11.7.07

A Lisboa de Clara Ferreira Alves

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LISBOA OU O AMOR FALHADO
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A minha história com Lisboa é uma história de amor que acaba mal. Começou bem, acaba mal.
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A minha primeira casa em Lisboa era uma casa em frente ao Jardim Zoológico, para as bandas de Sete Rios. Um pequeno apartamento que herdei de um amigo e onde instalei a minha primeira casa da idade adulta, que é uma casa que, compreensivelmente, nos enche de felicidade. Embora Sete Rios seja já uma zona de princípio do fim, uma zona onde a cidade deserta interliga com a cidade dormitório e onde, ao fim da tarde e à hora de ponta, se sente o cheiro a periferia urbana misturado com o gasóleo queimado e a gasolina dos transportes públicos, se sentem a urgência e a pressa de chegar ao destino da gente cansada e olhar parado. Do meu minúsculo T1 a caminhar para T0, via por cima dos muros altos as florestas exóticas do Jardim, soprava com o vento um cheiro a animais de África, e ouvia com melancolia, pela manhã dentro, o elefante a tocar com a tromba a sua campainha. Ao longe, apurando a vista, quase se viam os leões a navegar e se pressentia o riso nocturno das hienas. Afeiçoei-me ao lugar, que tinha uma vida de bairro, com a mercearia, a farmácia e a tabacaria, isto antes de desembarcarem o stand de automóveis, a casa de pronto-a-vestir e, um pouco mais à frente, os condomínios de luxo com nomes vistosos em inglês, Atlantic Park, Atlantic Mansions, Atlantic Gardens, Atlantic não sei que mais.
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Os das empresas imobiliárias iam deixando brochuras lustrosas e caras nas caixas do correio, com um aroma a papel fino, a assegurar que com uns bons milhares de contos a mais eu podia ter uma vida traduzida em língua inglesa, com porteiros, seguranças, vigilantes, recolhas de lixo automática, garagem, televisão nos quartos todos, telefone nas casas de banho todas. E eu que pensava com ingenuidade que quando se têm cem mil contos para dar por um apartamento em Sete Rios, já se atingiu um nível de sofisticação tal que não se quer viver em Sete Rios. Enfim, eu tinha a nostalgia da Lapa e dos palácios arruinados, dos bairros residenciais antigos com árvores nas ruas e com casas de dez assoalhadas, dos lugares de Lisboa onde se podia viver com cem mil contos e olhar o Tejo das janelas. Sete Rios era um arremedo, um subúrbio urbano, era para os tesos como eu. Enganara-me. Lisboa começava a ficar tão cara que Sete Rios se tornava uma pequena Manhattan à escala. A Lisboa dos condomínios fechados, essa cidade aprisionada dentro da cidade, chegava-me à porta.
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Mudei-me. A primeira casa era pequena e cara, eu tinha muitos livros e pouco dinheiro. Arranjei, ou devia dizer arranjaram-me, uma casa ali para as bandas de São Bento, em pleno ghetto, ao dobrar da esquina da Rua das Gaivotas. Instalara-me na Lisboa do coração, das casas esfoladas, dos gatos vadios, das vielas, das lojas de indianos e negros, dos electrodomésticos a prestações, dos prestamistas, da coscuvilhice das vizinhas. Tendo desde sempre alimentado um amor insensato pela Calçada do Combro, desatei a subir todos os dias a Rua do Poço dos Negros em direcção ao Largo Camões. Escaldada do ruído de carros de Sete Rios, aquela Lisboa popular sabia-me bem, e apreciava-lhe o traçado vesgo das ruas, as pedras de basalto onde se enterravam os saltos, os muros derrubados com a buganvília a florir, os empregados do comércio à hora do almoço, as tascas com cherne nas montras e as leitarias com bolos de véspera. Como diria o Alexandre O’Neill: sigamos o cherne. Eu segui.
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O que eu gostava daquele bairro, cheio de cabo-verdianos, uma gente que toda a gente dizia ameaçadora e que eu achava dócil e prestável. Tinha por essa época uns vizinhos brancos, galegos, medonhos, que batiam na mãe e que eram o exemplo de toda a virtude manchada das raças superiores. Eram uns monstros. Os negros, pelo contrário, enchiam as ruas de música e bebedeira e gingavam como se estivessem nos trópicos. Tal como no Zoológico, eu vivia em Lisboa como numa ilha salpicada de exotismo e estranheza, de viagens e distância.
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Um dia, estando o prédio arruinado, como todos os do bairro, e achando que estava farta das baratas e da vizinhança de uma ratazana a que a galega chamava, rebolando os olhos, um leirão, pisguei-me. Arranjei uma casa mais à frente, na Rua da Boavista, para a qual tinha de galgar o equivalente a seis andares de pedra se queria entrar em casa. Passado o beco e o esforço da subida, as janelas tinham uma vista por cima dos telhados e dos jardins até à outra margem do rio. Era uma casa misteriosa, que ficava ao nível de Santa Catarina, e que parecia um anexo desnorteado de um edifício apalaçado. Tinha dois portões, e tinha um terraço onde eu me imaginava ao entardecer a beber gin tónico e a contemplar os crepúsculos.
