos». Eu fiz, 14 anos depois, uma coisa a que chamei «Homo venalis», uma espécie de «homem vende-se», ali junto a uma igreja do Chiado, num dia do turista, embrulhado numa grande serapilheira e os comentários, as hipóteses de explicação, foram praticamente os mesmos. «Isto é um filme». «Isto é publicidade». Quer dizer, as pessoas queriam defender-se, pensando «isto não é comigo».
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Ao fim e ao cabo, estavam a incorporar o que lhes era estranho numa lógica qualquer…
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Tal e qual.
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Porque o que é estranho mete medo.
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Exactamente. É como se houvesse uma necessidade de integrar o que não compreendemos numa ordem lógica que torne as coisas aceitáveis, uma ordem que nos sossegue.
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Acha que a linguagem artística entendida como uma forma de acção, seja através de «happenings» ou de «performances», ainda faz sentido nos dias que correm?
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Eu acho que um certo tipo de «happenings» continua a fazer sentido, mas temo que não exista muito espaço para eles no actual cenário mediático. Por exemplo, qualquer «happening» com uma intervenção política está a entrar no campo da manifestação. Há espaços hoje muito bem delimitados em que o «happening» não estará nunca, talvez, totalmente à vontade. O mesmo não se passa com a «performance». É um espectáculo que exige muitíssimo, muito mais do que um espectáculo de teatro, porque não é representar, é qualquer coisa de único. A verdadeira «performance» nunca se faz duas vezes. Aconteceu em certas circunstâncias, com um certo público, e não se repete. O papel que o artista conceptual pode ter, hoje, é este: não fazer uma modernidade que consiste em variar o que as linguagens artísticas estão fartas de dizer, mas apresentar momentos que confrontem quem os vive com esta ideia: afinal, é possível que as coisas aconteçam de outra maneira.
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O artista deve ser um agitador, um provocador?
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Eu acho que sim. Até porque a arte procura algo que está escondido nas consciências. Algo que não vem nos jornais, não vem nas televisões, não faz parte do Orçamento Geral do Estado. Nesse sentido, a arte agita e provoca. Em termos de ideias, só vale a pena aquilo que agita e que provoca.
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E não o incomoda o facto de ser relativamente pouco conhecido?
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Nada. Repare que se isso fosse muito importante para mim, não era assim tão difícil ser pelo menos um pouco mais conhecido. Bastava ser sócio de duas ou três associações, para alguma das quais já fui aliás convidado, frequentar grupos, ter um lugar e visibilidade. Mas não me agrada o espírito corporativo. Não tenho capacidade nenhuma de me juntar com pessoas e com elas fazer grupos fechados, só porque trabalhamos na mesma coisa.
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Continua a considerar-se «um poeta cujo silêncio tem muitos admiradores»?
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Isso foi um achado, porque a frase tem outro sentido, para além do óbvio. Referia-me a quem, não querendo admitir abertamente que considera as minhas obras insuportáveis a vários níveis, se refugia dizendo: «Ah, ele escreveu uma coisa muito interessante, que foi “O Silêncio dos Poetas”». Ou seja, uma obra ortodoxa. É mais ou menos como aquelas pessoas que têm de dar parecer sobre um quadro e depois dizem: «Ai que linda moldura». Sim, sim, o meu silêncio tem muitos admiradores! Pois claro que tem.
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Quando escreve ou quando faz uma «performance», é lícito afirmar que está sempre a agir contra a ideia de poder?
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Sim. Raras vezes contra qualquer tipo de poder concreto, mas contra um poder abstracto. O das hierarquias do dinheiro, por exemplo. Marx, e eu gostava de ver alguém que pusesse isto em causa, disse que neste mundo só há duas maneiras de ganhar a vida: ou dos rendimentos, ou do trabalho. Portanto, há uns que têm rendimentos, não precisam de trabalhar. E há outros que têm que trabalhar, têm que se vender a si mesmos. A mim parece-me que isto é um facto, e cada vez mais. A monstruosidade desses rendimentos que já são assim uma espécie de deus, esses grandes consórcios, esse polvo, essa realidade é uma opressão. Porque alguém poderá pensar que se pode chamar felicidade ao modo de viver destes milhões de pessoas que se levantam às seis ou sete da manhã, vão para um emprego na maior parte dos casos estupidificante, trabalham lá o dia todo e vêm ao fim do dia para as suas casas, pouco confortáveis e ainda por cima pagar? Esta opressão toda vem desse tal poder, que neste momento é um poder cada vez mais abstracto, mais difuso.
