11.1.08

Luiz Pacheco: os livros

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Quando morrem os escritores é inevitável, fruto da atenção dada nos meios de comunicação e por um certo sentimento de remorso de pessoas que nunca leram nada do escritor em causa, uma procura acrescida das suas obras. Claro que seria melhor se tivessem prestado a devida atenção em vida, mas mais vale tarde do que nunca.
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No caso de Luiz Pacheco, quem procurar as suas obras está perante um problema: ele publicou dezenas de livros, dispersos por inúmeras editoras (pequenas ou até micro-ediotoras que já não existem em grande parte dos casos), e é dificílimo encontrá-los nas livrarias. Muitas livrarias (a maioria?) não têm uma única obra dele.
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O livro mais fácil de encontrar é o Diário Remendado, já que saiu recentemente (2005) e numa grande editora (a Dom Quixote). A Byblos, por exemplo, embora seja suposto ter tudo o que existe em Portugal, na semana passada só tinha este livro.
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Também o Exercícios de Estilo (a 3ª edição aumentada, da Estampa) se encontra com facilidade. Este é sem dúvida o livro mais adequado para quem se quer iniciar na obra de Luiz Pacheco, já que tem os seus principais textos: Comunidade, Os namorados, O teodolito, O cachecol do artista, entre vários outros, tendo sido ainda acrescentados na 3ª edição O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor, Os amigos. Os bambinos, Porto-Lisboa a pedir esmola e outros. É a obra maior de Luiz Pacheco, absolutamente imperdível.
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Na FNAC do Chiado costuma haver sempre os dois anteriores e por vezes também Cartas ao Léu (Quasi, 2005) ou os dois livros que saíram na Oficina do Livro, Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus (de 2002) e Raio de Luar (de 2003).
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Tirando os livros que já referi, é dificílimo encontrar o que quer que seja, embora nalguns casos não completamente impossível.
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Recentemente reparei que os dois volumes de Textos de Guerrilha (Ler, 1979 e 1981) apareceram baratíssimos em várias livrarias. Reparei neles na Pó dos Livros, quando abriu, na Portugal (na Rua do Carmo) e há pouco tempo naquela livraria do Jardim da Parada, em Campo de Ourique).
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A nova livraria Trama (Rua São Filipe Nery, junto ao Rato), tinha ontem na montra Pacheco versus Cesariny (Estampa, 1974) e Uma Admirável Droga (Quarteto, 2001).
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A Portugal há umas semanas tinha o Cartas na Mesa (Escritor, 1996).
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A Bucholz teve durante muito tempo (não sei se ainda terá) um grande stock daquela colecção que saiu com o Independente, incluindo o Figuras, Figurantes e Figurões (de 2004).
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Muito fácil de encontrar é a excelente tradução (ou versão, como ele preferiu chamar) de A Minha Mulher, de Anton Tchekov (Quasi, 2006).
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Duas livarias que costumam ter muitas coisas de Luiz Pacheco são a Letra Livre (na Calçada do Combro) e a Ler Devagar.
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Quanto a esta última, desde que está no Braço de Prata nunca reparei no que é que tem mas nas anteriores instalações era talvez a melhor livraria de Lisboa para encontrar livros de Luiz Pacheco. A Letra Livre costuma também ter várias coisas. Além dos livros que já referi em outras livrarias, já vi por lá coisas como Textos Malditos (Afrodite, 1977) ou Mano Forte (Alexandria, 2002), entre outros.
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Por fim, restam-nos sempre os alfarrabistas. Só lá é que podemos encontrar as edições da Contraponto ou outras mais ou menos raras, mas aqui é necessária uma boa dose de paciência e por vezes muito dinheiro (algumas edições andam pelas largas centenas de euros!).
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Perante este panorama, torna-se fundamental reeditar convenientemente a obra completa de Luiz Pacheco, ou, caso não seja possível, pelo menos as coisas mais importantes (a Assírio & Alvim parece-me a editora ideal para isso), de forma a que um autor tão importante não comece a cair no esquecimento.

Luiz Pacheco:entrevista ao Sol

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O Sol está a anunciar para a sua edição de amanhã uma entrevista com Luiz Pacheco, concedida em finais de 2007.
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Por uma vez, compremos pois o pasquim do arquitecto Saraiva, o Pacheco merece...

Luiz Pacheco: o tradutor

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]

10.1.08

Luiz Pacheco por Rui Ramos

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O Portugal de Luiz Pacheco
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Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom
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Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que, quando era bom, era muito bom - melhor do que a maior parte dos literatos contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga justifica os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século.
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Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. No que disse e escreveu, estão os traços da colheita literária de 1945: por exemplo, o culto do "amor" e da "sinceridade". Mas está também um drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O'Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o "surrealismo" foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (bem explicada por Eduardo Lourenço). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade.
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Numa literatura colonizada por "antifascistas" e académicos, todos muito respeitáveis, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do "desgraçado" que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o "ismo" necessário para arrumar tudo isso: "neo-abjeccionismo". Nesta lenda do "escritor maldito", cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia algo de defensivo: sem quase nada a perder, pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde conduzir a "guerrilha" que o tornou célebre. O grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado "meio" levava a sério os "grandes autores" do momento. Em público, porém, todos faziam as esperadas genuflexões. Pacheco não. Imprimiu a "má língua", lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um "mercado livre das Letras". Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam.
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Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como "libertino", versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe "graça". A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu.
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Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da "nossa terra". Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o autor só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da Estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e, em lá chegando, fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora na estação, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido "auto", tem uma ideia para "legalizar" o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do autor passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.
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Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não é verdadeiro?
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[Rui Ramos, Público, 9/1/2008]

9.1.08

Luiz Pacheco: o cachecol do artista

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]
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"O texto que eu te vou mandar, tu diz-me francamente se gostas ou não, e faz-lhe uma crítica cerrada, é a melhor maneira de me ajudares. Estou aqui metido num buraco, onde não falo com ninguém, não vou a Lisboa há um mês, quase, e esse isolamento às vezes não é vantajoso, desproporciona e apouca o sentido da auto-crítica.
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A tese é: não há neste momento, que eu saiba, por minha experiência, uma possibilidade de trabalho em criação literária, livre e honesto, que dê para um escritor viver, mesmo modestamente. Não será preferível, em vez de cair na aldrabice, o escritor cair na pedinchice, apresentando de tempos a tempos, obra sua, séria e válida? isto é, conseguir dum mecenato, ou da simples amizade e caridade, aquilo que os patrões lhe negam e o público, como clientela, não compensa? (É o caso do teatro, onde não há actor hoje a trabalhar, com decência, que não seja subsidiado). Daí que o artista precise de um cachecol, O CACHECOL DO ARTISTA… A tese vai em forma humorística; o momento dos números e das memórias reais ainda não chegou. Mas a verdade, entre a ‘solução Mário’ (bolsa da Gulbenkian, destino Frèsnes), a ‘solução Lima’ (muito trabalho, uma grande barafunda, dinheiro – mas obra à espera na gaveta) é que vou tentar um terceiro caminho.”
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[Luiz Pacheco, carta para António José Forte de 7 de Dezembro de 1964, in Mano Forte, Alexandria, 2002]

Luiz Pacheco no Funcionário Cansado

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Até ao Sábado passado, tinha colocado aqui no blog duas entrevistas e dois artigos de Luiz Pacheco. Aqui ficam os links:

- Entrevista ao Correio da Manhã
- Entrevista à K
- O Mito do Café Gelo
- Descobri um Autor (sobre O Que Diz Molero)

Luiz Pacheco nos blogs


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Nos últimos dias houve na blogosfera uma série de reacções à morte de Luiz Pacheco, bem como algumas homenagens e comentários diversos. Entre muitos outros seleccionei os seguintes posts de:

Gostaria ainda de chamar a atenção para este indispensável site dedicado a Luiz Pacheco.