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E tinha um rio ao abrir e fechar das mãos, e via, sentada na minha sala, os cacilheiros a atravessar o Tejo como pássaros silenciosos rumo ao sul. A casa era maluca mas, eu amava-a com desespero, e dei por mim a amar Lisboa da mesma maneira. Levantava-me de madrugada e nas horas cor de violeta deslizava até ao Cais do Sodré a perseguir o fantasma de Pessoa pela pedra do Cais das Colunas. Comprava flores no mercado da Ribeira e entabulava conversas com as varinas negras, varinas de Luanda, com a pele suada mesmo no pino do Inverno, e os pés muito largos plantados como árvores neste canto da Europa que acolhera a sua miséria sem reparar. As varinas tinham regressado com as caravelas.
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O Tejo, benefício brutal que a natureza nos concedeu e que mal soubemos aproveitar, tem um esplendor que varia consoante as estações do ano. Liso e manso e azul ou verde de Verão, cinzento e metálico e atiçado no Inverno, quase sempre caprichoso e perigoso. O Tejo tinha suicidas, e pescadores, e velas rasgadas, e um cheiro a maresia. Fiquei a conhecer toda a zona com o escrúpulo de um explorador em busca dos restos do Oriente. A Rua do Arsenal, os secos e molhados, o Largo de São Paulo, o Corpo Santo, os bares mal afamados acotovelados pelas igrejas virtuosas, os restaurantes da tradição, as lojas de trezentos e quinquilharia chinesa, os despachantes da Alfândega. Os bares do José Cardoso Pires, o British e o Americano, onde nos encontrávamos às vezes para pôr a conversa em dia e ele me passar a memória daquela Lisboa de luz e de tempo, com anedotas pícaras e restos de fado. O Zé amava Lisboa, não apenas aquela, toda ela, da Graça à Mouraria, dos Olivais a Benfica, do Areeiro ao Terreiro do Paço.
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Um dia, Lisboa começou a arder. No Chiado, lembro-me de ter tido vontade de chorar, com medo que o fogo devorasse a cidade onde eu me habituara a sonhar um livro que andava a escrever e que metia Pessoa e Camões, projecto que abandonei e ao qual regressarei. No entretanto, eu esperava um filho, e os seis andares da escadaria mais o beco mal iluminado pareciam-me intransitáveis a pé e com um bebé.
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Mudei-me. Como sou conservadora, voltei, pasme-se, para Sete Rios, precisamente para uma dessas torres com tudo incorporado, elevadores, garagens, lavagens, esplendores. Era uma torre das mais modestas, a primeira torre do Taveira em Lisboa, diziam-me, coisa que não me fazia sentir lá muito bem. Era branca, apesar de tudo, e discreta. E prática. Estava rodeada de PP’s e PSD’s conhecidos, que por esse tempo governavam Portugal e possuíam a notoriedade dos políticos “du jour”. Estava rodeada de tipos da Universidade Católica, paredes meias. E das janelas avistava os condomínios fechados e atlânticos, todos voltados para as auto-estradas e de costas voltadas para o rio, e avistava a sombra pesarosa do Hospital de Santa Maria e do Hotel Penta, mamarracho sem história nem nome. Tinha ainda direito a um pedaço de Monsanto e da Ponte 25 de Abril, onde despontava a manhã.
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Então, começaram a surgir as estradas, os ramais, os criles e creles e ipês, e o diabo a sete, e Lisboa chegava a Sete Rios entrelaçada de fitas de asfalto, laços e ramalhetes de vias e carros em bicha, buzinas, confusões com direcção apontada em letreiros. Parecia que estava a viver nos arrabaldes de Los Angeles. Deprimida, fugi da torre a sete pés, tentando escapar para perto do Jardim das Amoreiras; que me parecia o que de mais parecido havia com um jardim inglês, a ordem e a beleza do “square”. Tinha saudades de Londres na terra do sol. Pelas Amoreiras me tenho mantido, assustada de mudanças, embora já vá na segunda casa no dito bairro.
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Como muitos habitantes de Lisboa, não tenho dinheiro para morar na Lapa nem tenho dinheiro para sustentar o preço da especulação imobiliária da cidade, que faz dela uma das mais caras da Europa. O pior não é isto. O pior é que me desinteressei de Lisboa primeiro, e quase passei a odiá-la, depois. Já não passeio a pé em Lisboa, porque os carros são tantos que corro o risco do atropelamento ou da intoxicação com dióxido de carbono. Ou será monóxido? Não interessa, respiramos fumo de escape. Ao fim da tarde, o bairro onde moro tapa os ouvidos por causa da sinfonia cacofónica de buzinas e motores a arrancar na grande marcha em direcção à auto-estrada. Durante o dia, alarmes de carros tocam desvairados, e o trânsito nunca pára o seu resfolegar de animal selvagem e enfurecido. O bairro perde a pouco e pouco a vida de bairro, os arrendamentos comerciais substituem os de habitação, não há onde estacionar, o pavimento tem buracos