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Tem certamente a noção de que há poucas pessoas que se revoltem contra esse estado de coisas. Sente-se de alguma forma a clamar no deserto, como se fosse uma espécie de anarquista solitário?
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A pergunta é boa porque me obriga a pensar. [silêncio] Eu às vezes sinto-me sozinho, mas tenho a impressão de que não é exactamente em termos de pensamento, porque eu sei que há muitas pessoas a pensar como eu. O mundo é talvez já tão grande e tão disperso que deve ser muito difícil, a várias pessoas que pensam assim, juntarem-se. Estamos todos separados, nem sequer sabemos que existimos. Essa é a solidão. Mas eu não me convenço de que estou completamente sozinho. Nem é preciso ir muito longe, se calhar aqui no bairro já existirão umas dezenas de pessoas que pensam mais ou menos como eu, cada um a fazer a sua coisa. O problema é que não sabemos uns dos outros.
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Há uns anos definiu-se como um optimista inquieto. Mas agora sinto-o bastante pessimista. Só a inquietação é que permanece?
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Sim, a inquietação permanece. Houve decerto alguma circunstância concreta que me levou a pender mais para aí, porque os dois lados coexistem em mim. Se eu não fosse um optimista, provavelmente não escreveria, nem fazia nada. Mas a verdade é que também sou, ao mesmo tempo, vulnerável ao pessimismo.
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O humor continua a ser uma arma eficaz?
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Eu acho que é um remédio. Sem humor é difícil sobreviver. Muito difícil. E eu acho que é uma das melhores formas de dessacralizar as coisas intocáveis, tudo o que de repente se transforma num objecto de veneração.
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Por falar em coisas intocáveis e objectos de veneração, este ano João Paulo II voltou a Portugal. Só que desta vez o Alberto Pimenta não assinalou «A Visita do Papa». Porquê?
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Na segunda vinda do Papa, havia ainda umas centenas de exemplares da primeira edição e foram postos à venda com uma cinta: «João Paulo voltou, nós também». Mas agora não faria sentido. A primeira vez tem graça; a terceira já não.
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Quanto ao «Discurso sobre o Filho-da-Puta» não se pode dizer o mesmo, visto que teve uma nova edição há uns meses. Como explica isto? É o facto de se manter actual?
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Sabe, um texto desses poderá entender-se como um manifesto, mas não é. Aquilo não é um manifesto. É uma coisa diferente, sem género definido. Diria que tem algo de ensaio, escrito numa prosa poética e satírica. O livro estava esgotado há muito tempo e era já altura de o reeditar. Havia muita gente que o queria ler, mesmo muita gente. Além disso, é natural reeditar um livro cujo tema é eterno. Aliás, como o próprio filho-da-puta. Só os seus processos é que se vão adaptando às mudanças do mundo. E nesta edição fiz umas brincadeiras formais porque isso é um dos meus divertimentos. Se calhar, o texto era um clássico se eu não lhe tivesse mexido, mas faz parte do meu distanciamento, eu nunca considero uma obra demiurgicamente completa. Eu faço e aquilo é um ponto de partida para outras coisas. E depois gosto de mudar títulos, como às vezes faço em certas antologias, deixar cair letras, mostrar também a efemeridade de qualquer discurso. Aliás, no fim do «Discurso do Filho-da-Puta» original, ele desagrega-se em palavras levadas pelo vento.
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A designação «escritor maldito» assenta-lhe bem ou incomoda-o?
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Acho apenas que é excessiva. A expressão fez sentido na sua época, para caracterizar autores como Rimbaud ou Edgar Allen Poe. Agora, depois disso, não faz assim muito sentido. Acho demais. Eu levo uma vida social normal, ninguém foge de mim e eu não fujo de ninguém.
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Isso faz-me lembrar uns versos da sua última obra («Ode Pós-Moderna»): «O que acontece/ é que/ não se pode dizer/ estou-me nas tintas/ com muita ênfase nem rigor/ é mais um rosnar baixo/ e cuspir alto/ e para o lado/ e depois fugir». Há aqui um certo desencanto, mas também uma certa lucidez.