8.1.08

Luiz Pacheco: os amigos

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[Excerto de documentário realizado por António José de Almeida para a RTP2]

Luiz Pacheco por Torcato Sepúlveda

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O último patuleia das letras, conservador e insurrecto
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Abjeccionismo. Pacheco não foi surrealista, mas um clássico que utilizou a libertinagem
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“Eu sou um atraso de vida, porque sou um gajo de 1800 e tal ou 1900. Olha, nunca andei de avião”, declarava Luiz Pacheco, em entrevista a Carlos Quevedo e Rui Zink, para a revista K, de Julho de 1992. Um exercício de auto-análise muito lúcida.
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O mito do Pacheco surrealista não passa disso mesmo, de um mito. O autor de O Teodolito acompanhou os surrealistas portugueses – o surrealismo chegou cá com décadas de atraso – e outros vanguardistas, mas é um clássico: escrevia o português de Camilo Castelo Branco, condimentado com a oralidade da língua portuguesa da segunda metade do século XX. Isto significa que Pacheco é uma espécie de porta aberta que conduz do passado para o presente. Outros houve antes dele: Fialho de Almeida, por exemplo. Fialho foi panfletário, Pacheco também; Fialho foi polemista, Pacheco também; Fialho foi um camiliano apimentado pela Geração de 70, Pacheco foi um camiliano fecundado pelo surrealismo.
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Pacheco nunca escreveu romances porque a sua literatura era de urgência: de matar a fome, de zurzir os bonzos que mandavam nas letras pátrias, de atacar o salazarismo a golpes de impropérios e gargalhadas, não por causa da condenação lavrada por André Breton contra o género. Deixou-se proteger por um guarda-chuva inventado por ele e pelos seus amigos do lisboeta Café Gelo – Mário Cesariny, António José Forte, Virgílio Martinho, Manuel de Lima, etc. – o abjeccionismo. Uma espécie de revolução individual e colectiva, sobretudo individual, que se exprimia no nojo. A ditadura política do salazarismo e a ditadura dos costumes herdada da Inquisição deixaram marcas na obra de todos eles.
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O principal texto do abjeccionismo foi precisamente da autoria de Luiz Pacheco. O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor. E não há narrativa mais portuguesa no seu falhanço: um libertino, o próprio Pacheco, é claro, tenta conquistar, em Braga, uma rapariguita; ele adorava rapariguitas e por causa delas bateu várias vezes com os costados na cadeia. Nada consegue. Tenta a sorte com um magala, numa muito desamparada investida homossexual. Nada. A noite acaba tristemente em masturbação solitária.
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O contraponto de O Libertino… é o belo monólogo Comunidade, elogio da família-clã, da paternidade, da filharada. Porque o autor, defendendo embora o aborto livre, defendia também a procriação. Aspecto esquecido da sua obra é o da sensibilidade para o tempo que passa; leia-se a narrativa A Velha Casa, antologiada em Exercícios de Estilo: “Olhou para onde há pouco havia sol e já não o viu.”
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Com Pacheco morre certo Portugal antigo. Contraditoriamente conservador e insurrecto. Luiz Pacheco foi o último patuleia das letras.
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[Torcato Sepúlveda, DN, 7/1/2008]

7.1.08

Luiz Pacheco: o testemunho de Vítor Silva Tavares

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Requiem para um inimigo
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Pacheco reconcilia-me com a permanência e a necessidade do estilo.
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Como Jarry em Ubu e César Monteiro em João de Deus, desdobrou-se Luiz Pacheco em Pacheco, com artigo definido. E de tal forma, tão vincado à caricatura, que a personagem abafou a um tempo o homem (sem qualidades?) e o escritor, ou escriba de circunstância. A personagem, essa, desenhou-se inconfundível entre gentes (de sobremodo "marginais") e lugares outros da excelência cosmopolita - tugúrios do Bairro Alto, de Massamá, das Caldas, de Setúbal, de Braga e do Limoeiro. Breve, o andarilho, o vadio e pedinte, o ávida-vintes, o linguareiro temível, o pai-chocadeira, o arrebenta, o libertino, o libertário se deu ao diz-se, à lenda, ao muito anedótico. Um pouco como, nos seus tempos, Bocage ou Gomes Leal, que a arraia-miúda sabia serem poetas, vá lá, extravagantes nas suas faltas de preparo e bem assim nos seus públicos infortúnios e verrinas.
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Certo que o pesadelo concentracionário da era salazarista e o cinzentismo da praça literária, esta ao fim e ao cabo conformista e conformada, mais fizeram recortar a iconoclastia do guerrilheiro, extensível, como não podia deixar de ser em Pacheco, às glórias (poucas) e vicissitudes (muitas, e das que vão matando) da sua vida íntima, tão contrária ainda por cima aos bons usos e costumes da hipocrisia social, que ele combateu com fúria e ácido.
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Raros, em Portugal, os escritores que tão fundamente entrosaram vida e literatura. Raros também, por isso mesmo, aqueles que souberam tocar, com tão absoluta veracidade, as cordas mais sensíveis do sentimento humano. Leia-se, releia-se, A Comunidade (ou Os Namorados, exemplos à mão da memória) e eis que, de anedotário faceto como da aura sempre por ele negada de "escritor maldito" (quando o que havia era, e é, "escritores mal escritos"), ressalta então o homem que se despoja, que se desnuda até ao mais fundo da crueldade e do amor. Para exemplo. Nada disto seria de preservar, se não fora a maestria, a cintilância, com que o Luiz Pacheco laborou, elaborou, a língua escrita-oral portuguesa, as "audácias" pessoais nela contidas para maior afirmação e esplendor do seu, afinal, classicismo. Ler o Luiz Pacheco reconcilia-me com a permanência e a necessidade do estilo, tão maltratado este entre as letras funcionárias.
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Do editor que ele foi (sem recursos financeiros, mas com pontaria de conhecedor, a sua Contraponto cumpriu-se como aventura intelectual à revelia de negócios e oportunismos) só uma palavrinha: reconhecimento. Neste ponto, não posso deixar de ter sido seu amigo (por ele conheci Cesariny e Herberto), eu, que lá perdi agora - e como o lamento! - um dos meus mais ferozes e dedicados inimigos. Por admirações mútuas, por ciúmes, por amores, por dissonâncias existenciais.
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Não estou só. Ao perder um tal inimigo, mais desamparadas ficam as ronceiras letras portuguesas que inundam escaparates e supermercados.
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"A crítica - eis a razão da nossa permanência", frase de António Maria Lisboa que o Pacheco chamou sua para a contracapa da Crítica de Circunstância que me honrei de publicar e a PIDE sacou, num ápice.
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Estará, na circunstância, tudo dito, que é nada.
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[Vítor Silva Tavares, Público, 7/1/2008]

Luiz Pacheco nos jornais

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Os jornais de hoje dão algum destaque à morte de Luiz Pacheco, embora não tanto como eu esperava. Podem ser vistos alguns artigos nos sites do Público, DN e Correio da Manhã, para referir os principais.
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Assinale-se em particular os testemunhos de Vítor Silva Tavares (no Público, mas no site não consegui aceder ao texto propriamente dito, situação infelizmente habitual no inacreditável site deste jornal) e de Torcato Sepúlveda (no DN, indisponível on-line), que tentarei deixar aqui no blog assim que me for possível.
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A registar ainda a notícia da reunião em livro das últimas entrevistas de Luiz Pacheco, prometida há algum tempo. A organização é de João Pedro George e sairá ainda este mês na Tinta-da-China com o título O Crocodilo que Voa.