das chuvas e os preços aumentam por causa da fidalguia dos escritórios. Os escritórios andam povoados por meninos e meninas de fato completo de risca e saia-casacos pregueados, camisas e gravatas que discutem com avidez saldos e percentagens por entre duas trincadelas ao almoço, e cujos patrões, ou os serviçais deles, despejam na rua toneladas de lixo de papel que fica a voar todo o dia e ao fim-de-semana. Os caixotões da reciclagem, a transbordar, nunca são despejados, e parecem vir de um Terceiro Mundo a lembrar ao Primeiro que a Câmara tem mais que fazer. A sujidade da rua onde moro só diminui com a limpeza oficial das bátegas do Inverno, e amontoa-se no Verão, deixando no ar um odor a pó e fruta podre. Resiste o Jardim das Amoreiras, belo, sapiente, que os velhos e as crianças frequentam com medo de atravessar as ruas para lá chegar. Os carros, dentro e fora, acima e abaixo, ignoram-nos e quase os atropelam, e vejo muitas vezes no olho esgazeado do ancião, o terror de não conseguir chegar ao outro lado. As passadeiras têm carros em cima, os passeios têm carros em cima e as pessoas têm carros em cima. Nunca consigo escutar o som do silêncio. E já não vejo o rio, cada vez mais caro. Como dizem os agentes imobiliários: com vista de rio são mais dez mil contos.
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Lisboa pertence, agora, a duas espécies de gente: os turistas e os suburbanos. Para os turistas, raça mais alegre, Lisboa alinda-se, constrói elevadores, ergue hotéis e patamares, pinta a cara de fresco. Para os suburbanos, raça mais tristonha, Lisboa constrói parques de estacionamento e centros comerciais. A cidade, esventrada e desfigurada, destruída e voltada do avesso, abre-se para acolher os carros, sempre mais carros, para as pessoas poderem andar pelo “centro histórico” como quem anda dentro de um centro comercial. O Camões, o Terreiro do Paço, a Praça da Figueira, o Rossio das minhas deambulações de outrora, perdem-se entre tapumes, canos à mostra, pedregulhos e desalinho, obras inacabadas, passos perdidos, e o fantasma de Pessoa desertou o Cais do Sodré, atormentado pelo ruído dos caterpillars e os bares e restaurantes da moda. Lisboa moderniza-se, desenvolve-se, enriquece, abastece. Abastarda-se. Estaciona-se. Parece que querem destruir as árvores do Príncipe Real, e fazer um estacionamento subterrâneo. Não posso acreditar! E até o Patriarcado, li algures, vai prudentemente explorar um parque de estacionamento no Alto do Parque Eduardo VII, ao lado do Corte Inglês. Lisboa fica a ter mais um shopping para passear aos domingos.
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Lisboa envelheceu mal, e fez o lifting errado. Gorda, inchada e rica, toda orgulhosa das suas lojas de luxo ao Chiado, enquanto vai matando os cafés e poluindo as fachadas dos prédios com placas dos bancos e caixas Multibanco. A decadência e a pobreza espreitam nos intervalos e rasgões no pano do novo-riquismo, e muita desta arquitectura ostensiva, mastodôntica e sul-americana no porte e na forma, contribui para dar à cidade o tom de uma Caracas melhorada.
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Nos dias de chuva, quando o sol deixa de iluminar a fisionomia urbana, Lisboa mostra a sua face hedionda, o seu abandono, o seu desordenado plano. Sem habitantes por dentro, cheia de escritórios e assalariados que dela saem ao fim do dia, Lisboa não tem uma cultura de bairro e de comunidade, não tem uma Baixa, não tem um lugar de encontro e de passeio. Sem querer ser como as cidades italianas, Lisboa poderia ter tido, ao menos, a preocupação de não destruir a sua qualidade meridional. Lisboa amontoou-se em equívocos urbanísticos e projectos metropolitanos de dinheiro fácil. E os cidadãos de Lisboa, estirados, poluídos, desarranjados, não a amam nem a estimam. Despejam com gestos bruscos os cinzeiros dos carros nas ruas, enchendo o passeio de beatas, e deixam à porta saquinhos de supermercado com lixo, que nunca, oh nunca, cabem nos contentores camarários. Num dia de feriado, que seja pardo e de aguaceiro, Lisboa é lixo e cicatriz, é solidão e decrepitude, é melancolia e neurastenia. O sol não a liberta do Sentimento de um Ocidental. Lisboa repassada dos versos de Cesário Verde, sem a grandeza poética e sem o destino entrevisto no horizonte. Soturna e cheia do absurdo desejo de sofrer.
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Eu detesto esta Lisboa moderninha e apressada, desumanizada, que vai expulsando o passado e os seus habitantes e construindo casas estrangeiradas, modas importadas, blocos de cimento, grandes superfícies. A cultura do automóvel matou Lisboa, e o condomínio fechado sobrepõe-se à arquitectura do bom-senso. É uma Lisboa pimba, um folheto de publicidade, um jogo da Lego.
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Podia ter sido tudo tão diferente.
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[Clara Ferreira Alves, in Cidadania e Qualidade de Vida Contra a Exclusão, BE, 2001]

