3.5.11

Separar o trigo do joio


O facto a realçar da feira do livro deste ano (organizada pela APEL, que é presidida pelo proprietário da Babel, não esquecer) é a existência de duas feiras: a das leyas e babéis, com os seus bunkers e condomínios fechados cheios de seguranças; e a dos editores a sério, aqueles que não têm “conteúdos” nem “produtos”, mas simplesmente livros, a que se juntam os alfarrabistas, claro. Só a segunda me interessa, mas a primeira tem demasiada música demasiada publicidade, demasiada tralha. Incomoda, queremos passar ao lado e não se consegue. Alguém sugeriu separar as duas e colocá-las em datas distintas. Tem todo o meu apoio.

28.4.11

Feira do Livro

Começa hoje a 81ª edição da Feira do Livro de Lisboa. Vai estar no Parque Eduardo VII até 15 de Maio, com o seguinte horário:


2ª a 5ª Feira: 12h30 - 23h00;

6ª Feira: 12h30 - 24h00;

Sábado: 11h00 - 24h00;

Domingo: 11h00 - 23h00.

Recomenda-se em particular a visita aos pavilhões da Letra Livre, da Frenesi, da Antígona, da Assírio & Alvim, da Cotovia e da Relógio D' Água.

25.4.11

Sempre!

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29.3.11

Nova edição da Poesia Incompleta

. Depois de O Taberneiro, de Miguel Martins e A Nova Poesia Portuguesa, de Manuel de Freitas, chegou agora O Som do Sôpro, de António Barahona.

25.3.11

LA LOUISIANE, CHAMBRE 58
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do sítio onde escrevo este falso obituário
Portimão é uma linha de rio até à praia concessionada
brilham as casas do Bairro Operário no fogo das laranjeiras
quentes as mulheres sobrevivem bebendo água nas esplanadas
enviam enigmáticas mensagens de telemóvel
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alguém
através do mesmo processo
me avisa da morte de Albert Cossery
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não trabalharei amanhã, pelo menos
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[Miguel Manso, in Quando Escreve Descalça-se, 3ª ed., Trama, 2011]

24.3.11

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"Este país é um cu, um buraco de onde não se sai."
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[João César Monteiro, in Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço, 1971]

22.3.11

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O PREC EM 2008
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o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que
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nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores
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agora um amigo diz-me: «esta
revolução não dá um passo!»
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concedo, mas não desisto
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incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa
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revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
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[Miguel Manso, in Quando Escreve Descalça-se, 3ª ed., Trama, 2011]

19.3.11

“Podemos imaginar histórias sem conclusão e no entanto associadas, como os sonhos. Poemas simplesmente sonoros e plenos de palavras irradiantes mas desprovidas de sentido e de coesão, e dos quais, quando muito, algumas estrofes seriam incompreensíveis.”
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[Novalis, in Fragmentos, trad. Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 1986]

18.3.11

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"A poesia é o real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro."
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[Novalis, in Fragmentos, trad. Mário Cesariny, Assírio & Alvim, 1986]

14.3.11

Com pipocas

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Film Socialisme, o mais recente filme de Jean-Luc Godard está finalmente numa sala de cinema (depois de 2 ou 3 sessões na Culturgest e em Serralves). Mas não deixa de ser irónico que tenhamos de o ver num centro comercial, pelo meio de anúncios publicitários, pipocas e coca-colas. Revelador do estado a que o cinema chegou...

2.3.11

Elogio de Jean-Luc Godard

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Está a começar na Cinemateca um ciclo sobre Jean-Luc Godard, com filmes como O Acossado (1960), Pedro, o Louco (1965), Week-End (1967), Nouvelle Vague (1990) ou Elogio do Amor (2001), entre muitos outros, num total de mais de 30 sessões até ao final de Março. A programação pode ser consultada aqui.