Luiz Pacheco: entrevista ao Jornal de Letras (2005)

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Nos últimos anos Luiz Pacheco deu inúmeras entrevistas que muito ajudaram a celebrizá-lo junto de uma geração mais nova, com pouco contacto com os seus livros (até porque são dificílimos de encontrar). Não esquecendo nunca que a verdadeira grandeza de Luiz Pacheco está nos seus maravilhosos textos, as entrevistas não deixam no entanto de ser interessantíssimas.
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Esta que aqui deixo foi publicada no Jornal de Letras de 31 de Agosto de 2005, a propósito do seu Diário Remendado (Dom Quixote) e o entrevistador foi Rodrigues da Silva:
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UM DIÁRIO INTEIRAMENTE LIVRE
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É um diário sem paralelo na literatura portuguesa porque não foi escrito para ser publicado. Aliás, boa parte dele perdeu-se ou anda perdida, nem Luiz Pacheco, o seu autor, sabe por onde. De qualquer modo, o Diário Remendado, que, com posfácio de João Pedro George, a Dom Quixote vai lançar na primeira semana de Setembro vai de 1 de Novembro de 1971 a 12 de Dezembro de 1975, vivia Pacheco em Massamá. Agora, com 80 anos feitos em Maio, vive num lar de idosos, onde o JL o foi encontrar. Para redescobrir o mesmo Pacheco de sempre. Um homem vertical, que, a despeito da velhice e da decadência física, não é habitado pela menor amargura, antes mantém inalterável o seu proverbial humor mordaz e a sua constante auto-ironia.
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Conheço-o vai para 50 anos, devo-lhe muito (como todos aqueles a quem o Pacheco, em finais de 50, «impingiu» edições quase clandestinas dos primeiros livros do Herberto e do Cesariny, autores em que, salvo ele, nenhum editor apostava), e o Luiz Pacheco está igual. Não, não está. Fez em Maio 80 anos, já não edita livros, já não isto, já não aquilo, nem já bebe, o Pacheco. Mas é o mesmo. O mesmo tipo que, aos 20 anos, optou por um modo de vida e assumiu-o, nunca disso se queixando. Se a liberdade tem como contraponto a responsabilidade, Luiz Pacheco é disso um paradigma. Porque jamais lhe ouvi um lamento. E, sempre mordaz, jamais também o vi invejar fosse quem fosse. Uma tarde desta reencontrei-o num lar de idosos, ali ao Príncipe Real. Ouve mal, vê muito pouco, já não consegue ler, nem escrever, tão-pouco distingue sequer a comida no prato; usa fraldas, habita um quarto despido de quase tudo, está ligado ao mundo por um telemóvel e pela rádio, mas fartámo-nos de rir os dois com as piadas dele, porque o Pacheco continua possuído de um humor e de uma ironia absolutamente invejáveis. Muito do que me disse não é possível publicar-se numa entrevista, mas o que a seguir se poderá ler dá o tom. O tom de um homem que soube aceitar a velhice e (por que não dizê-lo?) a decadência física com essa imensa nobreza que se chama sabedoria. Por isso, quando lhe perguntei pela morte, o Pacheco disse que sim, advertindo, porém: «Não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar».
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Jornal de Letras – Como é que te sentes aos 80 anos, tu que dizias que não passavas dos 40, dos 50, dos 60 e por aí fora?
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Luiz Pacheco – Olha, passei.
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Como é que passas o tempo aqui?
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Aqui!? Tu já foste ali à sala de espera? Nem vás. Aqui não há pessoas. Há moribundos a imitar pessoas. Um gajo não vem para aqui para se curar ou melhorar. Vem… Eu farto-me de rir quando me falam de qualidade de vida. De vida? Aqui! Farto-me de rir. Mas não estou mal. No Natal passado vieram aí uns tipos visitar-me e deram-me um leitor de CD e um rádio. É com isso que me entretenho. E com o telemóvel, que é uma boa coisa. Televisão não vejo, ouço, para não me deixar isolar demasiado.
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Ainda lês?
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Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: «De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim». Afinal não era arroz de pombo, era arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo… Foder não é indispensável. Deixar de ver e de ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.
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Porque só agora sai este Diário Remendado?
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Isso é uma coisa maluca. Sabes, eu não tenho dinheiro para estar aqui. Isto custa mil euros por mês, fora os remédios e as fraldas. E as gorjetas às miúdas, porque sem o apoio delas é difícil. Recebo 120 contos [600 euros] do Ministério da Cultura, mais uns 40 ou 50 contos [200 ou 250 euros] da reforma, mais uns 60 euros da SPA. Depois há umas vendas de livros e outras larachas. Aquela coisa que passou na televisão deu-me 2 mil euros, o Vasco Graça Moura publicou a Comunidade pagou-me 500 euros, o livro do Independente [Figuras, Figurantes e Figurões] também me deu 2 mil – acho eu. O António Mega Ferreira vai publicar não sei o quê meu e também me vai pagar. Olha: é à justa. À justa porque eu não vou à rua. Há dois anos que não saio daqui e há dias em que nem saio do quarto. E aqui não há onde se gaste dinheiro. Na rua é diferente: há sempre um livro, um doce, uma merda qualquer, e lá se vai a massa.
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A família vem-te visitar?
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A família é a família, sabes como é… Os filhos têm a sua vida. O Paulo está em Palmela, o do Montijo pouco cá vem, o Luís José mora em Queluz de Baixo, a minha filha Maria Luísa agora ficou viúva, a Adelina anda por aí na Europa, a Geninha está no Ribatejo e tem um negócio de bolos. E o de França está preso.
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Preso?
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Matou um gajo, um empregado dele, também português. Discussão, estava ali uma faca à mão… Estás a ver. Felizmente foi imigrante contra imigrante. Se tivesse matado um francês estava fodido. Assim safou-se: apanhou 12 anos, sai ao fim de 6, está satisfeitíssimo, estuda imenso na prisão, computadores. É um gajo das Arábias.
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E netos, quantos tens?
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Sei lá, ando lá agora a controlar a gravidez das meninas. Devem ser para aí uma dúzia. A Geninha tem uma filha muito bonita.
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Voltemos ao Diário Remendado. Edita-lo agora…
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Por dinheiro, claro. As pessoas nunca falam em dinheiro, mas é.
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O Diário vai de 1971 a 1975, mas dizes que é a terceira série. Quais são as duas primeiras?
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Eu digo que é a terceira série!? Eu não reli nada do que vai sair. O Diário começou a ser feito a 1 de Janeiro de 1970, no Hospital de Santa Marta. Estava lá internado com uma merda qualquer do coração, depois de uma grande bebedeira que apanhei com o Jorginho, a Rata dos Cabarés; tu não te lembras dele? Apareceram-me lá a Lia Gama, o Lauro António e o Vítor Silva Tavares com 500 exemplares da 1ª edição d’O Libertino [Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor] para eu assinar e numerar, mas levaram-me também um daqueles cadernos pautados, muito grandes, da [Papelaria] Emílio Braga. Foi nesse caderno que comecei a escrever o Diário. Depois, quando saí, continuei em Massamá, para onde, nesse ano, em Setembro, fui morar sozinho.
