26.6.07

Entrevista de Baptista-Bastos

Depois de uma pequena entrevista ao DN, Baptista-Bastos deu agora uma entrevista com outro fôlego ao Ípsilon (suplemento do Público). A entrevista foi conduzida por Alexandra Lucas Coelho e deixo-a aqui:
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NINGUÉM SE METE COMIGO
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Uma almofada com a cara de Marx atrás das costas em quase três horas de conversa. Um caderno Moleskine com uma lista de expressões insuportáveis como "no seio de" e "evento". Ainda e sempre esta relação sanguínea com a língua portuguesa, seu vasto domínio. Mais de 50 anos de jornalismo e 10 romances, contando com "As Bicicletas em Setembro", que acaba de ser publicado, obra em torno de uma mulher, Jesuína, onde Armando Baptista-Bastos (Lisboa, 1934) faz caber a sua própria mulher, Tejo e tudo o que não consegue caber à vontade no presente, agora. É um dos mais furibundos, anti-fleumáticos autores do jornalismo português.
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Porque se diz que inventou entrevistas?
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É um disparate. Foi um pretexto para fugir à censura. A entrevista que inventei, entre aspas, começa no "Almanaque", uma revista decisiva. O chefe de redacção era o [José] Cardoso Pires, o editor que dava o dinheiro era o Figueiredo de Magalhães, os redactores eram Augusto Abelaira, Stau Monteiro, José Cutileiro, Vasco Pulido Valente, Alexandre O’Neill, e eu.
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1960?
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1960, 61. Eu tinha ido para o "Almanaque" expulso d’"O Século", por motivos políticos. E queríamos fazer um número sobre os "monumentos" nacionais. O Matateu, a Amália Rodrigues - com uma capa espantosa do João Abel Manta. Uma publicação que tivesse mais de 120 páginas não ia à censura prévia, era um truque que arranjávamos, ter mais de 120 páginas. Decidiu-se que eu ia entrevistar o Matateu, e pergunto as coisas ao contrário. É uma entrevista muito cruel.
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Se ele sabe quem foi o Aquilino, o Beethoven...
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Para dar a imagem devolvida [da nação], digamos. Extremamente cruel. Qual é o país que gosta mais? É a Itália. Então porquê? Por causa das mulheres, gostam muito dos pretos.
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Marquei aqui [no livro "As Palavras dos Outros"]: "Por causa das mulheres. Lindas. Comi algumas. Muito boas. Gosto bastante da Itália. Que rico país para um preto viver!" Ele disse mesmo: "Que rico país para um preto viver!"?
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Rigorosamente. O Matateu era absolutamente invulgar, e não sei se eu devia ter publicado essas coisas. Ele subia a Calçada da Ajuda e os miúdos atrás dele. Todo o gato e cão era Matateu. Ele sentava-se naqueles bancos corridos das tabernas a conversar com as pessoas. Era extremamente popular. Mais tarde tentei ressarcir-me escrevendo uma crónica onde dizia que fui muito cruel. Porque ele diz lá na entrevista: "O Matateu não diz mal de ninguém."
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É daí que vem a fama em relação às suas entrevistas?
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Abre uma perspectiva à entrevista em Portugal. Fazer o retrato da pessoa através das leituras, do conhecimento do mundo, dos tiques.
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Mas que tem isso a ver com a ideia de que inventou palavras, de que as coisas não se passaram assim?
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Passaram-se rigorosamente assim.
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Conte o seu encontro com Paul McCartney.
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Por intermédio do correspondente no Algarve, o "Diário Popular" ("DP") sabe que o Paul McCartney estava cá. E o Balsemão manda sete jornalistas para as sete saídas de Lisboa, porque ele vinha a caminho de Lisboa. A mim tocou-me Vila Franca de Xira. Chego à ponte, onde havia a portagem, e pergunto: "O senhor viu aí um tipo de cabelos compridos?" E ele diz: "O Beatle? Está ali na estalagem Gado Bravo." Fui lá. [McCartney] vinha com uma rapariga lindíssima que lia o "Spleen de Paris", do Baudelaire. Estavam a beber Casal Garcia. Eu disse: "Olhe que esse vinho não se bebe", num inglês péssimo. "Então o que devo beber?" "Quando muito, um Alvarinho." E começa assim a conversa. Ele pergunta: "Você é jornalista?" "Sou." E pergunta - foi a primeira vez que ouvi dizer isso - se eu era "freelancer". Sabia lá o que era isso em 1965. Tivemos um encontro de meia-hora, quanto muito. E perguntei-lhe estas coisas [que estão em "As Palavras dos Outros"].