23.2.11

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DIÁRIO ÍNTIMO DE JOÃO DE DEUS
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Segunda-feira, 8 de Julho
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As cuecas da filha da Dona Assunção desapareceram da corda da roupa.
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Terça-feira, 9 de Julho
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Esqueço-me sempre de comprar um vaso para plantar uns pezinhos de salsa.
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Quarta-feira, 10 de Julho
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Há dias em que um homem não pode sair de casa.
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Quinta-feira, 11 de Julho
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Escapa-me a obstinação de Stravoguine quando, olhos nos olhos, afiança a Chatov que nunca conspurcou crianças.
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Sexta-feira, 12 de Julho
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O terramoto de 1755 não é suficiente para explicar este misterioso rumor nocturno.
Abyssus abyssum invocat…
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Sábado, 13 de Julho
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Ganhei este dia aziago sem sinal de azia. Benditos carapauzinhos com arroz de pimentos.
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Domingo, 14 de juillet
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Punheta? Seja, pois.
A propósito: As cuecas da filha da Dona Assunção apareceram num monturo de entulho. Está salva a honra do convento.
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[João César Monteiro, in Uma Semana Noutra Cidade, & etc, 1999]

2.2.11

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HINO ÓRFICO À NOITE
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(Grécia)
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Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Raínha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.
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[Herberto Helder, in O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, 2010]

27.1.11

CAFÉ GELO
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antes permanecesse casa de hambúrgueres já que
pior que a morte será esta ressurreição simulada
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[Miguel Manso, in Santo Súbito, ed. do autor, 2010]

26.1.11

Helder Macedo: Memórias do Café Gelo

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“Conheci o Mário Cesariny julgo que em 1956, no Café Gelo, no Rossio, um café tradicionalmente frequentado por pacatos comerciantes imunes às intelectualidades institucionais da Brasileira do Chiado e aos esforçados suores estudantis na cave do Café Martinho que então havia para os lados do teatro Nacional. O Gelo tornara-se num conveniente local de encontro de alguns aspirantes a poetas com alguns aspirantes a pintores que partilhavam um parco atelier nas águas furtadas do prédio ao virar da esquina. Os jovens pintores, futuramente associados ao exílio parisiense do grupo KWY, atraíam outros pintores, e os jovens poetas atraíam outros poetas já exilados em si próprios. O Mário Cesariny, mais velho do que nós e por todos nós admirado, foi um deles. O que todos nós, os jovens do Café Gelo, tínhamos em comum era uma atitude de recusa, uma partilhada vontade de quebrar amarras, um só sabermos o que não queríamos para podermos deixar um espaço livre para o que pudéssemos talvez querer. A recusa de normas estabelecidas era a nossa única norma. O questionamento de valores impostos o nosso único valor. As noites eram os nossos dias. Estávamos todos muito zangados com o que queriam fazer de nós: o governo, as universidades, as várias polícias que não nos queriam deixar ser quem ainda não sabíamos que poderíamos querer ser, os intelectuais estabelecidos que nos queriam ensinar a sermos quem não queríamos ser. Desdenhávamos rótulos, desprezávamos preconceitos. Disto se seguia que a sexualidade de cada um não era motivo nem de aprovação nem de censura, não era sequer uma causa para se lutar a favor ou contra mas uma natural aceitação de que cada um fizesse o que quisesse com quem também o quisesse. E como, fora das nossas horas de serviço no Gelo, começava a haver pela cidade algumas intrépidas e virtuosas meninas que (antes da pílula!) se arriscavam a querer o que com alguns de nós elas próprias também queriam, ao menos nisso estava tudo bem para todos.
O Mário Cesariny foi acolhido no Gelo com respeitoso júbilo, não como o “penado” que sentia ser mas como um predecessor que tinha aprendido, antes de nós, que “faz-se luz pelo processo de eliminação de sombras”. Também encontrou ali um poiso acolhedor o supremo anjo caído, o já velhíssimo Raul Leal (sempre acompanhado pelo seu fiel ex-amante ex-pugilista) a recordar de punho erguido “com extrremo furror” de erres rolados o seu tão amado “Fernandinho”. Sim, esse mesmo, o Fernando Pessoa. Prolongamentos surrealistas numa nova geração? Sim, não e também. Era sobretudo a expressão de um grande nojo partilhado em modos convergentes de o exprimirmos. Recordo alguns nomes dos então jovens do Gelo, uns actualmente mais lembrados do que outros. De entre os das pinturas, o João Rodrigues, o João Vieira, o Gonçalo Duarte, o José Escada (e, por continuidade honorária, o René Bertholo, a Lourdes Castro e o António Costa Pinheiro). Também o Sá Caetano, a visualizar entre os dedos enquadramentos impossíveis de filmagens. De entre os das escritas, o Herberto Helder, o José Manuel Simões, o José Sebag, o Manuel de Castro, o José Carlos Gonzalez, o Virgílio Martinho, o António José Forte e o Ernesto Sampaio. Dois ou três deles, com vinte e poucos anos, já tinham passado pelas prisões políticas. Três ou quatro iriam morrer de suicídio ou de cirrose. Outros saíram a tempo do congelador e nem todos voltaram, mesmo quando voltaram. Ocasionalmente também passava pelo Gelo o Luiz Pacheco, a carregar pacotes de papéis e a cravar quinze tostões para uma bica; às vezes o Alfredo Margarido, que no entanto preferia a companhia do Edmundo de Bettencourt e do Pedro da Silveira no Café Restauração, na rua atrás. E, por extensão do Gelo no Café Lisboa depois das duas da manhã, também podíamos fruir da companhia civilizadora do Manuel de Lima, que discretamente foi infiltrando alguns de nós nas sibaríticas dissidências propiciadas pelas soirés em casa de Natália Correia, generosamente reclinada numa chaise-longue enquanto lhe contemplávamos o decote com olhos intumescidos.”
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[Hélder Macedo, in Relâmpago nº 26, Abril 2010]