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Na Rua das Camélias…
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… Número 5, rés-do-chão direito.
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Um dia destes a Junta de Freguesia manda pôr lá uma lápide evocativa da tua passagem, de cinco anos, por Massamá.
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Tas doido. Aquilo era um cóio de vagabundos. Eu morava lá sozinho mas entrava e saía gente todos os dias, malucos, bêbados, marginais. Só lá não foi parar o Beringela e a Mana Gorda, o resto caiu lá tudo: a Elsa, a Odete Calmeirona, a Miss Cacilhas, o Cabeça de Vaca, o Garcia Pereira, o Nhonhó, o Chico Bres, que um dia me pediu para lá dormir uma noite e ficou oito meses, o Sampaio, um rapaz que tinha um restaurante no Parque Mayer e foi preso por vender cocaína (não era cocaína, era farinha), sei lá mais quem. Aquela experiência não se repete. Repara: havia aquela maluqueira toda, mas em cinco anos traduzi livros infantis para a Verbo, escrevi os Exercícios de Estilo, Literatura Comestível e Pacheco versus Cesariny.
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Apesar das bebedeiras…
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Não estava sempre bêbado. Também trabalhava.
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Não bebes desde quando?
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Sei lá. Aqui (estou cá há cinco anos) ao princípio ainda bebia, uma taça de vinho tinto ali na esplanada do jardim. Depois deixei. Em Massamá bebia muito, depois tinha de tomar injecções na veia, uma para os rins, outra com um choque vitamínico. Era bom, fazia bem. Mas a recuperação melhor foi em Celas (Coimbra), já depois da do Hospital Júlio de Matos (no Centro António Flores), onde me foste visitar.
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Todo o Diário é feito em Massamá.
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Sim. Há umas coisas que podem ter sido em Campo de Ourique, mas poucas. Isto deveria ter levado umas notas a explicar quem era este e aquele, mas dava muito trabalho e assim nunca mais saía.
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Mas paraste o Diário em 1975?
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Não. Fui escrevendo sempre até 1999. Agora é que já não vejo.
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Mas onde é que estão esses cadernos de 1975 a 1999?
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Sei lá. É difícil recuperá-los. Uns dei-os, outros vendi-os, outros perdi-os em tabernas, em pensões, o Paulo [o filho] ainda lá tem muita coisa.
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Quem te propôs esta edição?
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Eu já vendi este Diário duas vezes. Esta é a terceira. Uma vez, estava aflito de dinheiro, fui à Moraes, do Nelson de Matos [então director literário da editora], e disse-lhe «Eh pá, não queres publicar isto?» O gajo abriu aquilo ao calhas e deu logo com uma página em que eu falava mal dele, de dois romances muito maus que tinha escrito, e eu chamava-lhe «pajem do Urbano Tavares Rodrigues». Claro que o Nelson disse que não («vai-te embora, meu filho da puta»). Lá se foi a edição. Isto passou-se aí por 1970 ou 1971.
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Não é possível: este Diário começa a 1 de Novembro de 1971.
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Mas eu escrevia muito. O I volume é de 1970 e parte de 1971 e tem uma figura feminina, a Teresa; deves tê-la conhecido, era uma miúda muito bonita. Não te lembras daquela cena com ela no Bairro das Colónias, quando o pai a pôs na rua, toda nua, e a mãe lhe atirou um lençol pela janela.
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Mas essa parte que levaste à Moraes perdeu-se?
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Uma parte deve ter o Paulo, a outra não sei. Depois há um II volume, esse em que falo muito da Teresa. Um dia ela foi a Massamá e eu dei-lho. Falava dela, dei-lho. Ela levou aquilo, passaram-se anos e anos e há meses pedi-lho. Ela disse-me que tinha ardido, num incêndio em casa da mãe. Foi-se. Há pessoas que têm uns cadernos, mas não mos dão.
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E essa parte que vai sair estava onde?
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Vamos primeiro às vendas. Em 1972, por 2 contos, vendi isto e mais uma tradução ao Pedro Antas. O Antas não editou nada e levou tudo para Paredes de Coura. Depois apareceu o Sérgio Guimarães, que me dava umas coroas de vez em quando (500 paus, um conto, assim). Até que um dia me disse: «Essa coisa do Diário é uma grande aldrabice». Respondi-lhe: «Então empresta-me aí dinheiro para eu ir ao Porto a ver se eu não te trago o Diário». Ele emprestou-me mais 500 paus, fui à Foz do Douro onde morava o Antas, ele foi a Paredes de Coura buscar o Diário e eu recambiei-o para o Sérgio. Aquilo ficou nas mãos dele uma série de anos, ele tinha uma editora de coisas pornográficas, mandou bater tudo à maquina mas nunca publicou nada, até que a editora faliu e depois o Sérgio morreu. Consegui reaver a tralha, de modo que fiquei com o original e com a cópia à máquina, que tive de emendar, porque a miúda que dactilografou não percebia a minha letra e engatou aquela merda. Já com aquilo emendado fui à Rolim levar a porra do Diário. O gajo da Rolim deixou-me desgostoso. Disse-me: «Isto requer muito trabalho». Ora um diário não requer trabalho, não é nenhum romance. Voltei com a papelada para casa e desisti da publicação, acabando por dar tudo a uma senhora de Coimbra e não pensei mais no Diário. Só que, já eu estava aqui no lar, surgiu aquela ministra das Finanças, a Manuela Ferreira Leite, a cortar nas despesas todas, e eu pensei «Ai que lá se vão os meus 120 contos do Ministério da Cultura…» Foi então que telefonei para Coimbra e a senhora devolveu-me o Diário. Mas era um calhamaço enorme. Peguei naquilo, e, como já não via para cortar parágrafos, períodos e frases, cortei partes inteiras até reduzi tudo para metade. O Paulo levou à Dom Quixote, que disse que sim e acho que até meteu umas coisas que eu tinha cortado. Tanto faz. Os gajos vão-me pagar 300 euros por mês, é porreiro.
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Tu dizes no Diário uma coisa muito bonita. Chamas-te «um escriba de circunstância» e afirmas-te «um tipo que queria ser escritor mas antes queria ser um homem livre».
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Tu escreveste isto sobre mim?
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Não fui eu, Luiz. Foste tu, no dia 13 de Fevereiro de 1974. E acho que é a tua auto-definição.
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E, é, sim senhor, mas já não me lembrava de ter escrito isso. Este Diário é inteiramente livre, não tem nada a ver com os do Torga ou do Vergílio Ferreira, que escreviam para ser publicados. Isto é diferente: uma espécie de reflexão, de desabafo, de confidência; coisas para mim.
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Como é que aparece o posfácio?
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Ai há um posfácio!? Não sabia.
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É de João Pedro George.
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Esse gajo é uma espécie de índio chupista. Apareceu-me aqui um dia para fazer a minha biografia. Dei-lhe uma porrada de nomes para ele procurar, gravou, gravou, gravou, também coisas minhas, até que eu lhe disse que depois de estar aqui há cinco anos, já não tenho biografia possível. De modo que ele agora quer rentabilizar o esforço que teve a gravar e um espólio importante que tem sobre mim, porque há quem lhe tenha dado muita coisa, cartas, sei lá. O gajo sabe mais de mim do que eu. Mas isso do posfácio também não interessa: a malta lê meia dúzia de páginas do Diário e larga, ninguém chega ao posfácio.