5 comentários:

Anónimo disse...

Citando:1929 – Em 21 de Outubro, Salazar, agradece na sala do Conselho de Estado, a
homenagem prestada pelas Câmaras Municipais do País, com a presença do Governo,
Comissões Administrativas dos Municípios e do então Ministro da Justiça, Dr. Lopes da
Fonseca. É aqui reforçada a mensagem das três políticas necessárias à renovação e
reforma do País, responsáveis pelo sucesso da política seguida: “Política de Verdade,
Política de Sacrifício e Política Nacional”:

Num sistema de administração em que predomina a falta de sinceridade e de luz,
afirmei, desde a primeira hora, que se impunha uma “política de verdade”.
SE AINDA RESTAM DUVIDAS K MANUELA LEITE QUER SER MAIS UM SALAZAR, ISTO ESCLARECE: ambos falam duma politica de verdade!!!! EU NAO QUERO VOLTAR À DITADURA!!! Ela é economista e foi ministra das Finanças como ele. (vejam nos Discursos (1º LIvro) de SaLAZAR em http://www.oliveirasalazar.org/documentos.asp)

magnohlia disse...

Gostei muito deste texto da Clara Ferreira Alves.
E também aprecio a sua prestação no Eixo do Mal, quando a deixam falar.

Fernando Martins disse...

Muito bonito. Não sabia que esta senhora escrevia assim (ignorância pura minha, óbvio).

Obrigado por partilhar este texto.

Vou "roubar" para o meu blog.

Mafalda disse...

Um texto verdadeiramente brilhante.

Manuel Rodrigues dos Santos disse...

CLARA F.A. é genuína, sensível, observadora, sem papas na língua. Junta a genialidade com o rancor, a sua profunda e afectiva feminilidade, com a dureza de uma comentadora implacável. Tenho pena de não fazer parte do seu grupo de amigos e conversadores, num bar, com um bom gin na mão. Sempre que possível.Talvez pudesse descobrir melhor o seu mundo. Abraços. Manuel Rodrigues dos Santos