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"- Como é o nosso tempo?
- O tempo dos astronautas.
- Consideram-se homens inteligentes?
- Somos homens práticos.
- Que é ser prático?
- Talvez viver a época.
- Isso não será condescender?
- Somos trabalhistas, sabia?"
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Como era? Tomava nota, gravava?
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Tomava notas rápidas.
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Isto é uma conversa tal e qual? É uma conversa recriada?
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Tal e qual.
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São respostas lapidares.
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Pois são. E não é a entrevista total, houve partes cortadas.
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A propósito das entrevistas do livro "Fado Falado" disse que punha as habilitações literárias dos fadistas porque era algo significativo sobre as pessoas. Porquê?
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Não me recordo, mas se calhar queria dizer que as pessoas de pouca ilustração cantariam melhor o fado. As entrevistas de "Fado Falado" têm a mesma componente, digamos dialogante, dessas que referiu. É uma astúcia. Dava a volta, e a meio fazia aquelas perguntas mais provocatórias. Porque uma entrevista é sempre uma provocação e nunca uma chicana. Por exemplo, as entrevistas do semanário "Ponto". Aquilo é "ipsis verbis", e foram ditas coisas que as pessoas ficavam apavoradas com o que tinham dito. 18 anos depois um cantor disse que eu tinha escrito o que ele não tinha dito. Nem sequer respondi - 18 anos depois? Podia ter dito logo. Nunca tive qualquer desmentido porque tudo era a reprodução daquilo que me diziam. Eu fazia paragens e tudo. "Espere aí um bocadinho que não apanhei tudo."
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Há uma entrevista, julgo que com uma prostituta, em que ela lhe diz: "Você escreve na mecha." E o Baptista Bastos: "Espere aí só um bocadinho."
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E reproduzia "ipsis verbis". Uma entrevista para o "Ponto" durava entre cinco e sete horas. Era um molho de papel.
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Nas suas habilitações aparece sempre Escola António Arroio e Liceu Francês. Como se dá a passagem? São mundos socialmente diferentes.
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Não são. O Liceu Francês tinha um pólo no Beco do Tijolo [junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara], que eu frequentei.
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Socialmente diferentes em relação à origem dos estudantes.
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Penso que não. Não sei. Andei na António Arroio a chumbar gloriosamente em arquitectura. Fui colega do [pintor] Costa Pinheiro, fizemos um jornal de parede. Eu frequentei o curso nocturno.
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E o Liceu Francês?
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Foi depois. Mas no Liceu Francês só tirei francês. A António Arroio talvez fosse uma fuga do pessoal que tinha veleidades literárias, artísticas. Andaram lá o Cesariny, o Vespeira... E a gente queria aprender francês e na António Arroio dava-se mal francês e inglês.
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Foi apanhado cedo pelos livros. Não se colocou a hipótese da universidade porque já estava nos jornais, porque não havia possibilidades económicas?
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Não havia. A universidade era quase inatingível.
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O seu pai levava-lhe "A Bola" para casa, recomendando que lesse a coluna do [crítico literário] João Gaspar Simões.
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O meu pai paginou a "Bola" e era chefe da tipografia no "DP", ao mesmo tempo. Não havia dinheiro e tinha que arredondar a conta ao fim do mês.
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Essa paixão omnívora pelos livros vem dessas coisas e de que mais?
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No fundo é isto: os miúdos dos bairros queriam fugir ao anonimato. Ou ser toureiro ou pugilista... .
Considerou as duas hipóteses.
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Pois, aliás levei uma marrada em Moscavide, estraguei um fato. E a outra [hipótese] era escrever.
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De onde lhe vinham os livros?
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O meu pai tinha livros. Havia as coisas do [Émile] Zola, peças tradicionais numa família de anarquistas, de comunistas, de socialistas. E havia as bibliotecas públicas. Começo a despertar para a leitura por causa do "Mosquito" [revista de BD]. Não eram os quadradinhos, mas o que lá estava escrito. Havia um homem, Rofer, que anos depois conheci como revisor do "DP", Roberto Ferreira. As histórias que ele escrevia é que talvez me tivessem despertado. E depois comecei a escrever muito novo nos jornais.