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Ele diz que é «um dos mais autênticos diários da literatura autobiográfica portuguesa»:
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Ele diz isso!?
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Não obstante, considera-o narcisista…
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É natural. Um gajo se está a escrever sobre o que fez ou vai fazer neste dia assim-assim, é, de facto, narcisista. Queres coisas mais narcísicas que os diários do Torga ou do Vergílio Ferreira? O meu deve ter muita parvoíce. Mas ao fim de 30 anos, o Diário já não me diz nada.
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A propósito, no outro dia na televisão disseste que te estavas nas tintas para os jovens de hoje.
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Disse «puta que os pariu».
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É blague. Falas dos teus filhos, de uma neta muito bonita, para que é que dizes essas coisas?
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A primeira vez que disse isso foi para a revista Ler. O gajo massacrou-me horas com a entrevista, eu já estava cansado, às tantas fiz-lhe um manguito, mas ele, no corredor, ainda me veio com essa do futuro. Puta que os pariu.
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Não acredito que penses isso. Aposto que no futuro ainda vais ser lido. Achas que sim?
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Não faço ideia. Os livros caem como se fosse num poço. Há 50 anos que eu tenho essa experiência. Que livros meus venceram o bloqueio?
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Uma série deles. A Comunidade tem 11 edições e deu origem a um espectáculo teatral. O Libertino tem seis edições, os Exercícios de Estilo três, mas há ainda a Crítica de Circunstância e muitos outros textos teus. E, quase todos, para além do mais, são um testemunho fantástico sobre uma época.
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Há coisas que furam, mas lentamente. Daqui a 50 anos pode ser que se fale é de mim como um doido desta época. Mas não estou preocupado com isso.
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Eu sei, mas ficas para a História como um marginal, um escritor ou um editor?
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A edição [editora Contraponto, fundada por Luiz Pacheco em 1950] foi o que fiz de mais positivo. Havia uma barreira difícil de ultrapassar, eu lutei contra essa barreira e venci-a. Era a PIDE, a Censura, toda essa merda, mas também havia os neo-realistas que ocupavam tudo (eu fundei uma editora porque não tinha outra para onde ir). Eles ocupavam tudo e caluniavam imenso. Essa malta não me escapa.
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Não te escapa, mas, como muitos deles, foste parar ao PCP.
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Pois foi. Olha: soube ontem que o meu secretário-geral vai ser candidato a Presidente da República.
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Vais votar?
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Não posso. Perdi o cartão de eleitor quando [nas últimas eleições presidenciais] votei no António Abreu. Estava no Montijo e tinha que ir votar a Palmela, onde estava recenseado. Perguntei quanto era de táxi, pediram-me três ou quatro contos, eu achei muito e não me apeteceu. Mas no lar do Montijo estava uma gaja horrorosa que tinha sido cozinheira do Champalimaud, falei-lhe nisso, ela disse-me «era só o que me faltava: gastar três ou quatro contos para votar». Aí irritei-me e fui mesmo de táxi votar. Mas, na barafunda, perdi lá a porra do cartão. Quando vim para aqui fui à Junta de Freguesia mas ainda estou à espera da 2ª via do cartão para poder votar.
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Em quem?
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No Mário Soares.
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Teu antigo colega da Faculdade de Letras.
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Sim senhor. O gajo aguenta. Os pais e os avós dele chegaram aos 100 anos.
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Tu deves-lhe uns favores, sempre te deu umas massas. Cravaste-lhe 20 paus quando um dia ele ia a sair da PIDE.
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Isso é mentira. O que é verdade é que – era ele Presidente da República – me deu 650 contos. Olha que é muito dinheiro! Deu-me de uma vez 200 contos em cheque, depois 250 contos em 25 notas de 10 contos e por fim mais 200 contos.
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E o Jorge Sampaio?
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Esse nem cheiro. Pior foi o Eanes. Como o David Mourão-Ferreira tinha conseguido um subsídio para o Raul de Carvalho, o Alçada Baptista falou-lhe de mim. E o Eanes respondeu-lhe: «Para quê? Para ir gastar na taberna?». O Soares não perguntou onde é que eu ia gastar a massa.
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Soares é fixe?
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Então não é? Vou votar nele.
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E nas autárquicas?
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Nesses macacos de Lisboa? Sei lá. Espera: vou votar no Ruben de Carvalho. Um gajo aqui perde um bocado as motivações.
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Mas não estás com mau aspecto.
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Eu nunca esperei acabar nisto.
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Nisto, como?
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Eh pá: com criadas, auxiliares, assistência médica. Fazem-me a cama, limpam-me o quarto.
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Não te sentes sozinho?
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Não. Tenho uma memória muito razoável. Já não posso ler, já não posso escrever, de modo que repiso o que vivi. Depois há malta que vem cá e me conta umas coisas de que eu já não me lembrava.
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Não escreves, mas podias ditar para um gravador.
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Eu cheguei a ter um Diário Falado, gravado para as cassetes.
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E onde é que estão essas cassetes?
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Algumas deve-as ter o Paulo. Outras perdi-as nas pensões, nos sanatórios, por aí… Um diário, escrito ou falado, torna-se um vício, uma espécie de dependência. Mas depois também passa.
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Ouve lá: quais os escritores portugueses actuais que pensas que serão lidos daqui a 50 anos?
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Os que vierem nos programas escolares. Achas que os putos agora lêem A Sibila? É uma maravilha aquele livro, mas que miúdos urbanos de hoje é que vão ler aquilo? O Pessoa perdura, de certeza. Não sei se o Saramago e o António Lobo Antunes têm tomates para continuar. Não faço ideia do Herberto. Esse é diferente, é poesia, mas a prosa dele também é muito boa. Mas quem é que lê hoje Os Passos em Volta?
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Muita gente, e jovem.
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Ai é!? O Herberto é muito complexo. Não será o nosso maior poeta, mas é muito bom.
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Pensas na morte?
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Penso, mas não quero que ela me apanhe a dormir. Quero vê-la chegar.