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Eu nesses versos estou a fazer uma crítica à atitude dos pós-modernos, subjacente a esse «estou-me nas tintas». É um «estou-me nas tintas para o que não é o meu trabalho artístico». Ou seja, o resto da sociedade. O «estou-me nas tintas» é só assim um rosnar baixo, porque essa própria atitude interior revela uma enorme falta de força, entusiasmo, vigor.
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É uma revolta domesticada.
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Sim, o que nós sentimos é uma tremenda falta de energia, de grandeza, nas obras actuais. E não é porque os temas se tenham esgotado, meu deus, os temas são praticamente os mesmos desde há 2000 anos. É essa atitude de falta de empenho. As coisas são tratadas com virtuosismo mas sem empenho nenhum. Fica quase tudo à superfície, falta magia. E se calhar não falta só na arte. Falta também na vida política e social. Aos poucos, fomos todos perdendo a capacidade de indignação. Eu não perdi porque já sou velho. É só isso. Venho de um tempo em que era saudável alguém indignar-se. E não me esqueço.
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Costuma fazer ajustes de contas consigo mesmo?
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[pausa] Faço, faço. Mas talvez não seja o meu forte. Por uma razão: eu vivo muito preso ao presente. Não cultivo esse tal vício português chamado saudade, nem perco tempo a fazer projectos para o futuro. Entrego-me sempre às circunstâncias em que estou e por isso não é muito vulgar em mim fazer ajustes de contas. Sabe, eu pertenço àqueles que dizem que uma das infâncias da nossa gramática indo-europeia é o ter permitido o condicional, que não existe em certas línguas. Se eu tivesse virado para a direita em vez de ter virado para a esquerda, etc e tal. Uma das amarras de muita gente é estar sempre a pensar: «Se eu tivesse feito isto, se eu tivesse feito aquilo». Lembro-me que o meu pai caía muito nisso, arranjava sempre maneira de pensar que se tivesse feito ao contrário é que teria sido bom.
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E quando não tomamos as opções correctas, temos que arcar com uma certa culpa, não é?
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É, claro. Com muita culpa mesmo. A culpa existe sempre em nós, porque nós vivemos numa civilização que nasceu com a culpa, desde Adão e Eva. Mas por acaso, olhando agora de um ponto de vista psicanalítico, não me lembro de em criança ter sido inculcado com sentimentos de culpa. E se tenho sentimentos de culpa, é em relação a pessoas isoladas, no sentido em que há coisas que se fazem ou se dizem e não deveriam ter sido feitas ou ditas. Tenho sentimentos de culpa. Sim, tenho. Mas não costumam atormentar-me nem se transformam num poço de angústias.
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O livro «Repetição do Caos», de 1997, abre com uma única frase: «Que estou eu a fazer aqui?». Já sabe?
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Para certas pessoas, poderá ser possível saber nalgum momento da vida, uns muito cedo, outros muito tarde. A resposta será um estar de acordo consigo mesmo, não ter mais ajustes de contas nem nada a dizer, olhar para trás e pensar: era isto mesmo que eu queria ter feito e fiz. Esse livro foi escrito durante uma fase difícil, depois de uma queda que me provocou problemas de coluna. Não estava nada bem e o livro espelha um desconforto imenso. A frase que referiu tem várias leituras possíveis. Pode ser aqui neste país ou aqui nesta casa, ou aqui neste tempo, ou aqui neste mundo. E é certamente todos e se calhar nenhum. Pergunta-me se já sei o que estou a fazer aqui? Não, não sei. Mas nunca estive tão perto de saber.
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Uma entrevista como esta é sempre um processo de exposição. Quem esteve aqui foi o verdadeiro Alberto Pimenta ou alguma espécie de máscara?
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Não. A única máscara que pode ter havido é aquela que nós inconscientemente vamos adquirindo ao longo da vida. Como dizia um presidente da república americano (do tempo em que os presidentes da república ainda diziam coisas profundas) «a partir dos 35 anos, cada um é responsável pela cara que tem».
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Aos 62 anos, sente-se responsável pela cara que tem?
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Sinto, claro que sinto, porque ela às vezes é – e às vezes não é – aquilo que eu gostava que fosse. Repito: se alguma máscara esteve diante de si, nesta conversa, foi essa que se vai criando e já é uma pele, já é a própria cara.