20.1.11

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“Aparecia na taberna do cais de tempos a tempos, em intervalos regulares. Podia ver-se-lhe os olhos muito verdes, o rosto tuberculoso, as mangas já rasgadas. A pouco e pouco, sem querer, foi-se habituando a um ritual preciso: o empregado trazia-lhe um copo de aguardente e, ainda a meio caminho, o homem começava a fixá-lo. Estabelecia com o copo sobre a mesa uma relação imperturbável e secreta. Nascia-lhe a pouco e pouco e nítido um sorriso. Estendia depois o braço na direcção do copo, transparente, molhado, e rodava-o, em quartos de volta, como se desenhasse uma carícia. Erguia-o assim à altura dos lábios e bebia de uma só vez o líquido. Deixava sistematicamente que um pouco de aguardente se entornasse e espalhava-o, com as costas da mão, pelas partes da cara mais próximas da boca. Pousava em seguida o copo, sempre devagar, e continuava a olhá-lo ainda durante algum tempo. Por fim, com a mesma lentidão e o mesmo olhar, procurava de novo o empregado.”
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[José Amaro Dionísio, in Sião (org. Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião), frenesi, 1987]

18.1.11

Cotovia na blogosfera

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"a Cotovia é uma editora muito boa porque, sendo pequena, funciona como uma editora pequena. Lemos e discutimos tudo o que publicamos; podemos demorar horas a perorar sobre a pertinência ou impertinência de uma palavra. Tentamos não o fazer, não é bom do ponto de vista da gestão pecuniária e do tempo, os dias não estão para excentricidades dessas, mas sabermos que, se quisermos, podemos discutir até ao fim dos tempos a pertinência do ponto e vírgula é qualquer coisa que define a Cotovia como uma editora muito boa."
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17.1.11

Branca de Neve

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Branca de Neve (2000), de João César Monteiro, hoje, às 19.30, na Cinemateca.