6.1.08

Luiz Pacheco (1925-2008)

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Morreu ontem à noite Luiz Pacheco, um dos grandes nomes da cultura portuguesa do Século XX, sobretudo um magnífico escritor e editor.
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Em jeito de homenagem deixo aqui um dos seus mais brilhantes textos:
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O LIBERTINO PASSEIA POR BRAGA, A IDOLÁTRICA, O SEU ESPLENDOR
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Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):
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AMANHÃ MESMO MORRERÁS!
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Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Geninha jamais esquecida. A Super-Super-Geninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!
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Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur ("O Enjeitadinho"? "O Corcundinha"?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: "Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada". Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar... Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.
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Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.
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Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a "Seara". Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, "da maneira mais arbitrária...", diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!... É para ver se perdem mais depressa, ah!... ah!... (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza - e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!
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Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: "Eu sento-me já aqui", e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultado dão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã... ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos. Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: "Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...". O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!
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Meto a caminho de Somar. Saem-me à estrada duas bezerras, tasquinhando castanhas. Peço-lhes de que comer, mostra-me uma um naco de pão com carne ou presunto. "Que o reparta", digo. Mas elas são duas toiras muito sabidas e não vão às primeiras com o meu ar tedibói pobretana. A de cá, da direita, é um belo pedaço de mulher, coxas reais, pernas, cabelos e cara, bicho para dar trabalho de cu-abaixo-cu-acima a um batalhão. Vão para um baile ou encontro furtivo. Que as fodam! Dou-me todo a pensar na minha Deolinda e aperto a bolota-talismã. Chego ao local onde a vira primeiro, de manhã, com uma casa afidalgada na curva da estrada e a azinhaga que enviesga para os campos, à direita. Farei referência pela igreja, já que o lugar de Assento é vizinho e depois bisbilhotarei pelos campos, usando o meu faro atiradiço. Onde estará agora a casta diva? Lá se vê a capela, e pergunto a quatro moçoilas onde é o lugar de Assento, "que é por ali", respondem, "então sigam à minha frente que é para eu as ver melhor" , digo, a fingir de domador de potras vadias. Estas são mais novas que as duas de há bocado na estrada, aí entre os 15 ou os 18, mulherzinhas já, mas não fazem concorrência à Deolinda, ah! não, p.q. as pariu! Vão numa grande galhofa, e eu rio-me cá atrás, para saberem que lhes estou interessado nas falas. A que vai do meu lado, à esquerda da azinhaga, é uma loira espigadota, bonitota, provocante; é a que mais vezes se volta e encaro-a com o meu olhar mágico de duzentas megatoneladas e um riso de dizer (e o pior era o bafo, a mosto...) "anda cá, rapariga, estou cheio de tesão por ti, pois não vês?". Vamos neste jogo modesto até ao lugar de Assento e eu já arranjei pretexto para andar por ali, com o meu traje um tanto invulgar: blusão de nylon preto, calças rotas no rabo, sapatos rotíssimos nas solas e sujos de poeira por cima, uma coisa entre o tedibói e o vagabundo, com a pêndula a dar neste quando melhor se reparasse que blusão, calças e sapatos, novos ou rotos, velhos ou rebrilhantes, não iam com o meu corpo por medida senão por força de hábito e contrariados. O pretexto é: que me disseram que a capela ou igreja é muito, muito antiga e tem muito que ver; faço-me de Raul Proença ou Torga, a coscuvilhar raridades perdidas na Província, preocupado com velharias e ossos, quando o que quero são caras e bocas e olhos e risos. E mãos e pernas. Tudo, etc., de mulheres. Dou com a capela aberta: fazem um baptizado. O padre tem cara de cabra doente. Puta que o pariu mais ao pai da criança (que, depois, vim a sabê-lo, está em Angola-é-Nossa. Boa ocasião de conhecer melhor a mãe do neófito, para compensá-la do patriotismo do marido). As raparigas sentaram-se numa pedra e faço o mesmo, mesmo ao pé delas. Então entro em palestra, que toma logo um caminho picante: se a igreja é muito antiga, se elas são solteiras, se moram por ali, se há na casa da loirita um quarto a mais ou uma cama (abespinha-se: "isso num chei!") e mais isto e aquilo. Não dão muito pela minha curiosidade arqueológica e não sabem bem a qual delas me atiro ou que faço ali. Duas saem aos saltos, à outra peço-lhe tremoços que mos atira, caem no chão, pede desculpa, dá-me mais na mãozinha, pergunto se não há vinho para os forasteiros. Estou nisto e sai da porta, mesmo ao pé da igreja, a Lindita, a minha Lolita, a Super-Geninha. A bolota-talismã não me desenganou. Sai a correr, leva um cântaro e desaparece numa azinhaga. (A esta maravilha perco-a sempre por azinhagas). Estou em ir ou não ir atrás dela, mas disfarço o jogo, por causa das quatro sabichonas e também porque ela, tendo-me visto, não deu mostras de me reconhecer. O que me parece pouco natural, dado o meu blusão negro, característico, os óculos, a cara espantada, as calças todas amachucadas. Vira-me ainda não há umas 5 horas. Falara com ela duas vezes. Rondara-a com os olhos. Mas talvez não desse à minha ida ali qualquer significado especial, talvez não me topasse por eu estar a pôr-lhe os cornos com as outras, qualquer delas me servia para abrir o meu apetite da Super-Geninha, se isso fosse preciso. Mas o foder dá a vontade do foder (mais). Reparou em mim? não reparou? Daí a nada voltava a correr, sem o cântaro, e olhou-me como da primeira vez e eu olhei-a, com naturalidade. As quatro sabichonas não deram por nada. Entretanto, tinham-se ido sentar mais adiante e eu dei-lhes sopa, porque não aturo más-criações (mesmo fingidas e provocadoras) e agora que já vira a Super-Lolita-Super-Geninha não me calhava estar a namorar com elas. Vou-me para a capela, na minha nova pele de arqueólogo amador, neo-Proença. Surge o sacristão, que olhou para a blusa nova e não reparou nas calças esfiampadas, rotas e cosidas no cu. Óptimo. Falo para o futuro (dele): que quero tirar umas fotos àquela igreja tão antiga (muito, muito, diz-me o tipo a impingir-me a mercadoria), vejo uns baixos-relevos muito antigos (?) e muito toscos também, entro na capela, bisbilhoto tudo. O baptizo já acabou, e estão agora todos cá fora a conversar. Falo ao tipo na minha reportagem, em fotos - ele aí atrapalhou-me porque está um tipo precisamente cá fora a tirar fotografias ao bebé ranhoso e ao padre cara-de-cabra-doente, mas digo que a minha máquina é melhor, é minha. (Não tenho máquina nenhuma). O tipo concorda, está à espera duma gorja bestial mas eu lanço-o no caminho das grandes esperanças (no futuro). Falo da Fundação Gulbenkian, de milhões, de petróleo. Sou agora repórter da Fundação, faço de Santana Dionísio. Logo a seguir tomo nota do nome e morada do cavalheiro a aprazar vinda próxima, pois é nesta terra que me sinto bem. Entretanto, catrapisco ao longe a Super, que está numa bela pose inclinada a ver o grupo a tirar poses e mais poses para mandar ao pai da criança. Se a pudesse engatar! Vou atrás daquelas bestas, sempre metendo fantasias na pinha do sacristão, que é um espertalhão-estúpido, típico maloio de Braga. E vou-me. Marcho para Braga, está a fazer-se tarde e faz frio. Gasto a última coroa para a caixinha da rapariguita que me guardou a bagagem. Visto o casaco e vou ao ataque da Pensão Oliveira, onde há que fazer meter na pinha do hospedeiro que sou um velho e fiel cliente da casa. Havia nesta pensão duas velhotas Antigo Regime, uma sala de cortinados com um piano e duas maganas que tinham (uma delas) bigodaça loira. Tá tudo mudado: bar americano, tasco infame, forno de assar