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Estreia-se aos 14?
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Na página infantil de José de Lemos [um fenómeno de popularidade, no "DP"], estão ali todos os desenhos dele [na parede cheia de quadros, já quase junto ao tecto].
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Mas leu muito em bibliotecas.
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Quando deixámos a Ajuda, fomos para a Rua da Bombarda, junto ao Largo do Intendente. Havia ali a biblioteca da Escola 1 ou 2. Eu atravessava a Almirante Reis, ia para lá e um homem chamado Freitas era o bibliotecário. Deu-me o Emilio Salgari. Foi a grande descoberta. E entretanto trabalhava. Fui aprendiz de droguista, trabalhei uma semana numa confeitaria.
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Com 13, 14 anos?
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Sim, trabalho infantil. Foi importante para o meu conhecimento do mundo do trabalho, onde o trabalho é muito violento. Ia aos sítios pedir emprego - com calções! Trabalhei numa marcenaria que fazia tampos para máquinas de costurar, uma coisa pesadíssima. Um dia puseram-me um daqueles carros de mão cheio daqueles tampos e demorei muito tempo a chegar à oficina, que era ali na Penha de França. E a minha madrasta [BB perdeu a mãe muito cedo], uma mulher extraordinária, andou em Lisboa à minha procura. Apanhou-me, estava eu já esfalfado, já noite, quase a chegar à oficina. Insultou o homem de tudo: "O senhor faz isto a um garoto!" Também fui aprendiz de torneiro mecânico. Queria ter dinheiro para o cinema e para queijo fresco.
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Tinha assim um cinema, ou ia a vários?
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Tinha o Salão Lisboa - que era o Piolho - na Mouraria. E o Royal, na Graça. O Liz, que passou a ser Roxy. E um que era o Rex. Isto tudo entre a Rua da Palma e a Almirante Reis. No Rex, diziam que havia lá um sítio em que apareciam fantasmas e eu queria era ir para esse sítio. Nunca apareceram, mas um dia apanhei um susto. Era um filme chamado "Camarada X", com a Lana Turner e o Clark Gable. Ele era um homem que vinha da guerra, e ela uma jornalista. O chefe de redacção dizia-lhe - é uma admirável lição de jornalismo -: "Vais entrevistar aquele que vires que está mais triste." Porque quando se regressa da guerra toda a gente vem feliz porque vai regressar a casa, então o que está mais triste tem uma história para contar. O filme era admirável por causa disso. Mas apanhei um susto porque o Clark Gable está no "deck" do navio e ela deixa cair a máquina, e eu julgava que era o fantasma do Rex. Havia ali uma academia de espiritismo no Largo do Intendente - que era um largo muito giro. Havia cavalos.
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Já era uma zona de prostituição?
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Não assim, mas havia casas de prostitutas. Tinha um fontanário com água salobra, e eu gostava à brava de beber aquela água, com os cavalos. Eles a beberem, e eu a beber ao lado dos gajos.
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E o queijo fresco?
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Comprava meio queijo daqueles grandes, e gostava muito de ler o Sandokan a comer queijo fresco. O Freud era capaz de explicar, mas o Freud serve para tudo. É o Freud e o Fernando Pessoa.
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Para usar uma palavra muito sua, esse seu remanejar da língua decide-se quando? A ligação com as palavras decide-se necessariamente na adolescência?
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Penso que sim. Fui adolescente até muito tarde. Não tive infância, comecei a trabalhar novo e a estudar muito novo, com uma curiosidade infinita. Mas tive uma sorte espantosa, porque [aos 19 anos] entrei n’"O Século" - o que não era brincadeira: de seis estagiários fui o único que ficou -, com um homem fora de série, o Acúrcio Pereira.
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Tem dito que ele foi o maior chefe de redacção do século XX.
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Nem há comparação. Ensinou-me a nunca mentir. Não se pode mentir nos jornais. Estava lá há dois anos e ele: "Vais ser extremamente invejado." Perguntei-lhe porquê. "Escreves palavras tão claras que nem tu por vezes as entendes." Porque comecei a fazer um jornalismo de autor sem dar por isso.