14.1.11

Herberto Helder entrevistado por Fernando Ribeiro de Mello em 1964

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Em 1964 Fernando Ribeiro de Mello entrevistou Herberto Helder para o Jornal de Letras e Artes. Encontrei a entrevista no blog dedicado às edições Afrodite e reproduzo-a aqui:
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«Os cinco livros que até hoje publiquei pouco significam agora para mim!» - Diz-nos desassombradamente Herberto Helder
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Herberto Helder, cujo último livro, «Electronicolírica», veio levantar sérios problemas em volta do conceito que a sua poética parecia anunciar acaba de publicar em conjunto com António Aragão e vários colaboradores o caderno «Poesia Experimental» que vem confirmar a viragem operada na sua obra.
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Fernando Ribeiro de Mello/ Jornal de Letras e Artes – Como considera criticamente a evolução da sua produção poética, desde «O Amor em Visita» ao recentemente publicado «Electronicolírica»?
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Herberto Helder – Em certo sentido (que também prezo), não houve evolução. Esse sentido é o de fidelidade às bases da minha experiência – a descoberta do modo – que, fundamentalmente, se cumpriu na infância. A experiência exterior poderá ser considerada simples desenvolvimento ou enriquecimento «em linguagem». A minha poesia processou sempre, como é evidente, exercer-se sobre essa massa central e viva. Mas a experiência humana é apenas ponto de partida, núcleo sólido e permanente onde assenta a experiência posterior da criação. Considero a criação o encaminhamento, até às consequências extremas, de uma experiência em si mesma não organizada. A descoberta do mundo não possui, por ela própria, finalidade ou coerência, nem constitui a salvação desse mundo. Desde que seja possível criar um corpo orgânico em que a experiência, devidamente articulada, se baste, surge uma harmonia entre o sujeito e a sua experiência, quero dizer, o sujeito participa do cosmos. Este esforço da superação do caos exprime-se pela busca de uma linguagem. È aliás na linguagem que a experiência se vai tornando real. Se nela não há, em sentido rigoroso, experiência do mundo. A esta conclusão vem chegando uma moderna filosofia da arte. A formação da linguagem é um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau máximo e um grau mínimo de erro, situa-se a evolução. Progresso de linguagem, de adequação às finalidades, superação da experiência, purificação do tema – eis onde se pode situar o sentido da evolução. Evolui evoluirci. Suponho que, entre a minha produção até ao volume «Lugar» e a quer me encontro realizando, há um salto considerável. O livro «Electronicolírica» é apenas o início do rompimento com certos princípios que orientavam a procura do estilo. Acho-me no ponto em que não hesito distanciar-me de tudo o que antes escrevi. Mesmo de «Electronicolírica» , aliás, composto há já um ano. Afasto-me, até, da minha colaboração no primeiro número de «Poesia Experimental» que, escrita antes, se situa contudo num momento mais avançado de evolução. Os cinco livros que até hoje publiquei pouco significam agora para mim. O pouco significarem garante-me completa liberdade e isenção, em ordem a uma nova linguagem. Nesses volumes não se exprime propriamente uma evolução, pelo facto de todos eles assentarem em dois preconceitos, a saber: 1) A consideração exclusiva de processos literários para a realização do espaço poético; 2) a preocupação de conseguir uma linguagem comunicativa. Presumo que um poeta dispõe de recursos muito mais amplos do que os meramente verbais e que, utilizando-os mesmo em exclusivo, eles devem tender à organização não apenas literária, ou gramatical, ou rítmica. Compreendo que se possam fazer poemas recorrendo, por exemplo, à expressão matemática, ao grafismo, à técnica comercial e industrial, às máquinas, à música, ou a qualquer outra fonte e tipo de sintaxe. Por outro lado, imagino que as preocupações do poeta se devem libertar da linguagem organizada para o diálogo. Max Bense afirma algo de semelhante, ao acentuar que «no conceito convencional de literatura, põe-se a ênfase na função comunicativa-social dela, enquanto que, no conceito progressivo, se insiste na sua função experimentativa-intelectual». Interessa-me, portanto, chegado que sou à convicção de me haver limitado, nos livros anteriores, a mover-me em círculo sobre uma linguagem esgotada – interessa-me digo, muito menos executar, uma gramática literária, destinada ao diálogo, do que perfazer um organismo internamente coerente e bastante. A comunicação será consequente, se for. De qualquer modo, bani a ideia, do diálogo, no meu estilo. Mas sinto-me ligado aos escritos antigos como alguém se pode sentir ligado a um paciente e doloroso erro...
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FRM/JLA – Como explica a publicação do seu último livro, poesia de carácter experimental, após e em face da obra anterior que conquistara inegável prestígio?
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HH – A resposta a esta pergunta está incluída na primeira. Resta-me acrescentar que o prestígio que possa ter alcançado (prestígio equivoco no qual se integra a malquerença de alguma gente, que aceito com satisfação) não poderia constituir uma poltrona. O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.
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FRM/JLA – Que pensa da atitude da crítica relativamente a este livro?