frangos. "As velhas morreram, para dar lugar à gente, antão?!", diz-me a filha do dono. Este leva-me ao meu antigo quarto no 2º andar, pergunto pelo piano, ainda lá está porque não há quem o queira. E na antiga cozinha é agora um quarto para noivos ou casais que façam muito uso de água, porque tem chuveiro e bidé sanitas anexo. Um regalo para encontros furtivos. Aqui a luxúria envolveu-se no campo perigoso da política, ah! ah! Bebo mais um copo, que me dá uma grande volta às tripas. Tenho de ir para o jardim passear, com vómitos embrulhados na língua. Aguento. Jantar. Dois moços de fidalgas famílias ou de massa? são estúpidos mas gulosos de mulheres. Meto conversa. Pergunto como é isto aqui de putas em Braga. Faço-lhes um sinalzinho com o dedo indicador em curva para virem até à minha mesa e levo o assunto para o minete, reforçado depois com o biminete. Dizem que há aqui o 28, que tem uma (pelo menos) gaja boa. Pergunto se já fizeram ou viram fazer minete. Explico-lhes o biminete. Pretendo com isto uma bacanal a cinco, que eles pagariam para me ver e foder as miúdas. Ficaram chocados com a minha declaração de que o foder já não se usa, cansa muito e eu tenho tesão, mas não fodo. São eles que terão de foder as mulheres. Não percebo bem se estão espantados, irritados ou entusiasmados. Querem ir ao 28 mas digo que depois de jantar, nada. Mais tarde. Eles então vão para o cinema e eu fico de ir esperá-Ios à porta. Saem jurando vingança! Cravo um maço de Paris ao balcão e fósforos. E perco-me pouco depois a explicar a um melro que o Totobola não prejudica isto da lotaria porque o lucro vai para a mesmíssima sereníssima beatíssima Misericórdia. Depois aparece um velho ginja que é monárquico, um tipo assanhado com um olho com um grande penso branco e um cabo ou sargento (não entendo de divisas) que vai para Angola e diz que um rei alemão, que nem sabe falar português, não lhe serve. Grande barafunda, berraria, copos, risadas. Eu vou de grupo a grupo, dou razão ao que está mais perto, digo ao sargento que o ginja pode ser um agente da Pide e provocador, o do olho entrapado diz que ele é um caixeirote, que nem fidalgo é, etc. O sargento diz que ele é que é da Pide, que pode até mostrar o cartão, que o monárquico é um mentiroso. Nessa altura levo os dois republicanos ao meu quarto (o monárquico acabara de revelar a sua isenção cívica, declarando que tirava o chapéu à bandeira verde-vermelha, porque era a bandeira da Pátria, a Nação em forma de trapo, e que isso da bandeira azul-e-branca era uma história). Percebo que é um monárquico convicto, mas desiludido: está-se cagando para o D. Duarte Nuno, e diz apenas que há-de morrer assim, já que sempre foi monárquico.
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No meu quarto dou ao sorja o Depoimento duma Angolana. Ele começa a ler em voz alta. Lê bem, mesmo as gralhas. O tipo do olho branco começa a ficar branco pró resto da cara. Abre a porta o dono da pensão (diz) porque viu luz. Suporia panascaria? Fecho a porta, à chave, depois de o ter tranquilizado que era tudo gente de bem. Discussão atrapalhada ou trapalhona sobre Angola-é-Nossa, pretos maus e brancos bons e vice-versa, com o sorja. O do olho tapado diz que tem gente à espera e desaparece. A discussão com o sorja nunca se azeda: ele diz que sempre é bom um tipo estar informado, eu digo-lhe que ele me pode prender ou mandar prender, mas que é o meu dever (tirada de editor patriota), ele tem medo de deixar as impressões digitais no papel, eu digo-lhe que a autora (branca, note, branca, e filha de brancos e casada com um branco) já foi chamada à Pide, ele suporá agora que sou eu da Pide, estamos os dois bêbados e taralhoucos, acaba por jurar que pode morrer mas aquilo é nosso e foi nosso, sim, que há uma razão para se defender, e que pensa que há-de ter a sorte de matar ao menos um preto antes de o matarem a ele, e pira-se, clamando mortes e glórias. É um doido.
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Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma miúda ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um marçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.
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Até aqui, tudo muito bragal. Mas está-me a apetecer agora abjecção; saí da porta do cinema chateado com a demora dos rapazinhos, até porque não sabia se teriam ido ao Teatro Circo se ao Geraldo, onde também havia sessão. E aconteceu então o inesperado: tudo aliás muito naturalmente encadeado.
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Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do Mundo! Venho diante do café das Arcadas e de repente noto a meu lado um magala, de passo a par do meu. Olho-o uma vez e ele olha-me; olho-o segunda vez e ele volta a encarar comigo. Silêncio. Puxo do tabaco e ofereço-lhe: ele pára, pega no cigarro, dou-lhe lume, acende o meu, seguimos lado a lado. Entabula-se a conversa: trato-o logo por tu, mas sem superioridade, singelamente, como um velho camarada. Tem bom tipo: cara magra, olhar triste, rosto varonil e um pouco fatigado. Não é bonito, mas também não é boçal nem repelente. Magro de corpo, altura média. Um tipo calmo. Sei-Ihe a história num quarteirão de casas. Não é daqui, mas de Vila Franca de Xira ou perto, tem família em Lisboa, tios e tias, está danado de estar aqui (há dois meses), já emagreceu, por causa da comida; e mulheres, nada ou quase nada, não se safa: o tal 28 é a trinta paus cada virada, onde terá ele massa para isso com o pré da tropa (uns tostões, coisa que nem chega a 5 coroas). Segue amanhã às 3 para Lisboa, vai levado para a Amadora (?) fazer um treino e lá para o fim do ano, ala para Angola-é-Nossa. Parece que é mecânico ou coisa assim. A meio do cigarro apaga-o, para guardar a beata para o dia seguinte. Desconvenço-o. Acendo-lha outra vez e dou-lhe mais dois cigarros, que ele guarda um pouco avidamente na bolsa. Vamos conversando como dois velhos amigos, de repente eu olho-o muito a direito na cara, admiro-lhe o rosto. Ele já deve estar convencido que eu sou um paneleiro rico e tem a noite safa. Mas a conversa mantém-se sempre num plano de grande dignidade: malvadez da comida nos quartéis, carestia das putas, política no Ultramar (restos da minha discussão com o sargento), guerra em Angola-é-Nossa. Não é um herói, tudo isso o entristece muito, mas sem emoção. Lamenta-se mas não choraminga. A nossa conversa tem por vezes longos silêncios de metros. Vamos agora na estrada que conduz ao quartel: é aquelas duas luzes lá ao fundo; digo que sei mas não distingo senão manchas esborradas de luz, que podem ser os candeeiros da estrada. Passam por nós, em andar cadenciado de marcha, um rancho de taratas, à pressa de chegarem ao quartel antes da meia-noite. Olham o par arrebenta mas não têm uma palavra. Dum primeiro andar umas raparigolas dão uns risinhos e dizem uns dichotes.
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- Estão a meter-se comigo - diz o meu companheiro cheio de calma. Voltamos a ficar sós na estrada. Parece-me que já consigo agora distinguir as tais duas luzes do quartel. Devo-lhe uma explicação.
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- Gostas de broche? - pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural.
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- An, nem por isso - responde sempre calmo.
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- Pois é só o que eu te posso fazer - digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian.
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- E quanto me dá? - pergunta desagradável feita em tom meramente comercial.
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- Olha, não te posso dar nada - diz o falso Calouste - dava-te se tivesse, mas estou tesíssimo, não tenho um tostão, já o tabaco foi fiado na pensão, só amanhã é que recebo um vale de Lisboa, amanhã às duas e meia.
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- 'tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde a sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.
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- Se tivesse dava-te, já te disse.
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Acreditou? não acreditou? O meu blusão rico de nylon, a minha barba mal feita, toda a nossa conversa, deram-lhe algum entendimento de mim?
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- Ao menos, qualquer coisa para um maço de tabaco.
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- Já te disse que não tenho um tostão Mas se queres tabaco, vens comigo à pensão e eu cravo lá um maço e bebes um copo ou uma cerveja. É fiado.
