3.5.11

Separar o trigo do joio


O facto a realçar da feira do livro deste ano (organizada pela APEL, que é presidida pelo proprietário da Babel, não esquecer) é a existência de duas feiras: a das leyas e babéis, com os seus bunkers e condomínios fechados cheios de seguranças; e a dos editores a sério, aqueles que não têm “conteúdos” nem “produtos”, mas simplesmente livros, a que se juntam os alfarrabistas, claro. Só a segunda me interessa, mas a primeira tem demasiada música demasiada publicidade, demasiada tralha. Incomoda, queremos passar ao lado e não se consegue. Alguém sugeriu separar as duas e colocá-las em datas distintas. Tem todo o meu apoio.

28.4.11

Feira do Livro

Começa hoje a 81ª edição da Feira do Livro de Lisboa. Vai estar no Parque Eduardo VII até 15 de Maio, com o seguinte horário:


2ª a 5ª Feira: 12h30 - 23h00;

6ª Feira: 12h30 - 24h00;

Sábado: 11h00 - 24h00;

Domingo: 11h00 - 23h00.

Recomenda-se em particular a visita aos pavilhões da Letra Livre, da Frenesi, da Antígona, da Assírio & Alvim, da Cotovia e da Relógio D' Água.

25.4.11

Sempre!

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29.3.11

Nova edição da Poesia Incompleta

. Depois de O Taberneiro, de Miguel Martins e A Nova Poesia Portuguesa, de Manuel de Freitas, chegou agora O Som do Sôpro, de António Barahona.

25.3.11

LA LOUISIANE, CHAMBRE 58
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do sítio onde escrevo este falso obituário
Portimão é uma linha de rio até à praia concessionada
brilham as casas do Bairro Operário no fogo das laranjeiras
quentes as mulheres sobrevivem bebendo água nas esplanadas
enviam enigmáticas mensagens de telemóvel
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alguém
através do mesmo processo
me avisa da morte de Albert Cossery
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não trabalharei amanhã, pelo menos
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[Miguel Manso, in Quando Escreve Descalça-se, 3ª ed., Trama, 2011]

24.3.11

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"Este país é um cu, um buraco de onde não se sai."
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[João César Monteiro, in Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1971]

22.3.11

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O PREC EM 2008
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o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que
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nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores
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agora um amigo diz-me: «esta
revolução não dá um passo!»
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concedo, mas não desisto
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incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa
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revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
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[Miguel Manso, in Quando Escreve Descalça-se, 3ª ed., Trama, 2011]

19.3.11

“Podemos imaginar histórias sem conclusão e no entanto associadas, como os sonhos. Poemas simplesmente sonoros e plenos de palavras irradiantes mas desprovidas de sentido e de coesão, e dos quais, quando muito, algumas estrofes seriam incompreensíveis.”
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[Novalis, in Fragmentos, trad. Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 1986]

18.3.11

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"A poesia é o real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro."
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[Novalis, in Fragmentos, trad. Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 1986]

14.3.11

Com pipocas

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Film Socialisme, o mais recente filme de Jean-Luc Godard está finalmente numa sala de cinema (depois de 2 ou 3 sessões na Culturgest e em Serralves). Mas não deixa de ser irónico que tenhamos de o ver num centro comercial, pelo meio de anúncios publicitários, pipocas e coca-colas. Revelador do estado a que o cinema chegou...

2.3.11

Elogio de Jean-Luc Godard

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Está a começar na Cinemateca um ciclo sobre Jean-Luc Godard, com filmes como O Acossado (1960), Pedro, o Louco (1965), Week-End (1967), Nouvelle Vague (1990) ou Elogio do Amor (2001), entre muitos outros, num total de mais de 30 sessões até ao final de Março. A programação pode ser consultada aqui.

23.2.11

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DIÁRIO ÍNTIMO DE JOÃO DE DEUS
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Segunda-feira, 8 de Julho
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As cuecas da filha da Dona Assunção desapareceram da corda da roupa.
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Terça-feira, 9 de Julho
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Esqueço-me sempre de comprar um vaso para plantar uns pezinhos de salsa.
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Quarta-feira, 10 de Julho
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Há dias em que um homem não pode sair de casa.
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Quinta-feira, 11 de Julho
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Escapa-me a obstinação de Stravoguine quando, olhos nos olhos, afiança a Chatov que nunca conspurcou crianças.
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Sexta-feira, 12 de Julho
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O terramoto de 1755 não é suficiente para explicar este misterioso rumor nocturno.
Abyssus abyssum invocat…
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Sábado, 13 de Julho
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Ganhei este dia aziago sem sinal de azia. Benditos carapauzinhos com arroz de pimentos.
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Domingo, 14 de juillet
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Punheta? Seja, pois.
A propósito: As cuecas da filha da Dona Assunção apareceram num monturo de entulho. Está salva a honra do convento.
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[João César Monteiro, in Uma Semana Noutra Cidade, & etc, 1999]

2.2.11

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HINO ÓRFICO À NOITE
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(Grécia)
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Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Raínha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.
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[Herberto Helder, in O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, 2010]