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HH – A crítica? Bem vê: nas circunstâncias em que me encontro, a crítica não me poderia ajudar. Ela de resto nunca ajuda um autor. Tende afazer de mediadora entre uma linguagem e um entendimento. Ajudará o leitor. Visto que bani das minha preocupações a ideia de comunicação, não considero a intervenção desse primeiro decifrador, do mediador. Porque não estou interessado em que o leitor adira...Poucas apreciações críticas foram feitas ao livro, até porque só o enviei a três ou quatro críticos, cada um deles representando certo núcleo de opinião. Simples curiosidade da minha parte... A referência que lhe concedeu Álvaro Salema exprime, mais ou menos, a opinião dos neo-realistas a meu respeito e inscrevo-a na categoria dos meus pequenos divertimentos privados. A de João Gaspar Simões, mais esclarecida e esforçada, carece de informação. Não é possível criticar-se um livro de poesia experimental com os instrumentos aplicáveis à poesia convencional. Em todo o caso, Gaspar Simões é um homem atento, e a sua formação de base parece-me menos estreita que a da maioria dos críticos portugueses. Lamento que o seu conceito de poesia se vincule demasiado a alguns postulados da geração presencista.
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FRM/JLA – Diga-nos se o seu livro de contos «Os Passos em Volta» constitui uma experiência isolada ou representa uma continuação da sua obra restante.
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HH – Esse livro pertence ao mesmo sistema de propostas e soluções dos outros. Inscrevê-lo na designação de contos, ou chamar aos meus outros livros conjuntos de poemas, significa apenas ausência de superfície às categorias estabelecidas. Não me parece necessário referir a crise das classificações literárias. Caminha-se, sabemo-lo todos, para uma visão total da obra literária que se não podem adoptar distinções afinal nunca rigorosas, senão de um ponto de vista didáctico e, assim mesmo, somente em determinado grau de didactismo, «Os Passos em Volta» são a minha primeira tentativa para superar a dicotomia prosa-poesia. Marcam também o meu interesse, no momento de referir algumas experiências de facto, em que a circunstância desempenhava papel preponderante. Achei então que o poema, como eu o vinha praticando, não possuía a elasticidade, o ritmo, o clima verbal, capazes de abranger, adequadamente o tecido temático e circunstancial que eu pretendia explorar. Aquele livro permitiu-me tal experiência, tendo sido ele, afinal, um passo decisivo para a abolição dos preconceitos que vinham limitando o meu trabalho.
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FRM/JLA – Sobre os cadernos «Poesia Experimental» que se lhe oferece dizer?
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HH – «Poesia Experimental», cadernos cujos propósitos são parcialmente expostos no primeiro número e que mais cabalmente irão sendo nos seguintes, constitui o único esforço sistemático e de conjunto para a renovação da poesia portuguesa. Estes cadernos provarão também que existe na nossa poesia uma tradição que nunca foi sequer, de passagem, indicada. Quanto ao corpo de colaboradores, que espero ver presentes no diversos números que se projecta publicar, têm vindo todos eles, privada ou publicamente, tentando alguns meios novos da expressão poética. Salette Tavares ofereceu-nos agora algo que considero extremamente importante, tendo conseguido uma desenvoltura rara na utilização de uma gramática com pouca tradição onde se apoiar. António Aragão propõe um extenso poema-narração, bastante ambicioso,, justo em muitas das suas partes. Há nele uma multiplicidade de experiências que conduzirão a lugares diferentes do experimentalismo. E. M. de Melo e Castro consegue o melhor dos textos que publicou até hoje e onde se purifica a tendência «concretizante» dos seus processos. António Ramos Rosa aparece com textos semantemáticos de grande rigor que marcam corajoso passo em frente, passo aliás adivinhável já em «Ocupação do Espaço». António Barahona da Fonseca liberta-se dos seus vínculos surrealistas e promete o necessário salto mortal, para que, interiormente, se tem vindo a preparar. Quanto a mim, vou um pouco mais longe na exploração do principio combinatório inspirado nas calculadoras electrónicas, considerando no entanto tais experiências ainda pouco ousadas para o que pretendo. Espero conseguir um pouco mais.Não existe qualquer uniformidade nas experiências em curso entre os colaboradores de «Poesia Experimental». É visível, imediatamente, que duas grandes tendências se desenvolvem no sei da revista. Uma a que poderei chamar «concretizante», que se apoia, digamos, numa concepção materialista da linguagem, procurando a coisificação da palavra. Outra «abstractizante», em que a ambiguidade e o indefinido, provenientes de uma inclinação barroca do espírito, se inserem no processo verbal, criando espaços míticos sobre os quais se pode dizer debruçar-se um sentido do maravilhoso. Esta tentativa de caracterização é de facto rudimentar e assinala apenas diferenças profundas imediatamente observáveis.
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FRM/JLA – Quanto a si, quais os movimentos ou tendências da poesia portuguesa actual que lhe parecem importantes, não só do ponto de vista de renovação formal, estética como também sob o ângulo conceptual e humano?
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HH – O único movimento poético que me parece moderno é o Experimentalismo. E estou a referir-me tanto ao nosso país como à poesia em geral. Os meus interesses estão de tal modo virados para ela que me é quase impossível dar atenção à poesia convencional, por mais notável que seja, dentro dos seus recursos e propósitos.Quanto ás expressões «formal», «conceptual», «estético» e «humano», nas acepções utilizadas na sua pergunta, nada tenho a dizer. Representam conceitos não integráveis, desse modo, no meu processo de pensamento. Em poesia, formal, conceptual, estético e humano significam, conjuntamente, «linguagem». E poesia, como diria certo crítico norte-americano, é linguagem. Isolar o implícito, explicitando-o, servirá apenas para estabelecer um sistema insolúvel de situações.
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[Jornal de Letras e Artes nº 139, de 17-05-1964]