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Paramos os dois na estrada. Aí - tenho a certeza - um pouco de insistência minha, qualquer promessa, fariam voltá-lo para trás. Mas não fiz nada disso; devo ter-lhe parecido um velho forreta, gabiru em chupar caralhos de borla. Resistiu.
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- Só por isso não vale a pena, não interessa.
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- Tens pouco tempo, não é?
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- Não, posso recolher até à uma e mesmo ficar a noite fora. Mas não vale a pena - diz o ribatejano - é longe...
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- Não sei - digo eu, quase no mesmo jogo, muito diplomata.
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Voltamos a caminhar lado a lado. Calados.
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- Vou ali fazer uma mija - diz o gajo.
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- Vê lá se te vêem. Aqui há casas.
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- Não faz mal, há aqui um sítio.
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Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.
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- É pena não ter dinheiro, aqui era um bom sítio.
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- O senhor tem, há bocado disse que tinha - diz o franjolas a mijar à minha frente (e nem para a picha lhe olhei).
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- Não tenho, já te disse que não tenho um tostão.
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Sacudiu a gaita, voltámos à estrada.
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- Ao menos, podia-me dar esse maço que tem aí...
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- Toma.
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E dou-lho, puxando um cigarro:
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-Tiro este para mim.
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Andamos, paramos. Estudamo-nos?
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- Se quiseres aparecer, estou na Pensão Oliveira.
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- Onde é que é isso?
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- Ali ao pé da Polícia de Trânsito, no Campo da Vinha, mesmo defronte.
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- Ao pé do posto da Polícia?
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- Sim.
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- Então ficamos assim: amanhã das nove às nove e meia estou lá, perto do posto da Polícia.
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-Tá bem.
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Dou-lhe um aperto de mão.
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- Como te chamas?
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- António.
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- E eu Luiz.
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- Até amanhã, então.
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- Até amanhã.
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Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a Pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?
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Pergunto:
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- Que tal esse cinema?
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- Não foi mau - respondeu com ar de zangado.
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Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água de Castelo? Fumo? Peço mais fiados? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense.
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Quando andava a passear à tarde fui ao Campo da Vinha. 3 autocarros da Viação Courense (? Paredes de Coura ?). Farejei minhotas. Dentro, maioria de velhas e velhos, gente cansada, garotos com sono. Duas ou três mulheres cantam, um velhadas bate palmas a compasso. O problema estava em que duas das viandantes tinham cá os namorados e andam à solta. A chefa da excursão está arreliada e diz-lhe um home:
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- Nós agora tínhamos o direito dirmos embora e deixá-las acá.
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Mas a chefa tem as suas responsabilidades. Eu giro à roda daquelas caixas de gente envidraçada, olho uns, olho outros cá debaixo. Elas cantam. Há uma mulheraça à janela, que quer entusiasmar a malta. Canta. Parece a minha Rosinha (Rosa da Costa Vaz, de Viana, Santa Marta de Portuzelo ), mais velha, mais fodida. Canta bem. Eu acabo por ficar fixado na janela dela. Olho debaixo. Não me apetece como mulher fito-a como fantasma. E eu próprio sou um fantasma do que era há cinco anos ou seis quando aqui estive com a Rosinha - Rosa da Costa Vaz que foste, minha mulher (que não foi) minhota. Como eu a amei! Chegam as transviadas. Vêm refilonas, suadas, queriam mais foda. Barafustam com a chefa, a chefa barafusta com elas. Os carros começam a andar. Eu estou especado outra vez debaixo da janela da mulheraça (Rosinha, Rosinha, onde estarás?).
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E esta que fingiu nunca dar por mim, quando o carro arranca e me deixa esquecido, diz:
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- Adeus, meu senhor.
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Como quem diz: estavas aí e me viste e me desejaste, e quiseste o meu cono, e fui tua. Nunca mais me verás, fantasma de blusão negro e óculos grossos cara aparvalhada, fica-te, tarrenego!, sei lá quem tu és - não sou para ti.
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E eu que era para ela. Outra qualquer. Dentro e fora da memória, fantasma para fantasmas.
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Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 6 ou 5 horas, há um grupo na Pensão que se está a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo. Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.
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Como a Natureza previu todas as nossas fraquezas e ausências, dotou-nos também com outro caralho para o cu detrás. Meto o dedo (médio?) todo no cu, bato a punheta. E a ejaculação, forte porque há dias que estou sem deitar nada cá para fora, dá-me contracções no esfincter. Gozozíssimas. Venho-me imenso. Estou cada vez mais excitado. Cada passo na escada parece julgo que é o António que vem e me penetra e me obriga a chupar-lhe o delicioso caralho que não vi. Escândalo. Tribunal Militar. Vergonha. Filhos a saberem tudo. Loucura. Suicídio. Tomo meio Calmax. A pouco e pouco a corda vai-se aligeirando, estou melhor. Mas que vontade de ter pecado. De pecar. Como assim: de viver.
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Descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cima, o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridão, loucura. Mas o que toma tudo igual é que ambas as cadeias se encontram, nada a fazer, meus caros, daqui a cem anos ninguém se lembra.
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E a nossa lição-abjecção a quem aproveitará?
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Já tanto faz.
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Tanto nos faz.
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Braga, 16 ou 17 de Outubro, 1961.
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(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?
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(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.
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(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!

3.1.08

"Hesito em tudo, muitas vezes sem saber porquê. Que de vezes busco, como linha recta que me é própria, concebendo-a mentalmente como a linha recta ideal, a distância menos curta entre dois pontos. Nunca tive a arte de estar vivo activamente. Errei sempre os gestos que ninguém erra; o que os outros nasceram para fazer, esforcei-me sempre para não deixar de fazer. Desejei sempre conseguir o que os outros conseguem quase sem o desejar. Entre mim e a vida houve sempre vidros foscos: não soube deles pela vista, nem pelo tacto; nem a vivi essa vida ou esse plano, fui o devaneio do que quis ser, o meu sonho começou na minha vontade, o meu propósito foi sempre a primeira ficção do que nunca fui."
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[Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 1998]