[Baptista Bastos conta a história de quando o "DP" o mandava regularmente à Alemanha. Ao voltar de uma dessas viagens comunicou ao seu chefe Brás Medeiros que fora à RDA. Medeiros disse-lhe para escrever a reportagem, que se mandava à censura e logo se via. Mas a censura reteve as provas muito tempo e Brás Medeiro telefonou ao coronel censor:]
Agarra no telefone: "Ó Coronel Galvão, mas que merda é esta?" O gajo falava assim. "O senhor está completamente enganado. Eu é que mandei o senhor Baptista Bastos à RDA. Quem manda na minha casa sou eu. Eu vi as provas e o senhor não é mais exigente que eu nesse sentido. São prosas à Baptista Bastos. Se daqui a meia hora não estiverem cá, eu digo ao director para escrever um artigo de fundo, agarro nas provas e mando-as para a Presidência do Conselho." E quem é que foi buscar as provas à censura? O Carlos Lopes. O campeão da maratona, que era contínuo do "DP". Um dos treinos que fazia era ir à censura buscar provas. Isto para dizer o quê? Que sempre estiveram ao meu lado. Nunca tive problemas no "DP". E houve coisas complicadíssimas. Não se esqueça que fui desmentido pelo Bella Gutman [o húngaro que treinou o Benfica nos tempos campeões da década de 60]. Eu não percebia nada de futebol, vou entrevistá-lo, e caio numa esparrela. Ele quer que lhe mostre o original. Mostro. Ele: "Está tudo bem." Aquilo sai, grandes manchetes, quem manda no Benfica é não sei quem. "A Bola" era paginada no "DP", e na "Bola" era tudo do Benfica. Um dos redactores vê aquilo, telefona ao Gutman. E ele diz: "Tudo mentira. Não conheço esse senhor de lado nenhum." Eu não lhe tinha pedido para rubricar as páginas. Ele estava em Nice, e vou imediatamente para Nice, com uma data de jornalistas desportivos atrás. Aquilo cheirava a grande escândalo. Eu, se o visse, dava-lhe uma tareia logo. E para não haver problemas o Brás Medeiros disse: "Você vai com o [chefe de redacção] Abel Pereira, para ele o controlar." E assim foi. O Gutman tinha ido para a Croisette, ponho-me à porta do hotel à espera, o tipo quando me vê começa a fugir e eu atrás dele para lhe bater. O Abel Pereira agarra-me, outros jornalistas agarram-me: "Não faças isso que arranjas um 31." O Gutman foge lá para dentro e o Abel Pereira decide ir falar com ele. Depois chama-me. "Não sei o que é que se passa", dizia o Gutman. "[O jornalista que telefonou] leu uma coisa que o senhor não escreveu, de facto. Tudo o que você escreveu é verdadeiro." "Escreva isso num papel." E ele escreve: "Baptista Bastos, jornalista honesto", e tal. De maneira que apanho o avião logo de manhã. O "DP" publica aquilo na primeira página e foi um êxito descomunal. Não há invenção nenhuma nas entrevistas. Só que as entrevistas de facto marcaram. Pronto, isto paga-se. As pessoas pagam caro fazerem as coisas de forma diferente.
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O 25 de Abril foi uma flor que nos aconteceu? Um momento de excepção que Portugal teve?
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Penso que sim. Não esperava um retrocesso tão rápido. Apesar de ter 40 anos, julgava que o socialismo estava ali. E depois desiludi-me rapidamente. Essa desilusão está muito marcada no livro "Elegia Para um Caixão Vazio", que me deu dissabores. Fui violentissimamente atacado no [jornal comunista] "O Diário".
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Já usou a palavra lúgubre para esta democracia. Continua a fazer sentido?
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Sim. Estou assustado com o caminho que este país toma. Uma situação em que o próprio Marques Mendes diz que o governo está à direita do PSD - isto diz tudo. Depois, penso que o partido comunista não tem resposta. Não tem força.
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Onde está a esquerda? Está no Bloco de Esquerda?
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Não está, não. Tenho muita dificuldade em saber onde está a esquerda. O que a esquerda me diz parece uma coisa de recessão mental, falta de estudo, falta de meditação sobre o que se passa no mundo e aqui.
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Explique melhor.
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As pessoas deixaram de ler. É preciso ler para saber o que se passa.
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É uma esquerda ignorante?
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É uma esquerda que não lê, pelo menos.
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O que é que a esquerda devia estar a ler?