13.1.11

Bartleby

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"Sob a indomável batuta de Miguel Martins, Manuel de Freitas e Rui Miguel Ribeiro, Bartleby mais não pretende do que juntar, numa cave lisboeta, alguns dos sons, imagens, poemas e sabores etílicos que melhor nos ajudam a atravessar o deserto. O horário de funcionamento será das 22h às 2h, todas as quintas, sextas, sábados e vésperas de feriado.
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SEJA RESPONSÁVEL. EMBEBEDE-SE CONNOSCO."
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O Bartleby abriu há poucos dias e fica na Rua Imprensa Nacional, 116b (cave do restaurante BS). Tem um blog aqui.

12.1.11

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pelas livrarias livres
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às que pensam, às que respiram, às que escolhem. às livrarias que defendem, que apontam, que libertam. às livrarias que vendem livros em vez de produtos, que têm leitores em vez de clientes. às livrarias que se afirmam diariamente - porque existem, porque resistem, porque não se vergam. às livrarias menos arrumadas, às livrarias que não têm «caixeiros» mas sim livreiros, às livrarias que se estão nas tintas para mercados, consumidores, tendências, às livrarias que são casas, que são escolas, grutas, ninhos, livrarias de corujas, morcegos, vespas, às livrarias livres, eu desejo o melhor, melhor, dos anos.
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[Catarina Barros, blog da Trama, 31-12-2010]

10.1.11

(Dincas, Sudão)
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No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.
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[Herberto Helder, in As Magias, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, 2010]