21.7.10

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EXTRACTOS DA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DO CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO
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A pressão da procura
na alavanca
em época alta
na política aérea do país
agradecem muito
contribuem e ajudam
as regiões confeccionando o produto
correspondendo às expectativas
na polémica da divulgação
flashes na empresa
importa é a forma mais eficaz
protocolo na verba de alguns milhares de contos
não me repugnaria pensar em linhas de crédito
candidaturas de agências para a modernização
negociação do resultado de verbas compensatórias
em igual tempo à filosofia de serviço público.
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[Tiago Gomes, in Viola-me Eléctrica, Fenda, 1998]

15.7.10

Acabado de chegar às livrarias

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Uma semana de bondade, de Max Ernst, na & etc.

14.7.10

"Mas claro que o discurso sobre os «independentes subsidiados», mascarado de indignação fiscal, é apenas o arremesso filisteu do costume. O velho ódio à cultura. O que a direita dogmática e a esquerda analfabeta querem é que tudo o que não dê lucro acabe de vez. Fazem-se de cosmopolitas, mas são uns taberneiros."
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[Pedro Mexia, no Lei Seca]

12.7.10

Reeditado

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O Discurso Sobre o Filho-da-Puta, de Alberto Pimenta, foi mais uma vez reeditado, agora pela 7 Nós, uma nova editora do Porto, que editou também Que Lareiras na Floresta, do mesmo autor.

7.7.10

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GELO
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Agora é apenas um café com paredes adornadas,
imagens retratando destemidos ancestrais.
O tempo foi passando, não foi? Um acidente
em câmara lenta a uma escala cataclísmica.
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Grande parte daquilo que fazemos é construir
memória, uma promessa frágil ao futuro.
E pensar que na vida acumulamos tanta coisa,
sobretudo se por hábito não deitamos nada fora.
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Mas ninguém poderá travar a grande máquina.
Diz-se que a viagem conta mais do que o destino.
Perscruto as águas envolventes, em busca de
sombras, enquanto o mar revolto bate no casco.
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[Vítor Nogueira, in Mar Largo, & etc, 2009]

6.7.10

"A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa. Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu único objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma - que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível."
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[Alberto Manguel em entrevista ao Ípsilon, 02-07-2010]

2.7.10

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[Max Ernst, Batraciens, 1921]

30.6.10

"Ainda por cima, na maior parte das noitadas, não se pode conversar porque há tanta música... Há música a mais. É uma coisa que me inquieta na sociedade contemporânea." [...] "Há música nas lojas, nos táxis, por todo o lado! Chego a casa e não consigo ouvir música, mesmo quando quero" [...] "Quero silêncio. Portanto, em casa, deixei de ouvir música. Só oiço a música que os outros querem que eu oiça, o que acho irritante."
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[Jorge Silva Melo em entrevista ao jornal i, 08-05-2010]