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Se calhar voltar a ler o Walter Benjamin. O Marx, que toda a gente cita e pouca gente leu. Confrontar-se com as suas certezas, que não passam de incertezas. Não percebo o discurso desta gente. Por exemplo, penso que pela primeira vez não vou votar para a Câmara de Lisboa. Estava a escrever autógrafos na Feira do Livro, o António Costa passou e disse: "Sei que está muito zangado comigo." Eu disse: "Não estou nada zangado contigo. Não vou votar em ti porque és cúmplice deste governo." Um governo que está a dar cabo do Serviço Nacional de Saúde - por malevolência. Como o caso da Caixa de Previdência dos Jornalistas, que é um escândalo, porque eles não acabaram com os sub-sistemas de saúde dos polícias e do exército. Acabam com todos ou só com parte? Depois, esta pouca-vergonha de acabar com os centros de saúde espalhados pelo país. Só quem não conhece o país! Há aldeias que precisam daquilo como pão para a boca. É uma embrulhada tal que assume o aspecto de um desprezo total por todos nós.
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Lisboa é a sua cidade, temos estes candidatos todos e não há um que fale por uma Lisboa em que acredite?
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Não. Não acredito em nenhum. O discurso é todo igual, com ligeiras alterações. E este governo é contra nós. Não gosta da gente.
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Como olha para Sócrates?
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Muito mal. Um indivíduo de uma insegurança total que camufla a fragilidade com arrogância. Um governo é bom quando não se dá por ele. Isto é dos livros. A gente não tem governos à altura deste povo. Este povo é absolutamente espantoso.
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Porquê?
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Basta andar aí pelo país. O que as pessoas fazem, como tentam sobreviver, o gosto que têm em ser portuguesas. Não no sentido patrioteiro. No sentido de ligação à terra, de defender a língua. É espantoso o que há por aí de tertúlias de leituras. Há tempos estive numa escola em Viseu e disse: "Então estou no Cavaquistão..." Iam-me matando. "Não, desculpe, a gente tem outro pensamento." Até houve um que disse: "Nós lemos."
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Há a ideia de que o mundo se tornou pequeno, e o Baptista Bastos acha que a esquerda não tem alternativa à globalização. O que é que isto diz sobre a esquerda no mundo?
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A esquerda, tal como está a ser praticada, é inexistente.
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Mas acha que o mundo não se tornou pequeno?
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Não. O que se passa em Badajoz? Mesmo com as "internetes" não se sabe nada. É preciso ir lá. A gente não sabe o que se passa. É aquela velha tese: damos notícias, notícias, notícias, mas informação, pouca.
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Não me estava a referir às notícias, que se tornam numa parede através da qual não vemos. O mundo tornou-se mais pequeno porque é muito mais fácil circular.
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As pessoas viajam para tirar fotografias. A esmagadora maioria não viaja para ver como são as outras.
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Acha que não sabemos mais uns dos outros?
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Não sabemos, não. E cada vez somos mais cercados por uma massificação cultural que determina isto, por exemplo: Paul Auster considerado um grande escritor, quando é de quinta ordem. E ponha lá também o Philip Roth.
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Também acha que não vale a pena?
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O [Roger] Vailland fez aquilo em grande estilo. Há tempos estive em França e perguntei: "Como vamos de Vailland?" E ninguém sabia quem era. Vai fazer agora 100 anos. Aqui há tempos, um amigo disse-me: "Mas tens que ler "O Animal Moribundo" [de Roth]." Bom, foi penoso. Até o Milan Kundera fez aquilo melhor.
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Boas descobertas que tenha feito?
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Um de quem vou ler tudo, o Cormac McCarthy. Este livro, "A Estrada", é absolutamente espantoso. A tragédia grega ensina que só há sete temas na condição humana, não é? Em "A Estrada" está tudo. Aquela viagem com o filho é espantosa. E com uma grandeza estilística que só encontro no Hemingway. O Hemingway não é um grande romancista, mas é um jornalista genial.
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Vamos actualizar a sua família em língua portuguesa: Camilo, Pascoaes, Aquilino, Brandão, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Ruben Braga. Quem mais?
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Ponha-me também o Ruben A. Os poetas são todos, sou um fanático leitor de poesia. Por exemplo, gosto muito do Joaquim Manuel Magalhães.
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Poetas a que volta frequentemente?
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Ruy Belo, Jorge de Sena, Herberto Helder, Cesariny, Paulo Teixeira, que é admirável.