7.1.11

As capas da & etc

Uma das últimas edições do Ípsilon trazia um artigo de Gonçalo Mira sobre capas de livros de várias editoras. Aqui fica o excerto sobre a & etc:
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"Isto é uma editora pobre e funcionamos sempre com recursos muito parcos." Foi assim que começou a conversa com Vítor Silva Tavares, editor da & etc, uma editora que existe há quase 38 anos, que sempre se manteve à margem, de costas voltadas para o mercado. Há quase 38 anos que faz livros com o mesmo formato, com os materiais mais baratos, e que ainda assim não podem ser ignorados, pelo projecto único que representam.
Tudo começou no quadrado. Um dia, depois de abandonar o "Diário de Lisboa" para se lançar a uma aventura poética, criar a revista & etc, Vítor Silva Tavares pôs-se a pensar no formato que a revista ia ter. O quadrado já lhe andava na cabeça.
Pegou num papel e num lápis e desenhou-o. "Um quadrado imperfeito, claro, feito à mão. E a seguir inscrevi-o dentro de um rectângulo, porque se era uma revista, tinha de ser rectangular."
As medidas foram aperfeiçoadas e aquilo parecia harmonioso aos olhos do seu criador. Fazendo curta a longa história, o formato foi definido para a revista e depois foi feito numa escala menor para os livros da & etc. Assim nasceu este formato único, de personalidade vincada.
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"O quadrado é quase mítico", diz-nos Vítor Silva Tavares. Por isso é que é dentro do quadrado que os artistas desenvolvem o desenho das capas da editora. E aquilo que podia ser uma limitação aos artistas, acaba por ser "um desafio à inventividade e à criatividade." O que explica, na opinião do editor, a felicidade de algumas das capas da & etc.
A utilização dos materiais mais baratos é motivada não só pelos parcos recursos, mas também pelo "gosto por esses materiais pobres, que ainda têm personalidade, que não são plastificados, industriais, e que pretendo recuperar dando-lhes uma nobreza."
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Depois, a ideia era "dar tanta ênfase à ilustração, à pintura, como à mensagem literária. De forma a constituir um todo e, se possível, fazer do livrinho um objecto onde as artes plásticas e o conteúdo fizessem uma unidade." Dentro daquele quadrado que se insere nas capas da & etc passaram muitos artistas. Ilustradores, pintores e também designers. Só que designers é uma palavra que não se usa naquela cave da Rua da Emenda. Os designers colaboraram enquanto "desenhadores, ou pintores, ou ilustradores. As nossas capas não são capas de design."
A & etc funciona num universo à parte e orgulha-se disso. Será assim até ao fim. Não podemos falar aqui em design da editora, mas podemos elogiar o projecto gráfico e artístico, que assim Vítor Silva Tavares não se zangará.
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[Gonçalo Mira, Ípsilon (suplemento do Público), 15-12-2010]

6.1.11

Alfarrabistas

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Entre 20 e 24 de Dezembro, a TSF apresentou cinco programas de Fernando Alves sobre cinco alfarrabistas: Pedro Chaminé Mota, Livraria Letra Livre, Livraria D' Outro Tempo, Miguel de Carvalho e Gabriela Gouveia. Podem ainda ser ouvidos aqui.

5.1.11

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A identidade dos contrários
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(Edouard Roditi)
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Sonho que sou louco, e na minha loucura
Sou mais sensato que num sonho
Ou acordado, com medo que me tenham por louco
Meus companheiros de sonho.
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Meu bom senso é diária loucura,
Para um mundo em vigília que atribui
Mais vigília e atenção mais funda
À razão do que a razão possui.
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Sonho é a minha vida diária, cada dia
Simula e dissimula até loucura
E razão serem ambas semelhantes,
E eu ajo enquanto sonho.
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No sonho, o bom senso e a locura,
Na loucura, o sonho e o dia a dia
Ligados, entre si todos semelhantes:
Sonhando ou acordado, sou louco e sou sensato.
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[Herberto Helder, in As Magias, poemas mudados para português, Assírio & Alvim, 2010]

4.1.11

“Em tempos não muito longínquos surgiu o problema das ‘grandes superfícies’; agora, a escala da grande superfície transferiu-se para o próprio formato dos livros, que passaram a ter um tamanho imponente, demagógico, ameaçador. O que podemos dizer de mais seguro sobre o que se passou este ano é que este complexo de gigantismo atingiu o seu mais alto grau e não será ousado concluir que as editoras portuguesas produzem, em medida, os maiores livros do mundo. Como se explica este fenómeno? Por uma guerra civil de conquista de espaço, que faz das livrarias um campo de batalha onde um exército de combatentes para ganhar posição, tem de expulsar os combatentes inimigos, porque não há lugar para todos. A lei do maior – em superfície – e do mais exuberante – na apresentação – é uma das tácticas do combate. […] À entrada de uma livraria, o leitor deverá saber que vai atravessar um campo de hostilidades, uma parada agressiva de uniformes de guerra de onde é preciso fugir. O espectáculo é sem redenção e sem salvação. Perante ele, apetece muitas vezes fazer greve, recusar a compra de um livro que até nos interessa, mas tem uma capa indigna, com inscrições publicitárias demagógicas e dimensões paranóicas.”
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[António Guerreiro, Actual (suplemento do Expresso), 30/12/2010]