24.6.10

& etc por Paulo da Costa Domingos

Texto lido por Paulo da Costa Domingos na apresentação do DVD com o documentário & etc, de Cláudia Clemente, na FNAC Chiado, na passada terça-feira:
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Paulo da Costa Domingos é o meu nome, e os melhores anos da minha juventude, como desertor de uma sociedade que me é antipática, foram vividos, unha com carne, no companheirismo e no universo poético do Vitor Silva Tavares, editor de livros na sua & etc, mas também mentor de uma ética cultural, e ainda, embora parco, também escritor.
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Agradeço à Cláudia Clemente por, ao ter dado pela nossa existência, isso tê-la interessado a ponto de levar a nossa acção poética para dentro da sua obra cinematográfica.
Agradeço ao editor do filme este formato-dvd, confortável na medida em que cada um de nós pode agora levá-lo consigo para casa para vê-lo e revê-lo.Agradeço ainda à FNAC-Chiado a abertura da sua sala de convívio aos admiradores da nossa razão de resistência (por certo, militantes). (Digo militantes, porque, no que toca a & etc, somente militantes de um gosto invulgar poderão tê-la debaixo de olho há já tantos anos.)
Bom, e hoje não estou aqui para fazer mal a ninguém; estou aqui para apresentar a impressão digital do meu companheiro de aventura Vitor Silva Tavares. O mesmo irredutível Vitor Silva Tavares que, desde 1973, veio apresentando-me à fina-flor da comunidade intelectual portuguesa... (não estou a falar daqueles animadores do acordo artístico para serviçais do bom-senso; refiro-me às mulheres e aos homens muito especiais que marcaram como ferro em brasa esta nossa época desleixada e de aborto de uma Revolução prometida, mulheres e homens de cultura que tocaram o coração de leitores avessos, exactamente, ao bom-senso.
Nomes: alguns nomes incontornáveis, e apenas de amigos mortos, porque esses – garantidamente! – já não podem mais asnear ou desiludir-nos: [por ordem de saída de cena] o Pedro Oom, o António José Forte, a Luiza Neto Jorge, o Fernando Ribeiro de Mello, o Virgílio Martinho, o José Cardoso Pires, o João César Monteiro, o Eduardo Guerra Carneiro, o Álvaro Lapa, o Mário Cesariny, o Manuel João Gomes, o Luiz Pacheco, o João Vieira,...)
Nada mais apropriado para apresentar esta aventura, de que também eu fui parte integrante e, reconheço, parte incómoda,... dizia eu: nada mais apropriado do que ler-vos – como se o tivesse escrito, de fresco, há dois minutos – o meu texto «Amarga Disposição», com o qual participei na celebração das duas décadas de existência da & etc (& etc hoje com 37 anos «de morte para amanhã»):
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Foi ontem, há 20 anos, quando aqui cheguei. A um cubículo exíguo na Rua da Mãe d’Água 13-2.º dt.º, que servia de redacção ao quinzenário & etc, e foi para vir a integrar uma escassa equipa de jogadores permanentes então assistidos por inúmeros colaboradores externos. Lista de personagens quase do meu total desconhecimento, que, até à reviravolta dos humores em Abril de 1974, nunca parou de crescer, cumprindo as honras da linguagem da casa e as tarefas rebeldes de uma resistência bem disposta. Alguns deles – entre artistas plásticos, tradutores e os mais – devemos reconhecê-los como nucleares. As suas participações consigo levam o nome.
Nessa altura, poeta designava notavelmente inconfundíveis princípios de vida, sentido próprio contra ventos e marés. Hoje, como é sabido, a estética e os graus académicos ocuparam todos os terrenos baldios, não sobra nesga onde plantar uma couve portuguesa. Lugar às (ditas) “novas” “sensibilidades”!
Há duas décadas, portanto, a identificação dos inimigos do homem-de-rosto-descoberto-e-corpo-inteiro era tão fácil que ninguém, deste lado, declinava o oportuno instante, que se lhe aprazasse, para molhar na sopa. [...]Às vontades que fizeram a revista & etc, entre Janeiro de 1973 e Outubro de 1974, substituiu-se um leque de livros de autor algo estranhos, por comparação com a literatura de salamaleques e cócegas a prémio.