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Aparecidos nos últimos dez anos?
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Aquele que morreu muito novo, o Daniel Faria. E ponha-me lá o Eugénio de Andrade, poeta do meu alumbramento.
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E sem ser poetas?
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O Possidónio Cachapa, da "Materna Doçura". E estou-me a reconciliar com o José Luís Peixoto. Dos vivos, o Mário Cláudio é um dos três grandes que admiro.
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E os outros são?
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O Saramago e a Agustina Bessa-Luís.
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Numa crónica admirável que escreveu sobre Amália para o PÚBLICO, diz: "Nela, nós." De António Lobo Antunes pode-se dizer isso.
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Não gosto dele como romancista. É um armário de adjectivos. Mas acho que é um grandessíssimo cronista. Além disso, um dia meteu-se comigo. Ninguém se mete comigo. Disse uma coisa numa entrevista, e ninguém me diz certas coisas. Fiquei de olho nele. Às vezes é muito leviano.
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Vê o jornalismo como "uma disciplina superior da literatura". A liberdade de um criador, que pode escrever para ninguém o ler, ou seja, não se preocupar com a recepção, é a mesma do jornalista?
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Penso que continua a ser a mesma. Sempre escrevi em relação à minha própria consciência. Dizer aquilo que pensava que era a minha verdade. Fartei-me de fazer reportagem com outros jornalistas ao lado, naufrágios, guerras, assassínios, e a minha visão era sempre diferente.
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Não há duas formas iguais de contar a mesma história. Mas isso é outra coisa.
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Não, é a mesma coisa,. Há sempre um lado que tem a ver com idiossincrasia, ideologia, as singularidades da cultura de cada um, que permite ter uma visão que é considerada - sei lá! - inventada.
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Toda a boa reportagem é uma narrativa, tem um olhar, parte de um eu, que incorpora aquilo, e é por isso que não há duas iguais. Mas não é disso que estou a falar. A questão é: um criador idealmente não responde perante ninguém.
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Mas um jornalista idealmente também não responde perante ninguém.
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Não é verdade. Um jornalista tem obrigação de responder. Tem limitações de espaço, de tempo, tem um chefe, tem leitores, trabalha para um jornal que tem de vender.
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Tem que se bater contra isso tudo. Para obter a liberdade que o outro tem. Tem outros constrangimentos.
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Mas não são só constrangimentos. Faz parte da ética da profissão. O jornalista obedece a regras, um criador inventa as suas próprias regras.
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Mas há um mínimo de regras comuns a todos os criadores.
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Portanto, as regras de um jornalista e de um escritor são as mesmas?
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Quase iguais. São semelhantes. O escritor também responde perante o outro, perante o editor - e agora também perante o "re-writer", o que re-emenda aquilo. Já está a aparecer em Portugal.
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Os jornais em papel morreram ou estão moribundos?
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Não. O jornalismo está a atravessar uma fase complicada.
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Uma vez escreveu uma coisa que aprendeu no Brasil: não se pode fazer com que o povo queira aquilo que não quer. E o que os dados nos dizem é que as pessoas compram cada vez menos jornais. Continua a acreditar que as pessoas querem jornais em papel?
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Temos vários exemplos na Europa. O "La Stampa", o "Repubblica", o "Corriere de la Sera", o "El Pais". A gente fala muito no "Monde", e no interior de França há jornais espantosos.
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Lê jornais na Internet?
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Do Brasil, às vezes. Mas compro muitos jornais, tenho ali um molho para ler. Gosto do cheiro do papel. O meu pai trabalhava de noite nos jornais e eu gostava do cheiro que ele tinha.
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O que é que o jornalismo dá à escrita? O sangue dos outros? Ensina a escrever?
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A sopesar as palavras. A partir de certa altura percebemos que o texto está mal escrito. É um sininho que toca. E esse sininho só raros o têm. O jornalismo ensina a procura do sininho. E olhar para os outros é fundamental.
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De vez em quando diz em relação a escritores: escrevem mal, deviam ir aprender para o jornalismo. O que é escrever mal?
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É escrever sem música, sem ritmo, sem cor. É escrever sem tomar partido, inapropriadamente de forma neutra. As pessoas costumam apresentar o exemplo do Stendhal que é também um escritor da minha devoção. Ele toma partido. Toda a grande prosa portuguesa tomou partido.

1 comentário:

Anónimo disse...

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