Sendo nós, hoje, cada vez menos, e cada vez mais amarga a disposição, o ideal não esmoreceu: sabotar o gozo de mandões e poderosos, instilar algum fel no reino da estupidez. As maçãs da sabedoria e da revolta colhem-se do chão. Ou mesmo do subsolo. Na Rua da Emenda – actual morada poética somente dos aventureiros que ainda acompanham o Vitor Silva Tavares – desce-se até ao subterrâneo 3 por uma rampa que sobe, e vice-versa.
Eu ligo sempre a & etc ao Vitor Silva Tavares, não por qualquer estigma personalista que pudesse assombrar a editora, mas porque – no sentido culto e cultural de que o Vitor é herdeiro, mestre e transmissor de mensagem – um editor é aquele que faz imprimir a sua marca pessoal, a sua impressão digital, sobre tudo quanto toca. É por isso que, ainda recentemente, à beira da publicação de um livro meu no catálogo da & etc, acatei com júbilo o parecer de primeiro leitor – e leitor também com a autoridade de escritor – que o Vitor sempre foi de todas as obras por ele publicadas.
Trata-se de uma regra que, por mim, faz escola. É de facto regra que eu próprio defendo e promovo, enquanto também editor autónomo de livros... numa terra onde estes industriais do livro, que há agora, nem lêem aquilo que publicam nem jamais entraram dentro de uma tipografia para proceder ao acompanhamento final daquilo que atiram para o mercado, em golfadas de vómito de novidades.
O filme, que agora poderão com tempo visionar, dá, muito acertadamente, a ideia de um grande rega-bofe, que é o nosso dia-a-dia. Essa partilha do gozo permanecerá inalterável até ao nosso fim!... porque fizemos dessa alteridade uma arma de guerra... Afinal, com razão lá dizia o outro: «a cantiga é uma arma».
Todavia, sempre existiu quem não fosse em cantigas, ou porque não gostasse da nossa música, ou porque fossem sisudos... A Igreja, por exemplo, é sisuda. Dos políticos não pode dizer-se o mesmo: destes só pode afirmar-se que são meramente estúpidos... Quero com isto dizer que, para desconforto do nosso natural e legítimo exercício cívico, para insulto da nossa alegria de estar a transformar o mundo e as mentalidades, ciclicamente e em doses calculadas ou o Estado ou a Igreja tentaram cobrir-nos com o seu visco censório.
Durante os anos em que a revista conseguiu existir sitiada pela ditadura do velho Estado Novo, lá íamos nós, de cada vez que era posta em marcha a feitura de mais um número, lá íamos nós, no inapelável cumprimento da lei, com resmas de papéis apaixonantemente escritos obter autorização para os imprimir! E apesar dos cortes, no geral a ignorância dos censores, ou o seu laxismo de funcionários mal-pagos, não lhes permitiam medir forças no terreno culto da mera alusão, ou da metáfora, ou de um dito sarcástico...
Curiosamente, nessa época, que eu testemunhei, já de regime fascista em estado de putrefacção, nunca enviaram sobre nós as polícias. O mesmo não veio a suceder após a tal revolução abortada. Em pleno regime apregoadamente democrático, a 7 de Julho de 1980, por movida queixa da Igreja, o Estado mandou a Polícia Judiciária apreender em sede de editor os possíveis exemplares de um folheto histórico, cujo conteúdo visara... em 1910!, repare-se, um então bispo no exercício das suas maldades. Inteligente, portanto, este assalto à história passada, quando nem o autor do texto nem o visado já tinham língua para terçarem razões.
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Quanto ao filme que agora se encontra disponível para o visionamento doméstico, tanto podem encará-lo como um testemunho da verdade como tê-lo na conta de uma ficção – posso garantir que a Cláudia Clemente soube captar o espírito. E o espírito com o qual levámos por diante as nossas vidas tem sido a nossa mais nobre ficção, que irá desaparecer no esquecimento; são as nossas obras a verdade que vai ficar.
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Paulo da Costa Domingos